quarta-feira, 8 de julho de 2015

As Reflexões Metafísicas de The Stanley Parable


Você já teve a sensação de que sua vida parece igual todos os dias, como se fosse um filme se repetindo infinitamente? Já sentiu que você não controla suas decisões e que afinal de contas o livre arbítrio não parece tão livre assim? Você já teve a impressão de que a existência em si parece um tipo de aprisionamento do qual se tem pouco controle? Se você me disser que nunca refletiu sobre nenhuma dessas coisas vou pensar que ou você é a pessoa mais chata do mundo ou está mentindo. Pois bem, The Stanley Parable é um jogo que discorre sobre todas essas questões!

The Stanley Parable era inicialmente um mod de Half-Life 2 lançado em 2011, todo desenvolvido por Davey Wreden. Dizem que Wreden passou anos em fóruns aprendendo a desenvolver e perguntando coisas para pessoas mais experientes, que o ajudavam na camaradagem a adicionar ferramentas mais complexa ao seu jogo. Foi desse esforço tremendo que saiu o mod TSP, que acabou sendo bastante comentado na comunidade de gamers a ponto de se tornar um clássico com áurea cult.

A prova do sucesso do mod está no fato de que bastaram algumas imagens para que o projeto fosse aprovado no Steam Greenlight em 2012 para ser desenvolvido pela Galactic Cafe, produtora do próprio Davey Wreden. A nova versão do jogo saiu em 2013 e até hoje é considerado um dos exemplos mais eminentes de game-art, ou seja, jogos que de alguma forma excepcional conseguiram extrapolar os limites do gênero e que fazem as pessoas refletirem questões profundas da existência. Eu particularmente considero que todo jogo é arte, afinal, tem trilha sonora, arte gráfica, roteiro e até a jogabilidade é algo a se contemplar, mas jogos que provocam o jogador a sair da sua zona de conforto metafísica, bem, esses são bem raros e TSP talvez seja o que consegue ir mais longe nisso.

No jogo somos Stanley, trabalhador de uma grande empresa que ordena cada funcionário por um número, Stanley é o funcionário 427. O trabalho na sala 427 é ficar apertando as teclas que aparecem na tela do computador até terminar o seu horário, Stanley não sabe o efeito de sua ação e nunca mesmo se perguntou por que apertava aquelas teclas, era apenas seu trabalho e ele fazia. Um dia ele percebe que todos os outros funcionários do prédio sumiram e resolve ver o que está acontecendo. Assim começa a saga infinita de Stanley.

A sacada master do jogo é o narrador. Existem apenas dois personagens, Stanley é só uma carcaça para você, você é o personagem principal junto com o narrador. Você pode escolher seguir o que ele diz na narração ou desobedecê-lo, isso afetará como o jogo vai se desenvolver.  E suas ações podem irritá-lo ou agradá-lo e a partir disso ele vai reagir como seu inimigo ou aliado. Cada ação, ou falta de ação, que realizarmos durante a jogatina irá provocar o narrador. Vale destacar que a voz do narrador, interpretada por Kevan Brighting, é de qualidade ímpar. O tom de voz na ironia, na irritação, nos momentos mais cômicos ou só narrando mesmo são sempre impecáveis.
Narrador te forçando a obedecê-lo: Ainda acho que não estamos nos comunicando adequadamente. Stanley adentrou pela porta VERMELHA.

É espantoso como apesar de ser algo programado, na primeira vez em que jogamos por algumas horas parece que o narrador está nos observando de verdade, sabendo o que estamos pensando e ele tenta nos manipular para fazermos o seu desejo em vez de nossa própria vontade. É como se a ~máquina~ desafiasse você e você tenta a todo custo superá-la, até mesmo quando não há o que fazer você prefere ficar parado, só por birra, do que fazer o inevitável, que é o que o narrador quer. Com o tempo infelizmente isso vai perdendo o brilho, pois já sabemos quais reações serão desencadeadas com nossas ações. Embora seja brilhante, costumo sempre deixar evidente que TSP é um jogo de uma jogada só.

A grande força de TSP reside na capacidade de mexer com a emoção do jogador e fazer ele pensar se sua própria vida é diferente da de Stanley. Quando chegamos nesse momento percebemos que existem muitos narradores querendo nos dizer o que fazer, o que falar, como nos vestir e mesmo características inevitáveis como nossa nacionalidade, cor de pele e sexualidade-gênero são coisas que teremos de ter de alguma e são limitadoras da nossa capacidade de experimentar o mundo.

Quando joguei The Stanley Parable a primeira vez, fiquei semanas bastante pensativo sobre a minha vida. Não recomendo você jogar se tiver numa “bad vibe”, porque esse jogo provavelmente irá aumentá-la de modo tremendo, já que não há um fim e não é feliz em nenhum momento. Stanley, assim como nós em nossas vidas, sempre terá que continuar fazendo algo que ele acha que está escolhendo, mas que já foi pré-definido. Há 20 finais diferentes no jogo, sempre que você chega a uma conclusão o narrador reinicia o jogo, seja por raiva de você ou porque alguém o obriga a fazer isso e lá vai você novamente explorar o escritório no seu falso livre-arbítrio.
Minha vida é normal, eu sou normal. Tudo ficará bem.
Esse jogo é como um soco no estômago, depois de jogar você se deita em posição fetal, quietinho e espera a sensação ruim passar. Vai demorar bastante pra algum jogo superar a genialidade de The Stanley Parable, disso eu tenho certeza.

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