segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Neuromancer - William Gibson


Neuromancer, o primeiro livro da trilogia “Sprawl” de William Gibson publicado em 1984, narra o retorno de um habilidoso hacker chamado Case a atividade. Case é um dos melhores naquilo que faz, porém sua ambição desmedida certa vez o levou a tentar roubar o próprio contratador, ao ser flagrado recebeu como punição uma toxina em seu sistema nervoso que o impede de conectar à matrix (um sistema de conexão de dados que bem de longe – muito longe mesmo – lembra nossa internet atual). Passando a viver de pequenos golpes Case está enrascado até o pescoço no submundo de Chiba-City, viciado, devendo dinheiro e sendo roubado constantemente por sua amante Linda Lee.

É nesta situação de merda que a assassina de aluguel chamada Molly o contrata em nome de Armitage. A princípio Case não se interessa, mas quando o misterioso patrão promete restaurar sua capacidade de se conectar a matrix o cowboy do cyber-espaço muda de idéia. Case não fazia idéia da confusão em que estava se metendo, Armitage o curou porém colocou em seu corpo bolsas da mesma toxinas danosa que poderiam se romper a qualquer momento e torná-lo novamente inválido. Era uma precaução, Case só ficaria totalmente livre da toxina se servisse aos propósitos de Armitage até o final da missão.

Neuromancer tem uma trama surpreendente com robôs, inteligências artificiais, planetas esquisitos, humanos com implantes mecânicos, consciências eletrônicas, drogas novas e invasões de sistemas. Tudo isso num universo cinzento e triste dominado por multinacionais e pela ganância individual.

Consigo imaginar um amante da recém-popularizada ciência da computação dos anos 80 lendo Neuromancer e tendo espasmos mentais de prazer e animação. Olhando em retrospecto, o que o romance de William Gibson explorava era novo e inteiramente condizente com as perspectivas e anseios tecnológicos da época. Passado trinta anos desde o lançamento do livro ele já não parece mais tão atraente e vívido nesse aspecto futurista, perdeu aquele fôlego que obras que tratam tão diretamente de tecno-utopia sofrem sempre o risco de perder. Falo de tecno-utopia porque embora a ambientação seja distópica os personagens são envoltos em pequenas utopias como drogas sintetizadas de modo concentrado, implantes que maximizam mecanicamente a capacidade humana e cirurgias que curam qualquer coisa.

Não me entendam mal, não estou querendo dizer que Neuromancer é ruim, gostei muito na primeira leitura de anos atrás e na releitura que fiz ainda esse mês para a resenha, no entanto mais do que nunca a obra me pareceu datada, pouco clara para os jovens usuários de tecnologia dos dias de hoje que já nasceram num ambiente bem mais complexo. Apenas através do artifício da metáfora que a “matrix” descrita por William Gibson se assemelha a nossa internet contemporânea, ela é uma outra coisa estranha e louca que só parece fazer sentido se vista sob a ótica dos anos 80, quando o uso de computadores ainda eram feitos através de terminais de controle como o QDOS e não de interfaces gráficas interativas como nos dias de hoje.

O livro criou uma base de fãs fervorosos e que ao longo dos anos só veio crescendo. Eles afirmam que Neuromancer é um “clássico” que salvou a ficção científica. Faz quatro anos que ouço isso e sempre me perguntei: Salvou a ficção científica de quem mesmo? Nos anos 80 ainda havia inéditos de Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e Philip K. Dick circulando. A ficção científica realmente precisava ser “salva”?

Não acho que Neuromancer é um clássico, para ser um clássico não basta ser uma obra envelhecida, não, um clássico é aquela obra que resiste ao passar do tempo sem que o seu núcleo se torne obsoleto. Um caso óbvio disso é Odisséia de Homero e outro é 1984 de George Orwell, que mesmo ao leitor contemporâneo parecem interessantes. Ainda que grande parte do aspecto histórico seja superado, nos clássicos o conteúdo ainda dialoga com algo atemporal da alma humana. Porém é indiscutível que a obra de William Gibson seja um marco na ficção científica, principalmente por colocar o “movimento cyberpunk” no cenário literário.

Em Neuromancer pouco se ouve falar dos Estados Nacionais, a pessoa se sentir parte de algum país, excetuando-se no caso o Japão, é apenas um detalhe sem importância. São as multinacionais que possuem aparato militar e o comando das cidades. Os anos 80 foi o auge das políticas neo-liberais em escala mundial, naquele período acreditava-se realmente que os estados nacionais seriam aos poucos substituídos por empresas privadas poderosas e globais. Apenas as crises do final dos anos 90 e começo dos anos 2000 reverteram essa situação, com o retorno de Estados Nacionais fortes para reestruturar os mecanismos econômicos locais e internacional.

Outra característica oitentista na obra é a predominância do Japão, seja na sua influência cultural (palavras em japonês são constantes em qualquer lugar) ou no domínio de suas empresas de tecnologia. A própria máfia Yakuza é apresentada no livro como um das forças mais poderosas da sociedade, com tentáculos globais para realizar os seus desígnios. Nos anos 80 as perspectivas apontavam que em algumas décadas o Japão se tornaria o líder da economia global, previsão que já nos anos 90 se desfez e torna o livro um pouco incoerente com o mundo atual.

Comentários menos pretensiosos no Skoob fizeram com que eu me sentisse menos solitário na crítica da datação de Neuromancer. Como a tecnologia mudou drasticamente de lá até os dias de hoje as descrições do cyber-espaço, que foi a característica mais marcante da obra, passaram a ser interpretadas mais como profusa confusão de idéias desnecessária do que como uma experiência estética agradável. Antonio Luiz MCCosta em resenha no Skoob resume bem o que quero dizer: “Em vez das ricas imagens, sons e movimentos tridimensionais a que já nos acostumamos a apreciar no mais simples dos monitores, a sofisticada realidade virtual de Gibson mostra imagens tão simples e esquemáticas como as que se veria num velho Atari.”

Diferente dos outros autores de ficção científica que comentei logo acima, os personagens de Gibson são meio sem graça. Case não passa de um rato contratado para fazer aquilo que ele mais gostava e que havia lhe sido tirado, sua única paixão é a matrix. Mesmo seu caso amoroso por Molly é frio, funcionando mais como um interesse mútuo de negócio do que como paixão. Molly apesar de ser uma das personagens centrais do livro é pouco marcante, ela é uma assassina que faz aquilo que lhe pedem em contrato sem pestanejar, assim como Case.

Os personagens mais humanos do livro são.... as Inteligências Artificiais Wintermute e Neuromancer, são os dois únicos personagens que parecem realmente interessados e preocupados nas direções que os acontecimentos estavam tomando. Particularmente esperava a todo o momento pela intervenção de Wintermute na narrativa, seus diálogos e zombarias são muito curiosos, suas reflexões sobre a condição existencial das AIs levam em alguns momentos o livro para discussões metafísicas no universo digital.

Embora seja datado Neuromancer não é um livro ruim, tem algo de místico mais do que científico que faz com que a obra permaneça interessante por longas décadas. Talvez por seu exotismo esse estranho e distante universo digital até mesmo se transforme algum dia em um verdadeiro clássico da literatura.


Dados do livro
Nome:   Neuromancer
Autor:     William Gibson    
Número de Páginas: 312
Editora: Editora Aleph
Nota: 7/10

2 comentários:

  1. Cara, eu vou discordar dessa sua visão de que Neuromancer é datado. Mesmo porque todo livro de ficção científica tem sua cota de erros e imprecisões. E concordo que os personagens sejam "frios"

    Mas, cientificamente falando, creio que Neuromancer será mais valorizado em algumas décadas. Da mesma forma que Admirável Mundo Novo e 1984 pareciam peças muito mais ficcionais durante a Guerra Fria do que parecem hoje. Se pararmos pra pensar, a gestão política e econômica dos países do mundo se dão em ciclos de maior centralismo (poder dos Estados Nacionais) e menor centralismo (empresas e cidades mais poderosas). Embora tenhamos um fortalecimento momentâneo dos Estados Nacionais, o fim do ciclo econômico se aproxima (da mesma maneira que ocorreu na década de 70) e talvez, em alguns anos, esse mundo aparentemente datado de Gibson pareça mais real. Talvez com a China no lugar do Japão, por exemplo.

    Gibson levanta conceitos muito importantes já nos dias de hoje, como o de ciberespaço, por exemplo. Eu acho sensacional que o conceito de Ciberespaço de Gibson parece muito mais preciso hoje do que há 15 anos atrás, quando Piérre Levy ajudou a popularizá-lo. Eu não acho que é uma "profusão de ideias desagradável", longe disso. Se paramos pra pensar no rumo das tecnologias daqui alguns anos, me parece que a visão de Gibson é bem precisa sim.

    Eu não acho que o livro "salvou" a ficção científica. Mas eu acho que é um clássico sim, porque meu critério pra saber se uma obra é clássica é outro: como ele influenciou as obras posteriores? É que nem banda de rock. As pessoas acham Beatles, Stones ou Led Zeppelin clássicos não só porque são bons, mas porque influenciaram todo mundo que veio depois. É indiscutível que Neuromancer é um marco nesse sentido, ditando o que seria escrito na ficção científica nos anos seguintes.

    Enfim, não sou fã chato e imagino que alguma coisa dessa sua resenha tenha sido uma reação aos fãs chatos também, esses malas que estragam tudo. Até tinha mais coisas pra falar a respeito, mas não quero escrever uma resenha pra responder sua resenha, hahaha.

    Abraço!

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    1. Bom Leonardo, primeiramente gostaria de dizer que meu texto é só uma opinião sobre o livro, não quis estabelecer verdades nem nada, é só uma opinião em que me baseei no conhecimento que tenho e nos indícios que considerei no livro.

      Bem, você tem razão quanto ao ciclo de "centralismo" e "não-centralismo" dos estados nacinais, mas pegando a China que concordo que em breve pode tomar a posição do Japão, foi criada uma terceira-via, um centralismo com zonas não-centralizadas. Quem sabe o que o futuro aguarda quanto a isso? Embora sejam ciclos, os estados nacionais podem demorar centenas de anos antes de se descentralizarem novamente, depende das condições históricas e das escolhas humanas que serão tomadas. Não vejo como o centralismo HOJE pode perder força como perdeu nos anos 60-70, a conjuntura é a da existência de Estados Nacionais cada vez mais fortes ou ao menos de organizações supera-nacionais bem fortes.

      Particularmente não vejo como a obra do Gibson pode se tornar mais respeitada daqui a alguns anos. Vou tentar explicar... O termo ciberespaço pode ter sido cunhado por Gibson, mas tenho que discordar de você, realmente o que ele chama de ciberespaço passa longe, muitoooooooo longe da internet que temos hoje. E se um dia tivermos uma internet emersiva através do qual poderemos nos sentir FISICAMENTE dentro do ciberespaço a visão de Gibson disso ainda permanecerá longe. Suas descrições se restringem a visão do ciberespaço como fluxos de energia em cores neon azul claro (correntes elétricas) e roxo, com predominancia ambiental preto. Parece muito aquela visão simplificada dos desenhos animados sabe? Tipo as coisas em alogaritmos igual a visão de letras no ms-dos. Claro que isso tem a ver com a época, como falei no texto, ele achava que o ciberespaço seria um super-avanço daquilo que ele via na realidade (algo meio TRON, tudo cheio de linhas verdes, roxas e azuis num ciberespaço escuro). Lembra das passagens das invasões? É como se eles tivessem correndo dentro de fios elétricos conectados e não dentro de um espaço digital separado do físico. O único momento em que há uma imersão realista, é quando Wintermute ENTRA na CABEÇA de Case que está conectado no Ciberespaço. Ou seja, ele habita a cabeça do case, suas memórias e não o ciberespaço em si. O termo pode ter sido criado por ele mas ganhou nova significação.

      Por isso que acho que Neuromancer vai se tornar uma daquelas obras bem interessantes para se entender como pensavam informática no século XX, as utopias tecnologias dessa época. Não tanto pelo valor da obra em si, mas pelo seu valor histórico.

      O enredo na verdade tem como personagem principal Wintermute e a narrativa segue Case. Tirando as participações de Wintermute é muito enfadonho, não falo só por mim, vi no Skoob o tanto de leitores não habituais que pegaram o livro por dizerem que ele é fodão e se sentiram enganados pelas descrições, parece meio absurdo demais a obra, parece muito ultrapassado para o que temos hoje. O enredo é que torna uma obra ~imortal~ (isso não existe, tudo vai sumir um dia, mas umas coisas demoram mais pra sumir), em Neuromancer infelizmente não temos um enredo tão forte assim. É um patrão que é controlado por uma AI que manda uns mercenários fazerem coisas pra ele para se atingir um objetivo final. No meio disso tudo o que temos são apenas conversas meio vazias e descrições vagas de invasões. Ao menos pra mim os momentos legais eram sempre as intervenções de Wintermute mesmo. Mas como venho dizendo, tem milhares de pessoas que acham que isso é um monte de bobagem minha e considera o enredo genial.

      Acabei falando pra porra UOASUOASUOASUOASUOA, por favor entenda, eu não tô querendo esculhambar a obra gratuitamente nem nada, nem ofender quem gostou, pois eu mesmo gostei hahahaha. Só tenho mesmo uma perspectiva de que a obra tá meio ultrapassada.
      Abraços e obrigado pelo comentário! Eu gosto de discutir essas coisas hahahaha

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