quarta-feira, 19 de março de 2014

Comentários Sobre A Indústria De Consumo: O Caso De Almoço Nu De William S. Burroughs


Antes de adentrar ao livro Almoço Nu em si vou fazer uma série de comentários sobre a indústria cultural/do entretenimento/de consumo, só assim W. S. Burroughs e sua obra podem ser compreendidos de maneira ampla. O texto vai ser dividido em dois momentos o primeiro mais conceitual-histórico-social e o segundo sobre o livro em si.

A indústria do consumo

Nunca a indústria do entretenimento esteve tão forte quanto nos dias de hoje. Através de quadrinhos, livros, jogos eletrônicos, filmes, músicas e séries ela representa uma quantia considerável da receita comercial internacional. Só para termos uma idéia da proporção gigantesca desta indústria: apenas o que é produzido nos Estados Unidos gerou em torno de 479 bilhões de dólares, cerca de 29.2% da receita mundial do ano em questão.

Sou um consumidor ávido de todos estes tipos de mídia, mas há um problema sério que se impõe aos autores e que às vezes se reflete em uma abismal quantidade de produtos quase idênticos disponíveis. São poucos os que nos dias de hoje conseguem ler Dom Quixote de Cervantes ou Fausto de Goethe sem achar um saco. Pior, mesmo autores como Jack Kerouac e Burroughs, que deram dinamicidade e a liberdade que essa indústria precisava nos anos 60 se tornaram insuportáveis para a grande maioria dos leitores contemporâneos. Coloque um filme de Glauber Rocha numa sessão de cinema comum e observe como as pessoas ficarão desconfortáveis e mesmo irritadas com o ritmo lento de Deus e o Diabo na Terra do Sol ou com o ritmo muito fragmentado e poético de Terra em Transe. O desinteresse atual com a poesia não é outra coisa se não um efeito deste problema instaurado pela indústria cultural, que pode ser melhor designada como indústria do consumo.

É nesse momento que lembro algumas idéias soltas de Glauber Rocha: o cinema americano estava padronizando a linguagem cinematográfica e o cinema europeu tentava destruir essa padronização. Hollywood trabalhava (e assim o fez até o começo dos anos 90 quando ocorreu uma pequena revolução interna) com a idéia de que o cinema era uma atividade coletiva visando um público alvo, essa coisa européia do filme ser a visão do diretor sobre sua história era uma grande besteira, o consumidor deseja algo fácil de entender e que entretenha, todo o resto é bobagem, o cliente é que manda. O que Glauber queria dizer não era que o cinema americano fosse algo execrável, que deveria ser destruído, mas sim que seu monopólio sobre a educação da visão do espectador sobre como deve ser um filme deveria ser rompido, senão chegaria o momento em que todos os filmes teriam que passar por estágios similares e até ter resultados finais iguais para serem “bons”. Sabemos qual foi o resultado desse conflito entre cinema europeu x cinema americano, basta olharmos a quantia absurda de filmes que são cópias de outros filmes e de remakes em qualquer site de cinema.

Na literatura não foi diferente. Os modernistas brasileiros em 22 tinham uma grande preocupação: deveriam escrever para um grande público, simplificando sua linguagem, ou prezar pela liberdade individual de dizer o que quer? Vender suas obras a qualquer custo ou manter sua personalidade artística intocável? Vejo nestas perguntas uma mistura de contradições liberais e progressistas de artistas de elite. O liberalismo clássico dizia em teoria que a oferta criaria a demanda, mas a necessidade de lucro maximizado fazia com que a oferta não fosse o produto final que o artista desejava e sim aquele que pudesse ser mais facilmente assimilado. Ou seja, o liberalismo prezava sobre a vontade do indivíduo, considerada a fonte dos benefícios sociais gerais (essa era a justificativa “moral” desde a revolução industrial britânica para a exploração dos mais pobres: o que faz bem para os indivíduos particularmente fará bem para a sociedade como um todo), mas ao mesmo tempo na sua busca por um número máximo de consumidores modelava o máximo possível seus produtos dentro de um padrão facilmente assimilável. Era a contradição do “modernismo”, palavra esta que pode ser dita de maneira simples significando a mistura de liberalismo político e capitalismo industrial (que só começou a se estabelecer no Brasil no início do século XX mesmo, principalmente a partir do golpe de 30). Cada modernista resolveu o problema a sua maneira, naquele período a indústria cultural brasileira não era tão forte, então alguns conseguiam manter suas características relativamente herméticas a despeito do público que era bem restrito.

O problema que a indústria cultural impõe hoje não é ela não publicar obras com caráter mais personalizado/experimental e sim sua padronização dos gostos. Essa padronização do gosto é mais nociva do que a padronização das obras em si, pois o autor sempre arruma meios alternativos de se publicar e fazer seu material circular (mesmo que em círculos restritíssimos é melhor do que nada). Já a padronização dos gostos torna difícil a assimilação de uma obra fora dos padrões mesmo que o autor consiga fazê-la circular. E o autor acaba por se render, capturado pelo dilema da sobrevivência.

Na literatura o padrão é que cada parágrafo seja dinâmico, tenha alguma ação significativa e que seja “divertida” de ler, afinal, é disso que se trata entretenimento. Desta maneira o que dizer dos parágrafos de mais de 3 páginas de Kafka? Boring. O que dizer de páginas e páginas de Jack Kerouac descrevendo montanhas? Boring. Ulysses do James Joyce? Preferiria morrer a ler. Poesia nem pensar. W. S. Burroughs então, além de chato é incompreensível. Todas essas obras fora dos padrões comerciais, aqui e no mundo todo são consumidos quase que inteiramente só por universitários ou classe média alta.

Há uma percepção de que o autor tem que satisfazer o desejo do leitor como se ele estivesse vendo um filme de ação, cortes rápidos, descrições curtas e tudo muito claro. Contar a história da maneira melhor possível não é prioridade, tem que se contar as coisas da maneira que o consumidor padrão possa se divertir sem muita dificuldade.

Não acho que a literatura, aliás qualquer obra de arte, deva ser feita para divertir ou para não-divertir, cada pessoa tem sua própria visão de mundo e faz suas obras como quer, de acordo com suas perspectivas, só me incomoda é essa necessidade de SEMPRE ser divertido, a imposição do entretenimento puro.

Essa glamourização do consumidor fez desaparecer mesmo a figura dos críticos literários. Eles analisavam em obras quesitos que o grande público não está nem aí como forma, coerência e narrativa. No século XIX eles faziam sentido, na nova era do consumo desenfreado iniciado no século XX não passam de inceletuctualóides, nem ajudam a vender livros mesmo. Então os puseram em bancas que avaliam premiações literárias, escondidinhos onde só se vê mesmo o resultado final. E mesmo assim ainda são importunados, saiu uma pesquisa ai dizendo que premiações fazem os livros ~agraciados~ menos populares! Em compensação livros como Crepúsculo e Marley e Eu vendem mais que água.

O crítico foi substituído pelo blogueiro, que é o leitor com um meio de publicação. E o blogueiro se acha acima de tudo (digo isso avaliando por mim mesmo neste site), ele não se considera capaz de falhar, se o livro é “ruim” a culpa é simplesmente do autor e pronto. 


Almoço Nu

W. S. Burroughs é um cara que desafia esta percepção de literatura padronizada e ainda assim é um dos literatos mais influentes do século XX. Como eu disse em seu centenário (e mostrei em fotos), uma parcela gigantesca de artistas pops o admiram, nem por isso suas obras visavam agradar o grande público. Burroughs em sua escrita satisfaz mais a própria ânsia experimental do que o mercado editorial.

Ao contrário da literatura padronizada em nenhum momento Burroughs tenta seduzir o leitor (algo que frequentemente até eu faço neste blog, tentando escrever de maneira simples, direta e agradável). Suas obras, que tem um caráter semi auto-biográfico, são egóicas, são sua visão do mundo, um testemunho de sua paranóia e de sua degradação humana e psicológica. Talvez esse hermetismo seja o motivo pelo qual há poucas traduções de suas obras em português.

Almoço Nu, publicado originalmente em 1959, é tão difícil de ser descrito ou explicado que sem dúvidas é a obra máxima do beat junky. Como eu disse num post lá na MobGround, para Burroughs:
as palavras são vírus, esse vírus é o que diferencia o homem dos outros animais. A característica mais proeminente em um vírus é a sua replicação ad infinitum quando encontra um hospedeiro, exatamente como fazemos com as palavras, as reproduzindo em nossos cadernos, paredes, computadores, conversas nas praças, banheiros, faixas, CDs, cinema, música, enfim, uma epidemia linguística irrefreável.Para Burroughs, ao contrário dos outros vírus as palavras não matam seus hospedeiros, se misturam a eles em uma simbiose sincrônica, até por que precisam deles para continuar a se reproduzir. No entanto os humanos (os hospedeiros), deixam de desenvolver plenamente suas capacidades mentais, param num estágio de desenvolvimento psicológico extremamente limitado. Nesse estado o homem é submisso à linguagem.E como entidade de vida própria instalada no cérebro humano, as palavras controlam todos os nossos sentidos, inclusive nossa consciência sobre nós mesmos já que só podemos pensar através delas. No controle de nossos corpos e consciência as palavras apenas almejam sua reprodução infinita e a atrofiação completa do órgão cerebral humano. Dando-nos acesso regulado aos nossos próprios pensamentos, as letras nos impedem de atingirmos áreas restritas da realidade. Imaginemos que as letras são como chaves, que liberam fragmentos da realidade assim que unidas em uma palavra, no entanto nós temos apenas um número limitado de letras que nos foram dadas pelo vírus, se pudermos nos livrar do vírus podemos então criar outras letras e acessar sem qualquer limite os recantos da realidade
Essa teoria alucinada da linguagem está presente no cerne de Almoço Nu, o livro é uma arma que usa as palavras contra a própria linguagem alfabética tentando nos tornar conscientes de nosso vírus. É tão complicado falar sobre o livro em si que considero que a empreitada de Burroughs atingiu seu objetivo.

Burroughs escreveu Almoço Nu na cidade de Tanger no norte do Marrocos. Nessa época Ginsberg e Kerouac comentam que o mal-humorado beat passava semanas e semanas sem tomar banho, apenas injetando heroína e comendo bolinhos com maconha. Com heroína no sangue ele passava horas e horas olhando para o teto e paredes ou mesmo algum jornal qualquer de meses atrás. Quando sóbrio sentava na frente da máquina de escrever e dizia para os amigos que estava recebendo mensagens de outras dimensões! Almoço Nu é a coletânea com esses relatos interdimensionais misturados com a vida do próprio autor e organizados em capítulos que apesar de parecerem desconexos se relacionam.

Na verdade se não fosse por Jack Kerouac e Allen Ginsberg, que ao visitar em certo momento o amigo no Marrocos encontraram o chão do apartamento coberto de folhas datilografadas, Burroughs não teria sido um escritor conhecido. Ele tinha escrito Junky, embora fosse o relato de sua vida como um viciado não tinha feito tanto alarde. Além de organizarem e enviarem o resultado final do livro a uma editora de confiança, Allen Gisberg e Jack Kerouac eram autores de relativo renome, ajudando a criar um burburinho em relação ao livro.

Outro fator que influenciou a popularidade do livro foi seu julgamento como obsceno e impróprio pela justiça norte americana. Foram mais de 10 anos de disputa judicial coberta pela imprensa até que o Supremo Tribunal de Massachussets liberasse a obra e estabelecesse uma jurisprudência que tornaria QUALQUER COISA publicável nos Estados Unidos (após o 11 de Setembro talvez nem tanto).

É dito que Almoço Nu pode começar a ser lido de qualquer capítulo. Isto é verdadeiro, embora os capítulos sejam interligados são independentes uns dos outros. O livro não tem um encaminhamento linear e muito menos uma ambientação lógica, a cada frase as coisas podem mudar completamente.

A obra é repleta de passagens obscenas e bizarras. Metáforas e sub-contos que fariam Lovecraft ter pesadelos, criaturas alienígenas alucinógenas e uma guerra entre dimensões. A ironia consiste na principal figura de linguagem no livro, Burroughs critica as ingenuidades e as utopias hippie dos anos 60, mas também a destruição da psique causada pelo capitalismo industrial.

Almoço Nu é uma viagem insana dentro da vida de W. S. Burroughs e de sua percepção da realidade em que vivemos. Se você procura um livro que não tente lhe satisfazer dentro de um padrão pré-concebido, você precisa ler esse livro. Se você não quer ou não se sente preparado passe para outro. Almoço Nu é um livro raro e que conseguiu influenciar a literatura mundial como poucos da segunda metade do século XX.

Em Almoço Nu o velho junky fez jus àquela velha frase da magia do Caos que ele popularizou: “Nada é verdadeiro, tudo é permitido”.
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