segunda-feira, 5 de maio de 2014

Rum: Diário De Um Jornalista Bêbado - Hunter S. Thompson


Hunter S. Thompson é mais um representante daquelas mentes ao mesmo tempo geniais e loucas que surgiram em abundância no final dos anos 60 e começo dos 70. Se os Beats, John Fante e Bukowski trouxeram o relato confessional, misturando fatos de sua vida com ficção, para o centro da literatura, Hunter Thompson fez o mesmo com o jornalismo.

Cansado de um estilo jornalístico puramente descritivo e com pretensões de objetividade, simplesmente entediante demais para ele, Thompson foi o homem que cunhou o termo “jornalismo gonzo” para denominar sua própria prática de escrita. Em vez de buscar utopicamente as coisas como aconteceram Hunter Thompson iria se dedicar a dar ao mundo sempre o seu relato minucioso de como ele via as coisas no momento em que aconteciam. Ele estaria imerso nos fatos, não seria apenas um observador externo, para isso usaria uma estrutura literária para dar melhor perspectiva ao objetivo de pesquisa. Nas mãos da maioria dos jornalistas medianos isso não faria tanta diferença, mas nas mãos de um talentoso bêbado e usuário de drogas para fins experimentais o estilo de Hunter Thompson foi uma pequena revolução dentro do jornalismo, embora não seja muito reconhecido academicamente no Brasil.

Rum: Diário de um jornalista bêbado é uma ficção não tão livre quanto os outros livros de Hunter Thompson, é um dos seus primeiros trabalhos, ele estava em processo de sedimentação da escrita, mas é exemplo perfeito disso tudo que foi dito acima, uma narrativa sobre a realidade às vezes nada glamurosa da profissão de jornalista.

No livro acompanhamos o jornalista Paul Kemp, que se muda para trabalhar num jornal a beira da falência em San Juan, Porto Rico. O livro é recheado de humor no estilo frequente do autor, uma espécie de humor contra-cultural, que exalta as características dos fracassados e denigre as características dos bem-sucedidos socialmente. O jornal não está a beira da falência por acaso, como o dono, Lotterman, deixa claro em vários momentos lá só trabalham degenerados, fracassados e principalmente, bêbados.

“Ir a um coquetel em San Juan significava encontrar tudo o que há de mesquinho e ganancioso na natureza humana. Sua pretensa sociedade não passava de uma horda estonteante e barulhenta de ladrões e vigaristas pretensiosos, um show de horrores entediante repleto de fraudes, palhaços e filisteus com mentalidades mancas. Era uma nova leva de broncos, desta vez seguindo na direção sul em vez do oeste. Em San Juan, haviam se tornado reis.”

Hunter Thompson descreve com grande vivacidade cada ser bizarro daquele jornal. Robert Sala, um fotógrafo fracassado, purista e pessimista que embora seja competente e sinta que vive na merda não consegue sair da acomodação do bom salário pago pelo jornal e pelos freelas que faz, de certa forma ele espera ansioso pela falência do News, para que finalmente se obrigue a mudar de vida. Moberg, um dos redatores do jornal que vive como um mendigo numa das favelas de San Juan e nunca foi visto sóbrio, ninguém entende como nunca foi demitido. Segarra, o cara que tem a função de coordenar todos no jornal, não passa de um vigarista e patife que não dá a mínima para o jornal. E finalmente, Yeamon, a pessoa na ilha que mais intriga Paul Kemp, um jornalista bruto e inconsequente que namora uma loirinha vinda de Nova York chamada Chenault.

San Juan, que para qualquer norte-americano parece um paraíso para se visitar nas férias, como Kemp iria aprender para seus habitantes era um inferninho tedioso. Não havia nada a fazer além de beber rum, a bebida típica e mais barata da região, o dia todo. Todos no jornal se encontravam no bar do Al, o bar mais barato e relativamente limpo da cidade que era livre de latinos e vendia uns sanduíches pra matar a fome. Todos do jornal passavam mais horas no Al do que escrevendo suas matérias.

“Era só mais um marginal barulhento da enorme legião de marginais que marcham por trás das bandeiras de homens de melhor estirpe e maior estatura. Liberdade, Verdade, Honra - se você sacudir uma centena de palavras desse tipo, mil marginais surgirão por trás de cada uma delas. Inúteis e arrogantes, carregando a bandeira com uma das mãos e preparando seus truques baratos com a outra.”

Mesmo quando não acontece nada de excepcional a narrativa do livro é animada, o ódio que Hunter Thompson nutre pela injustiça e sua paixão pelos degenerados preenche o livro com momentos de muita inteligência e humor. Para mim o ápice do livro é durante um carnaval na cidade vizinha, em que Yeamon, Chenault e Kemp se metem em uma confusão dos diabos em uma festa regada a baldes e baldes de álcool e dança extática com os nativos. Vocês precisam ler para entender como nesse momento Yeamon, o brutamontes impulsivo e inconseqüente se torna uma criança impotente e chorosa.

“Lotterman simplesmente não conseguia lidar com isso. Fazia de tudo para atacar qualquer coisa que tivesse o menor cheiro de esquerdismo, porque sabia que seria crucificado se não o fizesse. Por outro lado, era um escravo do governo autônomo da ilha, cujos subsídios americanos não apenas bancavam metade da indústria local como pagavam também metade dos anúncios do News. Era uma relação incômoda – não apenas para Lotterman, mas para muitos outros. Para conseguir dinheiro, precisavam lidar com o governo, mas isso significava tolerar uma espécie rasteira de socialismo – coisa que não era exatamente compatível com sua obra missionária.”

Rum: Diário de um jornalista bêbado é um livro fantástico para se entender como jornalismo às vezes é uma profissão que melhor se adeque a charlatões e vigaristas. A maioria dos jornalistas vivem na corda bamba quanto ao salário do próximo mês e de certa maneira se tornam putinhas da publicidade dos governos ou empresários poderosos. É muito difícil lutar contra isso, a solução de Hunter Thompson é virar um vigarista menor que trapaceia os vigaristas maiores, mas nem sempre isso termina bem.


Dados do livro
Nome:    Diário De Um Jornalista Bêbado  
Autor: Hunter S. Thompson
  Número de Páginas: 253
Editora: L&PM Pocket
Nota: 8/10
Rum: Diário De Um Jornalista Bêbado - Hunter S. Thompson
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