segunda-feira, 10 de março de 2014

Nós - Yevgeny Zamyatin

“A rápida destruição de alguns é mais racional do que dar a todos a oportunidade de trabalhar para a sua própria ruína...”


Visitando o site Livros do Exilado encontrei esta capa de Nós que me chamou a atenção juntamente com o nome russo Yevgeny Zamyatin. Foi então que baixei o e-book que por longos meses permaneceu no kindle sem que eu pudesse lê-lo, até que comecei este site e resolvi resenhá-lo.

A princípio a única informação que eu tinha do livro era que 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley eram de alguma maneira inspirados na obra. Aparentemente, mesmo sendo considerado como um dos livros base da distopia moderna, nunca foi editado no Brasil (ao menos em algumas pesquisas que fiz na internet não achei, mas não tenho tanta certeza). No twitter me disseram que tem uma edição da Alfa-Omega de 2004 com tradução de Clarice Lima Averina! Não sei exatamente de onde é a tradução do livro, se do próprio site do Exilado ou algo de fora, mas graças aos deuses que havia uma versão traduzida.

Em Nós acompanhamos D-503, um engenheiro do Integral que trabalha para o Estado Único. D-503 está escrevendo um diário com descrições e informações sobre a Terra para enviar junto com o Integral quando este estiver finalizado. O Integral é um foguete cósmico de alta tecnologia que tem como finalidade espalhar a ideologia do Estado Único para outros planetas.

“Eu, D-503, construtor do INTEGRAL, sou um entre os muitos matemáticos do Estado Único. A minha caneta, acostumada aos números, não consegue criar a música das assonâncias e dos ritmos. Farei o possível por descrever o que vejo, o que penso, ou mais precisamente o que nós pensamos (precisamente, nós, e será este ‘Nós’ o título dos meus apontamentos).”

O livro se passa no século XXX, um milênio após o Benfeitor e seu projeto racional de Estado Único terem derrotado a sociedade arcaica numa guerra que durou 200 anos e matou 99% da população. A partir de então foi criado um sistema social perfeito, o Estado Único. No Estado Único não há espaço para o indivíduo, por isso as pessoas não tem nome, nome é coisa de primitivo sentimental e a nova sociedade é puramente racional e técnica. Ao nascerem são entregues às crianças números de identificação, os pares são mulheres e ímpares homens e as letras são o distritos onde moram.

A cidade única é toda feita de vidro para que uns vigiem aos outros e o Benfeitor possa ter um controle mais efetivo dos comportamentos. Dentro do Estado Único todos são iguais, apenas existe o “Nós”. O desejo coletivo é superior ao do indivíduo, por isso as pessoas funcionam apenas como engrenagens de uma máquina maior que é o Estado.

A racionalização da vida é tão forte que existe uma espécie de Tábua dos Horários, que indica o que cada um deve fazer durante o dia. O passeio, o momento de lazer, e mesmo do sexo são controlados cientificamente de modo a otimizar o trabalho das pessoas. Não conseguir dormir dentro da hora, por exemplo, é um crime, que as pessoas mesmo se entregam por considerarem que estão sofrendo de alguma doença grave. Sonhar é uma doença advinda da praga chamada “Fantasia”, que exige operação lobomitazadora para que se obtenha a cura.

“Hoje sabemos que o sonho é um grave distúrbio psíquico. Uma coisa eu sei: até hoje, o meu cérebro era um mecanismo cronometricamente regulado, fulgurante, sem um grãozinho de pó, mas hoje... Sim, hoje veio o desarranjo: sinto um corpo estranho no cérebro, assim como quando se tem uma pestana finíssima alojada num olho. Sentimo-nos exatamente como sempre fomos, mas a pestana alojada no olho não nos deixa descansar nem um segundo, não podemos esquecê-la.”

O sexo dentro do Estado Único só é feito através de cupons. Cada número tem direito a solicitar o número que ele quer através dos cupons, não há espaço para monogamia, que é geradora de ciúmes e por isso de atritos. Ainda assim cada número tem os seus números preferidos e freqüentes, embora casualmente peçam o cupom de algum número não muito familiar. Ao receber o cupom a pessoa pode ficar 30 minutos de persianas fechadas dentro do apartamento do número solicitado, esses momentos estão dentro da tábua de horários.

“Este elemento (o amor) acabou por ser derrotado, isto é, foi organizado, matematizado, e, cerca de trezentos anos depois, seria proclamada a nossa <Lex Sexualis>: ‘Qualquer número tem direito de utilizar qualquer outro número como produto sexual’.”

Mesmo a música não passa de cálculo matemático puro, afinal de contas a inconstância da música emocional, não racionalizada ao extremo, não passava de um monte de barulhos primitivos. Segundo a filosofia do Estado Único aquilo que é bom para o coletivo é a única escolha racional, a liberdade era um erro da sociedade humana primitiva que usava suas energias de modo desequilibrado e ineficiente. Foi a eficiência da racionalidade que levou a uma sociedade perfeita como uma máquina, o Estado Único, por isso a matemática se tornou um dos elementos mais admiráveis.

“A tabuada de multiplicar, essa é mais sábia, mais absoluta do que o Deus dos antigos: nunca (nunca: ouviram?) falha. E não há felicidade maior do que a dos algarismos que vivem de acordo com as harmoniosas e eternas leis da tabuada de multiplicar. Nenhuma hesitação, nenhum engano. Há só uma verdade, há só um caminho verdadeiro. E essa verdade é: duas vezes dois; e o caminho verdadeiro é: quatro.”

A cidade era envolta por um muro verde meio transparente que separava a selva do Estado Único. A ninguém era permitido sair da redoma, do lado de fora haviam, ao menos é o que se dizia na propaganda do Estado Único, apenas os destroços da guerra antiga que estabeleceu a nova sociedade.

Em tal ambiente D-503 é um cidadão exemplar amante da racionalidade que em seu diário vive a zombar dos homens de outros tempos, os “primitivos”. Durante um passeio com O-90, que é apaixonada por ele, D-503 encontra pela primeira vez I-330 que o convida para visitar a Casa da Antiguidade. Um local meio afastado da cidade e perto do muro verde que cerca tudo, onde estão conservados por motivos científicos alguns artefatos da vida cotidiana dos primitivos.

Lá I-330 começa a dar em cima de D-503 diretamente. Isso o deixa desconcertado e perturbado. Flertar é um crime! Mas ainda assim ele não consegue denunciá-la para os policiais, ele está apaixonado por ela e cada vez mais retornam a se encontrar na Casa da Antiguidade. I-330 é o oposto de D-503, ela bebe e fuma, duas coisas que pelas leis levam a execução, pois são hábitos irracionais que causam prazer e tornam o indivíduo "imprevisível", o que contraria a filosofia do Estado Único. Ainda assim D-503 não consegue fazer nada, em alguns momentos seu eu “comum” o leva até a polícia para denunciar I-330, mas em seguida seu eu “livre” reluta e o impede.

“Tu... contra o Estado Único. É o mesmo que pores a mão na boca duma arma, julgando que assim impedes o disparo. É a mais completa loucura!”

O grande drama encenado no livro é este. D-503, uma máquina perfeita do Estado Único, se apaixona pela rebelde I-330, que mais a frente vai se revelar como membro de um movimento revolucionário para derrubar o Benfeitor, que é a personalidade máxima do Estado.

O Benfeitor é aquele que julga as execuções, cria as leis e calibra as zonas defeituosas da sociedade. Sua palavra é a lei e assim como o Grande Irmão de George Orwell em 1984 ele está de olho em tudo

“Bom... vamos então aplicar uma gota de ácido à idéia de direito. Mesmo entre os antigos, havia alguns mais maduros que sabiam ser a força a fonte do direito, ser o direito uma função de força. Suponhamos dois pratos duma balança. Num está um grama, noutro está uma tonelada; naquele, Nós; neste, o Estado Único. Não é nítido que a idéia de eu ter alguns direitos em relação ao Estado e a idéia de um grama poder contrabalançar uma tonelada, não é nítido que essas duas idéias se reduzam à mesma única idéia. Há que distinguir: os direitos para a tonelada, os deveres para o grama e o percurso natural para se passar da nulidade à grandeza é esquecermo-nos de que somos um grama e sentirmos que somos a milionésima parte duma tonelada.”

O momento crítico do livro é quando Benfeitor descobre o plano de I-330 no qual D-503 usaria o Integral para levar homens primitivos de fora dos muros verdes para outros planetas, onde poderiam retornar a viver em liberdade. O Benfeitor astutamente pergunta a D-503 se I-330 gosta mesmo dele ou está apenas o usando para atingir seu objetivo contra o Estado Único?

O livro não dá uma resposta clara para essa pergunta. O modo como I-330 judia de D-503 em algumas passagens me leva a pensar que embora ela tivesse toda essa filosofia rebelde contra o controle do Benfeitor estava apenas manipulando D-503.
“- Meu menino, tu és matemático – tornou-me ela, fazendo com a sobrancelha ângulos agudos de escárnio. – És até mais, és filósofo-matemático. Vamos, diz-me o último número.
- Que é isso? Não.... não percebo. Que último número?

- Ora essa! O último, o supremo, o maior do todos os números!

- Isso é absurdo, I-. Se o número dos números é infinito, que número é que tu queres que seja o último?

- E que revolução é essa que tu dizes ser a última? Não há última revolução. As revoluções são infinitas em número. A última revolução é coisa de crianças. O infinito assusta as crianças e é necessário que elas de noite tenham um sono descansado...”

O final do livro também lembra o fim de 1984, embora seguindo outra direção, mas isso não vou comentar, leiam!

“Na minha relação com o Estado Único tenho o direito de ser castigado e não renunciarei a esse direito.”

Nós é um livro fantástico que deveria receber uma edição responsa aqui no Brasil. Com divulgação em massa, capa bem feita e prefácio explicando sua importância histórica. Fica ai a dica pras editoras que tratam de ficção científica. A linguagem do livro é fluída, o universo criado por Yevgeny Zamyatin é cheio de descrições precisas e argutas, não acho que seria um fracasso de vendas, talvez o contrário.

Dados do livro
Nome:  Nós
Autor:    Yevgeny Zamyatin    
Número de Páginas: -------
Editora: -------
Nota: 7/10

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