quarta-feira, 26 de agosto de 2015

A vida pode ser algo banal - Resenha de "O Buraco e Outras Histórias" de Fernanda Paz


Lançado em 2013 pela editora carioca Multifoco, O Buraco e Outras Histórias, obra que reúne vinte contos, é o primeiro livro da capricorniana Fernanda Paz. Formada em Pedagogia pela Universidade Estadual do Piauí e em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Piauí, a contista piauiense também estudou Teatro.

Paz se difere um pouco de suas contemporâneas: Clara Mello, as irmãs Rosseane e Tarciana Ribeiro (brincadeira, não são irmãs), Aldenora Cavalcante e Vanessa Trajano. Integra com esta última duas antologias: Blasfêmeas e Antologia Transcultural de Poesia Feminina. Aldenora, Vanessa e Fernanda já foram homenageadas em uma edição do Café Literário (sarau que ocorre na cidade). Fernanda também participou do 11º Salipi (Salão do Livro do Piauí). Difere-se porque como diria Vitor Brauer, empurra todos os limites da extensão de nosso próprio olhar com seus temas, abordagens e narrativas.

Seu livro tem orelha escrita pela Doutora em Letras, Rosa Maria dos Santos Kapila, que a compara a Rilke e Kafka. Penso que estruturalmente. Pela linguagem Fernanda me lembra Kerouac e Ginsberg, autores da tortuosa Geração Beat. Pelo deboche diria que a lembrança me vem pelo autor de O Apanhador no Campo de Centeio, J. D. Salinger e seu jovem protagonista sem papas na língua.

Logo no início do livro me deparo com estas passagens.

“Raras chuvas e temperaturas amenas pulsavam em mim a criatividade que me fora roubada pelos tortuosos dias da vida preenchida por atividades limitadas e monótonas. Aquele forno diário me tirava do sério.” 

Ou ainda 


“preciso me mudar para uma cidade fria.”

Obviamente referências aos dias passados e vividos numa cidade como Teresina, conhecida pela incidência de raios solares e também bons e fortes trovões. Lógico, quando chove.

Então a autora através de seus personagens questiona bastante o cotidiano, a repulsa por locais de trabalho: “Olhei aquele monte de papel: não havia nada ali que eu quisesse fazer de fato". E as convenções sociais: “Se tinha uma coisa que odiava era cumprimentar as pessoas, mas vez ou outra me obrigava a fazê-lo...”, mostra-se reflexiva: “quem nunca pensou em morrer que atire a primeira pedra. Não que seja o que eu quero, não é isso”, ou “Que droga de hora. Passa, passa, passa sem você ter feito nada pra valer”.

O conto inicial, que dá nome ao livro, é dividido em cinco atos, no terceiro a personagem cai em um buraco durante a volta para casa. Passa dias sem ser encontrada, vai mudando seu comportamento, hábitos e no auge da mutação, sua pele ora escapela, ora escama, ora está espinhenta e é usada para imolar um ratinho que encontra no buraco. Perdida, vê-se obrigada a se alimentar com lesma. Ao que tudo indica, a personagem consegue sair do subterrâneo após correr insanamente por baixo da terra. Fraca, resistente à iluminação pelos muitos dias no escuro túnel, desmaia em solo firme.

Ela, segundo conto do livro, curtíssimo por sinal, ganhou encenação audiovisual como trabalho universitário, no qual a própria autora encarna a personagem principal, produzido e dirigido por Aline Santiago, que também assina a fotografia do livro. Bons contos podem render boas películas, é o caso, por exemplo, de Frontal com Fanta de Jorge Furtado, adaptado pelo filho do autor em 2014 com o nome de ‘Boa Sorte’, destaque do cinema nacional ano passado com encenação de Deborah Secco.



O conto Branco me faz sentir uma ponte com o poema ‘Insólito’ de outro autor piauiense, o poeta Demetrios Galvão quando ele diz: “A mancha úmida na parede é gozo do tempo”. Esse texto fala de como uma relação pode se tornar opaca, do quanto esfria, do quanto fica monótono como uma parede em branco.



Fernanda vale-se de orações curtas, falas pequenas e pensamentos conclusivos. Fato que muitas vezes aproxima seus contos da poesia, ou de outro modo, os incluiria na prosa poética, seja pela estrutura, organização como pela imagética, Branco é um conto bastante imagético, já o final de Dia Seguinte, por exemplo, estruturalmente falando mais parece um poema de versos livres:

Brincavam, sim, e riam.E riam.Com o corpo da criança nas mãos.Um corpo com furos de velhos arames que o atravessavam.Um corpo com cortes.Um corpo com sangue já seco.Um corpo que passava de mão em mão.Brincavam e riam.E riam.

É o primeiro conto onde a escritora assume a voz masculina. De fácil compreensão seus excertos são lineares, circulares, com começo, meio e fim bem definidos. Nisso também destoa das autoras atuais produzindo na cidade. Paz hipotetiza, traz definições particulares e teorias sempre calcadas no deboche peculiar de sua escrita: “a vida pode ser algo banal” ou “Trabalho. Nome justo. Trabalho”. A triste certeza do monótono dia seguinte: “[...]só uma cerveja para amenizar o final de um dia assim, e se preparar para um semelhante...” parece pesar sobre os ombros de suas personagens.

A Caixa, é um conto assaz misterioso. A imagem, no sentido simbólico, do Buraco aparece em muitos dos contos. Buraco é uma metáfora utilizada ao longo do livro, entremeando seus personagens, fala de como as pessoas podem se tornar vazias acrescidas do vazio do dia, do trabalho, da rotina, relações interpessoais. Cheio de deveres. Vazio de direitos. E não só isso, o buraco traz ideia de escuro, ou seja, além do vazio, há esse lado de penumbra para tornar mais densas as imagens apresentadas, basta observar a belíssima capa do livro, toda em preto e branco, exceto por uma única face. A capa nos diz muito também, são rostos, melhor, são máscaras, máscaras são como buracos onde as pessoas enfiam seus rostos diariamente para se esquivar de cumprimentar um conhecido no ônibus, fingir falsidade e se aproximar de alguém, para enfim, ser egoísta, comportamento mais humano e mais primevo desde a história de seus reféns, os homens.

As observações, “só a necessidade pode nos forçar a fazer o que já deveríamos ter feito por vontade”. A autora pega o clichê inconsciente e o materializa de modo a fugir de jargões. Interessante. Faz isso muito bem e ao contrário de uma das suas contemporâneas que costuma usar o trivial, o óbvio, o [que é] dito em rodinhas e os publica como seus por, enfim, estar assinando um clichê popularesco, de cunho recorrente, fazendo uma espécie de apropriação do usual, do costumeiro em um contexto mínimo, para, na cara de pau, assumi-lo como se sua criação fosse, original. Porém não, não passará. Um dia, quando eu estiver mais livre de tretas possa arrumar mais essa, resenhando algo da aqui citada nas entrelinhas.

Ponto de ônibus parece ser o conto mais pessoal, próximo da realidade da escritora, é possível para quem é teresinense reconhecer a cidade mais uma vez. Fala de pombos, de garis, parece o dia iniciando em nossa capital, o que, claro, não deve ser muito diferente em outras cidades do Brasil. Além de contista, atriz, professora, Fernanda lida bem com artes plásticas, as ilustrações de seu primeiro livro são todas autorais, o que vem a tornar mais consistente todo o conceito por trás da obra. São recorrentes cores como Vermelho, Branco, Cinza. O branco diria que representando o vazio de uma vida atribulada e muitos compromissos, o cinza pela opacidade dos dias e o vermelho a solidão e seus desejos de vingança.

No texto seguinte, Salto, aparece a metalinguagem numa comparação da cópula hétero com o ato de escrever: “Fitei por horas aquele papel em branco. Quanta coisa rodando dentro do corpo e da mente. E nada na caneta. Sensação de impotência. Posso dizer que entendo um homem quando não satisfaz uma mulher, pois era assim que eu me sentia”. É mais fácil perceber quando do final do texto, onde a personagem esclarece que todos os atos que vinha contando, na verdade estavam sendo escritos. É dos melhores contos do livro, muito porque também é sensual sem ser sexista ou apelativo, “Enquanto eu dirigia, usava uma das mãos para tocá-lo. Ele enlouquecia. Chegamos em casa. E minha cama teve de aguentar a nossa fúria”. Isso é raro nos autores atuais. Para quem deseja entender de verdade porque no início do texto afirmei que Fernanda se difere de suas contemporâneas, basta ler esse conto e textos com temática similar das suas colegas de geração abordando romance, amor, namoro, traição, ciúmes etc.

Melodia Urbana é pesado. A voz masculina reaparece em Partir. Moro numa cidade de bonecos é o conto em que o inanimado se faz presente, ou se pegarmos pela ótica da metáfora, veremos seres humanos mecanizados, transformados em bonecos ou ventríloquos que outrora teriam sido humanos. Vemos também o quanto a narradora e ainda mais a autora se preocupa que isso se alastre e contamine a todos num futuro próximo. Seu único subterfúgio é a música, a arte como salvação.



No conto seguinte, a maquinização humana continua: “Em casa quase não fui notada. As crianças revezavam sempre entre computador e videogame e a minha vida de esposa há tempos caíra na rotina”. O escape deste texto parece ser o amor, ou melhor, um antigo amor reencontrado em uma consulta médica. É impressionante como em poucas páginas o enredo e as tramas se intensificam sem lacunas e com finais inesperados. Os contos, no geral, trabalham um núcleo, um personagem, Fernanda deixa o narrador trabalhar e enche suas personagens de ações. É preciso estar atento para ver que a história já se desenrolou sem que o leitor tenha se dado conta, isso graças ao bom fluxo de suas narrativas, à leveza de sua escrita. A maturidade linguística da autora é notável. Sua linguagem é enxuta e não cansa o leitor, pelo contrário, o pega de surpresa com novo desfecho antes mesmo de pensar em pular um conto ou abandonar a leitura. Paz é melhor em seu livro que no blog que hoje atualiza. Mas claro, livros, obras, CDs, uma obra, qualquer que seja, ficará para a posteridade, é preciso esmero e a autora sabe disso. Um blog pode ser desativado a qualquer momento.

Mal Estar relata um acometimento num dia de serviço e o quanto estamos presos ao trabalho a ponto de nem coragem termos de pedir para sermos liberados mais cedo. Quem nunca? Durante todo o livro é possível perceber o quanto a vida das pessoas está diretamente ligada a essa chave “casa-trabalho-casa” e o quanto alguns dos personagens tentam burlar ou menosprezar essa tríade de dois. O texto Rasgo pode ser lido como um poema. Em Mulher Perfeita a ironia chega ao ápice. Parece-me o enredo mais óbvio, mas isso a autora avisa ainda antes do fim.

Em Energia Transitória há um quê de surreal, de realidade parcialmente inversa objetificando o homem, o que particularmente me dá gosto em ver, prova o quanto a autora, mais uma vez insisto, vai na contra mão de suas colegas de geração. A personagem cria uma espécie de serviço de ‘cafetismo’ às avessas do qual suga todas as forças dos homens após conhecê-los intimamente e os devolve a vida por meio de uma máquina que criara com os ensinamentos de seu curso superior. A invenção ganha uma sócia, vira negócio, é implementado em várias cidades e a personagem principal, sempre a narradora, é sempre a primeira a usar todos os homens, além, claro, de lucrar com eles em seguida. No último conto, o surreal ganha ares poéticos, lida com entrega e submissão e por fim auto valorização, voltando então com os pés no chão, à realidade.

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