segunda-feira, 21 de abril de 2014

Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas? - Philip K. Dick

"Pedir-lhe-ão que faça o mal onde quer que vá. Esta é a condição básica da vida, ser obrigado a violar sua própria identidade."

Os anos 60 não foram um período apenas de hippies, rock, protestos radicais, experimentação com drogas e de política neo-liberal, foi também a época de ouro da Ficção Científica norte-americana. Philip K. Dick é um desses nomes que figuram entre os principais da ficção científica do século passado e que ganhou destaque nessa época.

A sua principal marca literária é uma mistura de distopia futurista tecnológica com elementos de religiosidade. Philip K. Dick tinha contato com correntes espiritualistas, budista e principalmente o gnosticismo, de onde tirava toda sua desconfiança do mundo “real” em que vivemos. PKD chegou mesmo a dizer na década de 70 que havia sido contatado por uma inteligência cósmica, experiência a qual tentou dar forma literária em Valis.

Muitos de seus livros viraram filmes, o mais famosos deles é Blade Runner, parcialmente baseado no livro que trato neste post: Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?

Há dois personagens centrais no livro, Rick Deckard e John Isidore. Ambos vivem num planeta Terra abandonado em decorrência de uma guerra referida como Terminus, cujo motivo já se perdeu no tempo, o que importa é que o resultado do conflito foi um alto nível de radiação (chamada pelos habitantes de “poeira”) que causou a destruição da quase totalidade da vida animal e da maior parte dos biomas. As pessoas que entram muito em contato com a poeira acabam perdendo suas capacidades mentais, por isso são classificadas como “especiais”, apenas uma maneira menos ofensiva de se referir aos débeis mentais.

“Além disso, ninguém hoje se lembrava por que estourara a guerra ou quem, se é que alguém, a vencera.

A poeira que contaminara a maior parte do planeta não se originara em país algum, e ninguém, nem mesmo o inimigo do tempo da guerra, contara com ela. Em primeiro lugar, estranhamente morreram as corujas. Na ocasião este fato pareceu quase engraçado, os gordos e fofos pássaros brancos caídos aqui e ali, em esquinas e em ruas. Aparecendo não antes do anoitecer, como no tempo em que viviam, ninguém as notou. Pestes medievais haviam-se manifestado de maneira parecida, sob a forma de numerosos ratos mortos.


Esta peste, contudo, descera das alturas.”

A maioria dos antigos habitantes da Terra migraram para colonizar Marte. Apenas os que pudessem se reproduzir eram autorizados a partir, há uma campanha maciça para que façam isso, a pessoa que sai do planeta ganha até mesmo um androide serviçal para começar a nova vida. O que está em jogo é a sobrevivência da espécie, quanto mais pessoas saudáveis saem da Terra, mais chances têm a humanidade.

Rick Deckard e John Isidore são exemplos típicos de personagens que representam um o oposto do outro. Rick Deckard é uma pessoa saudável, astuto, respeitado por todos e casado com Iran, embora a relação dos dois não vá muito bem. John Isidore é um “especial”, com pouca capacidade cognitiva, desprezado por todos a sua volta e incapaz de se reproduzir, ou seja, um imprestável aos olhos daquela sociedade pós-desastre radioativo.

Dentro do universo do livro os animais vivos são criaturas consideradas sagradas e também caras, já que são bem raras. Toda a cultura humana restante na Terra gira em torno dessa admiração pelos animais vivos. Uma pessoa que tem um animal, seja qual for, tem mais prestígio do que a que não tem, chega a ser vergonhoso não possuir nenhum. As bases desse comportamento com os animais é uma filosofia-religião obscura chamada de mercerismo, no qual os praticantes se conectam numa “máquina de empatia” para se tornar um só com Wilbur Mercer e o resto da humanidade. Todos conectados na máquina sentem exatamente a mesma coisa, seja ela positiva ou ruim no momento.

Rick Deckard tinha um carneiro de verdade, mas ele morreu de tétano e o que lhe restou foi um carneiro falso. Ele teria vergonha de viver entre outras pessoas sem ter um animal, então encomenda um carneiro elétrico e esconde este pequeno detalhe dos vizinhos. O carneiro é uma cópia perfeita do real, age e se alimenta como o verdadeiro, mas Deckard se sente insatisfeito com essa situação, ele quer um animal de verdade de novo, deseja sair dessa situação indigna.

Rick Deckard é um caçador de androides. Como foi dito anteriormente eles são abundantes em Marte, já que cada ser humano que parte ganha o seu, o problema é que constantemente esses androides conseguem fugir para a Terra. Os androides do livro de PKD são orgânicos, ou seja, são extremamente parecidos com seres humanos, a diferença ocorre apenas na sua ausência de empatia, eles não se preocupam com os outros de nenhuma maneira e nem mesmo se preocupam com a própria vida.

Surge então uma oportunidade de Deckard conseguir dinheiro para comprar o seu tão desejado animal: seis unidades androides modelo Nexus-6 estão na Terra. Um atacou um de seus companheiros de caça e a missão ficou a seu encargo.

Já Isidore é um especial, por isso vive isolado num prédio onde só existem escombros. O personagem tem uma imaginação fantástica que o torna interessante, ele não é idiota como os seus pares supõem, apenas não é capaz de tomar decisões ditas “coerentes”. Por exemplo, uma das Nexus-6 foragida acaba indo morar no seu prédio, após perceber que ela não é humana Isidore não liga, ele não se importa, promete protegê-la. Ela não se apega a ele, pois é incapaz de sentir empatia, mas o trata bem na medida do possível e aceita a ajuda.

O livro vai narrar como o destino dos dois personagens se cruzam. A caça de Rick Deckard vai em algum momento cruzar o caminho do pobre Isidore.

Para mim o grande trunfo do livro é a capacidade narrativa de PKD, ele consegue fazer com que duvidemos que vários dos personagens ao redor de Deckard sejam humanos, em certo momento nos faz duvidar mesmo que Deckard seja humano! Essas reflexões também acompanham o personagem, que não se sente mais confortável para caçar androides, eles estão próximos demais dos humanos para que possa “aposentá-los” sem sentir nada. Após matar os Nexus-6, ele promete para si mesmo, vai comprar seu animal real e procurar outra profissão.

"Em outras palavras, os androides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 haviam, a partir de um ponto de vista grosseiro, pragmático, prático, evoluído além de um grande - embora inferior - segmento da humanidade. Com todas as boas ou más consequências. Em alguns casos, o criado tornara-se mais hábil que seu senhor."

O filme é apenas parcialmente baseado no livro. O misticismo esquisito, a história de Isidore, a guerra de Terminus e a maior parte das reflexões existenciais dos personagens são abandonadas, o foco da adaptação fica apenas em Rick Deckard e sua caça aos androides. O que faz com que perca muito conteúdo interessante do livro. As duas obras são boas, diferentes, mas boas. De qualquer forma recomendo muito que leiam o livro, é uma leitura rápida e divertida.


Dados do livro
Nome:    Androides Sonham Com Ovelhas Elétricas?   
Autor:    Philip K. Dick
  Número de Páginas: 272
Editora: Aleph
Nota: 8/10

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