quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Cem Anos De W. S. Burroughs - O Maior Junkie Da Literatura Ocidental

Se ainda estivesse vivo W. S. Burroughs completaria hoje 100 anos de idade. Esse texto é uma homenagem ao grande junkie americano, que está entre os escritores mais alucinados e interessantes da literatura moderna.



Um garoto de no máximo 12 anos está tocando alaúde no meio da rua. Outro da mesma idade, encostado no muro, o acompanha acariciando Nay, libertando doces sons fora de ritmo na sua flauta em meio a desordem das massas. Os feixes do sol golpeiam as paredes ancestrais de barro reforçado de Tanger e reverberam num amarelado fosco que domina o ambiente inteiro. Profetas, escravos rebeldes, vagabundos perdidos no deserto e heróis míticos de várias gerações, chapados de ópio, já pisaram o chão desta sonolenta cidade misteriosa do Marrocos. Agora entidades alienígenas humanóides e disformes compram ao ar livre órgãos humanos ou corpos inteiros que poderão possuir e usar como uma casca para ocultar sua horrenda natureza, ou apenas flagelar a carne da mercadoria ao seu bel prazer. Junkies e traficantes se misturam na dança de turbantes, galabias, kafias e véus, comercializando drogas desconhecidas e organizando seu império mundial nos cafés, conversando enquanto degustam bolinhos mágicos de haxixe e soltam baforadas do narguilé.

É mais ou menos esta mistura de confusão e fascínio que os livros de Burroughs causam. O velho mal-humorado é provavelmente o escritor mais influente da cultura ocidental da segunda metade do século XX. De Kerouac, Ginsberg, Basquiat e Andy Warhol a Patti Smith, David Bowie, Jimmy Page, Mick Jagger, Madonna, Tom Waits e Kurt Cobain, basicamente todos os artistas experimentais e pops que surgiram após seus livros consideraram-se devedores de alguma forma.

Burroughs e Madonna
Jimmy Page e Burroughs
David Bowie e Burroughs
Não conheço um autor que tenha experimentado drogas de modo tão intenso quanto Burroughs, de certa maneira ele foi responsável mesmo pela glamourização do junkie. Quando Rimbaud escreveu que o método para a transcendência poética e para enxergar profeticamente a realidade era o desregramento total dos sentidos, não fazia idéia de que alguém iria muito mais longe do que ele próprio. Esta pessoa foi Burroughs, um escritor que literalmente vivia fora da lei (tanto por ter sido pego com uma plantação de maconha no Texas quanto por ter assassinado sua esposa com um tiro na testa ao brincarem de Guilherme-Tell chapados), se assumia gay (queer na verdade) e tinha um comportamento esquizóide que se recusou a vida inteira a considerar como “anormal”. Para ele a realidade é uma prisão em que as grades são as palavras, que enlaçam nossa consciência e nos tornam escravos de padrões de conduta definitivos.


Peter Orlovksy, Allen Ginsberg e William Burroughs

Burroughs e Jack Kerouac
Discípulo distante de Hassan i Sabbah, cuja literatura conheceu em suas viagens pelo Marrocos, onde ficara fascinado com o sufismo, Burroughs considerava que “Nada é Verdadeiro, Tudo é Permitido”. Este é inclusive o lema da fraternidade ocultista de magia do caos chamada Illuminates of Thanateros (IoT), da qual William S. Burroughs foi um dos ilustres iniciados, ao lado de Timothy Leary e Robert Anton Wilson.

Usualmente Burroughs é colocado como parte da tríade beat, ao lado de Allen Ginsberg e Jack Kerouac, no entanto sua obra difere muito da deles. É verdade que se não fosse por esses dois amigos em ascensão no meio editorial, provavelmente Burroughs não teria publicado nada do que conhecemos hoje. Foi apenas graças ao incentivo dos amigos e a intermediação nos contatos com as editoras que, por exemplo, Almoço Nu em toda a sua paranóia e insanidade pôde ser publicado.

Burroughs e Kurt Cobain
Leonardo Dicaprio e Burroughs
Enquanto seus amigos buscavam romper os padrões sociais com força de vontade num aspecto mais positivo, de aproveitar a vida, Burroughs trilhava outro caminho, menos festivo, dócil e nobre. Quando do primeiro encontro com Ginsberg e Kerouac em dezembro de 1943 ele já era um velho junkie maluco, seus conhecimentos dos mais diversos assuntos deixaram os dois marcados por aquela personalidade ao mesmo tempo sombria, grotesca e engraçada.

Na visão de Burroughs os seres humanos tiveram suas consciências, em algum momento da história, infectadas por um vírus de fora de nossa dimensão. Esse vírus foi a palavra, a partir daí nossos corpos se tornaram hospedeiros submissos a uma consciência alienígena. Como todos os vírus precisam se espalhar e infectar outros hospedeiros nos tornamos reprodutores de palavras através de livros e músicas. Burroughs dedicou a sua vida a exorcizar este invasor alienígena de sua consciência, por isto admirava o fluxo de consciência pregado por Kerouac e abraçou o método do cut-up, para ele essas técnicas buscavam enganar o vírus da linguagem. Segundo o junkie, se não desprogramarmos o vírus somos mais facilmente levados a agir contra a nossa vontade, pois existem palavras que ativam comandos subconscientes, é em cima disto que trabalha a publicidade/marketing, descobrindo essas palavras poderosas.

Burroughs e Tom Wais
Patti Smith e Burroughs
Em sua luta quixotesca contra as palavras Burroughs abusava das drogas, além de para o próprio prazer, buscando atingir estados de consciência em que não precisasse da comunicação ordinária para conceber idéias e se expressar. Para ele a arte radicalmente experimental era a única maneira de salvarmos nossa consciência original, de destruirmos o vírus alienígena que temos em nós mesmos, de nos tornamos independentes e destruirmos todo o sistema social rígido que construímos ao longo dos séculos. Para Burroughs estamos preso nesta realidade porque entidades alienígenas de alguma forma se beneficiam do nosso sofrimento, o único meio de atingir a liberdade é explorando as realidades que estão além das palavras, além da comunicação do modo em que estamos acostumados.

Para finalizar este texto citarei a passagem mais famosa de Burroughs, "A História do Cu Falante", presente em Almoço Nu:

Já lhe contei a respeito de um homem que ensinou o cu dele a falar? A barriga inteira mexia para cima e para baixo, entende, peidando as palavras. Era algo diferente de tudo o que já ouvi.
“Esse papo do cu tinha uma espécie de freqüência visceral. Batia direto lá embaixo, com uma espécie de soco. Sabe quando o velho cólon dá uma cutucada e você sente um friozinho por dentro, e sabe que tudo o que tem a fazer é se afrouxar? Bem, esse papo batia exato ali embaixo, um som embolhado grosso estagnante, um som que você podia cheirar.
“Esse cara trabalhava num circo, entende, e para começar era uma novidade como ventríloquo. Realmente engraçado, no começo. Ele fazia um número chamado ‘O melhor buraco’ que era uma doideira, juro mesmo. Eu me esqueço da maior parte, mas era muito inteligente. Algo como: ‘Oh, você ainda está aí embaixo, coisa velha?’
‘Não! Tive que ir me aliviar.’
“Depois de algum tempo, o cu começou a falar por conta própria. Ele entrava em cena sem nada preparado, e o cu improvisava, respondia às piadas com outras o tempo todo.
“Aí, o cu desenvolveu uma espécie de ganchinhos curvados e ásperos, à maneira de dentes, e começou a comer. Ele achou isso engraçadinho no início, e bolou um número em função da coisa, mas o cu abria caminho pelas calças e começou a falar na rua, berrando que queria igualdade de direitos. Tomava porres e tinha crises de choro do tipo ninguém me ama, ele queria ser beijado como qualquer boca. No final, o negócio falava o tempo todo, dia e noite, você podia ouvi-lo por quarteirões berrando ao cu que se calasse e batendo nele com o punho, enfiando velas nele, mas coisa nenhuma adiantava, e o cu disse para ele: ‘É você que vai se calar no fim. Não eu. Por que nós não precisamos mais de você por aí. Posso falar e comer e cagar’.
“Depois disso, ele começou a acordar de manhã com uma geléia transparente como um rabo de girino cobrindo toda a boca. Essa geléia era o que os cientistas chamam T. in-D, tecido indiferenciado, que pode crescer em qualquer tipo de carne do corpo humano. Ele a arrancava da boca, e os pedaços se prendiam em suas mãos como gasolina gelatinosa queimando e crescendo, crescendo em qualquer lugar em que um pedaço caía. Finalmente sua boca se fechou, e a cabeça inteira acabaria sendo amputada espontaneamente — sabe que em certas partes da África, e só entre negros, o dedo mínimo do pé às vezes se amputa espontaneamente? —, exceto pelos olhos, entende. Uma coisa que o cu não podia fazer era ver. Precisava dos olhos. Mas as ligações nervosas foram bloqueadas, infiltradas e atrofiadas, para que o cérebro não pudesse mais dar ordens. Ficou preso no crânio, exilado. Por um momento, você podia ver o sofrimento silencioso e indefeso do cérebro por trás dos olhos, até que finalmente ele deve ter morrido, porque os olhos se apagaram, e neles não havia mais sentimento que no olho de um caranguejo preso à ponta de uma haste.

Bônus: Burroughs atirando em Shakespeare


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