segunda-feira, 15 de junho de 2015

"O quadrinista brasileiro ainda é muito apegado a coisas tradicionais": Felipe Portugal fala sobre quadrinhos e seus projetos


Felipe Portugal tem desenhado desde 2011, já publicou na Libre! (HQ independente da galera dele que foi financiada coletivamente pelo Catarse) e Badonkadok, sua primeira graphic novel. A página do Facebook Dadaísmo em Quadrinhos, criação sua, tem quase 60.000 curtidas, o que acabou o tornando uma pessoa bastante conhecida nos quadrinhos piauienses (embora ele seja um paulista-maranhense) e até mesmo fora, já que tem participado de lançamentos em Feiras de Quadrinhos e outros eventos Brasil a fora. Nessa entrevista vamos falar de como ele começou a desenhar, como as coisas foram se desenvolvendo e o que ele anda fazendo no momento, além, é claro, de umas coisas randons que eu sempre quis saber.


Agostinho: Ouvia muito o pessoal dizer que tu não é de Teresina, nunca te perguntei diretamente isso. De onde tu é? Aproveita e diz um pouco de como começou a desenhar e a partir de qual momento também começou a pensar nisso como um modo de talvez ganhar a vida.

Felipe Portugal: Cara esse lance de onde eu sou é um grande mistério, entendeu? (risos). Porque nasci em São Paulo, só que só morei até os dois anos de idade lá e depois eu fui para Imperatriz no Maranhão. E lá que fui criado, então é meio que de lá que eu sou né, porque fui criado lá e todo mundo que conheço é de lá. Começar, começar, comecei a desenhar criança, riscando a cadeira da sala e depois limpando com detergente, mas comecei profissionalmente quando eu terminei de ler... eu já tinha comprado algumas HQs nessas feiras do livro por aí, mas eu nunca tinha pensado em desenhar uma, então foi quando eu comprei Scott Pilgrim e no final tinha um making off dele mostrando como é que ele fazia, que material ele usava. Eu pensei “olhai posso fazer também”. E aí foi quando eu comecei a desenhar inocentemente, fazia tirinhas com caneta bic e postava num blog daqueles blogspot antigão, tá ligado?

Acho que eu até vi isso. (risos dos dois) Teu blogspot inicial.

E aí fiz a página no Facebook e enfim, deu no que deu.

E porque foi que tu veio pra Teresina mesmo?

Cara eu vim pra cá pra estudar, na verdade eu vim pra cá pra fugir de onde eu tava. Porque onde eu tava morando, Imperatriz no Maranhão, era um lugar muito muito ruim e todos os meus amigos tinham vindo pra cá por que passaram no vestibular eventualmente e etc. Tava só eu lá, sei lá, trabalhando e ficando deprimido todo dia. E aí a primeira chance que eu tive de fazer o SISU eu botei pra cá e vim correndo.

E tu já postava coisas na internet desde Imperatriz?

Não cara, eu comecei mesmo aqui. O importante de Imperatriz foi porque como eu ficava mais em casa recluso e escrevendo ou fazendo alguma coisa, isso meio que ajudou a aumentar minha criatividade. Lá eu também trabalhava em uma agência de publicidade, eles ensinavam coisas tipo Photoshop que vieram eventualmente a ser úteis no meu trabalho. Mas eu comecei a desenhar, a postar meus desenhos, foi aqui mesmo.

Eu sei que tu não tá bem financeiramente. Não tá ganhando dinheiroooo dinheirooo com quadrinho e talz.

Como é que tu sabe? Onde é que tu leu isso? (risos dos dois)

É meio evidente com tuas postagens na internet. (Risos dos dois). Mas pelo menos agora, desde que tu começou a publicar na internet as coisas, tem um público base. Mas o que foi que te fez continuar desenhando? Por que deve ter tido momentos que tu pensou que talvez não fosse dar certo, talvez até mais recentemente tu já tenha repensado se dava pra desenhar ou não. O que te manteve nisso? Continuar fazendo desenho, botar na internet, tentando vender também os livros que tu produz.

Então. O grande objetivo de eu desenhar como um todo não é que eu veja exatamente isso como profissão. Tanto é que eu faço História. Eu quero que isso no futuro se torne uma profissão, mas no começo eu não via. O grande lance de desenhar pra mim é o fato de você poder se comunicar com as pessoas. Porque quando desenho, quando escrevo alguma coisa, de certa forma tem um feedback das pessoas, elas falam algumas coisas e etc. E assim, você interagir com as pessoas, e ter que sair de casa pra isso e fazer vários amigos não era uma coisa que me chamava tanta atenção mas eu queria me comunicar com as pessoas. Nos quadrinhos eu encontrei meio que uma porta de entrada, porque agora desenho e as pessoas vêm falar comigo sobre os desenhos, encontrei amigos que desenham também de outros estados, de outras cidades e é como se eu tivesse encontrado um lugar pra mim. E é isso que me mantém desenhando, por que quando eu passo muito tempo sem desenhar, recentemente eu tinha passado por uma crise muito foda, 2014 foi um ano complicado porque produzi muito pouco. Eu me sentia meio fora do planeta sabe, porque quando eu fico muito tempo sem desenhar eu não falo com muitas pessoas, não tem aquele negócio de conversar sobre quadrinhos, sobre narrativa, nem nada. Eu sinto muita falta no meu cotidiano.

Além do Scott Pilgrim, quais as outras influências que tu considera no teu tipo de desenho? Ou que pelo menos te fizeram animar pra tentar desenhar e tal.

Hum... Cara, a princípio, as minhas primeiras referências de desenho foram mangás. Eu lia muito Dragon Ball, lia muito Slam Dunk, lia muito Yu-Yu-Hakusho.

Isso tá muito naquela... bandon.... eu não sei falar o nome daquela tua HQ não, bandon...

Badonkadonk

Eu não sei falar isso direito (risos dos dois)

Ninguém sabe, só eu sei. Enfim, conforme eu fui começando a ler outras coisas, graphic novels europeias, norte-americanas, algumas outras coisas serviram de influência pra mim. Robert Crumb é um nome que eu vejo que é forte no meu trabalho em algumas coisas, Laerte, Odyr, tu conhece o trabalho do Odyr Bernardi? Ele é de Curitiba, ele é muito bom cara. Os trabalhos do Moebius com certeza me influenciam bastante. Do pessoal da L'Association que é uma editora francesa que tem o Burle, Killoffer, tem vários quadrinistas franceses que são influências pra mim.

Como tu conseguiu arrumar esses caras lá em Imperatriz do Maranhão?

Cara, isso é curioso. Por que quando rolou a feira do livro foi um estande lá que eu até esqueci o nome. Mas aí tipo tinha uma sessão toda de quadrinho e tudo mais, ai eu comprei Genesis do Robert Crumb, comprei Scott Pilgrim todinho e aí teve uns outros que eu furtei. (risos). Eu tava sem dinheiro. (mais risos)

Acontece (risos mais intensos dos dois)

É porque na feira do livro todo mundo tá com um livro na mão ai você abre um livro e meio que sai assim e ninguém vai te questionar porque você tá com o livro na mão.

Tu falou aí que conheceu um monte de gente de vários estados. Eu te considero uma das pessoas de Teresina mais conhecidas por coisa que fez na internet.

Eu sou uma minor-celebrity da web (risos).

Mais ou menos (risos). Mas a maioria das pessoas que contribuem contigo são de outros estados. Como é que tu conheceu esse pessoal?

Cara foi meio que me metendo mesmo, eu adicionava eles lá e “Pow, gostei do teu trabalho, por algum motivo” e depois eu vi que isso é meio que o modus operandi do pessoal. Todo mundo fica se adicionando e falando. Só que assim, são poucos os que eu consegui me comunicar de forma que nosso trabalho meio que convergiu e a gente começou a fazer coisas juntos. O Diego (Sanchez) é uma dessas pessoas, eu comecei a falar com ele só porque eu gostava do que ele fazia e achava massa os desenhos dele. Aí ele notou que eu tinha uma página grande no Facebook e meio que quis se juntar comigo pra eu ajudar ele e ele me ajudava dizendo coisas sobre desenho e dando algumas dicas e agora somos praticamente sócios, fazemos tudo juntos. Ele tá editando o novo livro que eu tô fazendo agora e tal.

E gente daqui, tu não conhece o pessoal que faz aqui?

Cara, eu conheço o pessoal daqui. Só que assim, é quase que uma coisa mitológica sabe (risos). Eu vejo uma vez na vida. Eu gosto muito do Narciso, gosto muito das coisas do Bernardo da Quinta Capa, do Caio, o irmão dele, só que como eu saio bem pouco de casa eu vejo bem pouco o pessoal e acabo não me conectando tanto com eles. Vejo mais na feira da HQ, às vezes quando vou jogar Magic na Quinta Capa...

Tu já participou de alguma Feira de HQ?

Já, já participei com a Libre! Na verdade eu ganhei o prêmio da Feira HQ de melhor publicação alternativa.

Foi ano passado?

Não, ano retrasado, 2013.

Pra mim tudo foi ano passado. (risos dos dois). Teve um tempo que tu quis fazer música. Uns covers e talz. Porque tu desistiu mesmo?

Assim, nós estávamos desestimulados de ficar tocando cover, porque gostávamos mesmo era de compor. Aí um dia a gente veio tocar aqui no auditório da UFPI pow, e roubaram nossa vez, tocaram na nossa frente, fomos a última banda. Tocamos pra quatro caras, sendo que três estavam bêbados e um era amigo nosso (risos). E depois que a gente tocou foi pegar os instrumentos pra ver e tinha sumido peças da bateria, tinha sumido um pedal, uma estante da caixa, ficamos muito desestimulados e falamos “não velho, vale a pena não”. Por que tu toca, aí cada um ganha no máximo 50 reais, pra uma noite de perrengue, sabe? Não rola. Pelo menos não pra mim, pelo menos não agora.

Voltando aqui um pouco pra essa parte do quadrinho e internet. Foi tu que começou o Dadaísmo em Quadrinhos?

Um rum, sim.

Como é que foi?

Foi bem despretensioso, se eu soubesse que ia se tornar o que se tornou nunca teria dado esse nome merda pra página. Por que a proposta era fazer histórias nonsense, eu tava vendo muito Monty Python no tempo e pensei “cara eu queria imaginar como seria Monty Python em tiras”, entendeu? Aí eu botei lá Dadaísmo em Quadrinhos e tal, criei, só que de repente, eu não lembro o que é que foi... Foi uma tirinha que eu fiz sobre sertanejo universitário! E aí começou a galera metaleira a compartilhar, dizendo “é, isso aí, essa porra ai não sei o quê, funkeiros fodam-se”. E aí de repente a página cresceu e foi um efeito viral muito grande. Porque o Facebook já tinha começado, mas esse lance de fazer uma página só pra você postar suas coisas não era uma coisa muito comum. Começou a crescer crescer crescer, enfim, meio que saiu fora do meu controle e foi isso. Não foi nada planejado.

Eu considero uma página bastante popular. Eu nem te conhecia direito na verdade na época e eu já via um monte de amigo meu de São Paulo, do Rio, do Rio Grande do Sul, os caras tudo compartilhando. Eu acho que de certa forma o resultado máximo daquela página foi a Libre! né?

É, sim.

Porque vocês resolveram fazer a Libre! e porque escolheram o financiamento coletivo? Qual a ideia? Vocês achavam mesmo que iam conseguir aquela quantia?

Era o seguinte. O pessoal que participou da Libre! nós éramos todos quadrinistas que postavam em página do Facebook ou em blog, alguma coisa assim. A gente sofria um leve preconceito da galera do impresso. Diziam que nosso quadrinho era emo, essas coisas. A gente não tinha um lugar dentro da cena de quadrinhos nacionais. Eu falei com o Diego “Diego cara, vamos fazer uma antologia, vamos pegar as coisas que a gente escreveu nesse ano e colocar num livro e vender, a gente pode fazer um lançamento em algum lugar e alguma coisa do gênero”. Aí o Diego curtiu muito a ideia e resolvemos fazer no Catarse porque estava muito popular na época, tinham vários projetos de quadrinhos que tavam dando certo no Catarse,  e precisávamos de grana, por que não tínhamos um tostão. E chamamos outras pessoas próximas da gente, como o Daniel Cramer, a Laura Lannes, Vidi Descaves, chamamos um monte de gente que achávamos que fazia um trabalho parecido com o nosso. Eu chamei o Lucas (Maciel) também, chegou a conhecer o Lucas?

Não. Bicho, eu gosto muito é daquele Pedro Cobaiato... né?

Pedro Cobiaco.

Ele não tava não?

Não, não. Eu não falava muito com ele no tempo não. Mas eventualmente a gente foi fazendo umas coisas juntos. Enfim, fizemos o Catarse e eu tava com muito medo. Por que nossa meta era R$ 7.000 e eu pensava “velho, ninguém vai comprar isso pow, sério”. Por que até aí a página tinha sei lá, 15.000 likes. Mas eu achava que era só tipo vovozinha que gostava de compartilhar no zapzap, sabe. “Oh a tirinha, o gibizinho do menino” (risos). Só que eu não tinha a real ideia de que o pessoal podia realmente se interessar em comprar. E na primeira semana conseguimos R$ 9.000. Já na primeira semana. E eu fiquei tipo “caralho, que foda”. E aí fizeram matéria com a gente no Globo, Folha de São Paulo, um monte de coisa assim. Por que era uma coisa nova esse negocio de financiamento coletivo, ainda mais pra página de internet que não tinha nem um ano de existência. Acabou tendo uma repercussão legal e acabamos terminando a campanha com R$ 14.000 e alguma coisa arrecadados e eu fui pro Rio e foi muito massa cara. A Libre! foi importante pra minha carreira, abriu várias portas, conheci várias pessoas. Mas hoje em dia eu já acho uma merda as coisas que tem na revista. Por que são coisas muito antigas cara, eu não sabia nem desenhar direito.

Na verdade, bicho, eu gostei individualmente de cada coisa, mas não tem consistência como...

Não tem unidade. Exatamente.

... uma revista, enfim. De certa forma, como tu tá dizendo, tu conheceu os caras pela internet, pelas páginas, se juntaram e fizeram a Libre!. Recentemente vocês tentaram um projeto que não deu certo o financiamento, né?

Não deu certo cara. Por que o financiamento coletivo no Brasil pra quadrinho meio que perdeu a força, porque eu não sei, parece que o público meio que acha que já fez sua parte apoiando diversas coisas antigas e agora você sente certa dificuldade de engrenar um projeto no Catarse.

Mas de certa forma tu acha que vocês formam um tipo de pequeno movimento? Alguma coisa do quadrinho independente? Por que vocês são uma galera que tem uma ideia com certa coerência, tu mesmo disse que começou a conversar com alguns caras e acabou coincidindo um pouco uma ideia do que fazer com o desenho. Vocês se consideram, vocês pensam alguma coisa como um coletivo? Como um grupo, um pequeno movimento, alguma coisa nesse sentido?

Cara...

Porque tem certas pessoas que se repetem constantemente quando tu tá, por exemplo, o Diego Sanchez...

Sim.

Tem um pessoal que fica se repetindo, então vocês já pensaram em algum momento nisso?

Olha Agostinho, é como se fosse assim: É um nicho de um nicho de um pequenoooooo nicho, aí é a gente. Por que o quadrinho independente nacional já é um nicho. Não temos uma mídia pra falar sobre a gente, não temos publicações constantes e consistentes pra dizer realmente que tá sendo um movimento, temos alguns ícones como Rafael Coutinho, Fábio Moon e Gabriel Bá, Laerte, Marcelo Quintanilha, Rafael Grampá, temos alguns nomes...

A questão é que para vocês serem movimento em algum momento vocês primeiro tem que se pensar como movimento, mesmo que não tenha nada tem que primeiro ter a ideia de se pensar como isso.

Não, eu concordo contigo. A gente se vê como movimento. Só que é como show de banda autoral que só vão caras que também tem banda, entendeu? (risos). Geralmente a maioria da galera que vai em Festivais de Quadrinhos é gente que também desenha, não tem o povão.  O FIQ que deu muita gente mesmo foi o do Maurício de Souza, que é de 2011. No do Laerte já deu menos gente. E tem alguns pequenos festivais que agregam todo mundo. Só que dentro desse nicho do quadrinho independente eu considero sim que a gente é uma coisa a parte. Por que um fenômeno interessante é que quando eu comecei a desenhar em 2011-2012 todo mundo era muito amigo. Eu meio que stalkeava os meus autores favoritos e via que ia a mesma galera pros mesmos eventos. Eu pensava “pow, quando eu tiver pronto, tiver publicando minhas coisas, vou falar com essa galera”. Só que isso não aconteceu, meio que se separou, isso caracteriza um movimento, de certa forma. Ideias divergentes dentro do próprio movimento, já tem gente que faz quadrinho feminista, tem gente que faz quadrinho de humor zoando os quadrinhos feministas, tem gente que faz quadrinho de humor zoando quem zoa os quadrinhos que zoam as feministas. E assim por diante, rola meio que uma divergência de ideias e eu acho isso muito importante dentro da construção da cena.

Tu falou de certa forma que não chega no povão e etc. Mas o grande problema na verdade é o de toda publicação: a distribuição e o lugar pra vender esse tipo de coisa.

Sim.

Por exemplo. Aqui em Teresina, onde é que a gente tem? Tem só a Quinta Capa, e ainda não é bem localizada pro povão ir. Ter que vir bem aqui assim (perto da UFPI) é meio tenso.

O reflexo dela não ser tão bem localizada é exatamente o fato do pessoal comprar pouco, então o pessoal não tem um dinheiro pra ter uma infraestrutura foda no centro, shopping, alguma coisa do gênero.

Esse é um problema até mesmo com publicação de livro independente. É como distribuir sua produção.

Sim.

Eu acho que por isso que nesses eventos vai a galera que desenha e fica lá pensando no que fazer e...(risos)

Pois é, é o grande momento. Por exemplo, tô fazendo uma publicação agora e acho que vou imprimir 500 cópias. Eu tô pensando que ela vai começar a vender mesmo quando eu for no FIQ e Comicon no final do ano. Então é uma coisa que tu já faz planejado pra um evento que vai querer levar tuas coisas e tal. Funciona muito assim o quadrinho brasileiro. Claro que tem os quadrinhos que vão pras livrarias, mas é como eu falei, são alguns poucos nomes que representam um sucesso nessa área.

Tu não acha que falta um pouco visão “empreendedora” de vocês que fazem essas coisas? Pow, tem 50.000 likes, 60.000 likes numa página, dá pra conseguir tirar uma grana daí mesmo sem nada a ver com editora.

Com certeza. É porque eu sou meio estúpido cara. Não consigo... quando eu penso em tentar convencer alguém a comprar meu quadrinho eu já penso que tô errado. Na minha cabeça as pessoas têm que olhar e tipo “ah, interessante”, ir lá e comprar. Por que eu não consigo ficar tipo “HEY, OLHA AQUI”. Ou tentar sei lá, fazer camisas e canecas: “olha esse chaveirinho do Badonkadonk”. Não consigo ser assim. Entendeu? Por isso que o artista nacional tem que meio que sair da sua zona de conforto pra dar certo. O Rafael Coutinho, ele é filho do Laerte, e é um dos quadrinistas mais atuantes do Brasil. Toda hora ele tá fazendo algum projeto que envolve não só quadrinho mas outras coisas que podem ser rentáveis. Ele faz eventos, faz pôsteres, calendários, ele faz revistas periódicas, ele faz projetos de publicação postal, tinha um projeto que eram quadrinhos enviados por cartas que você comprava e meio que comprava o original e o autor te enviava. E ele media tudo isso. Falta isso no quadrinho nacional. Falta alguém com uma visão mais ampla, que eu por exemplo não sou, porque não tenho maturidade pra isso ainda, eu espero que um dia sim. Mas alguém com outras iniciativas, com uma visão mais ampla pra poder reinventar a forma de distribuição de conteúdo.

A gente tá numa época que até o modo como vocês conseguiram se divulgar foi com a internet e tudo mais, então já existem meios de romper o mercado editorial. Só que no Brasil ainda é um pouco complicado de conseguir fazer essa transferência de digital e físico, mas ao menos alguma coisa tá caminhando. Eu acho que o pessoal desse independente da internet é quem vai dar um pouco de rumo pra esse tipo de escoamento de produção sem precisar das editoras. Mas isso aí é como tu tá dizendo, vai precisar chegar um grupo e focalizar um projeto que a galera se agregue também. Vamos ver aí com o tempo, por exemplo como o pessoal tá fazendo com a música nos Estados Unidos com aquele negócio de Tidal, não sei o quê, que é tentando defender seus próprios direitos (autorais) mas também tirar a distribuição das produtoras musicais.
Sim.

Talvez em algum momento. Vamos ver aí se acontece alguma coisa do tipo.

É...

Agora umas perguntas mais randons. Tu falou de mangás, tu não gosta de super-herói normal? Marvel ou DC da vida?

Cara eu gosto daquela reformulação que rolou a partir dos anos 70-80 com Frank Miller, Alan Moore, enfim, eu gosto muito de Sin City, que não é exatamente quadrinho de super-herói tradicional, mas é meio que dentro do underground e um pouco mainstream. Ah... mas eu não leio muito não Agostinho, não tenho paciência, sabe? Por que mangá já, é sério, mangá já tira muito do meu ímpeto de ler um zilhão de volumes sobre a mesma coisa e uma história de trinta mil arcos. Aí se eu for entrar no mundo dos super-heróis aí que não vou fazer mais nada, só ficar lendo.

Vai passar 40 anos lendo só um... (risos)

Exatamente.

Tu falou do pessoal da produção nacional. Hoje em dia tem alguns autores que estão até com destaque de nível internacional já. Tu lê essa galera toda?

Leio cara. Eu tive uma fúria muito grande de ler quadrinhos nacionais quando comecei a fazer. Porque eu meio que queria ver como é que essa galera fazia, o que é que o quadrinho nacional tinha que podia me oferecer. Eu meio que comecei a ler e como essas paradas assim são, claro que não tem na livraria, mas tu pode mandar um e-mail pro autor e pedir, então são coisas próximas. Eu li o Cachalote do Rafael Coutinho, lembro que mudou a minha cabeça sobre quadrinhos. Tu já leu?
Já.

Bicho, é muito foda. Mudou minha cabeça dos quadrinhos, eu enxerguei várias possibilidades, influências do cinema, da literatura, dentro daquela parada assim. E eu também leio os gêmeos (Bá e Moon), leio todo o pessoal da internet.

É interessante que tu fala das influencias da literatura e de outros meios mas se for ver isso é muito influenciado justamente pelos quadrinhos de super-herói. O modo de fazer, misturar aquelas coisas mais pós-modernas é Alan Moore, é Grant Morrison.

Sim o Grampá principalmente. Tu já leu a... Mesmo Delivery?

Não, não li.

Enfim, esses quadrinistas meio que abrem a porta. Por que o Coutinho já foi publicado em Portugal, o Grampá hoje em dia escreve roteiro pra Warner, os gêmeos ganharam o Eisner, de certa forma abriram as portas, essa que é a verdadeira geração nova geração quando a gente fala...

(trabalhadores gritando ao fundo da UFPI e o Felipe para de falar)
(alguns risos, caretas e a conversa continua)

Enfim, quando falamos em nova geração dos quadrinhos nacionais a gente fala desses caras, que estão abrindo as portas, que estão transformando o quadrinho nacional de uma coisa de banca pra uma coisa de livraria e que tem uma influência. Por exemplo, o Marcelo Quintanilha que eu falei, tem uma história chamada Tungstênio agora, que foi muito bem recebida pela crítica. Crítica (risos). E ela também vai ser publicada em Portugal, são essas pessoas que me influenciam bastante e mostram os canais de publicação. Os clássicos também, eu leio muito Piratas do Tietê, Angeli, Laerte, hum, até algumas coisas antigas do Maurício de Souza, o Pasquim, sabe?

Mas me diz uma coisa, tu falou de trazer os quadrinhos pra livraria. Mas há necessidade realmente de estar nas livrarias? Pra ser levado a sério tem que tá na livraria? Não pode ser de outro modo?

Não, acho que não. Mas pra crítica é uma coisa importante sim.

Essa discussão ela já é...

Bem idiota.

... sempre existiu no quadrinho. “Esse negócio de graphic novel, isso não é nada, é quadrinho normal, só tá mudando o nome” e tal.

Sim, sim. Pois é.

Às vezes eu acho estranho a galera preferir estar na livraria do que distribuir de outras formas.

Eu vou ser bem sincero. Em termos de lucro estar na livraria não compensa tanto quanto você fazendo iniciativas independentes. Por exemplo, quando eu imprimi Badonkadonk eu fui pro FIQ e consegui pagar minha viagem, pagar o hotel e pagar tipo a alimentação lá em quatro dias de evento. Só vendendo minhas coisas, o que pra eu conseguir com uma publicação consignada por uma editora eu ia demorar um ou dois anos. A vantagem que a editora te oferece é a distribuição, por que você vai tá na livraria cultura, vai tá sei lá, na... diz outra livraria... Submarino...

Saraiva.

Saraiva... você vai tá nesses lugares. Então seu trabalho vai ter uma repercussão muito maior. Eles conseguem divulgação em jornal, divulgação em revista, você vai estar lá entre os mais vendidos da Veja (risos), alguma coisa do gênero. Mas o quadrinista brasileiro ainda é muito apegado a essas coisas tradicionais. De achar que tem que ser publicado por editora, achar que tem que tá na livraria, mas às vezes nem tem, as vezes tem que tá aí, sabe, as vezes só tem que tá por aí.

Tu acha que é como a galera metida a liberal diz? Que basta ser bom e ir fazendo que as coisas vão dar resultado em algum momento?

Hum... não. Tu tem que ter um pouco de sorte. Tem que ver o momento certo pra fazer tuas coisas. Porque se eu tivesse começado a desenhar agora, com esse boom do Facebook, eu não ia conseguir chegar tão longe, porque já ia ter tipo 500 caras que nem eu fazendo a mesma coisa. Ia virar só um na multidão, sabe? Pra você conseguir fazer sucesso tem que realmente acreditar naquilo e você pode com certeza sobreviver só sendo bom. Mas pra você conseguir ser graaannnnde, alcançar aquele sonho de ser o rockstar da parada, é uma junção de momento certo, com você ser bom e ter visão e tudo mais. Eu não acho que eu tenha isso não, mas eu tive um pouco de sorte.

E pra ti o que é mais importante em desenhar?

Hum... cara, as vezes eu desenho só porque eu já desenho, mas é só às vezes. Por que eu gosto também de escrever, eu gosto também de tocar e etc. Mas eu gosto de desenhar porque a possibilidade narrativa do desenho enquanto você cria o mundo e todas as coisas é a que mais me dá prazer de fazer. Quando eu comecei a fazer Badonkadonk, bicho, eu tinha que fazer em quatro semanas antes do FIQ e isso assim, é praticamente impossível, né? Por que é uma história de 80 páginas. Então eu acordava, ficava de 8 as 12 desenhando, depois de 2 as 6, aí depois de 6 até umas meia-noite ou uma da manhã. Desenhando direto e eu só conseguia fazer porque era muito muito prazeroso, era muito bom  você criar o personagem e colocar ele no lugar x. É como se tivesse um filme saindo da tua mão. Sem precisar de atores, sem precisar de câmeras, de porra nenhuma, tu pode criar exatamente a coisa que tu quer e pode pegar as sensações do leitor, exatamente a sensação que tu quer. E é uma coisa muito, muito bonita. Além dessa minha necessidade de me comunicar com as pessoas.

Também é muito esforço, porque eu só escrevo e já fico morto quando escrevo duas horas. Imagina o cara desenhar tudo isso.

Pois é, meu irmão minhas costas... vou ter que fazer pilates cara.

(risos do Agostinho)

Tô falando sério, não tô mais aguentando cara. Chega de noite eu tô tipo “ahhhhh” (choro falso).

Acho que nesse tempo que tu desenhou esse tanto tu devia tá perto de morrer cara, porque pra desenhar tudo isso...

Cara é porque eu queria muito... era minha primeira graphic novel, então tava tipo rampage, beserker do desenho. Mas acho que hoje em dia eu não conseguiria fazer uma parada dessas de novo não. Fez muito mal pra minha saúde, no final do dia minha cabeça tava tipo “zoooommmmmmmm”.

Tirando a Ban..... (risos) como é que é o nome?

Badonkadonk.

Cara não consigo dizer esse nome de jeito nenhum (risos). Tirando ela. As tuas outras coisas são mais auto-ficção, não é?

É...

São mais tu aparecendo como personagem principal.

Sim. É que eu sou egocêntrico.

Tem que ter muita coragem pra falar certas coisas que tu fala naqueles quadrinhos. Por exemplo, aquela questão do teu pai que às vezes aparece numa ou noutro quadrinho é...

Ele tem Facebook, acho que ele até vê de vez em quando (risos).

Mas teu pai foi ausente mesmo?

Foi cara, foi bem ausente.  Só consigo falar nas tirinhas do Dadaísmo em Quadrinhos sobre as coisas que acontecem comigo, porque são coisas que tão frescas na minha cabeça. Por exemplo, quando você tem uma ideia, pra você digerir ela com o passar do tempo a tendência é você ver essa ideia como se fosse uma merda, sabe? O Dadaísmo em Quadrinhos e as coisas que eu posto só dão certo porque são coisas que tão acontecendo comigo naquele momento e eu boto pra fora e pra mim ainda parecem frescas enquanto tão ali desenhadas. E assim, meu pai foi bem ausente na verdade, ele desenha também, mas foda-se. (risos). E eu fui embora de São Paulo com dois anos, que minha mãe tava meio que fugindo dele (risos). Ele meio que foi ausente na minha criação e tal. Às vezes eu brinco com isso, coloco numa tirinha ou outra. E coloco coisas da minha vida mesmo, às vezes coisas que tão me deixando mal. Acho que as pessoas percebem, mas eu não tenho medo não sabe Agostinho, acho que uma parada que é sinal de que você tem coragem ou que você, sei lá, não tem medo, sendo que isso é coragem mas pode ser outra coisa também, é você conseguir admitir suas fraquezas. E no meu caso eu admito minhas fraquezas pra 60.000 pessoas (risos).

Quando tu desenha é mais uma coisa natural ou tu pensa em toda forma da mídia quadrinho, o que tu pode conseguir com aquele tipo de mídia?

Agostinho cara, isso de pensar... Badonkadonk (risos) é engraçado que eu fiz ela sem saber o que eu tava fazendo. Eu só comecei a desenhar, eu não tinha roteiro, por isso saiu aquela bosta, eu não tinha ideia de quantas páginas iam ser, só ia desenhando. No começo, quando eu fiz minhas coisas e que eu lia que o Moebius só começava a desenhar sem roteiro nenhum, eu achava isso super foda, só que com o tempo eu comecei a inevitavelmente achar e ler coisas que me faziam pensar o quadrinho como um todo. Tu já leu Asterios Polyp do Mazzucchelli?

Não.

Já leu Jimmy Corrigan?

Já.

Pois é. Esse tipo de publicação me faz pensar que...

Quadrinho sobre fazer quadrinho.

(risos) Exatamente! Me faz pensar que com certeza o estudo vai fazer com que tu evolua muito, sabe, por isso agora nessa nova graphic novel que eu tô fazendo, eu penso o roteiro, o estilo, a diagramação, e nos recursos visuais que eu vou usar de cores, mas penso também em deixar a coisa fluir naturalmente. Enfim, eu tô deixando a coisa fluir naturalmente porque se eu não vejo uma coisa de momento ali, eu não sei como explicar, por exemplo, se tu tá muito na vibe de ler sobre Steampunk, ai tu “caraca quero fazer uma história de Steampunk”, aí tu pensa, coloca as coisas que gosta lá, mas se tu não tiver ainda aquela vibezinha no momento em que tá escrevendo, tu meio que perde a vontade. Isso acontece comigo, meio que perco a vontade de desenhar se não tiver uma coisa muito forte me puxando praquilo ali.

Tu falou que vai fazer uma graphic novel agora e tal. Pode dizer como é que é? Sobre o que é?

Posso sim. Na verdade como o Catarse do Circuito Ambrosia não deu certo alguns autores, os queridinhos deles, eles resolveram publicar ainda que não desse certo. Eu fui escolhido como um deles e a minha HQ é um pouco autobiográfica, mas é muito inspirada em dois filmes que eu assisti e que realmente mexeram muito com a minha cabeça. Um é Eternal Sunshine Of The Spotless Mind, aquele do Jim Carrey, tu tá ligado? E o Her, do Spike Jonze. Eu nunca escrevi uma graphic novel sobre relacionamentos, eu sempre escrevo só tirinhas, porque quando eu vou escrever uma história grande eu acho que “too much” sabe, não preciso me expor tanto. Mas agora eu meio que vi a necessidade de colocar pra fora todas as minhas ideias sobre um relacionamento. Então a história se trata de um cara que vai com a namorada pra uma casa de veraneio que é da família dele, eles costumam comemorar sempre o natal por lá, só que dessa vez ele vai pra lá, chega e não tem ninguém. A casa tá topada de neve até a porta e tá tudo bagunçado lá dentro e ele não sabe o que aconteceu. E aí a história conta através de flashbacks o relacionamento deles, algumas coisas que te façam entender e questionar o motivo dele estar ali, o motivo da casa estar assim. É basicamente isso.

Eu acho que tá bom. Tem alguma coisa mais a acrescentar aí?

Não... na verdade nenhuma.

Pois valeu pela conversa, bicho.

Oh cara, eu que agradeço. (risos)
(assovios sei lá de quem encerram a conversa)

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