terça-feira, 8 de setembro de 2015

Valiant Hearts - The Great War

Um desafio que sempre me atormentou enquanto professor de história é como explicar uma guerra em toda sua crueldade sem fazer com que parecesse uma arena em que homens buscavam honra e redenção ou apenas um monte de números estatísticos sem muito significado. Considero que, por exemplo, dizer que morreram em torno de nove milhões de combatentes na Primeira Guerra Mundial não faz o mínimo de jus a crueldade do conflito e o modo como ele afetou a vida em todo o planeta. Os filmes e a literatura conseguem retratar mais a realidade do que a história, mesmo quando são ficções, isso porque mostram dramas pessoais de quem viveu o conflito e tiveram que permanecer com as memórias dele mesmo após o fim.

Valiant Hearts: The Great War é um jogo que se insere nesse universo ficcional que retrata a Primeira Guerra Mundial de um modo íntimo e emocionante em vez de simplesmente mais um conflito qualquer com pessoas morrendo como se fossem bonecos de massa do Power Rangers e não tivesse cada soldado uma vida própria cheia de familiares, amores e sonhos.

O primeiro fato a destacar no jogo são seus gráficos cartunescos 2D muito bonitos e que lembram a tradição francesa de desenho do estúdio Gobelins. Isso se deve ao fato da Ubisoft ser uma empresa francesa e esse jogo especificamente ser um tributo à história do país, já que a maioria da narrativa se passa em fatos da guerra que ocorreram nas suas bordas fronteiriças. Alguns erroneamente chamam o desenho de Valiant Hearts de “rústico”, é um erro tremendo, embora a arte seja cartunesca o nível de detalhamento dos objetos e ambientes é impressionante.
Não sei como ainda tem gente que é capaz de chamar tal arte de "rústica".
Diferentemente de outros jogos Valiant Hearts não tenta ser maniqueísta, nos colocando você contra soldados monstruosos e cruéis do exército inimigo. Não, a coisa é bem diferente, controlamos personagens de várias nacionalidades em situações diversas, desde o soldado alemão ao francês são tratados como seres humanos cheios de vontades, temores e passíveis de gentileza ou crueldade. Inclusive os personagens que desencadeiam o roteiro, cada um num lado do conflito, não queriam sequer entrar na guerra, foram apenas por serem obrigados. Estou falando de Emile, o coroa francês e Karl, seu cunhado alemão. Além deles podemos controlar o americano Freddie, que busca vingança pela morte de sua mulher; a enfermeira belga Anna e o cachorro Walt, nosso companheiro na maior parte do jogo.

No enredo Karl é forçado a deixar esposa e filho para trás e lutar no exército alemão. Já seu sogro, Emile, mal se recupera da partida de Karl e é obrigado a deixar sua fazenda, filha e neto para lutar do lado francês. Em certo momento Karl acaba sendo prisioneiro francês e seu único desejo é conseguir voltar para a França, onde está sua família. Emile e seus amigos querem fazer de tudo para que isso seja possível mas a tarefa não vai ser fácil.

A jogabilidade de Valiant Hearts não é complicada, você tem que resolver pluzzes usando as características dos personagens que tem a disposição e ir seguindo em frente. Em geral com a ajuda de Walt e um pouco de capacidade de observação você consegue dar conta, caso não dê, de tempos em tempos aparecem dicas na tela que vão praticamente resolver o pluzze pra você, o que acaba inclusive tornando o jogo fácil demais demais demais.

A história (disciplina) no jogo não é apenas o pano de fundo para os acontecimentos do enredo, durante todo o jogo ela está presente, desde o modo como os personagens se vestem até objetos colecionáveis que encontramos pelo mapa e que contém uma descrição de sua utilidade na época do conflito. O jogador acaba se sentindo recompensado por encontrar objetos e ler sua história, assim vai buscando cada vez mais objetos e se interessando pelo lado não ficcional do conflito. Na versão legendada em português-brasileiro há até informações sobre a participação do Brasil, o que não deixa de ser um mimo interessante por parte da Ubisoft.

Valiant Hearts é um jogo que trata menos de grandes conflitos da Primeira Guerra Mundial e mais de como os combatentes sobreviviam a eles. Há muitos poucos momentos em que podemos derrubar um inimigo, na maior parte do jogo estamos nos escondendo, fugindo ou resolvendo um problema inevitável (como no caso de cidades inundadas em gás mortal). Mesmo quando estamos no meio de um conflito decisivo da grande guerra os nossos personagens parecem mais sobreviventes do que heróis e nosso próprio exército às vezes é mostrado como cruel e frio.
Túmulo de soldados franceses.
A Ubisoft acertou bastante no tom emocional de Valiant Hearts, coisas imprevisíveis e que afetam diretamente os personagens acontecem a cada instante. É um dos motivos pelo qual continuamos jogando. Esse é o tipo de jogo que deveríamos ter em mente quando pensamos em jogos educacionais, não jogos sem vida cheios de informações e com quase nenhum atrativo. Valiant Hearts é uma aula de história, mas é principalmente um jogo com uma boa narrativa e apresentação visual! 
Valiant Hearts - The Great War
  • Título : Valiant Hearts - The Great War
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  • Data : terça-feira, 8 de setembro de 2015
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1 comentários:

  1. Bom Dia!
    Sou professor de Língua Portuguesa e estou trabalhando o game junto com gêneros textuais e usarei seu texto nas aulas.
    Parabéns, muito bom!

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