segunda-feira, 7 de abril de 2014

Deuses Americanos - Neil Gaiman


Neil Gaiman é um dos astros da invasão britânica nos quadrinhos. Seu sucesso difere um pouco de seus pares. Enquanto Alan Moore, por exemplo, transformava os seus heróis em personagens decadentes vagando num universo prestes a entrar em colapso, Neil Gaiman trás um pouco de magia para nossa realidade cotidiana, para as coisas banais que enfrentamos todos os dias. Talvez seja esse o motivo de obras como Sandman terem feito tanto sucesso, embora pintados em cores mitológicas e de universos mágicos as situações se desenrolavam em ambientes que lembram a nossa vida normal, as preenchendo de magia.

Para mim Deuses Americanos usa a mesma formula, e com sucesso. Alguns dizem que o livro é a obra máxima de Neil Gaiman, não posso dizer ainda, ainda há muitos livros dele que não li, mas digo sem a menor dúvida: é um ótimo livro.

“- Vocês todos provavelmente descobriram isso, a seu modo. Os antigos deuses são ignorados. Os novos são tão rapidamente elevados quanto descartados, colocados de lado em nome da próxima moda. Ou vocês foram esquecidos, ou estão com medo de tornarem-se obsoletos... talvez estejam apenas cansados de existir somente na excentricidade das pessoas.”

Em Deuses Americanos acompanhamos Shadow, um presidiário que após 3 anos está prestes a ser libertado em condicional por bom comportamento. Uma semana antes da fatídica liberdade sua mulher morre num acidente de carro, o que acaba sendo motivo para que seja solto prontamente. Em liberdade Shadow descobre que sua mulher morreu chupando o pau de seu melhor amigo dentro do carro, mas isso nem chega a irritar tanto, ele a amava e ela está morta de qualquer forma. Durante a viagem de volta para a cidade onde morava ele é abordado por um senhor de idade e sem um olho, ele se apresenta como Wednesday e lhe oferece um emprego. Daí em diante Shadow irá descobrir que Wednesday é Odin, o deus da mitologia nórdica, que está preste a iniciar uma guerra entre os antigos deuses e os novos (deuses tecnológicos) em nome da sobrevivência. Odin precisa reunir um exército e Shadow vai ajudá-lo sendo seu guarda-costas e parceiro.

Algumas críticas na internet disseram que o livro não é tão bom graças ao final e porque o personagem principal é sem graça. Bom, para quem conhece um pouco de mitologia nórdica o final... bem, sempre foi uma possibilidade, não teve incoerência com a personalidade dos deuses envolvidos e acho que Neil Gaiman foi até didático demais (o que as vezes fica chato), dando respostas mastigadas para TODAS as questões que ele havia aberto durante a narrativa.

Quanto a Shadow ser um personagem raso, eu acho que é uma crítica um tanto quanto sem sentido. Ele é tão bem desenvolvido que passa por todas as fases que o psicólogo/historiador de mitologia Joseph Campbell chama de jornada do herói: 1 - o chamado, quando Wednesday o convida a trabalhar para si, neste momento Shadow começa a se retirar do universo profano e entrar em contato com lapsos do sagrado; 2 – a iniciação, na luta de Shadow contra Mad Sweeney ele aprende a fazer seu primeiro truque mágico de verdade, claro que apenas após derrotar o inimigo, que havia combinado previamente com Wednesday fazer aquilo como iniciação, a partir daí Shadow se torna preparado para descobrir os segredos maiores do universo sagrado; e no fim ainda há o 3 – o retorno, não sei se Neil Gaiman fez isso deliberadamente mas ao final do livro, após conseguir obter a última resposta que o incomodava, Shadow volta a uma vida cotidiana, abandonando toda aquela loucura de deuses, heróis, magia e monstros. O herói não pode viver dentro do tempo sagrado, ao fim da jornada, depois de organizar (salvar) o universo, ele precisa voltar ao seu povo trazendo sabedoria ao mundo profano.

O maior mérito de Deuses Americanos é o modo como Neil Gaiman aborda deuses e heróis míticos dentro do nosso plano de realidade cotidiano. Provavelmente o universo em que se desenrola o livro foi possível ser criado graças ao contato direto do autor com o universo de HQs (além do óbvio vastíssimo conhecimento de história das religiões e mitologias), principalmente sua obra mais conhecida, Sandman, que tem abordagem similar (que é relativamente comum nas HQs, vide a Mulher Maravilha do News 52 e o Hellblazer antigo em toda a sua longa história de publicação).

Em Deuses Americanos os deuses não são entidades onipotentes e onipresentes, capazes de realizar qualquer façanha sem esforço, não, eles são quase como pessoas normais com algumas habilidades especiais. Em certo momento do livro o personagem Sr. Town chega a dizer para Shadow que os deuses não são deuses exatamente como a palavra leva a imaginar, são apenas mutações que ganharam poder suficiente para convencer os outros de sua divindade. Na verdade, no universo criado por Gaiman, os personagens são considerados deuses ou não pelo fato de serem/terem sido cultuados. O que cria o Deus é o culto a sua personalidade, o que acaba por ser uma faca de dois gumes pois embora isso os dêem poderes os tornam dependentes de seus cultos para sobreviverem. Deuses são viciados na energia gerada pela devoção/crença e por isso fazem qualquer coisa para serem lembrados (nesse ponto lembram um pouco adolescentes na internet). Esse é o motivo pelo qual deuses antigos, importantes em outros tempos, acabam tendo que virar assaltantes, trapaceiros ou mendigos, eles foram esquecidos e junto com o esquecimento perderam quase todos os seus poderes.

“- Quando as pessoas vieram para os Estados Unidos, elas nos trouxeram junto. Trouxeram eu, Loki e Thor, Anansi e o Deus-Leão, Leprechauns e Kobolds e Banshees, Kubera e Frau Holle e Ashtaroth, e trouxeram vocês. Viemos até aqui na cabeça dessa gente e criamos raízes. Viajamos com os colonizadores para o Novo Continente do outro lado do oceano. A terra é vasta. Mas o tempo passou e nosso povo nos abandonou, lembrando de nós apenas como criaturas do Velho Continente, como coisas que não tinham vindo como elas para o Novo. Quem acreditava verdadeiramente em nós morreu, ou parou de acreditar, e fomos abandonados, ficamos perdidos, assustados e sem posses, vivendo das migalhas de adoração e de crença que podíamos encontrar. E fomos sobrevivendo da melhor maneira possível. Então foi isso que fizemos, sobrevivemos à margem das coisas, onde ninguém prestava muita atenção em nós. Hoje temos, vamos admitir, pouca influência. Fazemos das pessoas nossas presas, tiramos delas e sobrevivemos; nós nos despimos e nos prostituímos e bebemos demais. Pagamos gasolina, roubamos, trapaceamos e existimos nas fendas das margens da sociedade. Somos deuses antigos, aqui neste Novo Continente sem deuses.”

Neil Gaiman mistura diversas mitologias e não coloca nenhuma como maior ou menor. Para ele é claro: os deuses antigos estão decaindo em relação a força das novas formas de culto, o culto a tecnologia que é breve e em pouco tempo constantemente muda o objeto de devoção. As concepções de mundo hindu, indígena norte-americana, nórdica, chinesa, japonesa e tantas outras se misturam sem se excluírem, como se fossem versões de uma mesma percepção mágica da realidade. Em Deuses Americanos tudo isso se harmoniza de modo que, ao menos a mim, impressionou, só lendo vocês vão poder compreender melhor.

Dados do livro
Nome:    Deuses Americanos   
Autor:    Neil Gaiman
  Número de Páginas: 447
Editora: Conrad
Nota: 8/10

Deuses Americanos - Neil Gaiman
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