quarta-feira, 12 de março de 2014

Jack Kerouac – 92 Anos Após Seu Nascimento

"Tudo da vida é um país estrangeiro."

Em 12 de Março de 1922 nascia em Massachusetts um dos escritores que mudaria a prosa moderna norte-americana. Falo de Jean-Louis Lebris de Kerouac que se estivesse vivo hoje completaria 92 anos.

Jack Kerouac, como é mais conhecido, teve uma vida confusa e cheia de reviravoltas. Tanto na sua época quanto nos dias de hoje há quem não goste de seu estilo literário, mas algo que ninguém nunca poderá dizer é que sua vida não foi intensa. E nem pode diminuir sua influência na cultura norte-americana (e por isso global). Talvez Kerouac tenha sido um dos primeiros escritores meio pop-stars, já que cresceu profissionalmente no momento em que a juventude ganhava destaque pela primeira vez dentro da sociedade ocidental, nos anos 50, período pós-segunda guerra mundial. Fama esta que no fim das contas não lhe fez muito bem, já que era amante do silêncio, meditação e contemplação.

Kerouac é o escritor mais famoso do que costumamos chamar de geração beat. Um grupo de escritores juvenis que ressuscitaram a poesia norte-americana (através de Allen Ginsberg entre outros), derrubaram de vez a censura (com Almoço Nu de William S. Burroughs e Uivo de Ginsberg, livros erotizados e insandos) e que deram uma rejuvenescida radical na prosa americana. Sem Kerouac e os outros beats escritores confessionais como Bukowski, por exemplo, nunca teriam sido aceitos pelo mercado editorial, ou seu público continuaria restrito a revistas de pulp fiction.

Os beats são a tendência literária de uma juventude norte-americana do pós-guerra. Uma mistura de existencialismo estadunidense com a cultura de massas. Esses existencialistas, geralmente ex-combatentes que experimentaram ao horror da destruição da segunda guerra mundial eram chamados de “hipsters”. Termo que na época se referia exclusivamente a juventude “transviada”, ou seja, que não conseguia se adaptar ao padrão da sociedade, os marginais.

O padrão da sociedade no pós-guerra era de consumo desenfreado. Para aquecer a economia os bens duráveis precisavam ser comprados, foi o auge da propaganda da dona de casa comprando máquina de lavar, fogão, televisão, esses tipo de coisas. Consumir era mais do que mera questão pessoal, era um ato patriótico, ajudaria o país se recuperar de alguns conflitos e a financiar a reconstrução da Europa em ruínas.
“Ofereça a eles aquilo que mais desejam secretamente; É claro que entrarão em pânico imediatamente.”
Os hipsters dos anos 40 e 50 eram jovens que após enfrentar os combates de uma guerra, ou ao menos ouvir sobre seu horror, não agüentavam aquela hipocrisia protestante puritana. Se recusavam a se adaptarem àquela sociedade e sua ética do trabalho, por isso viviam tentando aproveitar a vida na boêmia, trabalhando apenas quando precisavam de dinheiro através de bicos pontuais e viajando país a fora pedindo carona. Eles eram geralmente vistos principalmente nas noites regadas a jazz, álcool e metanfetamina, às vezes acompanhadas de orgias ou alguma loucura paranóica, dependendo do grupo. De certa maneira esses hipsters iriam dar força ao aglomerado de hippies dos anos 60.

O que é On The Road de Jack Kerouac se não uma elegia a esse estilo de vida? Um livro histórico para a literatura americana moderna, elétrico, confessional, vívido, narrando a saga de dois amigos viajando os EUAs de um lado para o outro várias vezes. De norte a sul, de oeste a leste, On The Road é a obra que melhor retrata como os jovens desajustados dos anos 40-50 viviam.

“Algum dia a humanidade compreenderá que, na verdade, estamos em contato com os mortos e com o outro mundo, seja ele qual for; nesse exato instante, se apenas exercitássemos nossa força mental o suficiente, poderíamos prever o que vai acontecer nos próximos cem anos e seríamos capazes de agir para evitar todas as espécies de catástrofes. Quando um homem morre, seu cérebro passa por uma mutação sobre a qual não sabemos nada agora, mas que será bastante clara algum dia, se os cientistas se ligarem nisso. Só que por enquanto esses filhos da puta estão interessados unicamente em ver se conseguem explodir o planeta.”

Por vezes essa vida era gloriosa, cheia de bebidas e garotas bonitas. Por outras era miserável trabalhando como ferroviário ou na colheita de uvas, tendo que dormir ao relento e não tendo um tostão no bolso para comer. A vida de Kerouac foi intensa não apenas no sentido do prazer, mas também do sofrimento.


“Vagabundos do Darma que se recusam a concordar com a afirmação generalizada de que consomem a produção e portanto precisam trabalhar pelo privilégio de consumir, por toda aquela porcaria que não queriam, como refrigeradores, aparelhos de TV, carros, pelo menos os mais novos e chiques, certos óleos de cabelo e desodorantes e bobagens em geral que a gente acaba vendo no lixo depois de uma semana.”

Dois fatos marcam de modo perceptível sua literatura: a morte de seu pai e a morte do seu irmão mais velho Gerard. De certa maneira escrever sobre sua vida após a morte de Gerar é o objetivo final de sua escrita; já o seu pai, é o ponto inicial através do qual On The Road vai iniciar.

Essas dores que ele carregou pela vida e o contato com outros jovens hipsters heterodoxos acabaram o levando ao contato com o budismo. Foi então que Kerouac começou um sincretismo bem particular, para ele Sidarta Gautama era um Jesus do extremo oriente. Kerouac em parte foi responsável pela popularização e por tornar cool o “zen-budismo”, uma espécie de budismo fast-food, de fácil assimilação e bem ao gosto norte-americano.

A humanidade se assemelha aos cães, não aos deuses — se você não ficar zangado eles vão lhe morder – mas fique bravo e você nunca será mordido. Os cães não respeitam humildade e tristeza."

O método de escrita dele se chamava “fluxo de consciência”. Não era algo novo, Ezra Pound e James Joyce entre outros já usavam, o que Kerouac fez foi trazer isso para uma linguagem mais fluída e misturou com a escrita automática. É dito que as vezes Kerouac passava duas semanas sem sair do quarto, só escrevendo de uma vez só algum de seus livros. O fluxo de consciência de Kerouac diz que o primeiro pensamento que se tem sobre um assunto é sagrado e deve ser escrito, somos deuses e nossa mente é ilimitada então não há porque ficar polindo e polindo as frases, isso é autocensura. Ele sentava na máquina de escrever e simplesmente ia improvisando, como se fosse um jazz, por isso também chamam seu método de prosa bebop!

Particularmente sou um fã do cara. Li uma porrada de obras dele, até mesmo alguns de seus diários publicados e em breve vou ler o que falta. O único livro que me desagradou foi “O livro dos sonhos”, que na verdade não passa de um caderno de anotações no qual ele descrevia seus sonhos ao acordar, uma espécie de diário onírico.

Para mim dois livros seus pouco comentados são suas obras primas: Vagabundos Iluminados e Tristessa. Em Vagabundos Iluminados temos um Kerouac insano por viver, os diálogos com seu amigo budista têm algumas das melhores frases que li na vida, é um livro que recomendo a todos ler. Já Tristessa é um pouco melancólico, neste livro que se passa todo em território mexicano, Kerouac narra sua paixão por uma prostituta e o vício por álcool/drogas, muitas pessoas não gostam desse livro porque o autor usa o fluxo de consciência na escrita automática ao extremo. Nunca vou esquecer do trecho em que ele drogado acha que um gato é Deus.
“A sabedoria é só um outro jeito de fazer com que as pessoas adoeçam.”
Mais triste ainda é em Big Sur, onde temos Kerouac mais melancólico e se sentindo velho falando sobre as intemperanças da fama. O álcool, mais do que a religiosidade, se tornou seu companheiro frequente, e em breve o levaria a morte. Em Big Sur Kerouac através de metáforas fortes descreve porque a vida é no fim das contas um erro irreparável. Outro livro dele que mistura uma relação ambígua de tristeza e felicidade por existir é Anjos da Desolação, que fiz uma resenha aqui no blog já.

Enfim, Jack Kerouac foi um cara que influenciou quase todas as áreas da cultura americana e por isso é até hoje um sucesso de vendas.
Jack Kerouac – 92 Anos Após Seu Nascimento
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