segunda-feira, 15 de junho de 2015

Supergods - A Indústria Dos Quadrinhos Na Visão De Grant Morrison



Supergods é um livro do Grant Morrison, para quem não sabe o carecudo é um dos roteiristas de quadrinhos mais populares da contemporaneidade, ficando atrás provavelmente apenas de Alan Moore. Por suas mãos passaram X-men, Liga da Justiça, Batman e Super-Homem, entre outros personagens poucos conhecidos da DC e criações completamente originais, que particularmente considero suas melhores obras. Falar do Morrison é uma tarefa um tanto quanto complicada, porque seus pensamentos sobre os quadrinhos e sua filosofia sobre a realidade remetem a teorias artísticas consideradas meio absurdas como o neoismo, situacionismo, surrealismo, teoria das cordas e magia do caos, como vou falar do livro dele me limitarei ao assunto principal, deixando essas digressões para vocês procurarem no Google da vida mesmo.

Li o livro na versão e-book em inglês da Amazon, se chama “Supergods: What Masked Vigilantes, Miraculous Mutants, and a Sun God from Smallville Can Teach Us About Being Human”. Existe uma versão em português, mas achei o preço muito caro, mesmo o e-book custava mais de 40 reais.

Supergods é um apanhado da história da indústria dos quadrinhos de super-heróis desde a fundação da DC e Marvel, as duas principais empresas do ramo, e as diversas fases que passaram entre crises econômicas e o atual boom com a produção de filmes de sucesso pela Marvel. Só que diferentemente do que um historiador faria - apenas narrando os acontecimentos e apontando citações - Morrison faz um relato pessoal desde os primeiros quadrinhos que leu até a atualidade, quando já está inserido no mercado como um dos grandes roteiristas de sua geração. Então mais do que uma narrativa descritiva vamos ter um personagem percorrendo suas memórias, seu desenvolvimento como pessoa e paralelamente o desenvolvimento da indústria dos quadrinhos. Morrison divide o livro em quatro partes: A Era de Ouro, A Era de Prata, A Era Sombria e o Renascimento.

A Era de Ouro foi a do nascimento dos super-heróis. Começa quando Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Super-Homem em 1939. Na sua origem ele era uma espécie de super-humano socialista, que lutava contra a podridão da América pós-crise de 29, enfrentando desde senadores corruptos até a máfia. Nessa época a maioria dos seus poderes que conhecemos hoje (como voar, por exemplo, ele só saltava alto graças a super-força) ainda não haviam sido pensados e se podia notar facilmente o tom contrário ao status quo do homem de aço. O sucesso foi imediato, se não na realidade os pobres e prejudicados pelo sistema político-econômico podiam ter um defensor ao menos na ficção barata. Para Morrison o conceito do Super-Homem é o do herói apolíneo nietzscheano, ou seja, aquele que trás ordem ao mundo, serve de modelo de moralidade e boas ações a qualquer custo, não é a toa que no futuro iriam considerar que a fonte dos poderes do Super-Homem sobrevinha da luz do sol. Outro motivo pelo qual o público se identificou com o personagem foi o fato de existir uma segunda personalidade no qual o homem imbatível era apenas um nerd desajeitado, um empregado sem muita importância do jornal de Metropolis buscando o amor da repórter Lois Lane.

Com o sucesso do Super-Homem, marcado pelo traje de super-herói e o esquema de vida dupla, brotaram centenas de cópias tentando fatiar algum pedaço do dinheiro que começava a entrar na indústria recém-inaugurada. Desta maneira surgiram Mulher-Maravilha, Aquaman, Lanterna Verde e Batman na DC, além de outros heróis como Namor e Tocha Humana na empresa que se tornaria a Marvel Comics, na qual Stan Lee ainda começava timidamente sua carreira.



No entanto de todos estes Morrison escolhe Batman para receber mais comentários sobre a Era de Ouro. O motivo é bastante simples, se o Super-Homem é um modelo de herói solar Batman era literalmente o seu oposto em cada ponto, um herói lunar, ou dionisíaco se formos prosseguir com a classificação nietzscheana. Enquanto o alterego do Super-Homem era Clark Kent, um rapaz comum, reles trabalhador na cadeia de funcionamento de um jornal, o alterego de Batman era Bruce Wayne o playboy multibilionário dono de uma rede de empresas que foi servido a vida inteira por um mordomo. Batman não tinha super poderes, tudo que podia fazer era fundamentado em sua engenhosidade, já Super-Homem era praticamente imbatível. A diferença mais marcante, no entanto, era que enquanto o Super-Homem enfrentava questões da realidade, como políticos corruptos e injustiças sociais, Batman participava de aventuras psicodélicas em que enfrentava o Drácula, plantas carnívoras gigantes, entre outras situações sobrenaturais. O Super-Homem tinha uma abordagem de temas mais realistas, mais... solares, enquanto o Batman enfrentava aventuras subconscientes, fantasias... lunares. Baseado no sucesso desses dois heróis se desenvolveu toda uma indústria de produção de histórias em quadrinhos.

Entre o fim da década de 40 e início da década de 50 o psiquiatra Fredric Wertham escreveu o livro “A Sedução do inocente” e fez a maior confusão no congresso americano, a partir daí a simplicidade com que o publico enxergava os super-heróis estaria acabada. Em seu livro Wertham acusa os quadrinhos de ser um material que torna as crianças indisciplinadas às autoridades e que influenciam valores “degenerados” como homossexualismo, uso de drogas e violência. Bruce Wayne e seu mordomo Alfred foram acusados de abusar sexualmente do jovem Robin, não havia mais como olhar para os personagens do mesmo jeito, mesmo que as acusações fossem absurdas. Usando como exemplo vários quadrinhos de terror extremamente violentos e realmente complicados de defender numa sociedade reacionária, Fredric Wertham conseguiu colocar os pais e o sistema educacional contra os quadrinhos. Foi então que as editoras, buscando defender seus interesses financeiros, instituíram o Comics Code Authority, que deveria limitar o conteúdo violento que seria publicado nos quadrinhos. Nessa época se uma HQ não tinha o selo do Comics Code Authority dificilmente conseguiria algum número de vendas relevante. Havia mesmo donos de bancas que não aceitavam quadrinhos sem o Comics Code Authority.



Era o fim da Era de Ouro e o começo da Era de Prata. Dessa vez quem estaria na vanguarda seria a Marvel Comics, não mais a DC. Nessa época o único personagem realmente relevante da Marvel era Capitão América, no entanto com o fim da Segunda Guerra sua capacidade de atrair simpatizantes e manter leitores havia perdido efeito, foi então que Stan Lee e Jack Kirby criaram O Quarteto Fantástico, que iria renovar o modo de se encarar os super-heróis. Ninguém queria mais saber de justiceiros ou o que fosse, até porque a violência quase fez com que a indústria fosse sepultada, de agora em diante um novo Super-Herói surgiria: um herói “científico”. Tudo agora precisava parecer científico, para os quadrinhos parecerem mais educacionais.

Os membros do Quarteto Fantástico ganharam seus poderes ao serem expostos a radiação cósmica durante uma experiência, o Hulk só surgiu em Bruce Banner depois do mesmo ser bombardeado de radiação gama, o Demolidor foi atingido por material radioativo que fez de sua cegueira uma mutação para sentidos hiper aguçados e assim por diante. Na Era de Prata as coisas mais absurdas precisavam de algum tipo de justificação pseudocientífica, desde a teia do Homem-Aranha até os apetrechos do Batman e poderes do Super Homem. Na DC o carro-chefe desse tipo de super-herói foi o Flash, que era um personagem novo em relação ao Flash da era de ouro. O novo Flash era Barry Allen, um investigador forense da polícia que foi atingido por um raio enquanto fazia pesquisas relacionadas a produtos químicos, daí em diante ele teria ultra-velocidade e um gosto inexplicável para explicar cientificamente qualquer coisa que podia fazer.

Durante a Era de Prata os quadrinhos, principalmente os da Marvel, ganharam tons experimentais, afinal, eram os anos 60! Maconha e LSD tava na cabeça de todo mundo. O público se expandiu, agora universitários e adultos também liam os quadrinhos, já que haviam questionamentos existenciais e filosofia, além, claro, de muita porrada. Stan Lee e Jack Kirby juntos criaram nessa época dezenas de personagens que viveram ciclos de sucesso, declínio e futuramente revivais.  Personagens estes pelos quais no futuro viveriam brigando pela autoria, sendo Kirby o mais prejudicado, já que Stan Lee basicamente se tornou o rosto da Marvel, com salário vitalício que chegou a 500 mil anual e Kirby demorou décadas pra conseguir reaver ao menos uma parte ínfima dos originais que desenhara.

Foi nesse momento meio drogado dos quadrinhos que Morrison começou a lê-los. Mas na verdade ele curtia mais os heróis tradicionais da DC, porque a Marvel tinha pouca inserção no mercado britânico, então as opções acabavam sendo bastante limitadas. Seus pais eram ativistas antinuclear, meio hippies, enfim, disso a gente imagina porque ele saiu meio perturbado da cabeça. De qualquer maneira ele decidiu que iria ser quadrinista e passou a praticar o desenho, elaborando ideias malucas que ele achava que podiam funcionar e começando a participar de produções de fanzines e convenções de quadrinhos. Numa dessas convenções, mostrando tirinhas amadoras que ele tinha feito, recebeu o convite pra publicar na Near Myths, foi a primeira vez que ganhou dinheiro com isso, foi pouco, mas já era um sonho realizado. Os próximos passos eram continuar ganhando com seu trabalho e tentar ser notado no mercado.




Depois do psicodelismo dos roteiros, do experimentalismo na diagramação e da expansão massiva do universo dos super-heróis, chegou a bad vibe, que muitos chamam de Era Sombria. Tudo começou com a morte de Gwen Stacy, numa das sequencias mais marcantes dos quadrinhos, quando o Homem Aranha em desespero, tentando salvar sua amada que havia sido arremessada pelo Duende Verde de uma ponte, acabou a segurando, mas o impacto fez com que ela quebrasse o pescoço. Havia mesmo uma onomatopeia do pescoço quebrado, um CRACK, que não lembro bem se foi publicado ou foi censurado pelo editorial. Se Wertham havia dado uma porrada nos quadrinhos do passado agora o próprio quadrinho estava se açoitando, talvez fosse o momento do punk invadir o universo dos super-heróis? Afinal, foram dois autores da invasão britânica que renovaram o mercado!



Morrison destaca duas HQs cruciais para a caracterização da Era Sombria. A primeira é O Cavaleiro das Trevas, um dos gibis mais conhecidos até os dias de hoje, foi quando os quadrinhos meio que deram um FODAC pras crianças e começaram a produzir também material adulto de qualidade (depois até se arrependeram disso). O Batman de Frank Miller é brutal, cansado de como as coisas estão mesmo após dez anos de sua aposentadoria e apesar da idade avançada ele quer fazer valer novamente a justiça, mesmo que não seja exatamente seguindo a lei. Aliás, essa temática de que a justiça não é exatamente o que dita a lei é frequente na HQ. Existe uma lei que quer cadastrar todos os super-heróis, Super Homem é o símbolo dessa lei, não só um símbolo, ele está disposto a fazer com que quem a descumpra pague sua dívida com o estado norte-americano. Este seria um dos confrontos mais marcantes entre os dois super-heróis primordiais, deixando evidente o oposto de seus símbolos, o sol e a lua. A HQ de Miller trás a guerra fria aos quadrinhos, trás o mundo real através de manchetes de jornais, programas de TV e declarações do presidente, seria exatamente esse o tom dos quadrinhos deste período: violência e realidade. Super-heróis no mundo real não seriam bonitinhos e bobinhos querendo fazer com que a lei fosse cumprida, seriam pessoas confusas, beirando a psicopatia e que defendem uma ideia pessoal de justiça.

A segunda HQ definidora da Era Sombria foi Watchmen, de Alan Moore, uma série de publicações mensais que durou de 1986 até 1987. Novamente a realidade da guerra fria iria ditar o ritmo da HQ: o mundo está prestes a presenciar um conflito nuclear quando heróis de um grupo desfeito chamado Watchmen começam a morrer misteriosamente. No fim o plot universal e o dos super-heróis acabariam se conectando numa trama magistral, mas o que marcou mesmo o universo dos quadrinhos foi que os antes pacatos super-heróis agora eram mostrados como psicóticos e estupradores. Eles eram como nós, especiais sim, mas também pessoas perdidas no mundo, malucos neuróticos e sem muita capacidade de avaliar os seus atos. Super-heróis podiam ser também monstros, caso fossem reais, é essa uma das premissas da Era Sombria, você confiaria num cara vestido feito um maluco e que ainda por cima tem super poderes?



O Renascimento (a parte mais fraca do livro) seria a saída da Era Sombria no meio dos anos 90. As HQs ficam mais parecidas com a Era de Prata, com um tom de lição cósmica e de sabedoria. Morrison considera a última edição de sua obra Flex Mentallo o representante deste estilo. Aqui entra toda a sua polêmica com Alan Moore, do qual não concorda com o tom cruel/realista que retrata os super-heróis. Morrison acha que as HQs de super-heróis representam a esperança das pessoas, assim como os deuses mitológicos representaram um dia, por isso devem ser altivos e conseguir derrotar o mal no fim das coisas. Às vezes isso parece polêmica barata do careca, já que ele mesmo nem sempre termina suas obras com um final feliz e muito menos usa de narrativas comuns.

De qualquer forma isso que ele chama de “Renascimento” é muito pouco caracterizado, sendo uma parte do livro usada mais pro Morrison falar de sua visão atual dos quadrinhos, do universo e de suas últimas obras.


Supergods é um livro essencial para quem quer entender a indústria dos quadrinhos nos últimos 20 anos ou apenas os pensamentos de Grant Morrison. Muita coisa não dá para confiar se são verdades ou delírios do careca, mas de qualquer forma são bastante interessantes de ler!
Supergods - A Indústria Dos Quadrinhos Na Visão De Grant Morrison
  • Título : Supergods - A Indústria Dos Quadrinhos Na Visão De Grant Morrison
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