terça-feira, 14 de julho de 2015

O Filme Perdido


Teresina, algum dia do ano de 1972. 

Gravava-se nessa data o dito primeiro filme piauiense, “Adão e Eva: do paraíso ao consumo”. Jovens buscavam transar a cultura piauiense no ano que é considerado o nosso 1968. Estavam nesse bojo Carlos Galvão, Arnaldo Albuquerque, Claudete Dias, Torquato Neto, Antônio Noronha, Edmar Oliveira, entre outros que faziam acontecer na capital mafrense. 

No mesmo ano, e nos anos seguintes, surgem filmes como “O Terror da Vermelha”, “David Vai Guiar”, “Espaço Marginal”, etc. Mas um dos filmes manterá um encanto, um gostinho a mais devido a sua existência/não-existência: “Adão e Eva: do paraíso ao consumo”. O filme, com a intenção de ser editado, foi mandado para fora do Estado e se perdeu. Tornou-se um mito, assim como viria ser Torquato Neto no mesmo ano após ligar o gás e dar adeus. 

Todavia, nesse ano de 2015, 43 anos depois, o filme surge. Não em formato áudio-visual, esse se perdeu sem volta até o momento, mas em fotografias. Guga Carvalho desempenhando um belíssimo trabalho conseguiu com Antônio Noronha e outros personagens daquele fervoroso ano algumas fotografias em still do filme que se encontra perdido. De certa forma o filme foi reencontrado, mas de outra ainda permanece perdido. Dessas fotografias nasce uma mostra, na qual não poderia ser melhor titulada do que “O Filme Perdido”. São fotografias que mostram os bastidores de gravação, coordenada por Carlos Galvão e Edmar Oliveira, onde tínhamos Torquato Neto numa bata suja de sangue dentro do rio Poti, andando pelas ruas de Teresina, com uma bela Eva, no caso a futura historiadora Claudete Dias. 

Achando pouco, tendo feito muito, Guga Carvalho, em conjunto com Antonio Noronha e pesquisa de imagem Danilo Medeiros, resolveram transformar a mostra/exposição em livro-objeto. Nasce então o livro “O Filme Perdido”,com projeto gráfico de Phillipe Xadai, que ao mesmo tempo é e não é livro mas é tido como uma obra de arte. Guga Carvalho deixou claro, no lançamento em Teresina, que o livro não trata de Torquato Neto e muito menos do filme “Adão e Eva...”, e vocês se perguntam, como assim? O livro é uma obra de arte, especificamente de fotografia, onde teremos a presença das filmagens do filme e as imagens da participação do poeta Torquato Neto no mesmo. Nega-se mas afirma-se. Afirma-se mas nega-se. 

Na apresentação do livro, a gerente do Centro Cultural do BNB de Fortaleza, Jaqueline Medeiros comenta que “O Filme Perdido” nos possibilita uma reflexão através das imagens, questionando a fronteira entre o que seria arte e documento. Vocês olharão as imagens como documento acerca da existência do filme “Adão e Eva..” ou irão pensá-la como uma obra de arte de um momento único refletido através das lentes do Antonio Noronha? Questionamento que eu, que estou escrevendo nesse momento, não consegui refletir por inteiro. A dúvida está sendo salutar. Mas eu prefiro que ela seja as duas possibilidades, ou nenhum se for o caso.

Guga Carvalho levanta a tese de que o filme “se mantém numa espécie de presença em suspensão”, pois sabemos que o filme existiu, está perdido, não sabemos aonde, mas que pode aparecer a qualquer momento. Esperamos que essa provocação do Guga seja igual a do Marcelino Freire quando passou por Teresina, ao questionar sobre a voz de Torquato Neto. Algum tempo depois a voz apareceu. Esse livro, “O Filme Perdido”, poderia trazer a tona novamente essa obra rara de um tempo que não se perdeu.
O Filme Perdido
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  • Data : terça-feira, 14 de julho de 2015
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