segunda-feira, 24 de março de 2014

O Chamado Da Floresta - Jack London

O chamado da Floresta - Jack London
Conheci Jack London através de Jack Kerouac. Kerouac se considerava responsável por continuar a escrita vívida daquele que para ele foi o maior prosador americano, por isso há freqüentes menções em seus próprios livros.

Se pensarmos bem os dois Jack tiveram muito em comum. Em 1894 Jack London passou 30 dias viajando pelos Estados Unidos, a viagem foi toda registrada num relato que acabou por se chamar The Road. Mais de 60 anos depois Jack Kerouac seguiria um caminho parecido, mas seu livro se chamaria On The Road e seria um dos maiores Best-sellers norte-americanos do século passado.

Antes de ler O chamado da Floresta tinha lido apenas um livro de Jack London: O Andarilho das Estrelas, um romance maluco sobre um presidiário na solitária viajando no tempo através de regressões a vidas passadas, as regressões eram sua única e a mais suprema liberdade possível. O chamado da Floresta também toca um pouco nesse ponto da reencarnação, mas de maneira totalmente diferente. A diferença da abordagem começa pelo personagem principal que nem se quer é humano, é um cachorro.

Buck é um cão formoso que mora na mansão de um juiz de alta classe. Na casa do juiz Buck tem uma vida boa com piscina, empregados que o servem, comida em abundancia e ainda momentos de caça na floresta selvagem com os filhos de seu protetor. Era tudo muito bom até o fatídico dia em que um dos empregados da casa perde algumas apostas e para conseguir grana vende o cachorro às escondidas para um perverso negociador de cães de carga.

Ao que parece na época que Jack London vivia e que é retratada no livro, o final do século XIX, a descoberta de ouro no Alaska levou norte-americanos e canadenses a loucura. Nessa região o meio mais fácil de se locomover era com a ajuda de cachorros, então é possível que o sequestro / roubo de cães na zona urbana para ser usado como animal de carga no Alaska fosse frequente. E pelas descrições que Jack London faz Buck era um cachorro de estatura e força formidáveis, capaz de qualquer empreitada, ideal para a região gelada e inóspita.

A força da prosa de Jack London é surpreendente. Ele encontra palavras para narrar de forma primorosa cenas fantásticas como a que o nobre cão Buck, furioso por ter sido levado para longe de sua mansão, é surrado por um homem carregando um porrete até aprender a lição que vai mudar seu modo de ver o mundo: a lei do mais forte é inquestionável. Para preservar a vida o cachorro passa a obedecer seu sequestrador, mas sem se submeter a bajulações como é freqüente aos seus pares. É interessante como Jack London coloca valores humanos em seus personagens animais tais quais honra, humildade, serenidade e inveja e os relacionas entre si. Embora os cachorros não falem literalmente Buck se relaciona com cada um de seus companheiros através de suas ações.

Ao finalmente ser vendido para um carteiro chamado Perrault Buck passa a trabalhar entregando encomenda no Alaska. Ao conhecer seus companheiros de jornada prontamente coloca em prática aquilo que aprendeu com o homem do porrete (o mais forte vence sempre). Ele é o mais forte entre aqueles animais, exceto por Spitz, o líder da matilha, que percebe o perigo que Buck trás a sua posição e passa a agir tentando prejudicar o novo cachorro. Durante longas páginas os dois cachorros disputam para saber quem vai ocupar a posição de líder absoluto e como não poderia deixar de ser a situação tem fim em uma luta sangrenta na neve com dezenas de cães assistindo em êxtase selvagem.

Devido as condições em que vivia o nobre Buck estava se tornando cada vez menos “civilizado”, aderindo ao chamado de seus ancestrais, o chamado da fera selvagem, o chamado da floresta. Após passar por diversos donos e enrascadas o cão sentia cada vez mais que sua vida dependia apenas de suas escolhas, em certo momento acreditava até mesmo que era mais poderosos que os humanos aos quais era obrigado a servir, exceto quando estes carregavam armas de fogo ou porretes.

O livro é um tanto austero, Jack London mostra como esses cães eram descartáveis na busca pelo ouro. Durante certas viagens os donos simplesmente matavam com tiro ou machadada na cabeça aqueles que estavam muito cansados ou incapazes de prosseguir; os cães viviam num regime alimentício duro que os deixavam magros e fracos; e viajavam as vezes por longos trechos um após o outro sem descanso. Durante as viagens tinham que enfrentar o desgelo dos lagos que estavam atravessando, que podia fazê-los morrerem afogados, matilhas de lobos que atacavam a noite e as vezes tempestades de neve. Só a loucura ocasionada pela ganância de ouro pra fazer o ser humano enfrentar aquele inferno gelado por livre vontade!

Às vezes a noite olhando as chamas da fogueira Buck regressava a vidas passadas, lembrando-se de quando viveu entre os primeiros seres humanos. Esses primitivos eram mais ágeis que os atuais, caçavam com lanças e subiam em árvores em segundos, Buck caçava ao lado deles, algumas noites conseguia mesmo sentir o sangue quente derramando entre seus dentes.

“De uma forma vaga, ele recordava as experiências ocorridas aos primeiros de sua raça, retornava ao tempo em que cães selvagens corriam em alcatéias através das florestas primitivas e matavam seu próprio alimento depois de persegui-lo até a exaustão. Não foi absolutamente difícil para ele aprender a lutar com a tática dos lobos, de cortar, retalhar, morder rapidamente e então saltar para fora do alcance do adversário. Era a maneira como combatiam seus antepassados esquecidos.”

Até onde li a mãe de Jack London era espírita e isso o irritava. Me pergunto até onde irritava mesmo, já que o tema da reencarnação é um elemento constante em suas obras.

Buck cada vez mais ouvia o chamado da floresta, até que como uma fera instintiva resolve se entregar por completo ao mundo selvagem e esquecer toda a sua vida anterior. Claro que para a transformação do nobre Buck em um caçador selvagem ficar completa foi necessário um evento dramático, mas pra saber o que aconteceu você tem que ler. 

Embora sejam apenas pouco mais de 130 páginas, achei O chamado da floresta um livro longo, sua narrativa viaja por tantos lugares e por tantas histórias que se cruzam com a de Buck que parece muito maior do que realmente é.


Além de recomendar o livro ainda recomendo dar uma olhada nas outras obras do Jack London, até onde já li o cara manda sempre muito bem.


Dados do livro
Nome:   O chamado da Floresta 
Autor:    Jack London
Número de Páginas: 144
Editora: L&PM
Nota: 9/10
O Chamado Da Floresta - Jack London
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