segunda-feira, 22 de junho de 2015

Conheça Carlos Castelo, o piauiense que ganhou quatro Leões no Festival de Cannes

Não tem muitos dias a imprensa local anunciava em tons de festejo a modelo Laís Ribeiro, nova Angel da Victoria’s Secret. Bacana. Não sabe a mídia local que outro filho da terra de nome Carlos Antônio de Melo e Castelo Branco conquistou quatro leões: um de bronze, outro de ouro, aos 31 anos. Em seguida mais um de bronze e outro de prata, totalizando quatro troféus no Festival de Cannes. O Piauí só tem ciência do fato a partir de agora, através do Diretório Literário, que separou perguntas gerais a fim de traçar um perfil do piauiense.

Carlos Castelo (57) -também conhecido por Carlos Melo, entre outros- é cronista do Estadão, colaborou com a Folha de São Paulo e Revista Abril (entre outras), trabalhou em campanhas para a Brastemp (entre outras), tem passagem pela Agência FCB Brasil (entre outras), Fotógrafo, Jornalista, Publicitário (tomara que eu não tenha esquecido nada) e Escritor. Publicou (entre outros) Aqui Jaz, O caseiro do Presidente (poderia até soltar na rede boatos de que ‘Reminiscências do caseiro Genival’ é título inspirado neste seu livro prefaciado pelo cronista-mor e vivo dos campos brasilis, Luís Fernando Veríssimo, mas avante), Guia de Sobrevivência no Brasil, Faça Sexo Agora – Pergunte-(m)e Como, ainda o livro de aforismos Orações Insubordinadas, o romance policial Damas Turcas, o infanto-juvenil Caranguejo Bom de Bola e mais recente, de belíssima capa, Clássicos de Mim Mesmo. Carlos ajudou a formar e é dos principais compositores da Língua de Trapo, banda surgida nos bons anos 80, chegou a ser finalista do Festival dos Festivais de 1985, realizado pela rede Globo, com a canção “Os Metaleiros Também Amam”.

Algum leitor sem fôlego aí? Creio que aqui tenha esclarecido o motivo das 25 questions para esta entrevista.


#CarlosCastelo_Publicitário

01 – Porque ser candango em São Paulo e não em Brasília, visto que com a inauguração da capital federal, nosso único Distrito era destino certo de quem decidia tentar a vida no eixo sudeste/centro-oeste em 1960?

Porque meu pai, apesar de ser advogado, queria trabalhar no setor industrial. E São Paulo sempre foi o lugar para quem deseja atuar nessa área. Ele acabou virando empresário aqui.

02 – Esclarecido o que levou sua família a mudar-se do Piauí para São Paulo, agora você explica, por gentileza, o que o fez migrar do Jornalismo para a Publicidade. Não foi porque seria complicado ‘bater’ o Castelinho não, né?

Teve a ver mesmo com o fato de não caberem dois Carlos Castelo Branco num único jornalismo. O Castelinho, de fato, é insuperável. Então busquei ser o Carlos Castelo Branco da Publicidade - o que ainda estou a léguas de conseguir. Mas houve uma questão financeira (sempre) no meio. Eu trabalhava há uns sete anos em jornais diversos quando nasceu meu primogênito, Leonardo. O salário de copydesk de jornal era infinitamente menor que o de copywriter de propaganda. Fui atrás de uma melhoria material, obviamente. A lei darwiniana da competitividade/sobrevivência ainda não caiu em desuso lamarckiano.

03 – Com que idade, com qual trabalho e ano você ganhou premiação no Festival de Cannes?

Com 31 anos, em 1989. O comercial chama-se “Latas”, para a cola Araldite, da empresa Ciba Geigy.

04 - E a importância do prêmio na carreira, seja do escritor, publicitário, jornalista, afins, qual é?

Latas foi a maior nota de um comercial brasileiro no Festival de Cannes até hoje, disputou o Grand Prix com um filme espanhol. Uma Marta Rocha publicitária, digamos assim. Para o redator publicitário foi um abre-portas imenso. Para o escritor, uma experiência de vida singular.

05 - Onde difere o trabalho do Jornalista com o do Publicitário e em qual ponto se abraçam?

Dizia-se que o jornalista era pago para falar mal e o publicitário para falar bem. Mas com as mudanças trazidas pela internet - onde jornalistas-blogueiros falam maravilhas de certas marcas e publicitários abraçam causas sociais em seus vídeo-cases – as coisas parecem estar se invertendo rapidamente. Logo as duas atividades se abraçarão, o que não será nada bom. Nem para o Jornalismo, nem para a Publicidade.

06 – Um(a) bom/boa garoto(a)-propaganda e por que? A atual discussão sobre direitos, liberdade e inclusão de Gêneros já atingiu esse patamar?

A Publicidade é um reflexo da sociedade. Temos uma sociedade conservadora no Brasil. Basta ver a Publicidade dos países de Primeiro Mundo e a daqui. Logo, vai demorar ainda um bom tempo para que ela espelhe o que realmente acontece no tecido social.


07 - Recente matéria do Portal Imprensa trata sobre a nova reestruturação da Abril, editora onde você já atuou. A reestruturação fala de vendas de títulos como Revista Contigo, Tititi, outras e demissões de funcionários. A pergunta é: como percebe e ao que você atribui tais mudanças no mercado, inclusive com demissões em massa de jornalistas (tivemos caso recente em um portal aqui de Teresina) etc, além da extinção de algumas revistas e consequente retirada de circulação.

O mercado está muito confuso. Há uma evidência clara de que a mídia impressa está paulatinamente saindo de circulação. Mas, ao mesmo tempo, não se sabe no que isso vai dar. A situação me lembra a frase de Brecht que dizia que a crise acontece quando o novo já nasceu e o velho ainda não morreu.

08 - Qual a mudança mais sensível com o advento da internet no trabalho do Publicitário? Você possui amigos da sua geração que ‘não se atualizaram’ e foram engolidos pelo mercado? Pode nos contar algum caso em particular, mesmo sem citar nomes?

Muitos colegas meus foram engolidos. Eu acho que só não fui porque dei a sorte de me encantar pela internet desde o primeiro dia em que a vi. Sou de uma geração analógica e as coisas que a web faz me enchem os olhos. É mágico para um analógico ver tantas facilidades que ela proporciona. Mas muitos desses colegas, em vez de ficarem apaixonados, ficaram desconfiados com a grande rede. Alguns acreditam até hoje que estão sendo vigiados por ela. Mas ainda acho que não fui engolido porque, ao contrário de questioná-la, aceitei-a naturalmente. Não que eu seja um viciado, um megaconectado, escravo do smartphone etc, mas admito que há conquistas com a web.


#CarlosCastelo_Escritor

09 - O SALIPI (Salão do Livro do Piauí) deste ano encerrou semana passada. Uma palavra bastante atribuída ao evento é “vitrine” (para novos e já consagrados escritores), desta feita já tentaram trazê-lo para alguma edição do evento ou você por conta própria tentou contato com a organização ou não interessa?

Nunca recebi um só convite para eventos artísticos no Piauí. Talvez por não ser um piauiense no Piauí, nem um paulistano em São Paulo. Ou seja tenho uma certa vida de exilado. Mas ficaria muito honrado em participar do SALIPI ou qualquer outra atividade que valorizasse o meu trabalho como escritor fora do Estado de São Paulo.

10 - Ainda sobre prêmios e agora Feiras Literárias, há uma renegação por boa parte de autores contemporâneos a esses eventos, ou a rótulos como ‘badalação literária’ e ‘autores badalados’, por exemplo. O que mudou das premiações de 30 anos atrás para as atuais?

Não mudou nada nos últimos 30 anos. Talvez apenas os convites, que eram de papel antes e hoje são disparados de uma página específica no Facebook. Como autor de textos curtos, como crônicas e outras formas literárias de humor, acabo ficando um peixe fora d’água em tais eventos. O Mercado, desde sempre, não dá grande valor ao humorista, nem ao “feulleiton”, só ao romance-catatau e ao que vem de fora.

11 – Particularmente tenho curiosidade como uma fase na vida do escritor chamada “formação de público”, como você passou dessa etapa ou é uma constante?

Todo artista, mesmo dizendo que não quer influenciar, no fundo deseja muito isso. Quanto mais gente o estiver lendo melhor. Comigo não é diferente. Mas o que produzo não são propriamente livros para entrarem na lista dos mais vendidos da Veja. Por isso mesmo a formação de público para mim é uma constante. Quando acabo de escrever uma obra tenho consciência de que, daquele momento para frente, vou mudar de persona. Sai o escriba, entra o mascate.

12 – Quanto você usa da Publicidade para ‘vender’ seus livros? Vi que para o recente lançamento do livro “Clássicos de Mim Mesmo” (última publicação do autor) você criou uma espécie de dedicatória ousada, explique o sucedido, por favor.

Foi uma provocação, uma ironia. Lancei na internet uma espécie de dedicatória virtual minha, com assinatura e tudo. A pessoa podia imprimi-la e colá-la no seu livro sem precisar ir à tarde/noite de autógrafos – o que para muitos é chato e inconveniente. Vale tudo na hora de tentar conseguir vender 0,5% do que fatura o Paulo Coelho de direitos autorais.  



13 - Por que você aceitou escrever a orelha do livro “Reminiscências do caseiro Genival”? Conte a verdade, rsrs.

Porque me identifiquei com o autor. Um piauiense como eu que batalha diariamente para produzir um texto biscoito fino. E, claro, também sou fã da banda dele.

14 - Discorra mais sobre esta sua frase: “O texto está em tudo”.

Estou escrevendo as respostas para suas perguntas. Muitos a lerão. Outros a comentarão com mais palavras. Na mídia em que ela sair haverão mais termos, expressões e construções gramaticais contemplando os pontos de vista presentes aqui. E, assim por diante, em tudo o que envolve o mundo das ideias. As imagens são importantíssimas. Mas pode-se sobreviver sendo cego. Sem palavras não há existência humana possível.


#CarlosCastelo_LínguadeTrapo

15 – A banda Língua de Trapo surgiu a partir de?

A partir de um grupo de veteranos da faculdade de jornalismo Cásper Líbero. Eles não queriam mais trotes violentos nos calouros. E criaram uma semana cultural, com shows de música, um jornal e outras atividades afins. Um desses shows foi de um grupo chamado Laert e seus Cúmplices. E um dos calouros era eu. Deu no Língua de Trapo.

16 – Quais problemas a banda teve com a dita dura (separado mesmo)?

Censura a músicas dos discos e ameaças telefônicas de grupos de extrema direita.

17 – É possível um paralelo entre Língua de Trapo e Mamonas Assassinas?

O Língua de Trapo veio antes dos Mamonas Assassinas. Alguns de nossos integrantes veem semelhanças nos dois grupos. Pessoalmente enxergo no Mamonas apenas uma diluição comercial do trabalho do Língua de Trapo.

18 – Existe dificuldade de radiodifusão para as bandas conceituais atualmente ou é apenas reclamação de quem não faz acontecer?

Dificuldade sempre houve e sempre haverá para quem quer fazer um trabalho coerente e de qualidade superior. Tanto no Brasil quanto fora dele. É preciso muita fé cênica para encarar um Mercado mercantilista e um público refém dele.



19 - A banda cumpriu com seu propósito, se é que isso existe? Ainda atua?

A banda ainda atua. Não com a mesma intensidade dos anos 1980, nem com a formação original.  Na minha opinião, cumpriu o seu propósito, sim. Basta ver o público que vai aos shows atuais: volumoso e caloroso.


#CarlosCastelo_Piauiense

20 – Você ainda possui parentes no Piauí? Costuma visitar nosso Estado?

Tenho tios e primos. Não vou quantas vez gostaria de ir ao Estado, mas procuro não passar muito tempo sem visitá-los.

21 – “Das lembranças que eu trago na vida/Você é a saudade que eu gosto de ter”. Um cheiro, um sabor, uma cor, um artista, o que bate forte em seu peito que lhe recorda a Chapada do Corisco?

Um sabor. Adoro a comida piauiense. Do matrinxã à paçoca de carne seca, passando pelo pregadinho de arroz e o capote.

22 – Com a repercussão, entre outras coisas, do caso de estupro envolvendo quatro garotas de Castelo do Piauí e sua consequente veiculação na mídia nacional, é possível uma imagem que os paulistas fazem de nós, piauienses?

O caso do estupro em Castelo do Piauí foi, sem dúvida, uma animalidade inominável, é incontestável. Mas, por outro lado, incomoda muito o modo como alguns paulistas veem os nordestinos. Parece que para esses, ou somos serviçais ou marginais. Quando aparece um nordestino bem sucedido “deu sorte” ou roubou no jogo. É preciso que se lembrem mais vezes que quem construiu a cidade onde moram fomos nós.  



23 – Existe alguma comunidade, bairro em São Paulo com forte presença de mafrenses?

Na minha infância havia muitos piauienses na Parada Inglesa e no Jardim Japão. Hoje estamos muitos pulverizados pela cidade.

24 – Como você acha que seria hoje sua vida, caso tivesse ficado, crescido e trabalhado desde sempre no Piauí?

Pela teoria dos universos paralelos da Física Quântica há um lugar em meio a bilhões de planetas e estrelas onde existe um Carlos Castelo que ficou em Teresina. Creio que ele teria sido um advogado como seu pai. Talvez se especializasse no Direito e virasse um juiz. Mas, com toda certeza, acharia um tempinho para escrever livros e letras de música.

25 - Finalizando ao seu estilo, ou seja, com pergunta extraída de uma campanha publicitária, o que faz você feliz?

Ser lembrado pelos meus pares. Especialmente quando esses pares são do Estado em que nasci.




***
E olha só, no último domingo (21), Dia da Música, a Virada Cultural em São Paulo comemorou 30 anos do disco “Como é bom ser Punk”, da Língua de Trapo. A homenagem aconteceu no Teatro Municipal de São Paulo com show da banda executando o disco na íntegra. Ou seja, as lembranças e homenagens já começaram e por São Paulo, que o Piauí mexa alguns pauzinhos para além desta entrevista.

É válido ressaltar que no século XX o Piauí fez dois Carlos Castelo Branco, um bastante atuante no Jornalismo, lido e temido por políticos de todo o país, o outro com atuação profícua na Publicidade, ambas as áreas que formam a ciência irregular chamada Comunicação Social. Segundo dados colhidos na internet, Carlos (publicitário) nasceu em 1958 no Piauí e está radicado em São Paulo desde 1961, ano em que outro Carlos Castelo Branco (jornalista) já despontava no cenário nacional sendo Secretário de Imprensa do governo do Presidente Jânio Quadros, em seguida assumindo a presidência do Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, cujo auditório tal qual a biblioteca da UFPI e redação do O Olho leva hoje seu nome. Estamos falando no momento de Castelinho (como Carlos Castelo Branco era conhecido), membro da Academia Piauiense de Letras, do Pen Clube e ANE. Outra personalidade com idêntico sobrenome é o articulador e primeiro presidente do Golpe Militar Brasileiro de 64, Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. O ‘Alencar’ aqui advém da família do escritor José de Alencar. Há também uma cidade e um distrito português batizado de Castelo Branco, com orientação e fundação católica, contudo, isso é papo para outra publicação.


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