terça-feira, 14 de outubro de 2014

Resenha: Crônica De Uma Morte Anunciada - Gabriel García Márquez


Considerado pela crítica literária um dos mais importantes escritores do século XX e premiado com o Nobel de Literatura (1982), Gabriel Garcia Márquez além de carregar uma vasta carreira literária foi jornalista e ativista político colombiano. No entanto, é sobre seu lado literário e minha primeira experiência com o “Gabo” que tratarei aqui. O livro em questão é Crônica de uma morte anunciada, que, mesmo não sendo tão aclamado como Cem anos de solidão, foi o que mais me chamou atenção por sua história.

“No dia que o matariam, Santiago Nasar levantou-se às 5h30m da manhã.” 

O livro já nos instiga a partir da primeira linha, visto que nosso protagonista tem sua morte anunciada de cara, sem rodeios. Quem está fadado a morte é Santiago Nasar, um rapaz de 21 anos, bem relacionado socialmente e que levava consigo a fama de Don Juan do povoado. No entanto, mesmo que aproveitasse profundamente sua juventude, era um jovem de responsabilidades, que vivia com a mãe ao tempo que cuidava da fazenda herdada do pai. À vista disso, um leitor que não teve acesso a qualquer resumo da obra se perguntaria por que raios um rapaz com essas características seria brutalmente assassinado.

“Eu o vi em sua memória. Completara 21 anos na ultima semana de janeiro, era esbelto e pálido, tinha pálpebras árabes e os cabelos crespos do pai. Era o filho único de um casamento de conveniência que não teve um único instante de felicidade, mas parecia feliz com o pai até que este morreu de repente, três anos antes, e continuou parecendo feliz com a mãe até a segunda-feira de sua desgraça.”

Bayardo San Román é um forasteiro que anda de povoado em povoado procurando com quem casar. Tinha seus 30 e poucos anos mas muito bem escondidos, pois era um homem conservado. O fato de ser vaidoso gerava especulações sobre sua masculinidade, sendo considerado por muitos um maricas. Além disso, Bayardo acreditava veemente no poder de seu dinheiro, e que com isso, poderia conseguir qualquer coisa. 

Em uma de suas andanças, Bayardo acaba conhecendo Ângela Vicário, tornando-a dona de seu coração. A princípio Ângela reluta em se casar com Bayardo, até que finalmente cede a vontade da família, que com suas raízes tradicionais, passou a vida preparando a moça para o tão sonhado casório.

Ângela levava uma vida pacata com a família, tinha um aspecto manso e nada de extraordinário. Foi criada para servir ao homem que a vida lhe destinaria. Porém, momentos antes do casório, Ângela revela a mãe e suas amigas que não é mais virgem. A partir daí, começa o grande caos da história.

“'Só acreditam no que veem nos lençóis', disseram. E assim lhe ensinaram artimanhas de comadre para fingir a pureza perdida, e para que pudesse exibir em sua primeira manhã de recém-casada, aberto ao sol no pátio de sua casa, o lençol de linho com a mancha de honra.”  

É preparada uma grande festa de casamento, com a participação de toda da cidade. Logo após a festa o casal vai para sua noite de núpcias e o que já era esperado acontece. Bayardo descobre que Ângela não é mais virgem e a devolve para a família. Para mim, esse é um dos momentos mais importantes do livro, é uma bomba que se estoura, são valores estraçalhados, visto que na sociedade do livro é algo inadmissível.

“Bayardo San Román não entrou, com suavidade empurrou a esposa para o interior da casa, sem dizer uma palavra. Depois beijou Pura Vicário na face e lhe falou com uma voz de profundo desalento mas com muita ternura.
-Obrigado por tudo, mãe – disse-lhe. – A senhora é uma santa.
Só Pura Vicário soube o que fez nas duas horas seguintes, e foi para a morte com seu segredo. “Só me lembro que segurava meu cabelo com uma mão e batia com a outra com tanta raiva que pensei que ia me matar”, contou-me Ângela Vicário. Mas até isso ela fez com tanta discrição que o marido e as filhas mais velhas, dormindo nos outros quartos, de nada souberam até o amanhecer, quando o já estava consumado o desastre.”

O que achei interessante é que a mãe de Ângela não a espancou por ter perdido a virgindade antes do tempo, e sim por não ter simulado ser virgem para o marido. Irônico como os valores se perdem dentro de si, não é mesmo?
O caos termina de se instaurar quando os irmãos de Ângela ficam sabendo do ocorrido e exigem que a irmã revele o nome do homem que a desonrou. Então, Pedro e Pablo Vicário decidem então lavar a honra da família. E adivinha para quem sobrou? Isso mesmo, para o nosso Don Juan.

“Ela demorou apenas o tempo necessário para dizer o nome. Buscou-o nas trevas, encontrou-o à primeira vista entre tantos nomes confundíveis deste mundo e do outro, e o deixou cravado na parede com o seu dardo certeiro, como a uma borboleta indefesa cuja sentença estava escrita desde sempre.- Santiago Nasar – disse.”

Os irmãos de Ângela partem diretamente para o chiqueiro, pois o trabalho de ambos consiste em matar porcos, e lá afiam seus facões para consumar o destino já traçado logo no início do livro de Santiago Nasar.

“Por ultimo, fizeram as facas cantar na pedra, e Pablo pôs a sua junto a uma lâmpada para que o aço brilhasse.
- Vamos matar Santiago Nasar – disse”

Várias partes do livro me chamaram atenção: a primeira delas é a omissão, visto que a cidade inteira fica sabendo que Santiago será morto e não tentam alertar a vítima, com exceção de Cristo Bedoya (amigo de Santiago). Cada pessoa passava a responsabilidade para o próximo, afinal de contas, pensavam, para quê realizar tarefa tão desagradável se outro pode cumprí-la? A segunda é sobre a obra ter forma de reconstrução jornalística, o autor viaja no tempo e busca todas as informações para nos contar a história, contendo pedaços de entrevistas com os envolvidos no fato. A terceira é o grande mistério: teria Santiago Nasar desonrado Ângela Vicário? No decorrer do livro encontramos provas nítidas da inocência de Santiago, no entanto, o grande mistério para mim é saber quem a desonrou, pois claramente ela está protegendo alguém. A quarta é o destino de Ângela e Bayardo, mas só saberá quem ler o livro!  


Curiosidade: O livro foi inspirado em um fato real, um assassinato que ocorreu em um povoado da Colômbia. Gabo conhecia os envolvidos no drama, e na época escrevia alguns contos, mas ainda não havia publicado seu primeiro romance. Logo percebeu que tinha um ótimo material em mãos, porém sua mãe o proibiu de contar a história enquanto os protagonistas estivessem vivos.  


Dados do livro
Nome:    Crônica de uma Morte Anunciada 
Autor: Gabriel García Márquez  
  Número de Páginas: 177
Editora: Record
Nota: 7/10


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