quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Resenha: Fahrenheit 451 - Ray Bradbury


Olhando em direção ao futuro o livro Fahrenheit 451 de Ray Bradbury, publicado na década de 50, discute uma sociedade distópica na qual qualquer tipo de leitura é proibida. Isto acontece para que o status quo seja mantido e as pessoas não questionem muito o “porquê’’ das coisas serem como são. O livro figura entre as distopias mais famosas já escritas, dividindo espaço com obras como “1984’’ de George Orwell “Admirável Mundo Novo’’ de Aldous Huxley.

A história gira em torno de Guy Montag, um bombeiro que, até então, segue sua rotina de atear fogo nas casas de pessoas que infringem a lei com atitudes ditas “suspeitas’’ e que possuem livros. Ao contrário da realidade, nessa ficção criada por Bradbury, os bombeiros iniciam os incêndios, eles são responsáveis por folgareis com pilhas e pilhas de livros.

As características da sociedade que o autor quer demonstrar estão representadas na esposa de Montag, chamada Mildred. Uma sociedade que não sabe o que se passa no resto do mundo, anticética e que é tomada pelo comodismo. Os diálogos entre Montag e Mildred são superficiais e cortados pelo desinteresse da esposa, por ela estar muito ocupada interagindo, também superficialmente, com a “família’’ em telões espalhados pelas paredes da sala. A "família" são programas de TV parecidos com novelas brasileiras/mexicanas, mas que o espectador é levado a tratar os personagens como se fossem realmente entes queridos.

Logo na primeira página do livro Montagapresenta traços de incerteza, há algo nele que não está presente nos outros bombeiros, que difere do padrão social: 
“Era um prazer especial ver as coisas serem devoradas, ver as coisas serem enegrecidas e alteradas. ’’
Montag abriu um sorriso feroz de todos os homens chamuscados e repelidos pelas chamas. “
“Sabia quequando regressasse ao quartel dos bombeiros faria vista grossa a si mesmo no espelho..."

A partir do momento em que Montag conhece no caminho de casa uma garota de 16 anos chamada Clarisse McClellan, ele passa a se transformar. Clarisse é o contrário das pessoas que Montag lida todos os dias. Ela é vívida, “esquisita” e questiona tudo, certo dia pergunta à Montag se ele é feliz. A partir daí, esta pergunta que percorre toda a produção artística humana, ele passa a se perguntar pelo mesmo.

"Feliz! Mas que absurdo!
Montag parou de rir.
Na porta de sua casa, enfiou a mão no orifício em forma de luva e seu toque foi identificado. A porta deslizou, abrindo-se.
Claro que sou feliz. O que ela pensa? Que não sou? , perguntou ele para os cômodos silenciosos."

A mudança de Montag toma maiores proporções quando o quartel dos bombeiros atende a um chamado em uma casa suspeita de possuir um arsenal gigantesco de livros. Ao encontrarem uma biblioteca oculta no sótão, Montag acaba levando um livro consigo e no momento em que ateiam fogo nos objetos proibidos jogados pela sala, a dona do recinto escolhe ser queimada junto.  A cena é o estopim, Montag que já estava confuso, passa a se rebelar. 

“A mulher se ajoelhou entre os livros, tocando o couro e o papelão encharcados, lendo com os dedos os títulos dourados enquanto seus olhos acusavam Montag."

Beatty é um dos personagens mais interessantes do livro. Apesar de ser capitão do quartel dos bombeiros, sabe o que há nos livros e conhece grandes obras. Porém, acha que os livros causam desordem na sociedade. Já desconfiado do comportamento de Montag, Beatty o faz uma visita e tenta persuadi-lo em uma conversa. É um dos momentos mais importantes do livro, sendo bem esclarecedor. Quanto ao destino de Beatty, para mim foi uma grande revelação.


“Pelo o menos uma vez na carreira, todo bombeiro sente uma coceira. O que será que os livros dizem, ele se pergunta. Aquela vontade de coçar aquele ponto, não é mesmo? Bem, Montag, pode acreditar, no meu tempo eu tive de ler alguns, para saber do que se tratava, e lhe digo: os livros não dizem nada! Nada que possa ensinar ou acreditar. Quando é ficção, é sobre pessoas inexistentes, invenções de imaginação. Caso contrário, é pior: um professor chamando o outro de idiota, um filósofo gritando mais alto que seu adversário. Todos eles correndo, apagando estrelas e extinguindo o sol. Você fica perdido. “ (Beatty)

Montag visita Faber, um professor de inglês que viveu na época em que os livros não eram proibidos, e que, apesar de saber da ignorância da sociedade, prefere manter-se quieto para evitar problemas. Faber reluta para não se aliar a Montag, mas acaba se tornando um grande aliado e as ações da dupla trilham o final do livro.


“Os livros eram só um tipo de receptáculo onde armazenávamos muitas coisas que receávamos esquecer. Não há nada de mágico. A magia está apenas no que os livros dizem, no modo como confeccionavam um traje para nós a partir de retalhos do universo. “ (Faber)

Para saber o desfecho da rebeldia de Montag, leia Fahrenheit 451, é leitura obrigatória!

CURIOSIDADES:

. Há um filme dirigido por François Truffaut em 1966, baseado no livro. No filme o destino de Clarisse é bem diferente do livro.

. O número 451 é a temperatura da queima do papel, em graus Fahrenheit.

. Montag é o nome de uma fábrica de papel e Faber de uma fábrica de lápis, Faber-CastellRay Bradbury cita a “coincidência’’ no posfácio do livro:


"Só recentemente, revendo o romance, percebi que Montag foi batizado com o nome de uma fábrica de papel. E Faber, naturalmente, é um fabricante de lápis! Como meu inconsciente foi astuto ao dar esses nomes a eles. E em não contar isso a mim!"

Sei...



Dados do livro
Nome:   Fahrenheit 451  
Autor: Ray Bradbury
Número de Páginas: 216
Editora: Editora Globo
Nota: 10/10

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