segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Anjos Da Desolação - Jack Kerouac

“Não há nada sobre o que escrever, tudo é nada, há tudo sobre o que escrever!”

É comum lermos por aí que Jack Kerouac é um escritor que só pode ser apreciado aos 16 anos. Talvez isso fosse verdade no final dos anos 50 e no meio dos anos 60, quando levantes sociais - como o fatídico maio de 68 em Paris ou “revolução florida” dos hippies em São Francisco - eram liderados pela “força jovem” em nascimento por todo o globo, nesta época a cultura do adolescente moderno, com sua caricatura de rebelde e incompreendido (que podemos ver em obras como “Juventude Transviada”), ainda estava sendo desenvolvida. Em relação à puberdade dos dias de hoje, essa afirmativa não faz mais tanto sentido.

A primeira vez que li Kerouac (On The Road no caso) foi na idade que deveria ser ideal, achei tudo um saco. Anos depois (embora ainda assim jovem) peguei mais uma vez o livro para reler antes da estréia do filme de Walter Sales e que surpresa! Fui arrebatado pelo ritmo frenético daquele que foi aclamado como “pai dos beats”, talvez o movimento literário mais importante do século XX no que diz respeito a forma como se infiltrou no pensamento ocidental. Mas isso é assunto para outra resenha, vamos falar do livro em questão: Anjos da Desolação.

Anjos da Desolação (1965) é um livro centrado na experiência de solidão e desprendimento do mundo em certa época da vida do autor. É o relato de um escritor já famoso enjoado do mundo e dos seus amigos festeiros e metidos. Talvez a palavra que defina Anjos da Desolação seja essa: contradição. A contradição de alguém que deseja saborear a vida no que ela tem de boa e que ao mesmo tempo tem visões apocalípticas da realidade, visões estas que o deixam enojado de fazer parte desse ciclo de horror e destruição que é existir. Certamente Anjos da Desolação é uma prova de que a máxima segundo a qual Kerouac é um autor que só faz sentido aos 16 anos de idade é falsa. É necessária muita reflexão para absorver todas as lições sobre a vida despejadas pela obra.

Desenho de bentjoelker
O livro é dividido em dois momentos. O primeiro chamado de Anjos da Desolação e o segundo Passando. Cada qual narra períodos diferentes da vida do autor, sendo o primeiro sobre o período de 63 dias que ficou isolado numa montanha de mais de 2000 metros de altura chamada Desolation Peak (no delirante Vagabundos Iluminados ele também relata um pouco dessa experiência), onde trabalhou como vigia de incêndios e depois o seu retorno a sociedade; o segundo momento, cinco anos depois, retrata novamente um Kerouac mochileiro, passando por várias cidades dos EUA e da Europa, porém não mais empolgado com as coisas.

Anjos da Desolação
Sozinho no topo de sua montanha (Desolation Peak) Kerouac descreve o ambiente e as coisas que acontecem ao redor com a máxima precisão que o fluxo de consciência permite. Mesmo acontecimentos insignificantes como barulhos fora da barraca a noite, ratos dentro do abrigo, a silhueta das montanhas ao amanhecer e as conversas de rádio banais entre os vigilantes ao qual ele mais escuta do que participa se tornam eventos importantes na solidão extrema.

Se essa primeira parte tem um ritmo lento é porque a realidade de ficar quase dois meses sozinho numa montanha é tediosa e porque Kerouac pesa a mão com pretensões quase naturalistas nas descrições do lugar.

É através desse tédio que Kerouac aspira ascender à experiência de despertar, de atingir a iluminação, busca comum no budismo através da meditação. Ele chega a dizer em relação a uma montanha que fica a vista do Desolation Peak:

Por que eu não posso ser como o Hozomeen e ó clichê ó velho clichê grisalho da mente burguesa “aceite a vida como ela é” – Foi aquele biógrafo alcoólatra, W. E. Woodward, que disse, “Não há nada na vida afora o viver” – Mas Deus, como estou de saco cheio! Mas o Hozomeen também está de saco cheio? E eu estou de saco cheio de palavras e de explicações. O Hozomeen também?

O interessante desta primeira parte do livro é o modo como o autor destrincha seus próprios pensamentos sobre o mundo. Ele parece cansado e desiludido de tudo. O que teria acontecido com aquele jovem beat de On The Roadpara o qual tudo era único, vibrante e maravilhoso?

O conflito interior fundamental da obra, que vai voltar mais intensamente na segunda parte do livro, é saber se deve parar de participar do mundo, se tornando alguém isolado, sábio e solitário ou abraçar com fervor a vida, tendo parte em tudo aquilo que lhe é possível. De que adianta a sabedoria se a vida não é aproveitada? Do que adianta aproveitar a vida se isso faz com que a roda do karma continue girando o horror e a morte? Para Kerouac a morte é a recompensa libertadora pela vida de sofrimentos e aproveitar a vida é um meio para se chegar ao paraíso. É uma armadilha insolucionável.

Há neste livro a mistura de visões cristãs e budistas. Em certo momento Kerouac diz que Jesus é seu herói e que logo em seguida vem Buda. Como franco-canadense Kerouac foi criado numa família católica e freqüentou várias escolas religiosas antes de passar a viajar pedindo carona pelos Estados Unidos com seus amigos loucos. Ele nunca negou suas origens católicas e sua paixão por Cristo, via mesmo uma sincronia entre a humildade e sabedoria de Buda e a redenção de Cristo na cruz. Seus conflitos podem ser resumidos em um central: se tornar um redentor solitário ou aproveitar a existência ao máximo.

Dentro de pouco tempo vai surgir um novo tipo de assassino, que vai matar sem motivo nenhum, só para provar que nada importa, e os feitos dele não vão valer nem mais nem menos do que os últimos quartetos de Beethoven e o Réquiem de Boito – Igrejas vão ruir, hordas mongóis vão mijar no mapa do Ocidente, reis idiotas vão arrotar nos ossos, ninguém vai se importar com nada e aí a própria terra vai se desintegrar em poeira cósmica (como aconteceu no princípio) e o vazio mesmo assim o vazio não vai se importar, o vazio vai simplesmente continuar com aquele sorriso enlouquecedor que eu vejo em toda parte, eu olho para uma árvore, uma rocha, uma casa, uma rua, eu vejo aquele sorrisinho – Aquele “sorrisinho secreto de Deus” mas que Deus é esse que não inventou a justiça? – Então eles acendem as velas e fazem discursos e despertam a fúria dos anjos. Ah mas “eu não sei, eu não estou nem aí, não importa” vai ser a última oração humana -
Enquanto isso em todas as direções, para dentro e para fora, do universo, para fora rumo aos planetas intermináveis no espaço interminável (mais numerosos do que as areias do oceano) e para dentro rumo à vastidão ilimitada do seu próprio corpo que também é um espaço interminável e “planetas” (átomos) (tudo uma disposição eletromagnética pirada de poder eterno) enquanto isso o assassinato e a atividade inútil existem, e têm existido desde o tempo incomeçável, e vão continuar existindo para sempre, e só o que podemos saber, nós com os nossos corações justiçados, é que tudo é o que é e nada além do que é e não tem nome algum mas é um poder brutal
– Porque quem acredita num Deus pessoal que se importa com o bem e com o mal está delirando sem nenhuma sombra de dúvida, mas Deus os abençoe, igual ele abençoa –

Passando
Kerouac escreveu a segunda parte do livro posteriormente, num período em que já era aclamado como escritor de sucesso. Há muita melancólica e angustia na pesagem das palavras, o seu eu envelhecido deixa a todo instante transparecer saudades da vida no momento em que escreveu o material que está servindo de subsídio para a narrativa. Ele não é mais o mesmo, o mundo não o permite que seja.

Tudo começa um ano antes do lançamento de On The Road, com a ida de Kerouac ao México atrás de paz e para visitar Old Bull Gaines – que eu pensava ser um pseudônimo de W. S. Burroughs, mas não é. Entre picos de cocaína e maconha, Kerouac encontra algum tipo de paz na companhia de seu amigo e as vezes na solidão do seu quarto de hotel barato. Esta paz é rompida pelo desembarque de Allen Ginsberg e outros, que fazem com que ele volte para a farra e a vida urbana e largue a cidade do México. Em seguida Kerouac vaga pela África (Tânger), Europa, França, Inglaterra e por fim, se mudando para a Califórnia com sua mãe, vaga mais uma vez pelos Estados Unidos.

A viagem ao Tânger, cidade ao norte do Marrocos, é a mais alucinada. Kerouac narra seu convívio com Burroughs, convívio este regado de maconha e ópio. Burroughs (que é chamado de Old Bull Lee no livro) está escrevendo Almoço Nu de modo frenético, ele senta na máquina de escrever e diz estar digitando informações captadas de outra dimensão que ele ainda não consegue decifrar, ele apenas enche o papel de palavras e ao terminar o joga para trás, começando tudo novamente. O chão do pequeno apartamento no Marrocos está abarrotado de papéis que Kerouac e Allen Ginsberg vão editar e ajudar a posteriormente publicar como um livro de fato. Horrorizado com as visões de ópio e maconha que lê nas folhas soltas que apanha no chão, Kerouac chega a ter pesadelos aterrorizantes.


Para os leitores de Kerouac:
Quem é apaixonado pela escrita estonteante e frenética de On The Road talvez fique um pouco decepcionado com Anjos da Desolação, por alternar entre momentos alucinados e momentos melancólicos; porém aqueles que passaram a gostar de Kerouac através de Vagabundos Iluminados, como eu, irão amar ver o aprofundamento de seus êxtases e delírios religiosos.

Para quem nunca leu nada dele:
Anjos da Desolação é um relato sobre a triste e insolúvel contradição que é estar vivo. Escrito no frenesi do fluxo de consciência que até hoje apenas Kerouac atingiu com perfeição, é um livro maravilhoso que desmente toda essa conversa de críticos de que Kerouac é um autor apenas para adolescentes. Apesar de muitos erros grotescos (ao menos na versão para e-book que comprei), é um excelente livro, que pode ser marcante na sua forma de ver o mundo!




Dados do livro
Nome:   Anjos Da Desolação  
Autor: Jack Kerouac
Número de Páginas: 360
Editora: L&PM
Nota: 8/10
Anjos Da Desolação - Jack Kerouac
  • Comentários Blogger
  • Comentários Facebook

0 comentários:

Postar um comentário

Top