segunda-feira, 29 de junho de 2015

Minha Teresina não muda jamais - Comparativo entre a capital dos anos 40 e a de hoje a partir do livro Palha de Arroz de Fontes Ibiapina

“Por que o homem ainda não solucionou o problema do homem?” (Fontes Ibiapina em Palha de Arroz)

Palha de Arroz é um romance histórico publicado uma década após a obra de estreia “Chão de Meu Deus” do picoense Fontes Ibiapina, juiz, vencedor, entre outros, do Prêmio Nacional do Livro em 1982 com “Vida gemida em Sambambaia”, portanto em 1968. Meu contato com o romancista vem desde a infância, uma escola no bairro vizinho ao meu leva seu nome. Anos mais tarde, possivelmente em um folheto desses de revisão para vestibular (sou dessa época), descobri que uma obra do autor seria cobrada para o exame admissional ao ensino superior. Bem, se era ou não material de vestibular tanto faz, ali nascera minha vontade de ler o romance e pus na cabeça que só o faria caso ganhasse o livro como presente de alguém, o que não aconteceu, óbvio, Capitães de Areia e Palha de Arroz foram livros que passei a adolescência esperando alguém me dar/doar/emprestar e enfim, acabei assistindo a adaptação do livro de Jorge Amado para o cinema, o livro do piauiense adquiri em um Salipi da vida.


Como escritor notabilizou-se por ajudar a manter viva as tantas tradições de nosso Estado. No escrito ora analisado, Ibiapina traz passagens de fatos ocorridos no Piauí dos anos 40, que podem ser encontrados em jornais e publicações da época. É o caso dos incêndios responsáveis por dizimar lugarejos inteiros, (o próprio Palha de Arroz, título da obra), matar queimados moradores e ser usado como subterfúgio para prisões irregulares de inocentes, apontados como suspeitos dos fogos criminosos e de estratégia política. Além de outros, como a ampliação do núcleo policial na capital e o atentado ao pequeno jornal O Piauí (oposição), além do abandono de fábricas e usinas. Avançando na contextualização do romance, o autor cita, por diversas vezes, passagens da história referentes ao Estado Novo (fase ditatorial do governo Getulista) em nível de Brasil e a Segunda Guerra Mundial em âmbito internacional, ambas responsáveis pelo desamparo e vida difícil levada pelos pobres brasileiros, pois que tempo teriam os governantes para pensar em seu povo quando havia uma situação de guerra no mundo, assim questiona o principal personagem da trama, Pau de Fumo. Também conhecido, por Chico da Benta, Pau de Fumo era ladrão por força do destino. Havia estudado no Colégio Diocesano o primário, porém a morte do pai o obrigara a deixar a escola. Sua situação de pobreza o levou a atuar em pequenos roubos para o sustento da família, formada inicialmente pela esposa Genoveva e três crianças.

O livro inicia com Pau de Fumo fugindo da polícia e abrigando-se na casa da prostituta Maria Preá, com quem mantinha relações fora do casamento, ou melhor, nas tais noites de fuga. Para forçar a prisão do negro, a polícia decide então prender Genoveva. Já preso, Pau de Fumo consegue ver pelas grades da cela um incêndio na região de sua casa, mais precisamente às margens do Rio Parnaíba no Palha de Arroz. Entre agressões e maus-tratos, descobre que das palhoças dessa vez consumidas pelas chamas está a sua. Todos seus pertences (que não eram muitos) destruídos e mais, sua filha Zefinha morre queimada, fato que leva a esposa à loucura. Todas as atitudes tomadas por Negro Parente (melhor amigo do personagem principal) e Pau de Fumo são feitas a partir do desejo de melhorar de vida. Os dois vivem conflitos internos com suas ocupações na narrativa, este ladrão e aquele “pescador de defuntos”, ou seja, resgatava os mortos no rio em troca de dinheiro, profissão exercida no futuro por seu filho Antonino. Negro Parente só deixou de buscar corpos sem vida no fundo do rio quando em seu máximo de aperreio viu na pistolagem meio de ganhar dinheiro muito e fácil. Além do mais, o pescador previa a degradação e o baixo volume das águas de nosso rio já ali nos anos 40 do século passado, fato que não lhe garantiria nada na velhice. Observa-se certa moral em Negro Parente, pois o agora “caçador de gente” tinha para si que só mataria por dinheiro quem já possuísse morte nas costas e assim foi com Chico Papagaio, sua primeira vítima em uma emboscada. Parente chega a convidar Pau de Fumo para ingressar na área, porém o amigo nega-se a matar quem quer que seja e explica que apenas cometeria tal ato em (último) caso de legítima defesa, esclarecendo que rouba por necessidade e também só tira de quem tem com que tirar.

Negro Parente fazia outros serviços quando não aparecia ninguém para matar, tal qual dar susto (surra, quebrar mobílias e casas). Em Pau de Fumo pode ser percebida também moral quando o homem sempre tentava evitar o professor Cagliostro, que o considerava inteligente demais para sofrer e passar o que sofria e passava. Uma descrição que o padre de seu segundo casamento fez de si foi algo como: “A inteligência mais rara que vi até hoje. Um gênio. Uma oportunidade que o Piauí perdeu de dar ao Brasil um Rui Barbosa de cor. É um Diógenes Brasileiro”, encerra a fala. Pau de Fumo enquanto Chico da Benta (nome de criança e da fase adulta em que deixara de roubar e vivia de carregar malas de hóspedes que aqui chegavam) mantinha o hábito da leitura, citava nomes como Auguste Comte, Castro Alves, Gonçalves Dias, Da Costa e Silva, Victor Hugo, Platão, Eça de Queirós, Aristóteles, Guerra Junqueiro e muitas vezes os confrontava, sabia latim e passagens da bíblia. De fato, um desperdício.


Os incêndios se seguem, é possível mapear boa parte de Teresina entre o fogaréu e as descrições de Fontes Ibiapina, lugarejos como Barrinha, bairros como Mafuá (que também sofreu com incêndios), Cabral, Matinha, Cajueiros, Por Enquanto, Vermelha e Ilhotas surgem, sendo este último durante algum tempo colônia de trabalhos forçados para presos do Estado. Há uma passagem onde um dos personagens afirma: “o certo é que muitos brasileiros estão sepultados ali na Ilhotas”, revelando o que é necessário para construir um bairro hoje elitizado em Teresina, pois quem não morria com o trabalho pesado, passava dessa vida para a outra mediante torturas, um preso, inclusive, enterrado o corpo até o pescoço na construção, tomou um chute no rosto de quebrar o pescoço por um militar, como já estava praticamente enterrado, por ali ficou.

Entre esses acontecimentos, Maria Preá decide ir embora para a Bahia. Negro Parente após ver seu filho ‘pescar’ um defunto que ele matara, chora copiosamente e decide tentar a vida fora também. Antonino fica então sob os cuidados de Pau de Fumo. A essa altura Genoveva se matou, Pau de Fumo está casado com Conceição, viúva de Zé Remador, morto nas águas de Amarante. A moça havia fugido de casa para dar cabo aos maus-tratos que sua madrasta lhe aplicava com o apoio do pai Fabrício. Na noite da fuga, o homem a amaldiçoou até a quinta geração. Não deu outra, Zé Remador faleceu e Ceição voltou para Teresina sem ter onde ficar, morou tempos com Maria Piribido, mais uma Maria do asfalto das tantas que aparecem no livro. Por pouco Conceição não entrou para a vida, conselhos não lhe faltaram de Piribido: “Bote o peixe para vadiar, menina”, dizia, ao que a viúva retrucava: "não tenho natureza".

Perto de se render aos apelos, a mulher é convidada a ir morar com Pau de Fumo, inicialmente para cuidar da casa, das crianças e de Genoveva louca, passado mais de um ano disso os dois se engraçaram. Apesar de ter estudado, conhecer autores, entender de democracia e ditadura, ser mais inteligente que Negro Parente, Pau de Fumo não se dá bem na vida, contradição observada no livro. Preso pela última vez na estória, o homem é expulso de Teresina, guardas são enviados para garantir que Pau de Fumo iria mesmo cruzar a fronteira do Piauí com o Maranhão, porém na divisa entre os Estados, sob a Ponte Metálica debocha dos policiais: -Filhos duma puta! Ri alto e se atira ao rio, suicidando-se. “Aí Pau de Fumo sentiu que se era de um sapo viver chorando de fome a vida toda, melhor morrer”. Por seu turno, Negro Parente, do Piauí foi ao Mato Grosso tentar a vida e seguiu de lá para o Rio Grande do Sul, onde, inclusive, encontrou Maria Preá. “Vida boa aquela. Até que enfim encontrou lugar bom no Brasil. Já foi no fim do espinhaço do Brasil, mas viu terra boa”. Em outro trecho com pensamentos de Negro Parente: “Ô Rio Grande do Sul velho danado de bom! Vida farta. Dinheiro Fácil”. Concluindo a contradição observada, temos que o amigo analfabeto, antes pescador de defuntos, depois matador de aluguel é quem consegue melhorar de vida mesmo que a troco de se mudar do Estado e ir trabalhar em minas e regiões perigosas, contraindo doenças e distante dos seus, como se solução para a pobreza do piauiense fosse apenas uma, esta espécie de diáspora nordestina. “Dorme, cidade maldita, Teu sono de escravidão”. Sonha com o pobre que grita: Senhor meu Deus, dai-me pão!


Lendo Palha de Arroz é impossível não se ater a fatos que seguem rotineiros mesmo hoje em dia no Piauí. Comecemos por uma constante no livro: a polícia. Sua atuação e casas de detenção já mencionadas acima. Uma matéria de 2013 divulgada no site do Conselho Nacional de Justiça revela que 70% dos presos do Piauí aguardam julgamento. Se no passado o sistema penitenciário em seu conjunto, polícia e justiça, era autoritário e arbitrário, hoje o temos na conta de adjetivos como moroso e defasado. Mês passado, o portal G1 informou que o sistema prisional do Piauí enfrenta colapso com celas lotadas e violência. A matéria traz informações de que só em 2015 foram registradas nove mortes em presídios do Estado e que a superlotação dos presídios soma-se à falta de agentes penitenciários.

Deixar o Piauí (como Negro Parente e Maria Preá, personagens do romance) para tentar emprego ou melhores condições em outros Estados é tradição ainda bastante comum e em alguns casos, assombrosa. Matéria publicada em 2013 aponta que 270 piauienses são resgatados de trabalhos escravos pela Polícia Federal todos os anos. Se alguém ainda possuir alguma dúvida, tem essa outra matéria AQUI.

No livro podemos notar três casos de suicídio, o primeiro de uma moça que se atira ao Parnaíba, cujo corpo é resgatado por Antonino, orgulhando ao pai Negro Parente pelo filho ter saído bom nadador como fora um dia. Em seguida, Genoveva salta de uma árvore com uma corda amarrada ao pescoço na frente de Pau de Fumo. A mulher teria tentado outras vezes o suicídio, numa delas fora interceptada por Conceição. Ao final da obra, o personagem principal, que anunciara durante toda a narrativa como morreria, caso sofresse novas perseguições da polícia, atira-se ao rio. A ideia de Pau de Fumo era morrer no fundo do poço de uma usina abandonada, para não dar gosto de os policiais lhe meterem a mão e o levarem preso. Sua morte sugere alguma espécie de vingança, não só contra a polícia, mas de modo geral, pelas mazelas a que estão submetidos os pobres no mundo. Se na Teresina dos anos 40, mesmo que na ficção, são registrados três casos de auto-homicídio, na capital do sol de 2015 pelo menos 50 mortes por suicídio entram para nossa triste estatística como acusa essa outra matéria em que mesmo três doenças perigosas: aids, dengue e leishmaniose, matam menos que o suicídio.

Os incêndios criminosos dos anos 40 em Teresina possuíam um objetivo claro, afastar do centro da capital os pobres e suas casas de palha, espécie de limpeza social pelo meio mais desumano possível. Agora que os pobres foram afastados é interessante notar que mesmo longe, em zonas quase rurais de Teresina, casos de desapropriação de terras são veiculados quase que mensalmente pela imprensa local. Veja mais AQUI. E as casas que antes eram de palha, atualmente continuam fora dos padrões, isso segundo o IBGE. Há uma passagem dos incêndios em Teresina onde os estudantes se manifestam pelo fim dos fogos criminosos e são calados pela “força da borracha”. Na Teresina do século XXI, mais precisamente em 2013, durante manifestações pela redução da passagem estudantil, um estudante foi atropelado por um táxi (vindo a óbito), possivelmente fugindo da tropa de choque da PM, entre outras prisões e agressões decorrentes das manifestações legais estudantis, muitas vezes realizadas com apoio da população. (Alô, Chico Mendes?! Essa ligação é para dizer que existe sim, um Brasil da borracha, mas não é a do látex, infelizmente...). Quando a casa de Pau de Fumo é incendiada no início do livro, quem ajuda a retirar os teréns da palhoça é o amigo Negro Parente, que sofre queimaduras e vai parar no hospital, sendo atendido apenas mediante pagamento de um personagem secundário. Como tentassem ganhar a vida de qualquer jeito, atirar-se em meio ao fogo para salvar os pertences das casas incendiadas garantia algum trocado. À época o único hospital da capital era o Getúlio Vargas (HGV), que já atendia pacientes do Maranhão e outros estados vizinhos. Com essa matéria de 2014 publicada pelo portal 180 Graus, a situação segue adversa. Para finalizar as comparações, em uma carta respondida a Negro Parente por Chico da Benta, o autor faz uma espécie de autorreferência ao contar que um estudante escreveria um livro sobre os incêndios e o Palha de Arroz. O estudante chama-se Jônatas Nonato de Moraes Farias Itabaiana, segundo a carta, e só assina Farias Itabaiana no jornal onde escreve. Observemos que Farias Itabaiana e Fontes Ibiapina possuem lá suas semelhanças, a começar pelas iniciais dos substantivos. Mesmo o nome completo de Fontes Ibiabina, João Nonon de Moura Fontes Ibiapina, possui as mesmas iniciais do estudante citado na carta. A carta diz: “Talvez ele nem faça nada... Do meu tempo mesmo, não sei quantos colegas diziam que iam ser escritores. E até hoje o nosso Piauí não deu um escritor sequer. (É mesmo uma merda de purgado esta nossa terra!)... Se não bromar, vai terminar mesmo fazendo alguma coisa e o nosso Piauí vai ter um escritor de verdade”. É sabido quanto Fontes Ibiapina aconselhava aos mais novos que escrevessem, principalmente prosa. Se buscarmos da atual geração de escritores do Piauí, encontraremos mais poetas que qualquer outra coisa, arriscando-se pela prosa temos Fernanda Paz com seu livro de contos, Agostinho Torres com o romance Vagabundo Sem Nome, Gabriela Aguiar (Joaquim e Silvia, com amor e À Beira da Estrada) e Nathan Sousa com romance ainda inédito, ou seja, nem os dedos de uma mão fechamos na contagem, provando que “minha Teresina não muda jamais”.

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