quinta-feira, 23 de julho de 2015

“A Academia de Letras é uma entidade que precisa se modernizar”, diz Fonseca Neto


Fonseca Neto é Professor e Chefe do Departamento de História e Geografia da UFPI, Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Piauiense e Imortal da cadeira número 1 da Academia Piauiense de Letras. Conhecido pelas conversas longas o prof. Fonseca fez jus a sua fama de conversador e erudito, nesta entrevista falou desde suas experiências de infância até sobre a importância das instituições de cultura no Piauí. O papo é bem longo, então sentem numa boa cadeira, leiam na calma e no seu próprio tempo!

Agostinho: Eu li numa edição da revista Cidade Verde, que mostra um pouco da sua vida em fotos e informativos, que você teve uma formação intelectual muito ligada à Igreja Católica. Gostaria que você me falasse um pouco disso.

Fonseca Neto: É um pouco a tradição de quase todos nós no Brasil. No meu caso sou filho de pessoas que vem da roça, bem do sertão mesmo, têm as separações, essas marcas de origem. O contato com igreja é aquela coisa de interior, digamos assim, que muito cedo as crianças em geral, as famílias criadas nessa tradição, entram em contato com esses lugares na escola. No meu caso a cidade onde eu nasci, Passagem Franca no Maranhão, não tinha ginásio. A escola básica naquele tempo era o chamado primário. Alguém para fazer essa outra fase do ensino precisava mudar de cidade, só o pessoal que tinha mais condições podia pagar pra um filho estudar numa Floriano, São Luís, Caxias ou aqui em Teresina. Não era o meu caso. Daí a referência a padres que eu sempre faço quando falo disso, foi nesse sentido de que lá na minha cidade com 11, 12 anos, eu gostava de visitar a biblioteca da casa paroquial.

A casa paroquial antigamente era um lugar de luz, de ilustração numa cidade pequena. Eu entrei em contato e conheci um mundo mais letrado nesse ambiente de paróquia. Isso faz com que eu tenha sido ajudado por um padre a sair da minha cidade pra estudar em outro lugar. Já a minha formação no sentido mesmo de formação mais de base, de referências, ela é mais secular do que religiosa, a minha relação com a Igreja é mais nesse sentido da vida prática do que propriamente de um referencial de doutrina de vida. Na segunda fase da minha vida, como eu disse, saindo da minha cidade fui estudar numa cidade vizinha num colégio de padre, só que era um colégio de padre que nos anos 60 era muito rompido com as próprias tradições dos colégios de padre. É uma coisa interessante, era uma escola inspirada no método Paulo Freire, é uma escola de padre que, por exemplo, aboliu a tradição de ter páscoa na escola, de ter uma páscoa de todo mundo fardado, de um padre que gostava mais de ciência do que de religião, digamos assim. Então essas referências me marcaram muito, sobretudo para despertar em mim ainda muito jovem, com 13-14 anos, para prestar atenção no mundo da política. Ter certa sensibilidade para prestar atenção naquilo que se movimenta dentro do que se chama de política. Pra gostar de ler, gostar de ler jornal, gostar de ouvir rádio, eu tive a felicidade de, em certo momento da minha vida, entrar em contato com essas coisas, inclusive lá no interior e tal.

Você falou que era de uma igreja católica?

É, estudei numa escola o ginásio de 1967-1969. Uma escola dirigida por um padre, organizada por uma paróquia, uma fundação.

Você considera que foi nessa paróquia que teve algum contato inicial com o marxismo?

As primeiras ideias sim. Ainda não com algo mais sistematizado e tal, mas de perceber que o mundo vivia uma polarização. Nessa escola reformada que estudei em 67, um dos principais elementos da reforma dessa escola, uma reforma curricular, que justamente se deu naquele ano de 67, foi na área de História. Primeira série do ginásio, eu nunca me esqueci que a primeira aula de História foi sobre a guerra de Israel com Egito, aquele foi o ano de uma dessas guerras, não sei, Yom Kippur, coisa assim, e eu me lembro que nossas aulas de História começavam a discutir essa contemporaneidade, né, essa ideia de um mundo polarizado entre um mundo dos comunistas, como se dizia, e o outro mundo da liberdade. Isso eu comecei a entender cedo, fui despertado para essa diferença e descobrir também, prestar atenção de porque o Brasil, por exemplo, não era uma democracia, era um regime de ditadura que tinha deixado de ter eleições. Eu que ainda alcancei, menino, criança, uma eleição do Juscelino Kubitschek, eu tinha 7 anos de idade, mas me lembro daquela agitação, dos retratos nas árvores, na janela das casas e tal, depois veio a história de não ter mais eleição. Justamente aí que fui compreendendo que o Brasil vivia um regime de ditadura e a escola vicejava que nós conhecêssemos isso e que tive o contato, por exemplo, com as manifestações do Rio de Janeiro, São Luís, de outros lugares, de Paris, eu me lembro que em 68, eu ia fazer a segunda série do ginásio, e a nossa escola, lá do interior, sabia o que tava acontecendo em Paris e no Rio de Janeiro. A morte do Edson Luís, por exemplo.

Nós fazíamos jornais do grêmio, eu na primeira série do ginásio fui eleito deputado, representante estudantil da minha série na nossa entidade estudantil de representação que tinha o nome de República. Eu lembro, República Estudantil Colinense, ahh e ela era uma réplica da república brasileira, só que com uma cláusula né, na nossa constituição, tinha uma constituição, ainda hoje tenho guardada, dizia assim: “essa republica é livre”. Era uma réplica da república brasileira, mas a nossa era livre! O exercício é uma espécie de laboratório pra se viver em liberdade, a liberdade que a própria república não tinha e a nossa em miniatura exercitava a liberdade. Eu fui deputado nessa república, Grêmio Pio XII Republica Estudantil e tal. E se exercia isso no sentido do que se chama hoje de escola integral. A nossa era assim. A escola toda referida na criação de um homem livre, agora imagine isso num Brasil que estava fechando, em 68 tá fechando, a ditadura não fecha de vez, a ditadura ela é imposta em 64 e ela vai fechando, vai fechando, vai fechando, tanto que em 67-68, as grandes manifestações, em 69 é que fecha de vez, né, que começa a fase mais pesada da tortura, dos exílios, mas é também quando a resistência do povo brasileiro, dos jovens, nas universidades também se acentua, o momento fica todo mais sombrio. Nesse momento eu tenho já a percepção disso, porque o nosso líder que era um padre, colocou a gente em contato com isso. Eu me lembro que, por exemplo, nos festivais da canção no Rio de Janeiro, que eram eventos de repercussão no mundo todo, no mundo culto e tal, me lembro que ficava a noite inteira uma roda de pessoas pra ouvir aquele festival pelas rádios do Rio de Janeiro que lá pegava muito bem de madrugada. E ouvia o festival da canção, o famoso episódio, por exemplo, do Geraldo Vandré que quebrou o violão, ahhhh, eu ouvi aquilo ao vivo; no dia do Caminhando Contra O Vento do Caetano eu escutei aquilo ao vivo, a noite e lá no interior, numa cidadezinha que a luz ia embora dez horas da noite. Ficava escutando o festival da canção em rádios de pilha. Então eu tenho a sorte de ter tido esse contato, pra mim isso é muito importante, porque depois a nossa escola foi praticamente destruída, dois três anos depois, pela própria ditadura acusando nosso padre de comunista. O nosso diretor nunca foi comunista, era apenas um cristão, um cristão que seguia, na época teve um papa, chamado João XXIII, que foi um papa assim tipo um cometa na Igreja Católica, foi, por exemplo, quem acabou a missa em latim e criou a missa em português, no vernáculo, isso foi uma revolução. Criou, por exemplo, a coisa de um leigo pegar numa bíblia e fazer uma leitura na igreja, que isso não existia, quer dizer, quebrou vários paradigmas milenares da igreja católica. Esse papa foi considerado um louco, papa João XXIII e no campo educacional ele tem muita atuação, ele foi papa só 5 anos, foi o famoso do Conselho do Vaticano II. Esse padre nosso lá do interior era ali quase ao vivo um seguidor dessa época...



Quando eu vim pra Teresina alguns anos depois, já com 17 anos pra terminar o Ginásio, fazer o ensino médio, eu já tava mais referenciado do ponto de vista do mundo da política, do que tava acontecendo no Brasil, no mundo, a coisa da Guerra Fria, o papel de Cuba, dos Estados Unidos, já tinha muita raiva dos Estados Unidos. Aquela coisa, pela compreensão da situação da América Latina, da discriminação colonial, e etc. A ditadura, hoje que a vida já encompridou ao ponto de a gente pensar lá e cá, já posso fazer contraponto porque eu vi, posso fazer a comparação, é um tempo de silêncio imposto, mas talvez por isso, não sei, há uma compulsão muito maior de se compreender as coisas. Há uma compulsão muito maior para se compreender o mundo, para se discutir. Eu falo isso com essa ênfase pensando no agora que eu, pelo menos falando neste lugar aqui, neste ponto, onde nós estamos, a universidade né, quer dizer, que vive um silêncio enlouquecedor, que a gente ao mesmo tempo sabe que não é exatamente um silêncio, esse silêncio tem opções, ele tem fala, ele murmura e quando verbaliza, quando coloca fora essa... é, por exemplo, a direita se manifestando de novo, repontando, a direita velha que eu vi do outro lado do nosso combate em certo momento, aquilo que você em certo momento compreendeu, eu aprendi a saber o que é ela, vai crescendo e vai conseguindo traduzir aquilo que escutava quando era menino, vai entendendo o que era e eu que vivi em 64, por exemplo, eu tinha 11 anos de idade, já lidei com aquela movimentação de rádio, o que os mais velhos conversavam, depois vem essa história que tô contando e a gente então faz releituras como essa que tô fazendo aqui agora.

Quando foi que você veio para Teresina e começou a entrar no movimento estudantil?

Cheguei a Teresina no final de 69. Dia 17 de Dezembro de 1969. Em cima de um caminhão, como muitos imigrantes aqui de Teresina. Vim pra estudar, com minha mãe, meu pai ficou lá pelo Maranhão mesmo uma temporada. Eu estava terminando o ginásio, como eu disse, pra estudar o científico aqui em Teresina e foi o que fiz. Naquela época as melhores escolas da cidade eram públicas, o Liceu Piauiense, por exemplo, era uma das melhores escolas da cidade e a Escola Normal Antonino Freire, de formação de professores. O Liceu era uma das melhores escolas, mas só conseguia uma matrícula no Liceu o filho de rico. Precisava de pistolão. Os colégios mais de elite como Diocesano e Colégio das Irmãs eram experiências. Então eu tentei me matricular no Liceu, coisa que não consegui, mas consegui entrar depois no anexo do Liceu. Houve uma sobra muito grande em 70, um excedente muito grande de alunos que queria estudar no Liceu, mas não cabia mais no Liceu velho e o Governo do Estado criou um anexo do Liceu, uma outra escola chamada São Francisco de Assis. O governo alugou aquele convento nos fundos da Igreja São Benedito, no começo da Frei Serafim. Então ali eu estudei, terminei o ginásio que tinha começado no Maranhão e fiz o primeiro ano científico. Lá nós fundamos um grêmio, chamado Grêmio da Juventude Progressista, esse grêmio ainda era regido por diretorias e eu fui o segundo presidente dele, o primeiro foi eleito numa assembleia, o Pedrosa, depois logo em seguida fui eleito diretamente pelos estudantes. Foi uma experiência muito interessante, pois como eu disse, a ditadura não fecha de vez como se pode supor, deu um golpe e fechou tudo, ela é uma construção. Em 72-71 fui eleito presidente do Grêmio da Juventude Progressista que nós criamos no ano anterior. Nós, fundadores desse grêmio, ficamos marcados, inclusive porque colocamos esse nome de Grêmio da Juventude Progressista, GREJUP, e isso acendeu uma luz de desconfiança no SNI, por exemplo, do DOPs que me perguntaram, me intimaram para explicar porque que aquele grêmio tinha esse nome e não o nome de Marechal Rondon, o nome do Heliodoro Maria de Inzago que tinha sido um frade famoso relacionado àquele ambiente da Igreja São Benedito ou o nome de Tiradentes, um personagem famoso da história do Brasil. A gente disse “não, é porque achamos bonito esse nome”, não sabíamos, não tínhamos exata noção, de que essa história de progressista, nos meios mais refinados era como a esquerda se achava. Quer dizer, aquele debate do progresso e o atraso e a conservação, quem se considera progressista é de esquerda. Nós botamos, porém não tínhamos essa consciência naquele momento. Eu me lembro que quem propôs numa assembleia de estudantes esse nome, é um cidadão hoje conhecido em Teresina, um fotógrafo famoso chamado Dinavan Fernandes. Dinavan foi que nessa assembleia, garoto como eu, disse: “não, ninguém vai botar nome de ninguém não”. Foi um protesto isso aí, foi uma tomada de posição “nesse grêmio nosso não tem ninguém digno que a gente acha que na história do Brasil tem pra ficar não, vamos colocar Grêmio da Juventude Progressista”. Essa história pegou e em pleno ano de 72, maio de 72, fui expulso da escola como presidente do grêmio, eu e mais alguns colegas, proibidos, com a polícia na porta, da gente entrar. Não fui preso, mas fui proibido, recebi uma ordem de não estudar mais.

Naquele tempo tinha uma lei, chamado decreto 477, que era o AI5 dos estudantes e dos professores, em que o estudante que fosse incurso naquele decreto não podia se matricular mais em escola nenhuma no Brasil. E eu fui expulso com base nessa lei, mas consegui no chamado bom jeitinho brasileiro, [através do] secretário da Educação na época, professor Wall Ferraz, que mais tarde ia ser meu professor na universidade no departamento de história, eu acabei me transformando num estudante informal do próprio Liceu. Fui expulso da escola original. Então esse momento pra mim é muito importante na vida, porque aí eu já tava com a idade adulta, tinha ficado ‘de maior’, digamos assim, e tal, já fazendo ensino médio e já claramente tendo uma compreensão do embate que o Brasil vivia, o mundo, o papel dos estudantes, porque a gente acompanhava né, de certa maneira, essas discussões, não tínhamos ainda a consciência plena, de compreender essa questão do motor, da chama, por exemplo, que inspira a luta dos operários, dos trabalhadores, desse referencial, nós nos considerávamos desse referencial, no entanto não tínhamos ainda muita clareza. Aqueles jovens, pelo menos da minha escola, né, uma escola pública, estadual, não tínhamos esse nível de compreensão, mas estávamos nos sentindo próximos, esse nível de compreensão eu teria mais pra três ou quatro anos mais tarde, por causa dessa militância estudantil não é, dessa geração, no quente do Governo Médici, por isso logo depois virei para a universidade passando no vestibular pra história em 75, pra direito em 77 e chegando aqui aqueles que eram estudantes me conheciam, eu cheguei a ser pré-candidato a presidente do CECPI em certo momento, numa eleição que acabou não havendo, houve uma intervenção, o governo nomeou um professor em conjunto com o SNI pra dirigir o Centro Colegial dos Estudantes Piauienses logo depois dessa minha expulsão lá da escola no secundário. Esses, dessa geração de estudantes secundaristas na qual vivi poucos anos, quando cheguei na universidade estavam aqui, então o papel de uma certa referência, de liderança de movimento, se transpõe daquele ambiente de secundário pra cá, quase que automaticamente.

E aqui já foi, digamos assim, uma continuação dessa historia, já num outro nível, porque o Brasil também já estava vivendo os inícios, os anúncios, os sintomas de fim do regime militar. Aí são os anos 70, o fracasso da economia e os estudantes, sobretudo a juventude, os operários, estão voltando a se movimentar e tal. Nunca deixaram, não há um momento em que param tudo, a UNE, por exemplo, nossa grande referência de organização estudantil da época, que ainda tinha a condição da luta do fim do Estado Novo, a luta pela criação da Petrobrás, grandes referenciais da luta do povo brasileiro, sobretudo nacionalismo que os estudantes em certo momento se uniram, o próprio governo do Jango, a resistência à ditadura, ali naquele momento a retomada dela é o nosso momento de mobilização do movimento.

Então a chegada em Teresina, os primeiros 10 anos foram dessa ambientação. Eu comecei a trabalhar ainda muito cedo também, logo antes de terminar o ensino médio eu comecei a trabalhar, eu precisava trabalhar, ajudar a família e me sustentar. Comecei a trabalhar ainda estudando no Liceu, isso me afastou um pouco relativamente dessa militância, dessas articulações da cidade. Eu comecei a trabalhar numa empresa privada e isso já em 1974, passei numa seleção pública, fui selecionado para trabalhar como funcionário do Colégio Agrícola de Teresina, que era uma autarquia federal, onde eu entrei no dia 12 de Setembro de 1974 através de uma seleção, nessa época não tinha concurso como tem hoje, eram seleções que o Governo Federal na época recrutava e tal. Entrei no Colégio Agrícola antes, no ano em 74, só em 75 foi que eu passei no vestibular pra História, ou seja, ainda antes de ser estudante universitário. Quer dizer, eu quando terminei minha licenciatura, eu fiz a licenciatura e o bacharelado em direito como funcionário do Colégio Agrícola. Eu vinha a pé de lá pra cá porque [o Colégio Agrícola] não pertencia à universidade ainda nessa época, aí fui encampado, o Colégio Agrícola e Universidade se transformaram numa coisa. É por isso que hoje eu sou professor da universidade, porque meu ingresso foi originalmente numa autarquia como funcionário, antes de ser estudante e é um detalhe interessante porque quando eu me tornei um militante estudantil, por exemplo, quando fomos reconstruir a UNE em Salvador, 1979, a UNE era proscrita, não podia nem formalmente se reunir nessa época, eu tirei férias, só não perdi meu emprego, primeiro porque tinha entrado por uma seleção pública, e segundo porque eu tive o cuidado de tirar férias do meu emprego público, se não tinham me colocado pra fora, porque a universidade tinha acabado de absorver o Colégio Agrícola. Então é uma trajetória conflituosa, a tomada de consciência, pra voltar a discussão, essa tomada de consciência é processual, com todo mundo, não é só comigo não.

Ainda falando sobre a vida de estudante na UFPI, você foi o primeiro presidente do DCE-Livre. Por que DCE-Livre e me diga como é que era o ambiente intelectual e cultural aqui dentro da universidade na época em que era estudante.

Só uma palavrinha sobre o ambiente intelectual desse tempo do secundário. Eu te disse que nós tínhamos alguma noção do embate em que a sociedade enfrentava. Era um momento em que havia muita gente, havia uma diáspora de figuras. O Torquato Neto, por exemplo, que era uma referência, mas uma referência distante do povo local, nesse tempo um pouco mais velho do que eu... a geração que enfrentou a ditadura no começo, aqui em Teresina, que é mais ou menos da época do Torquato, o próprio Torquato e outros que eram estudantes das faculdades antes da universidade, a gente sabia que essas pessoas se movimentavam no ambiente literário, com iniciativas de jornais como o Gramma, por exemplo, a gente conhecia, mas eu sou um pouquinho posterior a essa esse grupo, que não é do meu top, digamos assim, de idade e tudo mais. Tem uma geração anterior mesmo que vai pra cadeia, Antônio José Medeiros, entre outros, como a gente sabe, vários estudos tão vendo isso ai, um pouquinho, quatro, cinto, seis anos antes.

A universidade foi criada em 68 na lei e foi instalada em 1971, eu cheguei nela em 75, cinco anos depois. Então veja como era organizado, a ditadura quando destruiu o movimento estudantil, as entidades estudantis livres, e quase toda ela montada no referencial mais da esquerda, progressista e tal, a ditadura destruiu mas não deixou o vazio. Quando a ditadura destrói a UNE cria entidades oficiais, quer dizer, nunca deixou de ter entidades, então em 75 quando entrei aqui a universidade só não tem o DCE ainda, mas cada centro tem um diretório, tem vida estudantil. Os Centros Acadêmicos que eram as entidades de base foram todas proscritas. As cinco faculdades anteriores à UFPI tinham seus centros acadêmicos, o Direito, a Medicina, a Odontologia. Então qual foi o nosso papel aqui em 75, qual era o papel do movimento? Era buscar a sua autonomia e a sua construção na perspectiva dos estudantes e não da instituição. As entidades eram como parte da estrutura da universidade. Quando eu cheguei aqui, por exemplo, e isso não era só aqui, as eleições estudantis para as entidades eram feitas pela própria universidade, pela pró-reitoria de ensino, o voto era obrigatório. Quer dizer, a nossa luta foi destruir essas entidades e construir entidades livres.



Em 76 o DCE da UFPI foi criado por um ato do reitor, imagina, o DCE foi criado por um ato do reitor e o primeiro presidente nomeado por um ato do reitor. Um estudante de medicina chamado José Roosevelt Pereira Bastos foi nomeado em 76. O reitor consultava os diretórios e nomeava o presidente, aí que nossa luta se intensifica para tornar o DCE livre. Em 78 nós criamos um movimento aqui na universidade, um grupo de estudos compenetrado, aí sim compenetrado de entender a conjuntura, os referenciais, as correntes naquele momento proscritas no Brasil. Em 78 nós criamos o GEG, eu era do diretório do CCHL, 76-77, secretário geral do Diretório do CCHL Cromwell de Carvalho e criamos então em 78 o movimento GEG, Grupo de Estudos Gerais para lermos jornais alternativos, clandestinos ou não, para entendermos as linhas deles. Era estudar economia para entender a economia do Piauí, do Brasil e tal. Nesse momento esse GEG já é, digamos, braço da nossa pretensão de estudar o Brasil, a política, as correntes, para nos apetrecharmos de visões e capacidades de intervenção no debate da sociedade, no debate intelectual, político propriamente. E criamos o Grupo de Estudos Gerais para nos aprofundar nessas leituras, tentamos ler O Capital, não deu nem pra começar porque era muito complicado, aí fomos para outras leituras, como Marta Harnecker, que tinha uns bons manuais ensinado a ler o marxismo, O Capital, 18 Brumário e outros. Tentamos avançar por aí, mas ao mesmo tempo já no ativismo eleitoral dentro das eleições no modelo da UFPI, tentando implodi-lo por dentro. Nós resolvemos cedo que deveríamos disputar essas entidades da universidade, mesmo sendo eleições atreladas deveríamos disputá-las. Ainda em 78 eu tinha sido eleito por um movimento no CCHL chamado Travessia, a Travessia se transformou numa corrente interna da UFPI para disputar eleições, pro debate político, associado ao GEG. Em 77 virei secretário do CCHL, em 78 fui candidato do DCE nas eleições atreladas. Perdi a eleição por um voto aqui em Teresina e por 100 em Parnaíba. Aí nosso grupo se encorpou, né, porque nós tínhamos a sensação de que tínhamos sido roubados na eleição do DCE. Aí passou o ano seguinte e entrou o primeiro presidente eleito do DCE na estrutura, aquele que tinha sido nomeado pelo reitor acabou o mandato, em 78 foi eleito o primeiro na estrutura da universidade, eu perdi, 79 nós nos preparamos, mobilizamos essa universidade, aí 79 já é um ano que o próprio Brasil todo já estava mais livre, os estudantes já ganharam as ruas, os operários do ABC, a assembleia no ABC de 80 mil pessoas, já havia as fotos. Bem, em 79 eu fui candidato de novo, ainda na eleição atrelada, fui impugnado na véspera da eleição porque eu era reprovado no curso de História, eu tinha reprovação no currículo. Eu tinha tomado o cuidado de não me candidatar porque tinha uma cláusula que dizia “estudante reprovado... bla bla” e eu tinha disciplinas aqui que eu fiz, no curso de História que acabei não cursando, até por ordem de serviço, militância também, acabei perdendo e isso saiu no meu currículo. No curso de direito eu não tinha nenhum registro desse tipo, então me candidatei, mas os vagabundos me impugnaram, o CEPEC me impugnou na véspera da eleição do DCE quando essa universidade já estava completamente mobilizada. O reitor, todo mundo assustado e tal, porque era assim, Teresina vinha todinha pra cá, a direita, a ARENA, todinha aqui fazendo campanha contra nós. E eu fui impugnado e o meu vice-presidente, que era estudante da medicina, o Luís Paulista, foi quem assumiu o DCE com minha impugnação. A eleição foi no dia seguinte e a nossa chapa Travessia ganhou disparada, a coisa mais bela do mundo a nossa vitória e tal, mas na eleição atrelada. E o nosso principal compromisso era de se a gente ganhasse essa eleição atrelada nós declararíamos o DCE numa entidade livre. O que significava isso, não é? Transformar numa entidade sob o controle dos estudantes e não sob o controle da universidade, e foi o que fizemos. O meu vice né, todo mundo chamava de primeiro-ministro, o impugnado, o nosso grupo se municiou, foi a época que logo depois veio a reconstrução da UNE, fomos pra Salvador, a UNE passou a ser um elemento fundamental nessa nossa articulação e nós então mobilizamos essa universidade todinha e proclamamos, digamos assim, a liberdade do DCE. Daí a expressão DCE-Livre, ainda no ano de 80, que foi o ano seguinte, fizemos a primeira eleição livre do DCE. Aí nessa eu fui eleito, por isso eu fui o primeiro presidente do DCE-Livre, porque antes teve três presidentes eleitos de outra maneira.

Então fui o primeiro presidente do DCE-Livre. No Brasil alguns DCEs livres eram uma maneira da universidade romper com as estruturas da ditadura. O primeiro grande DCE-Livre do Brasil foi o da USP, que botou o nome do Alexandre Vannucchi Leme, um estudante que foi assassinado na época, já quase no pós-ditadura e talz, ele passou a ser o nome do DCE, DCE-Livre Alexandre Vannucchi Leme. O nosso DCE-Livre se deu nisso aí, agora pra encorpar o DCE-Livre, então, a nossa primeira providencia foi o quê, promover, o que não era também permitido pela lei, a recriação dos Centros Acadêmicos, quer dizer, o desmantelamento das entidades dos diretórios de centros, para que cada curso tivesse seu próprio CA. Tanto que no dia da minha eleição do DCE foi eleita a diretoria do primeiro Centro Acadêmico da Universidade Federal do Piauí que é o Centro Acadêmico de Economia. Depois vieram mais seis, no dia que terminou o meu mandato, foi eleito o Osmar Junior como meu sucessor, com meu apoio na época, que eram as vanguardas juntas em 1981. O Centro Acadêmico de Direito é de 1934, é nosso decano, depois o da Faculdade de Filosofia em 1959, o CA de Letras e outros. Esses CAs entre criados e recriados, são a primeira geração de Centros Acadêmicos.  A visão da ditadura é que uma entidade de base dessas era mais perigosa do que uma entidade setorial, e tudo mais. É isso, um percurso que a gente olhando hoje assim os anos aparecem, eles vêm a nossa cabeça tudo de uma vez só. Mas são anos, é a vida que se dá, sistêmica, cheia de muitos episódios.

Você já foi estudante aqui na UFPI, foi diretor do CCHL por oito anos e é professor do curso de História. Já acompanhou muitas gerações aqui da universidade. Como você vê a relação da cultura e a universidade.

Na época da ditadura a questão cultural aqui era muito mais visível, apreensível, por quê? Um lugar de circulação de cultura no momento das vedações, fora as proibições maiores em outros lugares, podia ser lugar de transgressão, da manifestação cultural e efetivamente tinha no momento, mas a universidade de algum modo aparecia e se configurava como um lugar em que esses intercâmbios poderiam se dar e efetivamente se davam de maneira mais livre e com capacidade de ter ressoos. Nessa época tudo que acontecia na universidade tinha muita repercussão na sociedade. Vou dar um exemplo, um de nossos projetos, falei agora pouco dos festivais de canção lá do Rio de Janeiro no final dos anos 60, pois uma das primeiras coisas da minha gestão, ainda em 79, foi fazer o Festival da Canção Universitária, o FEMP, Festival de Musica do Piauí da Universidade. Fizemos com muita dificuldade porque na época alguém pra divulgar uma composição tinha que submeter a Polícia Federal e nós fizemos o primeiro FEMP aqui no segundo semestre de 79, e fizemos contra, eu me lembro que o festival ia começar lá perto do salão de jogos da universidade, num pátio grande, nós montamos lá o palco do festival e a Polícia Federal e o reitor ficaram me chamando o tempo todo pra ir, ficou um plantão na PF né, esperando que eu fosse lá, eu e o secretário de cultura do DCE, que fossemos lá para submeter e aí ficamos enrolando, eu lembro que seis horas da tarde o reitor liga pro ramal do DCE, o professor Camilo e diz “Fonseca a Polícia Federal, o delegado peixe – era o nome do sujeito – tá esperando para liberar” e eu “reitor, estamos saindo para liberar o festival”.

É claro que eu não ia e o reitor sabia que a gente não ia, uma figura interessante o reitor na época, um homem que compreendia isso, e ele próprio ajudou a enrolar o delegado. Eu guardo até hoje um bilhetinho que ele mandou por volta de quatro horas da tarde dizendo “A Polícia Federal está esperando pra vocês irem lá liberar as músicas”. E o festival começou e percebemos que a Polícia Federal chegou por perto, mas não tiveram coragem, nós trouxemos um grupo do Piauí, o Clôdo Ferreira, o Climério, respeitado no círculo de artistas de Brasília e nós trouxemos essa turma para abrir nosso festival. Um exemplo do porque a vida da universidade, com a cultura na cidade ainda meio incipiente, tinha tudo pra digamos assim, eu me lembro, por exemplo, da primeira greve da universidade, o primeiro ato político chamado de greve que aconteceu aqui. Fomos nós que promovemos, também em 79. 79 foi um ano fabuloso, é o ano da anistia, o ano que começaram a voltar os exilados de fora, aquilo foi uma animação muito grande. Trouxemos aqui o professor Darcy Ribeiro, ele tinha sido Ministro da Educação e Chefe da Casa Civil do presidente João Goulart. Foi um dos intelectuais brasileiros mais conhecidos até hoje, tava em Paris adoecendo, deu câncer no pulmão e voltou para morrer no Brasil e escapou do câncer. E a ditadura ficou com vergonha de devolvê-lo pra Paris, pro exílio. Aí ele danou-se a sair por aí por universidade apoiando estudante, dando palestra. Trouxemos o professor Darcy Ribeiro aqui em Teresina como primeiro exilado famoso que falou a palavra “ditadura militar” aqui dentro no auditório, também em 79, então essa vinda dele foi um evento que abalou Teresina. Tinha uma organização chamada Pumaré, uma livraria, com cafezinho, um vinhozinho, um chá, ali do Antônio José Medeiros, Cineas Santos e tal, no centro da cidade. Então o DCE, com a Pumaré, trouxemos o Darcy, fizemos uma palestra no teatro, muita gente teve vontade de ir, mas teve medo, aquele exilado, antropólogo famoso e tal. Que era considerado um dos inimigos número 1 do regime militar, mas que já tinha voltado. Então essas coisas culturais ressoavam muito, muito, numa cidade, repito, que sob vários aspectos era conservadora.

Me lembrei aqui das imagens da periferia e tal que estavam começando a se levantar, tinha esse movimento no Parque Piauí que continha um vigário Italiano lá na Paróquia de São João e ele era muito animado politicamente. Os estudantes tinham uma inserção muito grande com tudo que acontecia nessa cidade do ponto de vista cultural, tinha intercâmbios, tudo passava por aqui naquele momento da vida na universidade. E as agitações políticas, sobretudo essa coisa que seria a esquerda no Piauí, depois que tudo fica mais livre, tudo tá referido aqui. O PT nasceu em boa parte aqui, o PCdoB ainda hoje é esse tempo, a sua liderança, os seus quadros e tal. E o PT só não é porque o PT do Piauí tem uma singularidade, que nos encantava, inclusive a mim particularmente, porque naquele contexto de criação do PT passamos um ano discutindo isso, isso nos rachou aqui, como você sabe a esquerda tradicional comunista (PCdoB, PCB e algumas correntes revolucionárias) achava que não deveria se criar outro partido com o nome de trabalhador e o PT nasceu então como uma vertente da esquerda revolucionária, algumas correntes como PCR vieram para dentro dessa articulação junto com igrejeiros, intelectuais e sindicalistas. A história é mais ou menos conhecida. Então aqui esse movimento só não tem tanta inserção de jovem porque o PT do Piauí é um dos poucos que nasce com a hegemonia de trabalhadores rurais, diferente do PT de quase todo o resto do Brasil.

Então... a universidade é uma referência porque o momento exige que seja, é a única instituição de ensino superior que tem aqui, ela abriga parte da intelectualidade acadêmica num meio muito conservador do ponto de vista do fazer cultural. Ela é grande naquele momento, diferente de hoje que são muitos os outros lugares de onde pipocam, de onde explodem as iniciativas, a cultura, até a universidade com essa dinâmica.

Vou aproveitar pra registrar aqui a minha percepção de que ela é hoje, ela se licenciou e se revelou no contexto um instrumento, eu só não acho estranho porque estudo história e sou compenetrado nesse estudo, que isso aqui é uma das coisas mais conservadoras que a cidade tem hoje, quase que incapaz de sair daqui alguma proposta mais inovadora, que arrepie as estruturas. No nosso tempo era uma ditadura onde você sabe, a exasperação do tempo, falta de liberdade, ela tava se transformando num lugar da resistência democrática. Aliás, não é a primeira vez que a universidade brasileira fez esse papel. Lá no tempo do Estado Novo e talz fez isso também.

O negócio de hoje em dia é que é muito burocrático pra se usar qualquer espaço da universidade. Por exemplo, pra usar o Noé Mendes e o Cine-Teatro, que eram para ser espaços pros estudantes usarem, tem toda uma burocracia. Aí acaba dificultando...

O nosso tempo era interessante. Era tudo proibido e não era só proibido por regrinha de burocracia não, era proibido porque havia um regime político que não queria que repirássemos. E nós fazíamos. Eu me lembro de um debate em 79, fizeram uma estrada aqui que hoje é essa rua Dirce Oliveira, era uma estrada carroçável, poeirenta, em 76-77 esse campus não ficava dentro de Teresina, ele ficava na zona rural, imagine isso. Então fizeram uma estrada na beira do campus, e nós fizemos um debate no auditório, não me lembro qual era o assunto e o auditório era perto da estrada, que hoje é o SG3, CCN né, o auditório era ali, ainda hoje é o auditório do CCN, e ali ninguém conseguia fazer a reunião por causa do poeirão chegando às 5 da tarde. Dali mesmo fizemos um ato político, um dos primeiros atos políticos de passeata da cidade, saímos dessa reunião com todo mundo, levantamos de uma vez “gente, esse negócio de ficar falando aqui em poeira e tal, nós vamos fazer o seguinte, vamos sair daqui em protesto rumo a reitoria”, rapaz todo mundo se levantou. Nós na frente, ai eu fiz uma fala, “se a prefeitura até amanhã a esta hora, 5 da tarde, não tiver dado um jeito nessa poeira, nós amanhã a essa hora estaremos todos aqui de pá, picareta e enxada na mão pra cortar essa estrada bem aí”. A prefeitura de fato, imediatamente, cinco horas da tarde do outro dia... não tava asfaltado, não dava tempo, mas estava com os caminhões pipas pra lá e pra cá aguando a estrada. Acabou a poeira e uma semana depois tava asfaltada.



Quer dizer, essas coisas eram proibidas, auditório, tá doido fazer reunião de estudante. Tô te falando que a própria sede do DCE não foi fácil da gente ter uma sede. Essa sede do DCE atualmente, aquilo ali tem uma história interessante. Ali era a cozinha do RU da UFPI, o RU mudou de lugar e na noite em que tiraram os panelões industriais, ainda sujo o local, nós ocupamos. E o reitor autorizou, mandou reformar o local pra gente, para ser a sede do DCE que é até hoje. Ali nós conseguimos numa noite com um rapapé, quer dizer, uma ocupação simbólica com algumas bandeiras e tal, onde era a cozinha que passou pra ser aquele RU lá no fundo. Quer dizer, a gente ocupando, agora tínhamos uma capacidade, uma compreensão de negociação, sabe por quê? O nosso crescimento político, daquela geração, nós tínhamos a compreensão interessante que decorria do debate nacional. A universidade era conservadora também, tinha uns 80% dos estudantes que era fogo pra mobilizar, mas nós fazíamos. Tínhamos aquele ímpeto de fazer, andávamos muito em sala de aula e tal. Então tínhamos a compreensão muito clara de pautar o interno, nós muito cedo entendemos, queria se fazer uma espécie de vanguarda mais progressista lutando contra a ARENA e conservadorismo da universidade, contra os pistolões e outras coisas, nós crescemos politicamente politizando os assuntos internos da universidade. Por exemplo, a matrícula, até 79-80, a matrícula na universidade, quer dizer, todo mundo tinha o direito de entrar tinha, mas depois pra conseguir disciplina era um deus nos acuda e nós então fizemos a luta pela democratização da matrícula, foi uma coisa muito pesada que nós conseguimos. RU, transporte coletivo pra universidade, nós fizemos no dia da inauguração da ponte da primavera um abaixo assinado para tentar entregar pro Presidente da República, o General Figueiredo que tava aqui em Teresina, é claro que não chegamos nem perto, mal saímos da universidade. Só tinha um ônibus da Frei Serafim pra cá, indo e voltando, só uma linha, a gente queria conseguir linhas pra zona norte, pra Buenos Aires, e outra pro Saci, que tava recém construído. Então transporte foi uma grande coisa que nós lutamos muito a vida inteira, outras gerações de estudantes também, chegaram a queimar ônibus e tal. Essa luta, agorinha tava falando aqui com uma estudante do CA de História sobre isso, vocês podiam pautar essa questão porque nós arrancamos um compromisso aqui de todas as empresas com o prefeito presente, na nossa luta pro último ônibus entrar aqui 10:30. Hoje não tem mais quem dê aula aqui 9 horas porque 10 horas não tem mais ônibus, quer dizer, as empresas ganham dinheiro, mas nós fazíamos isso politizando o assunto. É empresário, é espoliador de trabalhador, de estudante, a nossa luta tinha essa marca.

Naquela época tinha o charme, a gente se sentia de ser filiado numa corrente política clandestina no período que não tinha liberdade de partido. Eu mesmo conheci João Amazonas, famosíssimo prócere do PCdoB, eu conheci o João Amazonas numa viagem minha a São Paulo e outros. No congresso da UNE vi lideranças da esquerda latino-americana, em 1980 quando era presidente do DCE, participei de uma reunião dentro da STTC, que era um lugar de debate político com representantes de todos os partidos comunistas das Américas. Era uma reunião, claro que ninguém dizia “sou isso” ou “sou aquilo”, mas eu ficava “eu tô aqui bem no meio disso”. Tem um amigo meu aqui em Teresina, que esteve comigo nessa reunião, ele não aguentou, disse que tinha questão de ordem demais, essa reunião começou 8 da manhã e terminou 8 da noite. Numa sala da UERJ o próprio movimento tinha seus olheiros para controlar mais ou menos quem tava ali, entrando e saindo da reunião. Os debates eram sobre os rumos do Brasil, da América Latina. Essas coisas faziam muito a cabeça da gente, imagina um momento em que você vivia a emoção de participar politicamente, era o máximo de realização de um jovem, de um cidadão, de um lutador da luta dos operários, da luta dos socialistas, você se sentir participante “agora eu tô conquistando um momento da história do meu país”. A emoção de tá ali, que jovem quase nenhum hoje tem essa emoção mais, porque o tempo passa, muda, não é do mesmo jeito, é outra a situação. É outra sensibilidade, é outro país, com os seus velhos problemas e dramas, mas havia um fogo que nos levava, que nos conduzia e que eu falo isso, gosto muito de ressaltar, não falo dessas coisas com saudades. Eu tenho uma reverência muito grande a esse tempo, reverência a um certo passado de examinar, de entender, é diferente de ter saudades. E até vejo aqui conversando com alguns atuais, a nova geração, às vezes falam disso, conversam com a gente e eles sentem saudades sem terem vivido. Ninguém deve ter saudades daquilo, se tinha uma mobilização ninguém vai reinventar, o mundo de agora é o mundo de agora. O tempo não para né. Não é Agostinho? (risos). As coisas que aprendi atrás, disso não abro mão e tomara que nunca se apague da minha mente e da minha consciência.

Acho que cada época teve suas coisas também. A gente também na nossa época fez nossas movimentações aqui. As próximas gerações vão fazendo também.

Exatamente.

Como que um intelectual de esquerda pode ter chegado à Academia Piauiense de Letras, que é considerada uma das instituições mais conserva...

Essa é boa (risos do Fonseca)

...dora do Piauí?

Acontece (risos do Fonseca). Foi quase um acaso nesse caso específico, porque veja só. Essa trajetória se constrói, ao longo do tempo. Veja uma opção que tomei ainda nessa época. Estudante de Direito e estudante de História, esses dois cursos, essas duas formações aos quais eu me filiei em nível de graduação aqui dentro, caldeado pelo movimento estudantil, me deu uma clareza para diferenciar, por exemplo, história de direito, na prática inclusive dos estudantes aqui era uma coisa interessante. Porque, aqui o curso de História, eu me orgulho de dizer isso, esse curso de História aqui da UFPI já veio da FAFI um pouco, ele sempre foi um curso que produziu quadros interessante na movimentação, o tempo todo. Só de presidente do DCE saíram cinco ou seis, eu fui o primeiro. Do direito nunca saiu nenhum, ou um, parece que saiu um, o Galvão, que hoje é juiz e ainda participa do PCdoB pelo que eu sei, juiz do trabalho, é bom isso, faz uma diferença onde ele julga e tal, porque tem uma compreensão, foi presidente do DCE. Aliás, foi uma das poucas eleições em que teve candidato único que eu vi aqui, ainda nos anos 80. Bem, quando me formei em história já tava engajado no movimento de professores, da Associação de Professores de História do Piauí. Depois de formado em direito ainda advoguei algum tempo, já sendo professor. Eu me afastei da advocacia, disse “não, isso aqui não dá certo”, achei um mundo muito complexo, muito complicado, cheio de gente pragmática demais, praquilo, naquele momento eu já tinha construído uma opção. O fato de ser funcionário da universidade que me ensejou terminando a licenciatura a ser transposto para o quadro de professores ajudou de certo modo, eu ficando por aqui e ficando também no cultivo de minhas posições políticas, aí já sindicais. Cheguei a ser candidato a presidente do SINTE, que se chamava ADEHPI, porque nessa época era proibido funcionário público ser sindicalizado, funcionário público não podia se sindicalizar, nem municipal, nem estadual, nem federal. Mas nessa época eu já era filiado a ADEHPI, comecei a dar aula no Estado no meu segundo ano de História. Já essa militância todinha da história contando aqui eu já tava ministrando aulas. Isso aí vai tornando a gente conhecido, evidentemente que a cidade passa a conhecer a gente, começa a escrever algumas coisas, começa a criar uma identidade na vida formal, literária, o fato é que 30 anos depois eu sou convidado a me candidatar pra... aliás fui convidado a me candidatar várias vezes, porque? Eu dou uma dica porque isso foi possível. A academia sempre teve muito historiador e eu ainda muito cedo por ser militante da área de História era conhecido de alguns deles. Por exemplo, o Monsenhor Chaves, o Odilon eu conheci menos, famoso historiador do Piauí, o professor Raimundo Santana, que morou muito tempo fora voltou pra cá e voltou pra universidade já nos encontra em certo ativismo aqui e tal, professor Paulo Nunes é outra figura que também viveu fora, foi até em certo momento um perseguido apesar de um homem muito moderado, então você consegue infundir certa percepção, posso dizer assim, em algumas pessoas que acaba entusiasmando e me convenceram de colocar meu nome a disposição e me candidatar pra academia, que eu seria eleito e tudo mais.

Eu resolvi colocar meu nome em certo momento, atender a esses convites. A academia ela é de fato, em face do fenômeno literário da cidade, sobretudo nos tempos mais recentes, é identificada muito como um lugar de maior conservadorismo e tal. Mas a academia no seu conjunto, ela vai fazer 100 anos agora, ela não é exatamente isso. Alguns estudos acadêmicos, como, por exemplo, o da professora Teresinha Queiroz, professora Áurea e outros que estudam a Literatura Piauiense, a trajetória dessa construção da literatura piauiense né, quer dizer, hoje se sabe que pelo menos os fundadores da academia constituíam uma vanguarda de homens no Piauí, em certo momento souberam conduzir e fizeram dessa entidade um sinal de esperança de mudar o próprio Estado, mas ela lá pelo meio, realmente ela nos anos 70, na época da ditadura, acaba, a academia a gente sabe, ela tem vários movimentos contrários até à própria academia, de poetas, escritores, do movimento cultural da cidade, mas ela se manteve dentro de um certo padrão de, digamos assim, tolerância sob alguma medida. Mas a academia realmente é de certo modo ultrapassada por vários movimentos sociais que foram surgindo como um cometa que surgem e desaparecem na vida da cidade. Eu coloquei no caso o meu nome dentro, quando me contaram foi assim, quando houve o movimento há uns 10-15 anos atrás essa história, “vá pra academia, ela precisa de pessoas como você”, alguns pensavam isso, “rapaz bora botar”, como você perguntou aí né, como sou uma pessoa de referência de formação intelectual mais de esquerda, “vamos trazer pra cá, a academia precisa”. Alguns até brincam “você é da cota né”, “esse cotista na academia”, “cotista da cota da esquerda”, alguns dizem brincando “da cota do PT”. Uns mais afoitos dizem isso. Eu acho que ela tem seu papel, eu acho que sim, e eu tenho um papel lá.

Eu acho que a própria piadinha da cota do PT já mostra que tem uma certa coisa lá muito conservadora. O pessoal desde a década de 70 já faziam movimentos que eram contra a academia, os poetas marginais, que diziam que ali era um sarcófago de múmias de tão imobilizador. E de certa forma, a gente sabe que a academia tem suas produções relevantes, no entanto você não considera que ela é muito fechada em si mesma nessas produções? Não é uma coisa muito elitista de só autores muitos antigos e renomados, um projeto de academia de letras muito circular, que é dentro do seu próprio circulo, que não sai daquilo ali? Por exemplo, o que a Academia de Letras faz para os novos autores? Tem algum tipo de projeto visando novos autores, novas personalidades além dos que já tão lá dentro? Não fica um pouco, infelizmente, como um clube fechado de quem entrou lá dentro e pronto?

Fica. Você tem razão nessa percepção. Agora depois que eu cheguei lá, e eu já conhecia um pouco aquele universo antes de entrar né, digamos assim. Isso é mais, digamos assim, uma incapacidade de fazer acontecer, de produzir, não essa abertura, mas o chamamento do novo, Agostinho, sabe? Do que uma opção de existência dela própria. Ela não tem um projeto de conservação, é mais uma dificuldade dela fazer. É uma entidade pobre. Diferente de outras academias por aí ela é uma entidade que sobrevive com muita dificuldade, com convênio de governo e tal. Alguns têm a percepção de que seriam a nata e tal, tem essa compenetração, não é o meu caso, eu acho que tem muita vida fora dela. Acho que é uma instituição a mais, mas a mais velha também, uma espécie de decana das instituições. Aí depois vem o Instituto Histórico, eu também sou presidente dele, que também foi criado há quase 100 anos pelo mesmo grupo de intelectuais. Isso tudo num esforço de querer entender o Piauí, de querer marcar o Piauí numa inserção do debate nacional. São intenções que podem ser retomadas. A academia, esse fechamento, é mais por uma incapacidade dela se colocar, entende? Claro que nesse mesmo ambiente do movimento estudantil, fim dos anos 80, em certa efervescência cultural em Teresina, que é quando se manifesta mais contra a academia, movimento de literatos, que hoje são literatos consagrados alguns deles, que militaram muito no contraponto da academia, alguns até já foram convidados, assim, quando eu digo convidados é porque a academia quando ocorre de abrir uma vaga, só abre quando alguém quebra a imortalidade, como aconteceu agora com o poeta Hardi, um desses que em certo momento não quis a academia, depois entrou, faleceu a pouco tempo e tá agora aí a eleição pra escolha. A academia como que convoca algumas pessoas e eu sou testemunha, e já até fiz isso, uma certa militância de compreender que algumas pessoas que são do meu tempo aqui na universidade, que são dessas filiações, como Paulo Machado, por exemplo, intelectual que tenho muita admiração, meu colega de curso de Direito, inclusive de formatura, poeta Paulo Machado que escreveu “Tá pronto, seu lobo?”, aquele livro interessante. Já interessado em pesquisar a questão fundiária no Piauí e tal. O Paulo, por exemplo, é uma figura que quando acontece uma coisa dessas de morrer algum acadêmico, que é só quando se pode falar dum assunto desses, e eu falo aqui agora porque realmente tem vaga nesse momento. Como tá tendo uma vaga tá na hora certa de eu dizer isso, quer dizer, até se especula e tal, mas repito, é uma instituição que eu acho necessária, mas que precisa ser mais traquejada. No caso aí depende mais dela própria, dela chamar, dela tornar suas janelas em portas incitantes para os que estão em volta, para os que com justa razão desconfiam dela, digamos assim. Pelo perfil de alguns, a academia realmente abriga alguns intelectuais muito conservadores, que não é bem o caso da minha cadeira né, a minha cadeira foi fundada por um maldito, chamado Clodoaldo Freitas, quer dizer, um homem que quem estuda a história dele sabe que foi um juiz que viveu em sete estados do Brasil porque na primeira sentença que dava onde chegava ele desgostava os poderosos locais e era expulso de lá. Esse homem que quase não criou a família, perseguido. Mas é uma entidade que a sobrevivência não pode depender só de alguém que entra e só sai quando morre e fica lá perene, quase petrificado lá não, acho que precisa reinventar as articulações ou não sei, se modernizar. E esse é uma crítica que eu tenho a todos os tipos dessas associações, que em outro contexto cultural produzia e que não se reinventou nos novos contextos, então tende a desaparecer ou a ficar no nível de pouca qualidade, de pouco protagonismo.

Recentemente o João Claudio Moreno afirmou que o município tem uma política cultural bem mais estruturada que o estado. Ele até afirmou que na verdade não há projeto cultural pro Estado do Piauí desde o Hugo Napoleão. O senhor tem uma ligação com o PT, considera realmente que o PT não teve projeto cultural enquanto esteve no comando do governo do estado do Piauí?

No primeiro governo do Wellington foi ensaiado, houve uma orquestração, muita articulação, “A imaginação a serviço do Brasil”, “A imaginação a serviço do Piauí”. Tudo isso se tentou compor, encaminhar, mas acabou não se dando e tal. E que pese muita boa vontade de apoiar certas iniciativas, mas não algo que se articulasse no que seria um plano. E foi até um momento interessante de ter acontecido, com o Gilberto Gil, acho interessante o trabalho que no tempo do Gil e do Juca Ferreira, conseguiram levar a frente, foi interessante, muito interessante, mas podiam, acho, ter aproveitado mais. Um trabalho cheio de gente com boa vontade né, mas é um campo muito complexo, no Piauí essas iniciativas, conheço aqui metade dos, ou mais, dos artistas e tal, essa referência é uma das coisas que mais tenho orgulho. Quando fui candidato a reitor aqui pela universidade a gente não tinha meios para contratar um artista pra fazer nossa festa de apresentação da chapa. Queríamos fazer uma coisa bonita, pra cima, afinal de contas tinha toda essa inserção aqui. Fiquei muito orgulhoso que 41 artistas vieram, todos dar canja, fizemos uma noite belíssima na ADUFPI. O João Claudio, o PCdoB tentou trancar ele por fora na casa dele, ele saiu pelo fundo e veio aqui nos apoiar e tal. Por uma questão de que aquela candidatura era vista naquele momento como uma coisa belíssima e depois ainda encontrei um, não lembro quem, parece que o Teófilo Lima, que eu não consegui contatar e ele reclamou de mim “como é que eu não fui convidado?”.  Essas referências que se formam, por isso, inclusive não faz mal dizer, eu também fui sondado no começo do primeiro governo do Wellington, pra fazer jus a essa sua lembrança aí, fui sondado pra ser presidente da FUNDAC na época. Mas eu tava recém eleito diretor do CCHL, numa eleição política muito significativa aqui pra oposição, fui eleito pelos estudantes, a eleição mais bela da minha vida, assim como também fui, quando candidato a reitor, fui o candidato mais votado da universidade por causa da grande votação dos estudantes, tudo coisas que me fazem muito bem. Eu acabei não assumindo, cheguei a ser convidado né, sondado pra assumir a FUNDAC dentro desse projeto maior e isso não foi possível.



Mas sendo bem direto na sua pergunta, acho que não tem e é muito complicada a ideia de chamar “Plano de Cultura” no contexto de hoje. Primeiro que é coisa de uma possível elaboração muito complexa, porque são as polissemias do que indica a própria palavra cultura, as práticas culturais, daí para se fazer um projeto de plano de estado, uma política de estado sempre esbarra em dificuldades muito grandes. O que não significa não ter plano nenhum, não ter e simplesmente se ir pro improviso. Acho que é alguma coisa muito desafiante, acho que o governador sabe disso, tomara que saiba, agora mesmo essa recriação da secretaria de cultura é uma aspiração mediana, os artistas, as pessoas que lidam mais com referência no Piauí com a questão da cultura, todo esse segmento se ressentiu muito quando extinguiram a secretaria de cultura. O que causou um certo sentido de falta, de orfandade, que bateu muito forte. Agora ela foi recriada, um compromisso de campanha que todo mundo lembra, o Wellington tá recriando né, tomara que possa encaminhar, tomara que possa tirar essa secretaria daquele sentido, claro que ele tem vontade de fazer isso, a clareza de fazer isso, retirá-la dessa mesa da divisão do bolo partidário, dos cargos e tal. E consiga conferir uma outra marca, me parece que vincular qualquer coisa, o futuro secretário de cultura, a essa racha de articulação de apoios políticos, me parece que isso já sairia com a chance muito pequena de se articular alguma coisa mais para frente, que pese a secretaria de cultura é necessária exatamente porque também é um instrumento politicamente muito mais capaz de conferir uma direção do conjunto da atividade cultural no estado, naquilo que é possível do estado se meter, orientar e sobretudo de apoiar. É uma coisa assim, se precisa ter poder político como secretaria, mas ao mesmo tempo esse poder tem que ser mitigado ao ponto de o interesse político menor, da articulação política, de troca de apoio, sabe, não subordinar o futuro da ação cultural. Eu vejo assim.

Você defendeu uma tese recentemente sobre patrimônio cultural, que é uma questão que também entra essas políticas de estado relacionado com cultura. Fala ai um pouco da tese, como foi.

É, eu fiz o doutorado na área de ciências sociais aplicadas, políticas públicas, mas construindo um trabalho fronteiriço, digamos assim, com meu pasto de referências no campo da História e um pouquinho do Direito. Eu fiz um trabalho sobre a construção da política pública do Brasil para patrimônio, em particular examinei o caso do tombamento mundial de São Luis. Eu quis examinar e coloquei como uma questão de tese por que a UNESCO, o IPHAN, porque os órgãos locais querem de vez em quando, querem como política pública transformar uma cidade em patrimônio da humanidade. De que humanidade se fala? Que humanidade é essa? São minhas perguntas de pesquisa né, e vou examinar então o processo de tombamento mundial de São Luís pela UNESCO me referenciando no estudo das políticas públicas locais do projeto reviver e outros. Porque São Luís? Primeiro porque tá muito perto de nós e segundo que eu fiz o doutorado já com minha carreira na universidade, digamos, bastante avançada no tempo, não é, uma quantidade de documentos muito grande e o ineditismo, descobri que o próprio IPHAN não dispõe de nenhum trabalho desses, dessa natureza, examinando dentro da perspectiva geral do fenômeno das cidades, porque que uma delas, porque que o mundo, por uma instituição como essa cheia de interesses quer transformar uma cidade dessas nessa coisa de patrimônio histórico, eu fui muito fundo tentando refinar, buscando compreender a criação do sentido do que se chama patrimônio histórico e cultural. Minha tese busca resposta pra isso. Chego a conclusões? Chego, por exemplo, pra quê se tomba uma cidade, pra quê o IPHAN tomba uma cidade? Por que a UNESCO um dia declarou São Luís patrimônio histórico-cultural da humanidade? Porque é uma referência do mundo do capital. No caso de São Luis, por exemplo, é uma cidade do mercantilismo, é uma cidade inventada, criada, pelas forças em luta da expansão mercantil europeia, do que se chama de descobrimento, das lutas daquele tempo, das lutas interoceânicas em busca de comércio de mercado. São Luis era um porto que ainda hoje é. Como é que essa cidade passa de cidade mercantil para uma cidade mercadoria? Tombar uma cidade é transformá-la numa mercadoria para vendê-la no mercado de cidades turísticas do mundo. Essa é uma política pra fazer turismo, quer dizer, é um ativo cultural que transforma a cidade, aquele lugar. Parnaíba, Oeiras agora aí, tombadas como patrimônio nacional, é transformá-las num ativo cultural. Para quê? Bem-estar da população? A defesa de alguma coisa que é bonita esteticamente? Relativamente. Para novos usos? Necessariamente, se não fenece, se não tiver vida o patrimônio não vale nada. Mas sobretudo para que no Brasil essas cidades possam competir num mercado, aliás muito competitivo, das cidades históricas do mundo no presente contexto da reestruturação do capital, em que os ativos culturais as manifestações se prestam muita atenção nela. Tanto que o Banco Mundial é cheio de financiamento restauração de patrimônios, disso e daquilo. Portanto essas cidades que batem muito forte, que ressoam, como São Luís e Alcântara, como uma ruína de outro tempo, que só não derrubaram porque ali o capitalismo não avançou naquela cidade, então ela foi salva pelo atraso das ações capitalistas que foram pro Rio de Janeiro, dinamizar um outro Brasil e ela ficou lá atrás. É por isso que ela não foi aniquilada, por uma ideia de desenvolvimento, a cidade foi salva e ela é hoje, bom, a população talvez hoje já sente que aquele ativo cultural atrai turistas, portanto aquilo precisa ficar de pé, porque vai lá essa hora qualquer dia do ano, sobretudo no mês de Junho, toda hora, eu que passei um ano lá praticamente morando no centro-velho, tava estudando ali perto da universidade, não tem um dia, é mais do que maranhense e ludovicense, é cheio de estrangeiros com as maquininhas fotografando as esquinas, as pedras e tal, os casarões cheios de mato em cima, que pra alguns é “oh sinal de decadência” e naquilo está a beleza pra muitos. É como os estudos de patrimônio indicam, tá morrendo tem direito de morrer essa ruína, ela vai morrer e eu vi, eu fotografei, faz parte a situação de ser uma ruína, quem não tem muito isso é brasileiro, europeu vive isso e chama atenção. Brasileiro acha pomposo ir para fora ver ruínas em Paris, Itália, mas aqui, Teresina tem uma floresta fóssil tombada pela UNESCO, que 90% do povo desse lugar aqui não tem a menor ideia do que é aquilo. Tem um dos melhores museus e mais belos museus, também tombado pela UNESCO e 95% dos piauienses nem sabe o que é, a Serra da Capivara. É uma coisa muito complexa, eu tento mexer com isso, na minha tese.

Aproveitei um trabalho meio fronteiriço e tal, quer dizer, produzi esse trabalho na atenção muito fecundadora e necessária, como lembra meu querido professor Fernando Antonio Novais e suas reflexões, quer dizer, não é mais possível construir uma reflexão histórica e historiográfica sem recorrer hoje ao método científico pronto das ciências sociais. É claro, a opinião é minha, com todo cuidado de não deixar que certo pragmatismo insignifique o que significa pra mim, e pra quem tem mais sensibilidade, a história é sim a mãe, pra mim a história é a experiência humana disso tudo, sabe? Essa experiência humana aferida, nós trazemos, manifestamos, o que vem depois é depois e tudo é menor. Todo método pra entendê-la é menor. O método é menor que o fenômeno. Sempre será. Então tendo essa compreensão na cabeça, isso me move muito, pra mim a história é a experiência humana dada, portanto é um conhecimento anterior, tem a inerência de construir o andar, o caminho, lá nas origens, quando o mal, que se chama de ser humano né, se ergueu, adquiriu, estava adquirindo o que chama de a cláusula do sapiens, da sapiência e tal. Aí já tá a história, sabe? Quer dizer, é muito anterior ao que se chama de filosofia, esses sistemas, o direito então que acha que sabe alguma coisa da vida que brota aqui, que é efêmera, dos pactos, então a história é essa mãe fundamental, no âmbito de que não precisa ninguém dizer, ela é. Eu busquei ver isso, na minha tese eu quis significar isso.

Briguei com meu orientador, porque não compreendeu, achava que eu queria separar e fazer só um trabalho de história e o doutorado era ciências sociais, ficou aquela coisa perêpêpê “Você vai trabalhar uma cidade de 400 anos, mas a política é recente” e eu disse “A política é recente, de 30-40 anos, mas se dá sobre um objeto historicamente construído de 400 anos”, que no meu conceito é mais porque São Luís foi erguida em cima de um sítio tupinambá ferido pelos franceses para ferir os portugueses. Os franceses se instalam ali em pacto com os tupinambás, um pacto político que proclama a primeira constituição escrita das Américas, foi em São Luís, na ilha, antes de ser São Luís, São Forte. Aliás uma coisa muito interessante dessa cidade tão decantada e cantada pelos poetas e intelectuais, a Atenas Brasileira, que é um termo que eu questiono, trouxe para o meu trabalho, submeto a um certo crivo crítico, que Atenas é essa? Ela é muito forte mesmo, mas é forte porque é negra, belamente negra, a mais negra que pode existir em termos de vestígios, porque ela é lendária, Dom Sebastião mora debaixo dela, da Ilha dos Lençóis e sai voando nas ruas, nos terreiros, nas Igrejas Católicas, em todo lugar, ele sai toda sexta-feira na forma de um boi com uma estrela na testa, se transforma num turbilhão de linguagens que diz respeito à mescla que é aquela cidade. Por tudo isso está ali, é uma cidade latente, cujo isolamento do atraso, o Maranhão, em particular Upaon-Açu, o nome oficial da ilha, então eu andei por aí. Alguém disse assim “ah só porque é maranhense”, não, é uma necessidade e tal, é um debate interessante e pra mim foi o que se afigurou dentro dos meus cansaços e tarefas, digamos assim, mais palatável naquele momento, foi estudar esse fenômeno do patrimônio, sobretudo quando vem adjetivado patrimônio-histórico-cultural. Tentei dar conta do recado, passei. (risos).

Obrigado pela entrevista professor Fonseca, acho que já tá bom. Muito obrigado pelo tempo!

Eu que agradeço. Tomara que você dê conta desse turbilhão de coisas (risos)

Vai demorar um pouquinho mais vou dar conta sim. (risos)
“A Academia de Letras é uma entidade que precisa se modernizar”, diz Fonseca Neto
  • Título : “A Academia de Letras é uma entidade que precisa se modernizar”, diz Fonseca Neto
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  • Data : quinta-feira, 23 de julho de 2015
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