quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Resenha: Festa No Covil - Juan Pablo Villalobos


Festa no covil é o primeiro romance do escritor mexicano Juan Pablo Villalobos. O autor que atualmente mora no Brasil escreve contos, crônicas de viagens, críticas literárias e de cinema. Com a edição britânica do livro foi selecionado pelo jornal The Guardian para o First Book Award, que é uma premiação para autores inéditos.

O livro conta a história de Tochtli, que é nada mais nada menos que filho do chefão do narcotráfico mexicano, chamado Yolcaut e conhecido como “El Rey”. O garoto mora em um palácio no meio do nada com Yolcaut e seus empregados, sendo alguns destes, mudos. Tochtli tem contato apenas com Miztli, que é um dos seguranças e que o compra coisas na cidade, e Mazatzin, seu tutor. À primeira vista parece se tratar de narcoliteratura, porém o narcotráfico é só um plano de fundo. No caso, o livro trata das impressões inocentes que a criança tem do ambiente em que vive.

“Eu conheço muitos mudos, três. Às vezes, quando falo com eles, eles tentam falar e abrem a boca. Mas continuam calados. Os mudos são misteriosos e enigmáticos. O que acontece é que com o silêncio a pessoa não pode dar explicações. O Mazatzin acha o contrário: diz que com o silêncio a gente aprende muita coisa. Mas essas são ideias do império do Japão, de que ele tanto gosta. Eu acho que a coisa mais enigmática e misteriosa do mundo deve ser um mudo japonês."

Pra espantar a solidão, Tochtli coleciona chapéus e antes de dormir lê o dicionário para aprender novas palavras. O garoto tem um mini zoológico em seu palácio e o sonho de completá-lo com um hipopótamo anão da Libéria. Yolcaut dá tudo ao garoto, menos a permissão para chamá-lo de “pai” e a entrada em alguns quartos da casa. Todos os dias Tochtli utiliza seu chapéu de detetive para desvendar os mistérios do palácio.
"Se bem que agora, em vez dos chapéus novos, o que eu quero mesmo é um hipopótamo anão da Libéria. Já botei na lista de coisas que eu quero e entreguei pro Miztli. A gente sempre faz assim, porque não vou muito pra rua, e aí o Miztli compra para mim tudo que eu quero por ordem de Yolcaut. E como o Miztli tem uma memória péssima, tenho que fazer as listas para ele. Mas um hipopótamo anão da Libéria não é tão fácil assim de encontrar num pet shop. O máximo que os pet shops vendem são cachorros. Mas quem quer um cachorro? Ninguém quer um cachorro. É tão difícil conseguir um hipopótamo anão da Libéria que talvez o único jeito seja ir capturar lá na Libéria." 

Mazatzin é tutor de Tochtli, um homem culto que ganhava muito dinheiro com anúncios de tv, mas que possuía o sonho de se tornar escritor. Em busca do sonho, Mazatzin foi para o meio do nada tentar escrever um livro sobre a vida. Bem, a missão falhou e ele foi traído pelo sócio, que roubou todo o seu dinheiro.

"Aí o Mazatzin veio trabalhar com a gente, porque o Mazatzin é dos cultos. O Yolcaut diz que os cultos são pessoas muito metidas porque sabem muitas coisas. Sabem coisas das ciências naturais, como que as pombas transmitem doenças nojentas. Também sabem coisas da história, como que os franceses gostam muito de cortar a cabeça dos reis. Por isso os cultos gostam de ser professores. Às vezes eles sabem coisas erradas, como que pra escrever um livro você tem que ir morar numa cabana no meio do nada e no alto de um morro. Quem diz isso é o Yolcaut, que os cultos sabem muitas coisas dos livros, mas não sabem nada da vida. A gente também mora no meio do nada, mas não é pra se inspirar. A gente está aqui para a proteção."

Miztli sempre leva ao palácio uma mulher chamada Quecholli para manter relações sexuais com Yolcaut. Quecholli está inserida no grupo dos “mudos” inventado por Tochtli. O garoto não compreende os frequentes sumiços do pai e da moça.

"A pessoa mais muda que conheço é a Quecholli. O Miztli a traz ao nosso palácio duas ou três vezes por semana. Quecholli tem as pernas muito compridas, segundo Cinteotl são deste tamanho: um metro e meio. Miztli diz outra coisa, uma coisa enigmática:
— Noventa-sessenta-noventa, noventa-sessenta-noventa.É um segredo, ele me diz quando ninguém está olhando. Tudo sobre a Quecholli é segredo. Ela anda pelo palácio sem olhar pra ninguém, sem fazer barulho, sempre grudada no Yolcaut. Às vezes os dois desaparecem e voltam a aparecer, tudo muito misterioso. Passam horas assim, o dia inteiro, até que a Quecholli vai embora. E aí outro dia o Miztli a traz de novo e começam outra vez os segredos e as desaparições."
A naturalidade que Tochtli encara uma morte violenta impressiona. Todos os dias o garoto vê nos noticiários uma violência explícita e ao invés de se chocar com uma cabeça cortada, liga para o corte de cabelo do decapitado. O garoto não tem noção do quão absurdo é aceitar a realidade que lhe foi dada. Tochtli também é um declarado admirador dos franceses, justo por terem inventado a guilhotina.

"Hoje apareceu um cadáver enigmático na tevê: cortaram a cabeça dele, e nem era um rei. Também parece que não foi coisa dos franceses, que gostam tanto de cortar as cabeças. Os franceses colocam as cabeças em uma cesta depois de cortá-las. Vi isso num filme. Na guilhotina colocam uma cesta bem debaixo da cabeça do rei. Aí os franceses deixam a lâmina cair e a cabeça cortada do rei cai na cesta. É por isso que eu gosto dos franceses, sempre tão delicados. Além de tirarem a coroa do rei para não amassar, tomam cuidado para a cabeça não escapar rolando. Depois os franceses entregam a cabeça pra alguma senhora, para ela chorar. É uma rainha ou uma princesa ou algo parecido. Patético. Os mexicanos não usam cestos para as cabeças cortadas. A gente entrega as cabeças cortadas dentro de uma caixa de brandy reserva."
"Mostraram uma foto da cabeça na tevê e o penteado dela era mesmo horroroso. O cabelo era comprido com umas mechas oxigenadas, patético. Os chapéus também servem pra isso, pra esconder o cabelo. E não só quando o penteado é feio, porque sempre é bom esconder o cabelo, até com penteados que todo mundo acha bonitos. O cabelo é uma parte morta do corpo. Por exemplo: quando você corta o cabelo, não dói. E, se não dói, é porque está morto. Quando alguém puxa, aí dói sim, mas o que dói não é o cabelo, mas o couro cabeludo da cabeça. Foi uma coisa que eu pesquisei nas pesquisas livres com o Mazatzin. O cabelo é que nem um cadáver que você carrega na cabeça quando está vivo. Além do mais é um cadáver fulminante, que cresce sem parar, o que é muito sórdido. Vai ver que quando você vira cadáver o cabelo deixa de ser sórdido, mas antes ele é, sim. É isso que os hipopótamos anões da Libéria têm de melhor, que eles são carecas."

"El Rey" toma conta dos noticiários e as coisas passam a se complicar no México. Então, para preservar sua segurança e a do filho, Yolcaut planeja a tão sonhada viagem rumo à Libéria. Com os passaportes falsos Yolcaut, Tochtli e Mazatzin, se tornam respectivamente Winston López, Junior López e Franklin Gómez. A partir daí, a caçada pelo hipopótamo anão da Libéria começa. Bem, no final das contas Yolcaut acaba conseguindo um casal de hipopótamos, os chamando de Luís XVI e Maria Antonieta. Surgem alguns empecilhos, mas as coisas acabam se encaixando para um final simbólico.

Festa no covil é daqueles livros para devorarmos em uma tarde!

Dados do livro
Nome:   Festa no covil  
Autor: Juan Pablo Villalobos
Número de Páginas: 108
Editora: Companhia das letras
Nota: 7/10
Resenha: Festa No Covil - Juan Pablo Villalobos
  • Título : Resenha: Festa No Covil - Juan Pablo Villalobos
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  • Data : quinta-feira, 9 de outubro de 2014
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