terça-feira, 24 de junho de 2014

O Império Do Sol - J. G. Ballard



O século XX foi um período extremamente conturbado, embora seja recheado de eventos nenhum foi tão forte e traumático para a humanidade quanto as duas guerras mundiais. Cada uma de sua própria forma causou fraturas irreparáveis no modo que as sociedades enxergavam o mundo e no modo que as pessoas viviam.

A primeira guerra mundial acordou de modo decepcionante a sociedade ocidental de seu namoro com a ideologia do progresso científico e racionalismo. Pela primeira vez ficou claro de modo indubitável que o desenvolvimento tecnológico não tinha como resultado apenas benefícios, ele também aumentava as alternativas de ferramentas de destruição da vida. O racionalismo em vez de ser enxergado unicamente como um modo seguro de organizar a sociedade em direção ao progresso passa a ser visto finalmente como um elemento de controle e destruição da vida natural.

Já a segunda guerra mundial, com seu horror do extermínio em massa automatizado criado pelos nazistas, e tão chocante quanto, a explosão das bombas nucleares no Japão, originou um vazio no seio das concepções ocidentais, estas que sempre colocaram a vida como valor máximo de tudo. Se vidas podiam ser destruídas aos milhões com o apertar de um botão, sem qualquer remorso ou peso na consciência, qual seria o sentido de existir? Em qual direção a tecnologia e progresso estariam nos levando? É essa a finalidade do racionalismo, o fim da compaixão? Não é a toa que o filósofo Theodor Adorno perguntou se depois de Auschwitz ainda era possível escrever poemas, o mundo perdeu todo o seu encanto, vivíamos a partir de então o auge da tecnocracia da sociedade industrial avançada.

O Império Do Sol de J. G. Ballard é uma ficção ambientada na segunda guerra mundial que trata de um dos aspectos mais obscuros de qualquer guerra: a sobrevivência das pessoas comuns. O livro se passa longe dos grandes palcos de guerra da Europa ou dos confrontos com os japoneses no Pacífico, onde há batalhas  épicas, heróis e mártires. Ele se passa completamente em Xangai e seus arredores, narrando como um menino inglês consegue sobreviver em meio a todo o caos e violência da guerra.

No livro acompanhamos progressivamente o processo de desencantamento que a guerra causa nas pessoas. Talvez além de ser uma representação de parte das experiências de J. G. Ballard na Segunda Guerra Mundial, Jim Graham, o personagem principal do livro, também seja uma representação da sociedade ocidental e o desencanto do universo que aquela guerra causou.

Jim Graham é um menino inglês de família rica que mora em uma mansão gigantesca com piscina, vários carros e dezenas de empregados. Ele tem até um motorista particular, encarregado pelos pais de levá-lo para todo lugar que desejar. O garoto ama navios, carros e aviões, se houvesse uma guerra ele tinha certeza de que os japoneses a ganhariam graças aos seus aviões e bravura dos pilotos. Para ele a guerra era uma coisa distância, chegou a ver sobre o ataque a Peal Harbor no cine-noticiário do centro de Xangai, o que apenas lhe deixou mais convencido de que os soldados japoneses eram os mais corajosos do mundo, afinal, derrubaram toda uma frota de navios norte-americanos.

Embora seja inglês Jim nunca foi à Inglaterra e nem mesmo desejou muito isso, sempre achou os ingleses covardes e esquisitos. Para ele a Inglaterra parecia um lugar distante e exótico, ao contrário da familiar Xangai, que ele conhecia distrito por distrito quando saia de bicicleta escondido dos pais e empregados.

A primeira parte é a mais chata do livro, pois o autor descreve um garoto mimado que não é lá muito interessante e o seu ambiente social de estrangeiros ricos na China. Todos parecem muito mesquinhos e chatos, mesmo Jim é assim, o que torna a leitura bem cansativa. Até que por fim os japoneses invadem Xangai e Jim se vê separado de seus pais e o livro começa a ficar interessante.

Em O Império do Sol acompanhamos como um garoto mimado se transforma progressivamente em um espetacular sobrevivente de guerra. De início, para sobreviver, Jim saqueia e dorme nas casas abandonadas pelos europeus. Porém os suprimentos ficam escassos e oficiais japoneses passam a ocupar as melhores habitações. Morto de fome e sem muita saída ele acaba parando em um centro de prisioneiros de guerra, lá ao menos estava distante dos milhões de chineses esfomeados e violentos das ruas.

Ao longo dos anos aquele garoto mimado e mesquinho aprende a servir nos campos de prisioneiros para ganhar mais ração, aprende a ser útil aos outros, a roubar e principalmente a se esconder e correr sempre que necessário. O livro de J. G. Ballard é um relato emocionante da vida nas comunidades de prisioneiros de guerra. Nesta vida está presente a fome que leva muitos à morte, as doenças sem possibilidade de tratamento, a violência desmedida dos guardas e a escassez de esperança. A falta de esperanças de Jim numa vida sem guerra era tão baixa que em certo momento do livro ele quase chegou a me convencer de que a guerra deveria continuar para sempre. Pelo menos dentro dos campos de prisioneiros ele sabia o que fazer para sobreviver, era útil, o que faria depois da guerra? Mesmo a lembrança de seus pais parecia apenas um vulto de outras eras. Até o fim do livro Jim não acreditava que a guerra tinha acabado de verdade, se acabasse outra teria início imediatamente, acho que para quem viveu o que ele viveu a guerra nunca vai ter fim.

Dados do livro
Nome:      O Império Do Sol     
Autor: J. G. Ballard
  Número de Páginas: 376
Editora: BestBolso
Nota: 7/10

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