quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Minha experiência de escritor e dicas para iniciantes

Sou escritor, por mais que odeie essa palavra e tudo que ela origina, referente a uma distinção de “artista” (outra palavra elitista da qual tenho pavor) e do que as pessoas esperam de um escritor, sou um. Para mim o processo de se tornar escritor (ou artista de qualquer tipo) tem a ver apenas com praticar o seu ofício até chegar num mínimo de qualidade aceitável para apresentar ao mundo e vender. A genialidade é um mito, qualquer um que tenha a oportunidade e se esforce o bastante pode escrever bons livros, o resto é conversa fiada de gente que se acha mais merda que as merdas da fossa só por ainda estar no vaso sanitário. O escritor não é um arauto, não é um deus, profeta, intelectual ou gênio, é uma pessoa que decidiu um ofício e vive dele, ponto. As implicações sociais, reconhecimento, aceitação de mercado, tudo isso são fatores que variam e podem ou não ocorrer, sem afetar o fato de você estar se dedicando, trabalhando e vivendo do ato de escrever.

Formado em História pela UFPI, publiquei em 2011 o livro Vagabundo Sem Nome através da Editora Multifoco, desde então participei de sites, coletâneas acadêmicas e ficcionais (veja mais do pseudo-portfólio online aqui). Não quis dar aula, não acho que o salário vale a pena tendo em conta todo o esforço envolvido na profissão, por isso vivo de freelas, escrevendo artigos para diversos sites enquanto paralelamente escrevo meus livros e tento publicá-los. Inclusive tenho um livro de contos pronto para ser publicado no fim deste ano de 2015 pela Editora Giostri, se tudo der certo.


De 2011 pra cá se foram quatro anos, embora eu ainda esteja longe de me considerar um escritor experiente, acho que já tenho conhecimento o suficiente para ao menos esboçar algumas coisas sobre o mercado editorial e se realmente vale a pena entrar nele. Caso não, o que o escritor iniciante deve fazer?

Esse texto é a minha visão, baseada apenas na experiência pessoal que tive, nele contém o que eu diria a um amigo que me confessasse que quer ser escritor. Não é minha intenção difamar quem quer se seja ou criar postulados sobre como cada pessoa deve agir.

Como Funciona O Mercado Editorial

Se você é um autor iniciante o mercado editorial brasileiro é uma grande BOSTA. Simples assim. Provavelmente sempre foi desse modo no mundo inteiro, uma espécie de esquema em que o autor é o fator menos relevante, ainda mais sendo iniciante, quando não se tem força para barganhar valores.

A primeira coisa que eu sugiro é: nunca, never, jamais mesmo, pague para publicar um livro se você quer viver da sua escrita. O autor iniciante tem aquela fome maior do que a barriga, ele quer publicar de qualquer jeito e acaba se metendo em enrascadas e dívidas por isso. Muitas vezes ele está pagando pela tiragem, é tratado como lixo pelo editor (que o trata como se tivesse fazendo um favor pro autor desconhecido que finalmente vai ter algo pra mostrar ao mundo zzzZZZZZZZzzzzzzzZZZZZZ), aceita edição e capa meia boca, o livro nem revisado é e o resultado final é um desastre que vai amargurá-lo do sonho de ser escritor. A menos que você esteja publicando apenas por hobby, ou uma tiragem que intenciona apenas atingir seus amigos, fuja de pagar para publicar, é uma cilada, pois você não terá como distribuir os livros para diversos compradores e acabará com uns 200 encalhados em casa.

Agora vamos falar sobre a distribuição do dinheiro em cima do preço final de um livro. Embora variem bastante, em termos gerais podemos dizer que as contas do mercado editorial são assim: a Livraria ganha entre 30-50% do Preço de Capa, o distribuidor 10-20%, a editora 30-40% e o autor 10%. No seu blog o Jurandir Machado da Silva fez cálculo que é mais ou menos correto:

De um livro de R$ 40 sem levar em considerações custos fixos:
Livraria ganha: R$ 11
Distribuidor ganha: R$ 8
Editor ganha: R$ 11
Autor ganha: R$ 4
Custo de produção: R$ 5

Sendo o autor o criador do conteúdo em si, sem o qual nem as editoras, distribuidoras e livrarias ganhariam um centavo sequer, nada vai fazer com que pareça justificável na minha cabeça que ele ganhe apenas 10% em cima do preço final do livro. E por deus, como a livraria ganha tanto sendo apenas a vitrine? Em alguns casos se chega ao ponto de a venda de um livro imediatamente cobrir o eventual prejuízo de um não vendido. Claro que minha crítica aqui vai para as grandes redes de livrarias que ganham dinheiro fácil, o pequeno livreiro eu sei como sofre para conseguir atingir cotas mínimas de venda.

“Ahhhh mas se a editora não publicar o autor também não ganharia nada”. Eu não estou em momento algum diminuindo ou dizendo que não existe importância na editora e livraria, só acho que as quantias poderiam sim ser melhores distribuídas.

O autor novo vai ter que enfrentar ainda a falta de investimento da editora na divulgação da obra e a pouca transparência nos pagamentos. O primeiro caso ocorre porque quando as editoras lançam novos autores não sabem como vai ser o retorno e ficam indecisas, querem vender, mas não querem gastar muito, o que acaba prejudicando bastante a divulgação da obra e na maioria dos casos leva ao fracasso. A questão da transparência é complexa, os balanços nas editoras geralmente são semestrais, o que atrapalha bastante ao autor acompanhar como andam as vendas do livro e calcular quanto mais ou menos vai ter de lucro. Não bastando ser pouco divulgado, ainda se tem dificuldades acompanhar os dados de venda do próprio livro e a desculpa das editoras é geralmente a mesma: “você assina um contrato para ser autor da casa, e quando você entra na casa de alguém você aceita as regras dela”. Um tanto quanto imbecil, não acham?

Um último tópico que eu gostaria de destacar é a arrogância dos editores que conheci. Por você ser autor de pouco renome, os caras acham que você vai se submeter a qualquer coisa para publicar seu livro. Eles tentam lhe entortar ao máximo que podem, se acham superiores ao resto da humanidade e parecem estar acostumados com bajulação dos autores. A dica que eu dou é a seguinte: se o cara for preconceituoso com você, indelicado e quiser te manipular, caia fora, um editor imbecil pode prejudicar sua obra de um modo traumatizante. Lembre que você quer ser um escritor sério e publicar o seu livro, por parte de uma editora seja lá qual, não é um favor, é negócio. E negócios se tratam com contratos, cordialidade e conversa. Você não precisa babar e nem ser babado por ninguém, oque precisa é de gente que trate você e sua obra com seriedade!

As Mudanças No Mercado

Diante de tanta dificuldade para o autor iniciante se inserir no mercado editorial, que ao longo de décadas criou internamente barreiras desnecessárias no sentido de se auto-proteger, começaram a aparecer fissuras na armadura, nas quais autores independentes de editoras começaram a ocupar com e-books. Esses exploradores das novas regiões proporcionadas pelo avanço da tecnologia se auto-publicam, pulando quase todos os intermediários entre o processo de escrever e o de vender um livro.

Desde 2011 a Amazon, um dos sites mais usados para compras de livros no mundo, vende mais livros digitais do que físicos. Isso é o sinal de uma mudança tremenda no consumo de livros, mudança que não está acontecendo, já aconteceu, como podemos ver pelo exemplo de Hugh Howey, autor da série Wool. Howey publicou o primeiro livro em edição física, para sua surpresa até que vendeu bem, mas ele resolveu experimentar algo novo: chutou a editora e publicou o segundo livro da série no formato digital pela Amazon e outros publishers digitais. O resultado foi que a série vendeu mais de 2,3 milhões de exemplares, foi traduzido para mais de 30 idiomas e os direitos autorais para produção de filmes foram vendidos por valores milionários.


Eu não tô dizendo que a Amazon é o deus da salvação do autor iniciante, mas que o e-book é sim uma opção através do qual aqueles que se decepcionaram com o mercado editorial e todo o processo de publicação formal deveriam experimentar.

Porém é preciso lembrar que, a não ser por um milagre, você não vai ser um hit instantâneo e ganhar milhares de reais. Não, a auto-publicação exige também todo um processo de auto-divulgação, que é complexo e exige a presença em redes sociais, site pessoal e a criação de estratégias para criar um público base. Nada disso acontece do dia para a noite, pode demorar anos. O próprio Hugh Howey, que citei lá atrás, demorou 3-4 anos para começar a ganhar alguma coisa com a auto-publicação e para isso ele investiu todo o tempo na criação da própria imagem enquanto escritor.

Como Ocorre No Brasil

Alguns afirmam que “Tudo bem, isso é um alternativa lá nos EUA, mas no Brasil nem tem como, as pessoas mal leem livro físico, imagina o digital, que é preciso ter um aparelho específico pra ler”.
Existem dois mitos nessa afirmação. 1- É preciso ter um aparelho específico para ler e-book; e 2 – Livro Digital não vende no Brasil.

Sobre o 1, a mentira é porque costuma se achar que apenas através de um e-reader se pode ler um livro digital. Não é verdade, hoje em dia todo mundo tem um celular que é capaz de reproduzir e-books sem quaisquer dificuldades, além de computadores simples e tablets. A maioria dos brasileiros tem fácil acesso a algum desses aparelhos, então a barreira não é de hardware tecnológico, talvez o caso seja mais de adaptação a novas formas do que impossibilidade.

Pensando na mudança para a era dos e-books até o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) a partir de 2015 abriu edital para a inscrição de obras digitais destinadas a alunos e professores do ensino público. O professor poderá escolher entre solicitar a versão digital ou física dos livros didáticos. Quando até o governo tá tentando se adaptar a algum tipo tecnologia, é porque o resto da população já está fazendo uso recorrente dela há muito tempo.

Quanto ao 2, os livros digitais faturaram 225% a mais nos últimos anos. Um crescimento que não vai parar. Se levarmos em conta que até políticas públicas tão sendo criadas para os livros didáticos serem digitais, o faturamento em breve será estrondosamente maior. Quem diz que livro digital não tem futuro no Brasil é dono de editora que se caga de medo de ver os autores do seu catálogo se tornarem independentes deles. É gente que já tem suas cartas marcadas no Mercado Editorial Brasileiro e está com medo de uma mudança que ele acha que vai acontecer, mas na verdade já aconteceu.

Eu mesmo, se possível ainda a partir desse ano, pretendo me enveredar aos poucos pelo caminho dos e-books. Cansei das frescuras das editoras, não é o fato de ser recusado, mesmo quando se é aceito são tantos empecilhos, dificuldades desnecessárias, firulas, que vejo a possibilidade da independência das editoras como meu único caminho para uma carreira saudável. Não me iludo, sei que as dificuldades na venda digital também são grandes, o esforço não diminui só porque você não vai mais ter que negociar com gente idiota e vender livro físico. Agora você se divulga, você se joga no mundo, você contrata alguém pra revisar, você contrata alguém pra fazer a capa, você contrata alguém pra fazer o layout e edição do livro. O trabalho é tão árduo quanto antes, com a diferença de que ao menos o produto final estará em suas mãos e o lucro também, já que você ficará no mínimo com 70% da venda.

Um dos meus editores nesses anos todos, certa vez me disse que o e-book vai ser a destruição da literatura brasileira. Eu fingi que não ouvi tal afirmação estapafúrdia, sabe por quê? É que eu sei que o e-book pode ser o fim de editores escrotos, que tratam mal autores iniciantes e de editoras que divulgam muito mal seu catálogo. Mas a Literatura Brasileira? Essa não vai morrer por isso, enquanto houver brasileiro ela também existirá, só os nossos editores e editoras ruins é que vão pro saco. E o autor ainda vai dançar sob o túmulo deles através das auto-publicações.

Aproveitando esse espaço e já fazendo um merchan, dia 25 vou estar com outros autores piauienses discutindo literatura, poesia, mercado editorial e muito mais na Casa da Cultura:

Minha experiência de escritor e dicas para iniciantes
  • Título : Minha experiência de escritor e dicas para iniciantes
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  • Data : quarta-feira, 2 de setembro de 2015
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3 comentários:

  1. Caro Agostinho.
    Parabéns pelo texto, ajuda bastante aqueles que estão se iniciando no ramo a entender como funciona o mercado editorial. Mas queria saber um pouco mais sobre a editora Giostri. Você disse que está tentando publicar através dela, e eu também mandei um original para avaliação recentemente. Como ela funciona? O autor arca com alguma parte da tiragem ou eles investem completamente em você?
    Abraço.

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    Respostas
    1. Vai depender do interesse deles na sua obra. Toda editora media/pequena trabalha no diálogo do autor com o editor. Mande o original e espere pela proposta que eles tem para você, tente conversar um pouco, se não gostar do que eles tem a oferecer nem pense duas vezes, caia fora e procure alguma melhor/outra ou publique por outros meios!

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  2. Oii, gostei do post, pois sou escritora iniciante e acabei de enviar um original para a Multifoco e me disseram que não vale a pena publicar pela editora, que é para eu correr dela.

    Bom, vi que vc já publicou um livro através dela e gostaria de saber de você, se foi tudo bem... Se eu preciso ou não ter medo.

    Sobre revisar a obra, posso confiar na revisão da editora ou realmente é melhor pagar alguém para fazer isso por mim?

    Muito obrigada!

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