segunda-feira, 20 de julho de 2015

No Banheiro Um Espelho Trincado - Sergio Mello


Lançado em 2004 pela Editora Ciência do Acidente e prefaciado por Marcelo Montenegro, No Banheiro um Espelho Trincado traz versos que se aproximam bastante da oralidade, seja pelas expressões populares cunhadas, a falta de pontuação e imagens que de tão cotidianas são possíveis de visualizar com o retroprojetor de nossas imaginações.

O livro, primeiro de Sergio Mello, só pude lê-lo porque passado pouco mais de dez anos de seu lançamento e tendo os exemplares esgotados, o poeta decidiu disponibilizá-lo para download na web. Mello, paulista nascido em 1977, (ano da criação do estado do Mato Grosso do Sul), começou a escrever aos 17 anos e claro, visivelmente inspirado pelos Beats, é autor do inédito Savoy River, - o que particularmente considero estranho ser autor de algo inédito, ou melhor, divulgar  alguém como autor de obra inédita, pois na divulgação há uma áurea de que todos já conhecem (deveriam conhecer) a obra, embora inédita, mas enfim, só se é autor (para mim) do que já é/foi de conhecimento público,  a obra, não sua existência apenas-.

Três anos após o lançamento de seu primeiro livro, estrearia como dramaturgo quando sua peça “Charutos” foi encenada com direção de Nelson Peres.  Em 2008 estreou as peças “Aos ossos que tanto doem no inverno” e “Olhos azuis num retrato branco e preto”, configurando a predileção por títulos longos em suas produções.

Ainda sobre sua poesia, No Banheiro um Espelho Trincado é um livro curto, 43 páginas em pdf, com poemas que não passam de uma lauda, mesmo os mais sisudos; há inclusive poemas com dois versos, os que, a meu ver, exigem mais do leitor. Nada mais justo, não se entrega um poema assim com facilidade ao expectador. Tem de tudo, ou quase tudo nas abordagens de Sergio, desde o bandido que abandona a cidade, foragido, passando por senhores jogando cartas, exibindo cortes de navalha na barriga e dando conta da vida alheia a carros roubados, namoradas que fazem cara de tacho ao serem premiadas com poemas de amor que não entendem.

A impressão que se tem, às vezes, é que o autor, durante sua adolescência, fotografou pequenas cenas dos filmes que costumava assistir e dedicou dois ou três versos para descrevê-las. Se Julio Cortázar nos lembra que a poesia está para a fotografia como o romance para o cinema, Mello então acertou. Claro, há poemas bem fracos como ‘Meia-idade’, mas que preparam o fôlego do leitor para os seguintes. Por vezes o leitor é pego de surpresa, títulos como ‘Você é ridículo’ ou ‘Para Holly desaparecida’, neste você imagina qualquer coisa como um animal de estimação quando na verdade trata-se de um ex-amor que trocou uma paixão por outra que ostenta Kadet e bolas de praia.

Do meio para o fim do livro aparecem alguns poucos poemas metalinguísticos, claro, debochados, “a poesia transita no mar/tão presente que vira mulher feia/aos que amanhã terão de trabalhar”, em seu ‘Feriado Prolongado’. Em seguida sobre mulheres que levam o poeta à falência dos modos mais variados possíveis, Mello taxa: “o poeta escreve sobre torneiras pingando/ele sempre escreve sobre torneiras pingando/e sobre uma tempestade de granizo/que melhorou a imagem de um canal televisivo que não pegava direito/ao qual ele assistiu roendo as unhas/até sangrar”.

Se o autor, de fato, roeu também as unhas para escrever seus poemas, não sei, porém que nos faz criar calos nos olhos com tantas imagens em tão poucos poemas, isso sim, ainda mais quando se olha por um espelho trincado como o do paulistano Sergio Mello.


No Banheiro Um Espelho Trincado - Sergio Mello
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