segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Nova York: A Vida Na Grande Cidade - Will Eisner

Nova York - Will Eisner

É praticamente impossível falar da história dos quadrinhos e não passar por Will Eisner. Nascido em Nova York em 1917, Eisner foi responsável pela guinada dos quadrinhos em direção a um conteúdo mais maduro. Esse conceito foi chamado de “graphic novel”: histórias longas de teor mais adulto ou filosófico. O termo é muito questionado, pois mesmo quadrinhos infantis podem ser considerados “graphic novels” se tiverem o formato de livro com conteúdo bem estruturado. De qualquer maneira foi apenas após “Um contrato com Deus” de Eisner que esse tipo de quadrinho que fugia do tradicional nicho de super-heróis ganhou destaque.



Ainda assim, o conhecendo de nome e tendo lido artigos e visto defesas de monografias acadêmicas que o citavam, nunca tinha lido nada de Eisner. Foi então que resolvi comprar “Nova York: A vida na grande cidade” publicada por um selo da Companhia das Letras. Trata-se de uma coletânea com quatro graphic novels focadas nas percepções de Will Eisner sobre a vida em Nova York, mas que em muitos pontos pode ser dito sobre quase qualquer zona urbana do mundo.

Nova York: a grande cidade
A primeira graphic novel, Nova York, foi originalmente publicada entre 1981 e 1983 como “tiras” na The Spirit Magazine e depois reunidas num livro. Por sua configuração de várias publicações não sequenciais não conta uma história especificamente, fazendo sim um retalho de vários aspectos típicos da cidade do ponto de vista do desenhista. Cada sequência começa com um lindo e curto escrito poético do autor, dando sua perspectiva pessoal sobre o assunto que resolveu abordar.


A primeira narrativa “O Tesouro da Avenida C” dá o tom do que veremos por todo o livro: histórias sobre pessoas comuns e situações que vistas de longe, do ponto de vista coletivo, parecem banais e sem muito significado, mas que para os indivíduos isolados são acontecimentos importantes e marcantes. Os “tesouros” são objetos que caíram dentro de um dos bueiros da Avenida C. O que Eisner narra é como cada objeto, que pareceriam insignificantes a qualquer pessoa, foram importantes na história de vida dos indivíduos que os perderam.

O que mais impressiona é como o desenhista consegue mostrar alguma magia na vida cotidiana, magia esta que muitas vezes mesmo as pessoas que ele desenhou não notavam. Como o fato narrado em “Metrô” no qual dentro do vagão, um pequeno compartimento que anda pelas entranhas mais profundas da cidade como uma minhoca de metal, passa diariamente milhares de sonhos e projetos de vida. Nesta mesma seção tem um momento muito interessante que lembra versos de “A Uma Passante”, poema do francês Baudelaire:

“Não sabes aonde vou, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado — e o sabias demais!”

Um homem e uma mulher, ambos no aperto dentro do vagão do metrô, sonham acordados um com o outro, porém no fim das contas nenhum se aproxima de verdade do outro. Uma paixão que fica apenas na vontade porque na cidade as pessoas desconfiam umas das outras e tentam evitar o contato a qualquer custo (embora Eisner mostre que cada um sonhava com o outro sendo rico e bom de vida, expondo a prevalência dos interesses financeiros na vida social urbana).

E assim o autor vai narrando a importância das janelas (olhos do que acontece na rua), paredes (uma questão de segurança ou a prisão voluntária do indivíduo?), degraus (arquibancadas da rua) e barulhos na experiência urbana. Nestes recortes da realidade Eisner descreve a indiferença brutal, insegurança, a solidão no meio da multidão, concentração de renda e o medo que as ruas das cidades grandes causam, no entanto também descreve pequenas felicidades, alívios e epifanias.

O Edifício
A cidade é uma estrutura viva. Todos os dias prédios e habitações são demolidos para dar espaço a novas construções. Edifícios não são apenas concreto e aço, são pontos de referência, as pessoas se familiarizam e se sentem confortáveis quando passam por eles. Ao vivermos nas cidades criamos um “mapa sentimental” que costumamos seguir a risca sem perceber. De alguma forma as estruturas da cidade fazem parte da vida de todos nós, estão presentes nas nossas lembranças em diferentes épocas e acontecimentos.



Ainda assim a cidade é viva e todo dia, mesmo contra a nossa vontade, está se transformando. É desta maneira que prédios lindos infelizmente dão lugar para estacionamentos e shoppings triviais. É sobre essas questões que Eisner trata em O Edifício. Ele narra a biografia de quatro fantasmas que em vida tiveram sua história vinculada a de um edifício que foi demolido. Durante o período em que o prédio foi demolido suas vidas atingiram estado crítico.
O Edifício é uma narrativa tocante no qual Eisner humaniza o ambiente urbano e faz uma defesa da preservação de certas estruturas que marcaram a vida das pessoas.

Cadernos de tipos urbanos
Cadernos de tipos urbanos é estruturalmente parecido com Nova York, porém com enfoque na descrição dos habitantes da cidade em vez dos objetos e lugares marcantes.

Para Eisner o homem urbano é estupidamente competitivo, indiferente, isolado por natureza, desconfiado, solitário e egoísta. Nesta obra ele é menos complacente com as pessoas que habitam a cidade. Faz criticas claras contra a desigualdade social, como na narrativa em que um pobre que vê tudo de bom na televisão e depois nos bairros chiques termina roubando uma loja para se sentir incluído socialmente, para se sentir possuidor de algo também.

Outras narrativas interessantes: um homem tendo infarto no meio da rua não obtém nenhuma ajuda de uma multidão que assiste curiosa àquele desfecho; um casal que fica com dinheiro que encontrou na rua após um acidente de taxi, sendo que podiam ter devolvido ao dono; um casal de idosos que vê de sua janela uma mulher sendo estuprada e não faz nada, pois na cidade grande “cada um cuida da sua própria vida” e assim por diante. Neste amontoado de cenas deletadas de outras obras, Eisner é bem mais ácido em relação aos aspectos negativos da vida urbana.

Pessoas Invisíveis
Em Pessoas Invisíveis Eisner narra a vida de três personagens “invisíveis”: Hilda, Pincus e Morris. São pessoas que “fracassaram” no padrão da sociedade e por isso são como fantasmas que nas ruas ninguém enxerga. De certa maneira todos nós não-famosos somos pessoas invisíveis como as apresentadas nesta graphic novel.

Hilda é uma mulher de 40 anos que passou a vida toda cuidando de seu pai idoso e doente, quando ele finalmente morre se vê sem perspectiva do que fazer. A narrativa é sobre o tipo urbano que deixa a vida passar e quando já está mais velho se arrepende de não ter construído nada para si.

Morris é um homem que nasceu com o poder de curar os outros, porém quando foi crescendo seu dom de cura ficou relativamente esquecido e ninguém lhe dá crédito. Aqui Eisner mistura o sobrenatural com a realidade cruel do habitante da America sem perspectiva de vida, é uma história trágica e emocionante com o desfecho triste.

O enredo de Pincus é o que mais me cativou em todo o livro, talvez por considerar sua personalidade muito parecida com a minha. Desde criança Pincus não gostava de contato físico com as pessoas. Cresceu sendo “invisível” e apreciava muito isto, assim ninguém se metia nas suas coisas. Este é o motivo do título da história ser “Santuário”, seu santuário é seu apartamento, onde ninguém pode incomodá-lo.

Certo dia o nome de Pincus saiu no obituário, todos que o conhecem passam a considerá-lo morto! Daí em diante sua vida fica uma verdadeira confusão envolvendo a polícia, máfia e a especulação imobiliária. O momento que achei mais forte de toda a obra está nesta história, quando um mendigo dormindo é expulso do banco da praça pelo guarda e faz um discurso sobre os “homens invisíveis”. Os rejeitados, os destruídos pelo sistema individualista da sociedade, os fracassados socialmente, estas são as pessoas invisíveis!



É difícil vermos obras de Will Eisner traduzidas e primorosamente editadas como esta da Quadrinhos na Cia. Por isso não perca tempo e devore o quanto antes esse livro de um dos expoentes mais geniais de todos os tempos nos quadrinhos!



Dados do livro
Nome:   Nova York: A vida na grande cidade   
Autor: Will Eisner
Número de Páginas: 400 páginas
Editora: Quadrinhos na Cia
Nota: 10/10
Nova York: A Vida Na Grande Cidade - Will Eisner
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1 comentários:

  1. Sensacional a sua resenha, veio! A sua referência a Baudelaire é bem pertinente. Só o poema "Paredes" deixou bem claro a ligação entre as duas obras. O trecho que vc comenta sobre o personagem Morris lembrei-me de Fringe! hahaha "Só estou cumprindo ordens". Uma das frases mais odiosas que existe!

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