quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Capitães da Areia - Jorge Amado

“Contam no cais da Bahia que quando morre um homem valente vira estrela no céu. Assim foi com Zumbi, com Lucas da Feira, com Besouro, todos os negros valentes.”

Durante a escola somos obrigados a ler dezenas de obras literárias brasileiras, é um parâmetro curricular obrigatório, o objetivo é que os literatos nacionais sejam apreciados pela juventude e a cultura local possa ser perpetuada através disso. Embora seja uma ação realmente necessária (recorrente em todo o mundo) para preservar a produção nacional e até para mostrar aos estudantes que eles um dia serão capazes de escrever seus próprios livros, o que ocorre na prática é que a obrigação da leitura acaba tornando os estudantes apáticos à literatura e até avessos em relação à literatura brasileira, já que acabam se remetendo diretamente a testes e não à fruição da leitura em suas memórias. Talvez o problema ocorra não pela obrigação de leitura para as provas e vestibular, mas sim pelo modo como essa obrigação é posta pelas escolas e professores. 

Com você pode ter ocorrido diferente, pode ter sido a obrigação que o fez amar Machado de Assis, Jorge Amado, Ferreira Gullar ou quem quer que seja, você pode ser uma exceção, com a maioria das pessoas ocorre exatamente o oposto. Eu mesmo tenho bastante dificuldade para ler escritores nacionais que são considerados clássicos, meu espírito anti-establishment às vezes me leva em direção ao preconceito e ignorância, que aos poucos o tempo vai me fazendo romper. Foi numa dessas caminhadas para fora dos meus preconceitos que resolvi ler Capitães da Areia de Jorge Amado e fui surpreendido pela fluidez do texto e riqueza das tramas. Não era nada daquela chatice que me vinha a cabeça sempre que pensava no livro (e lembrava do vestibular sofrido que fiz lá em 2008)!

O livro de Jorge Amado narra o dia-a-dia de um bando de meninos de rua que vivem em um galpão à beira-mar em Salvador, eles são chamados de Capitães da Areia. O bando não funciona de qualquer jeito, ele tem uma estrutura organizacional: o líder principal é o menino valente Pedro Bala, que derrotou numa luta o antigo chefe e tomou sua posição. Pedro Bala é loiro e sua marca é uma cicatriz no rosto, pelas ruas de Salvador existem várias lendas sobre a cicatriz do líder dos Capitães da Areia. Há também um código de conduta entre os garotos de rua, eles dividem tarefas (e os frutos dos furtos), ajudam-se uns aos outros e é proibida a homossexualidade.

No bando também se destacam outros garotos, que acabam sendo lideranças secundárias ao redor de Pedro bala, são eles: o Professor, um garoto franzino que ama leitura, passa os dias lendo e prefere roubar livros a outras coisas, também é um exímio desenhista de giz na calçada, onde arruma alguns trocados quando não é maltratado; João Grande, um negro forte não muito inteligente, o que lhe falta de esperteza ele tem de bom coração; Gato, que é um aprendiz de malandro, apaixonado por uma prostituta que acaba também se apaixonando por ele e lhe dá parte dos seus ganhos, ele está sempre buscando se vestir bem e parecer bonito; Pirulito, um garoto católico devoto, que vive em constante conflito entre ser um ladrão de rua e ao mesmo tempo querer honrar os desejos de Deus e da igreja; Volta Seca, um personagem do sertão que acaba parando na Bahia, sua mãe era comadre de Lampião, o garoto admira o cangaceiro mais do que tudo, ele considera os Capitães da Areia como cangaceiros de Salvador; e por fim temos o menino coxo apelidado de Sem-Pernas, sendo este o personagem que em minha opinião é o mais complexo do livro, ele é movido principalmente por ódio. Tem ódio dos policiais que o torturaram quando seus pais morreram, tem ódio do carinho de mãe que não recebeu, tem ódio da felicidade dos outros porque ele nunca a teve... se não fosse pelo ódio ele não acharia sentido na própria existência e por isso sente prazer em se fingir de criança perdida (quem vai negar assistência a uma criança coxa?), entrar nas casas, identificar locais em que os moradores escondem coisas valiosas, sumir e avisar aos Capitães para fazerem o rapa. Ele se sente vingado das maldades da vida com cada uma dessas ações.
“Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.”
Durante a narrativa Jorge Amado faz denúncias sociais, uma delas é sobre os reformatórios de menores, que ao invés de serem ambientes nos quais as crianças desviadas se interessem por educação e trabalho, no fim das contas é apenas uma prisão bastante cruel, com uma administração abusiva e hipócrita. 
“As crianças no aludido reformatório são tratadas como feras, essa é a verdade. Esqueceram a lição do suave mestre, sr. redator, e em vez de conquistarem as crianças com bons tratos, fazem-nas mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos de castigos físicos verdadeiramente desumanos.”
Outra denuncia é sobre o assassinato de grevistas, cujas histórias são contadas por João Adão, um trabalhador braçal das docas que lidera os trabalhadores em várias greves ao longo dos anos. Ele é um dos que ajudam os Capitães da Areia quando pode, sendo o outro o Padre José Pedro e a mãe de santo Don’Aninha. Cada um desses personagens representa um aspecto da sociedade que tenta entender o fenômeno social que é a existência dos Capitães da Areia, mas que são incapazes de ver o quadro da realidade em sua totalidade e por isso falham em tentar ajudá-los. João Adão tenta colocar pensamentos sobre a luta de classes nos garotos, o padre José Pedro tenta trazer a palavra de deus, dar carinho e ajudá-los a sair da marginalidade e Don’Aninha tenta levá-los às tradições dos Oguns e suprir uma imagem materna para eles.
“Pedro Bala sentiu uma onda dentro de si. Os pobres não tinham nada. O padre José Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde Deus seria igual para todos. Mas a razão jovem de Pedro Bala não achava justiça naquilo. No reino do céu seriam iguais. Mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado.”
Porém os personagens não são tratados com coitadismo em nenhum momento. Eles mesmos são bastante desumanos em certas situações, como é possível ver no caso de Sem-Pernas ao enganar uma senhora que o acolhe quando ele trabalhava num assalto à casa com o bando, ele acaba gostando bastante da mulher, por algum tempo fica seduzido pela ideia de ter uma mãe, no entanto ainda assim a engana de modo bastante bárbaro; e até o nobre Pedro Bala estupra uma negrinha no areal, sendo aparentemente essa uma prática comum do grupo. Na narrativa de Jorge Amado essas ações são cruéis, como seriam em quaisquer situações em que ocorressem, só que elas tem um fundo de estigma social que perpassa a vida dos próprios garotos e acaba por influenciar suas escolhas.
“Odiava a cidade, a vida, os homens. Amava unicamente o seu ódio, sentimento que o fazia forte e corajoso apesar do defeito físico. Uma vez uma mulher foi boa para ele. Mas em verdade não o fora para ele e sim para o filho que perdera e que pensara que tinha voltado. De outra feita outra mulher se deitara com ele numa cama, acariciara seu sexo, se aproveitara dele para colher as migalhas do amor que nunca tivera. Nunca, porém, o tinham amado pelo que ele era, menino abandonado, aleijado e triste. Muita gente o tinha odiado. E ele odiara a todos.”
Num segundo momento do livro aparece Dora e seu irmão Zé Fuinha. Dora vai ser a primeira mulher a ser aceita no grupo e ao longo do tempo vai se apaixonar por Pedro Bala e ele por ela, o Professor também entra como terceiro elemento nesse romance, em certo momento ele acaba se conformando com o amor dos dois. Quando Dora entra no livro as coisas passam um pouco a girar mais em torno dela e de Pedro Bala do que do resto do bando. Nem por isso a história fica menos interessante e cheia de ação.

Capitães da Areia é uma literatura forte e eu diria até mesmo essencial. Contém críticas sociais que persistiram no teste do tempo, muita ação quando narra a atividade do bando e diálogos que vão da galhofa ao horror. É impossível não se interessar pelos Capitães da Areia, nem que seja para odiá-los e condená-los.

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