sábado, 5 de julho de 2014

Visões De Gerard - Jack Kerouac

“Somos todos aranhas. Picamos uns aos outros.”

A morte sempre foi uma constante na  vida de Jack Kerouac e nos seus livros, mesmo nas obras frenéticas e animadas como Vagabundos Iluminados há a antítese sombria do desejo de viver. On The Road, por exemplo, começa a narrativa após a morte de seu pai, e aos quatro anos de idade Kerouac assistiu a morte lenta de seu irmão Gerard gravemente doente. Sendo a morte de Gerard geradora de uma série de complexos psicológicos que o abalou até o fim da vida.
Talvez por isso a identificação de Kerouac com um sincretismo pessoal do catolicismo e budismo – e também com o álcool excessivo que acabou o matando de cirrose. A idéia da sacralidade do perdão cristão e da não-existência-de-nada-além-da-consciência do budismo de alguma maneira o consolavam em relação a inevitabilidade da morte. Nada morre, porque nada realmente existe, e se nada existe não tem como algo morrer, as coisas são-oque-são mas não-são-oque-acham-que-são.

Visões de Gerard é mais um livro triste de Kerouac, assim como foram Big Sur e Tristessa, abordando a finitude da existência e as contradições da dor humana. É o único livro de Kerouac em que é descrita sua infância, pretensamente ele tem quatro anos de idade e admira o pequeno Gerard de oito anos, na verdade todos amam aquele pequeno Buda inocente vivendo entre as sombras e sujeira da humanidade. Gerard, o pequeno imaculado que ignorou na escuridão antes-do-nascimento a voz que lhe dizia “não vá, não nasça” e acabou caindo neste nosso mundo sádico.

“É isso o que está implícito na balaustrada do altar do arrependimento, porque o arrependido se entrega e admite que foi um tolo e que não tem como ser nada além de um tolo e que os ossos dele se dissolvam na luz da eternidade – Todos os meus pecados, sem tirar nem um pingo, até o menor e menos perceptível quase não pecado com que você poderia ter se safado dando outra interpretação – Mas você seu tolo incompetente você é um amontoado de pecados, um verdadeiro barril de pecados, você chafurda e se debate lá dentro como se fosse melaço – Você escorre erros através de suas frágeis fissuras – Você estragou todas as oportunidades de abençoar a fronte de outra pessoa – Você teve o tempo, você vai ter o tempo, você vai bocejar e não vai entender – Ah, você é um vagabundo como eu – Seria melhor dissolver você [...]”

A primeira descrição de Gerard mostra a sua bondade dhármica, sua inocência soberana e santa, o garoto retira um rato da ratoeira e leva para tratar em casa. Ele se pergunta o que há de errado com os homens que querem matar os pequeninos ratos que querem apenas comer migalhas que deixamos por aí. Por que as coisas têm que morrer? Por que deus quer que os ratos morram em ratoeiras? Por que os homens botam ratoeiras para os ratos? As dúvidas profundas e infantis de Gerard, sempre em tom de revelação sagrada, deixam seus pais e as freiras da escola católica que frequenta surpresos e sem saber o que dizer. Apesar de todo o seu esforço o ratinho que ele havia colocado ataduras e alimentado morre enquanto ele está na escola, a gata da casa o devorou deixando na caixa em que o animal estava apenas o rabo como lembrança.

“Escutai, amigos, a antiga mensagem: não é o que você pensa que é, nem o que você pensa que não é, mas uma questão ancestral, descomplicada e clara – no campo os porcos podem entrar no cio e atender correndo o chamado das porcas, cheios de um júbilo suíno; as pessoas podem se achar melhor que os porcos e caminhar cheias de orgulho nas estradas rurais; os gênios podem olhar pela janela e se achar maiores do que os idiotas; os carrapatos nas agulhas dos pinheiros podem ser inferiores aos cisnes; mas ainda que qualquer um desses ou ainda a pedra saiba, a verdade permanece a mesma: nada se quer está lá, tudo é um filme na nossa cabeça [...]”

Gerard é a criatura mais doce da Terra, tão doce como foram Buda e Jesus Cristo em seu próprio tempo, ele é um anjo que surpreende a todos com suas reflexões simples e desconcertantes e com a candidez de sua meiguice. Essa pequena existência humana tão terna é frágil, todos os anos fica doente e naquele inverno ficaria doente pela última vez, o fim da ilusão de sua existência estava perto. Ele finalmente seria libertado.

Visões de Gerard narra de modo emocionante como Kerouac e a família acompanham o pequeno iluminado Gerard morrer. Os pais em desalento se perguntam o motivo de um garoto tão bom ser destinado a morrer tão cedo; os irmãos – entre eles Kerouac – são muito novos para entender o que está acontecendo, apenas observam o irmão que os conduzia anteriormente ir perdendo a vitalidade aos poucos, até que finalmente não consegue nem mesmo sair da cama; Gerard tem visões sagradas, sonha com nossa senhora e sente muita dor nas madrugadas frias de Massachusetts, dor essa que não diz para ninguém, não querendo preocupar a todos mais do que já estão. Mesmo durante o fim da sua vida Gerard age como um pequeno desperto, querendo morrer sozinho, absorto em seus pensamentos, em nenhum momento se desespera, ele sabe que há algo depois da morte, ele tem certeza de que no céu vai ter uma carrocinha alada guiada por dois carneirinhos brancos.

“Você acorda no meio da noite e olha para o horizonte voltando às pressas de volta ao lugar de onde veio, e pensa ‘Meu Deus, é tudo a mesma coisa’ – O fato de que existe um mundo, ou, antes, de que parece existir um mundo, é infinitamente mais interessante do que qualquer bagatela que possa acontecer nele, como o Nirvana em um formigueiro ou um formigueiro no Nirvana, ou –“

Foi Gerard, doente em sua cama, irradiando sabedoria e bondade em todos a sua volta, que deu a Kerouac uma dica que ele levaria a sério em sua escrita: o único assunto que vale a pena escrever é sobre a morte.




Dados do livro
Nome:     Visões de Gerard    
Autor: Jack Kerouac
  Número de Páginas: 139
Editora: L&PM Pocket
Nota: 8/10

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