terça-feira, 22 de setembro de 2015

Palavras Podem Matar: Metal Gear Solid V e o Vírus da Linguagem Burroughsiano


Sou um fã assíduo de várias franquias de jogos eletrônicos, mas nunca gostei muito de Metal Gear Solid, só por birra mesmo, porque todo mundo idolatra Hideo Kojima, a pessoa por trás do planejamento da maior parte dos jogos, e eu costumo imbecilmente a ser do contra (não é tão imbecil assim, o Kojima às vezes ofusca de proposito muita gente que foi crucial para o desenvolvimento dos seus jogos e isso me irrita, como se ele tivesse feito o jogo sozinho). No entanto o trailer do episódio V do jogo chamou minha atenção e antes de ser lançado fui jogar MGS do ps1 e MGS2: Sons of Liberty do ps2. Gostei muito de cada um, mesmo os gráficos tosquíssimos do primeiro não estragam a experiência para quem só quis jogá-lo hoje em dia, a narrativa fantástica tá lá, é cheia de reviravoltas e maluquices, o que importa é como ela te prende. O jogo seguinte gostei menos, talvez porque Solid Snake se torna um personagem ~secundário~ na maioria do gameplay. Só não jogo os outros restantes porque não tenho tempo e porque o MGS IV é exclusivo pra ps3, mas um dia farei, são jogos com enredos muito intricados, contínuos e bons, mesmo os furos absurdos se tornam divertidos porque você fica curioso pra saber como aquela coisa aconteceu e grande parte dessas coisas provavelmente nem o próprio Kojima faz qualquer ideia.

O que me chamou atenção em Metal Gear Solid V: The Phantom Pain foi o trailer abaixo, vejam, porque é essencial para entender tudo sobre o que vou falar em seguida:


Cioran, Nietzsche, Camus e Stirner

Em primeiro lugar eu sou um admirador do filósofo Cioran, cuja frase “Não habitamos uma nação, mas uma língua. Não se engane, nossa língua nativa é nossa verdadeira pátria” aparece logo na abertura do trailer (e do jogo). Cioran para muitos é um embusteiro falador de água e de autoajuda, pra mim é um Nietzsche mais contemporâneo e sem tantas crises de estrelismos dos aristocratas do século XIX. De qualquer forma, o que importa é que o romeno é um dos filósofos mais radicais do século XX, conhecido por ser adepto da “filosofia em chamas”, que questiona até as próprias bases da racionalidade e cientificidade. A linguagem como limitadora da nossa capacidade de sentir e ir além de nós mesmos é muito presente em seus livros. Em geral, assim como Nietzsche, ele considera que só pelo fato de precisarmos expressar nossos pensamentos científicos num sistema de linguagem social já é o suficiente para desconfiarmos da capacidade da ciência de dizer a verdade-em-si que ela tanto gosta de se gabar por ser. Sabe aquelas pessoas que dizem que “contra fatos não há argumentos”, geralmente ateia e faladora de groselha? Pois é, Cioran e Nietzsche, ambos potencialmente ateus na maior parte das suas escritas (digo na maior parte porque ambos tem rompantes de crença num mistério sobrenatural em certas passagens mais específicas), talvez tivessem o horror das palavras exatamente pelo fato delas serem a base através do qual a religiosidade se funda. Em todas as religiões antigas certas combinações de palavras em dias específicos são capazes de restaurar o mundo ao que Mircea Eliade, o maior historiador de religiões de todos os tempos, chama de In Illo Tempore, ou seja, as origens do universo. As palavras são a base através do qual o mundo pode ser reiniciado ou reconfigurado nos rituais mágicos. Aliás, hoje em dia isso tem retornado numa versão pós-moderna de “hackear a realidade”, no qual as pessoas apenas abandonaram a palavra “mágica”, mas tentam mais ou menos fazer as mesmas coisas que os povos politeístas mais antigos: usar palavras para alterar a própria percepção da realidade ou tentar mudar a percepção da realidade dos outros através de combinações de palavras. Com certeza você já ouviu falar por aí de “hackear o seu próprio cérebro”, que na verdade são apenas técnicas de autoconvencimento para tentar burlar algum limite psicológico que você criou em algum momento da vida graças a certos tipos de experiências negativas. Não é atoa que muitas vezes uma sessão num psicólogo lembra um confessionário católico, uma cura através do diálogo, do convencimento. No cristianismo a palavra é tão poderosa que com uma oração você é capaz de romper a realidade cotidiana e alcançar o “ouvido” onipresente de Deus, que pode lhe enviar sinais ou ao menos aliviar sua alma de alguns fardos.

“Em toda parte onde os antigos dos primeiros tempos colocavam uma palavra creditavam ter feito uma descoberta. E como na realidade isso era diferente! – eles tinham apenas tocado um problema e, julgando tê-lo resolvido, haviam criado um obstáculo à sua salvação. – Agora, para atingir o conhecimento, é preciso tropeçar em palavras que se tornaram eternas e duras como pedras, e as pernas se quebrarão mais facilmente que a palavra.” – Nietzsche em Aurora

Assim como a filosofia/ciência desde suas diversas e infindáveis origens acha ter descoberto respostas para problemas basilares que nunca foram solucionados e riem da superstição, do religioso e do senso comum, Nietzsche e Cioran nos ensinam a rir da filosofia, dos sábios e dos acadêmicos por terem o disparate de acreditarem que realmente sabem mais do que os outros, quando na verdade todo seu conhecimento é baseado em um castelo de cartas que pode cair com um sopro, é tudo baseado apenas em frágeis, cruéis e arbitrárias palavras.

Mas antes deles teve um cara que considero mais louco ainda. Tem gente da filosofia que até se arrepia quando se toca no nome dele, de tão aterrorizante e irracional que parece ser seus discursos: Max Stirner, o cara que deu a forma ao que hoje chamamos de anarco-individualismo. Aliás, ele tinha uma treta pesada com o Marx, que até chegou a escrever um livro só pra dizer que o Stirner só falava bobagens e chegaram a acusar Nietzsche de ser um mero plagiador dele. Stirner tem ascos de religião, ele não é como Nietzsche e Cioran que são descrentes, porém admiram a potência-de-ser que a irracionalidade religiosa pode proporcionar ao ser humano e em um cinismo filosófico-existencialistas eles tentam incorporar essas atitudes irracionais em suas vidas para superarem a si mesmos, uma espécie de auto-alienação produtiva, que depois vai ser exposto em termos mais claros por Albert Camus em seu conceito do Homem Impossível. Albert Camus diz que, por exemplo, se um homem com uma faca tiver que enfrentar cinco metralhadoras automáticas, ele sabe que é impossível e isso vai fazê-lo enfrentar uma morte eminente, o homem impossível seria aquele que mesmo sabendo que é impossível vai tentar, pois não adianta simplesmente desistir, ficar pessimista por causa do tamanho do problema só vai levar a tornar a impossibilidade uma realidade, o louco, o homem impossível, que pode ser por exemplo um religioso, em sua crença irracional pode arrumar forças para fazer o impossível possível, mesmo que ele falhe, mesmo que seja evidente que não é possível, ele tem alguma chance de superar a realidade, enquanto o descrente e racional está condenado sem qualquer chance. Só que Stirner é mais brutal, ele acredita que okay, digamos que Camus tivesse certo, no fim das contas o homem usou a crença como um mecanismo para sobreviver, no fim das contas ele estava apenas sendo egoísta. Para Stirner a base de tudo que ronda a humanidade é o egoísmo, sejam as coisas positivas ou negativas, toda ideologia, religião, conceitos e até mesmo a ciência é egoísta. Para Stirner o próprio conceito de ideia é uma corruptela da noção de Deus, como vimos anteriormente a linguagem organizada de forma ritualista é a base através do qual a realidade cotidiana pode ser rompida pelo divino e isso é o conceito básico de magia. Sabe aquele Hocus-Pocus dos filmes americanos que alguns personagens dizem quando vão fazer magia? É, digamos assim, uma paródia das palavras dos rituais religiosos que eram capazes de romper a realidade comum e adentrar em ambientes sagrados. Stirner não confiava nem nas ideias, pois considerava elas frutos de nossas alucinações de Deus, que se manifestam através da linguagem, que é uma maneira de tentar controlar a natureza e a linguagem também é advinda de uma história do desenvolvimento das religiões. O mundo estava aprisionado sem escapatória, para Stirner tudo está infectado, de certa maneira, de religiosidade, a constituição dos nossos pensamentos é ideologia pura e não há nada que se possa fazer além de admitir o próprio egoísmo. Stirner acreditava que devíamos renunciar à verdade, à bondade, a qualquer conceito, e admitir que tudo que fazemos, todas as mentiras que criamos em nossas cabeças e consideramos serem verdadeiras, não passam de questões convenientes para nós mesmo, pois é só pelo egoísmo que o homem vive, por mais que ele não admita isso, o problema  que ocupa o homem só pode ser ele mesmo e nada mais.

A partir daqui existem spoilers do jogo. Leia só se não tiver se importando mesmo.

O Homem Moderno Perdeu A Opção Do Silêncio

Esse foi só o primeiro motivo pelo qual Metal Gear Solid V chamou minha atenção. O segundo motivo é o enredo central do jogo: esqueça a explicação de fatos da vida do Big Boss que tentam dar sentido aos furos na história da franquia por um momento e se concentre no enredo desse jogo em si, “palavras podem matar”. Em uma das missões no continente africano descobrimos um laboratório chamado “A casa do diabo”, depois de passarmos por vários postos inimigos conseguimos chegar ao bendito lugar e para nossa surpresa está tudo vazio. Então você entra num galpão com o chão todo manchado de sangue e várias macas com corpos contendo um hematoma gigantesco e saindo pus na posição dos pulmões, o mais bizarro é que... existem fones de ouvido enfiados na garganta dos mortos/doentes. Você vai passar as próximas missões tentando entender o que diabos é isso e o pior, de alguma forma você trouxe o vírus pra sua base de operações, se torna urgente que você descubra o que está acontecendo, pois a sua equipe médica não consegue entender o modo através do qual o vírus se espalha.



Numa missão futura você resgatará Code Talker, um velhinho muito bizarro que fica no porão meio satânico de uma mansão. Ele lhe explica que o vírus se instala nas cordas vocais da pessoa, as imita perfeitamente e é passado através da fala. O vírus se reproduz ao ouvir sons, colocando suas larvas no pulmão do hospedeiro, o matando e criando um vírus que é específico para aquele tipo de linguagem. Assim o vírus aprende uma linguagem e vai infectar todas as cordas vocais de quem falar a mesma língua. Claro que o Code Talker tem uma solução, é por isso que você vai buscá-lo, mas antes de mais nada ele recomenda: apenas o silêncio pode fazer com que o vírus pare de se reproduzir. Acredito que essa seja a mensagem principal do jogo, a necessidade humana de calar, que é algo tão difícil hoje com a praticamente obrigatória presença nas redes sociais. Por isso Punished Snake, o protagonista, é quase mudo. Dizem que ele tinha muitas falas, mas depois de ver Mad Max Kojima mandou cortar 75% e deixar o protagonista parecido com o do filme, falando só o extremamente essencial. Não creio que isso foi apenas uma questão de estilo, Kojima apenas se tocou sobre o que ele mesmo estava falando no jogo: da necessidade de calar. Max não fala muito no filme porque não há necessidade, ele vive num mundo pós-apocalíptico em que a língua é pouco importante, em que a maior parte das ideias é demonstrada através de ações e símbolos, não por palavras confusas, longas e elaboradas. No mundo de Mad Max as pessoas precisam agir para sobreviver e não elaborar teorias e se perder no labirinto das palavras, a urgência da sobrevivência é tão eminente que ninguém nem se importa mais com como ou porque o mundo em que viviam antes foi destruído, não importa mais, a sobrevivência é a única coisa a se preocupar.

W. S. Burroughs, embora fosse avesso ao budismo dos seus amiguinhos Kerouac, Snyder e Ginsberg, em uma de suas formulações da teoria do vírus-palavra lá nos anos 70 chegou a uma conclusão parecida com a deles, do Kojima e do diretor/roteirista de Mad Max: O homem moderno perdeu a opção do silêncio. O nome do Burroughs pode não aparecer em Metal Gear Solid V como o de Cioran, no entanto sua influência no enredo do jogo é irrefutável, ele foi um dos primeiros pensadores modernos, talvez até o primeiro mesmo a colocar nesses termos de doença, a verbalizar que as palavras eram literalmente um vírus:

"Minha teoria desde 1971 tem sido que a palavra é literalmente um vírus, e que ela não foi reconhecida como tal apenas porque chegou num nível de relativa simbiose com seu hospedeiro humano; isto significa que a palavra-vírus se estabeleceu tão fortemente como uma parte do organismo humano que agora pode zombar de vírus pesados como varíola .” – W. S. Burroughs

A teoria burroughsiana diz que o ser humano perdeu a opção do silêncio por que o vírus da linguagem já entrou em simbiose total com o corpo humano, a ponto de não mais o enxergarmos como algo exterior a nós mesmos. Isso acontece porque a nossa percepção de realidade foi cristalizada pela linguagem alfabética que nos foi ensinada na escola. Estamos em tão simbiose com o vírus que ao pensarmos o fazemos em termos de palavras, todos os nossos esforços psicológicos são monopolizados pelas palavras. Ao vermos uma imagem a transformamos em palavras com nosso cérebro, fazemos o mesmo com um filme, a música talvez seja a única coisa que ainda é capaz de sobrepor a “palavrização” da realidade, porque não temos exatamente como descrever as sensações que sentimos ao ouvir uma música que gostamos. Essa “palavrização” da nossa percepção de mundo acontece porque como qualquer vírus as palavras tentam se reproduzir de qualquer maneira, mas já se chegou a tal ponto que até confundimos nós mesmos com palavras que dizemos que somos nós em nossas cabeças, ou seja, obedecemos ao vírus que domina nosso cérebro achando que estamos falando, agindo e vivendo por conta própria. Um exemplo contemporâneo do vírus-palavra é a necessidade que as pessoas às vezes têm de reproduzir palavras populares no twitter, ou mesmo apenas de postar qualquer coisa lá, sem qualquer propósito, sem qualquer real adição ao que as pessoas estão conversando no momento. Na era da internet em que reproduzir palavras é o nosso trabalho cotidiano, alimentando essa rede imensa, tornando o vírus num monstro que o próprio Burroughs jamais imaginaria, é quase impossível fugir do seu domínio. Em seus livros Burroughs passou a usar o método de cut-up, ele tentava escapar das garras do vírus. Como todo pensamento consciente é na verdade o vírus falando e não você, Burroughs escrevia e depois embaralhava seus textos e cortava, reorganizando os fragmentos em novas frases que estivessem fora do controle do vírus, já que não foi concebido diretamente por ele. Ele acreditava que assim conseguia fugir do controle total do vírus-palavra.



Se olharmos no século passado, principalmente os anos 60, aquela busca de uma nova percepção do mundo dos hippies, música experimental, punk, uso de drogas psicodélicas e etc., passava diretamente pela questão da linguagem. Os anos 60 tiveram a primeira geração de novos-adultos pós-segunda guerra mundial, era uma geração que tinha pesadelo com os horrores causados pela guerra e principalmente pela detonação das bombas atômicas no Japão. Eles não queriam crescer como seus pais, o uso de drogas foi um modo encontrado para criar uma nova realidade, não através do escapismo, mas na tentativa de alcançar outras parcelas da realidade que haviam sido bloqueadas pela educação escolar, cívica e moral das sociedades em que viviam. Aquela geração hippie que tentou reativar a vida mística, comunitária, baseada no prazer em vez do trabalho, na verdade estava buscando uma ressignificação da realidade para não chegarem à mesma situação que seus pais chegaram. As experiências daquela época foram boas, algumas funcionaram até certo ponto, até hoje vivemos no mundo acadêmico o revés de uma teoria social radical da linguística como estrutura através do qual o mundo é primordialmente organizado, porém a sociedade tradicional venceu e o vírus-palavra assimilou seus inimigos com o tempo. A teoria do vírus-palavras do Burroughs é bastante sintomático da época, é uma amostra da percepção geral que as pessoas tinham de que precisavam reconstruir a realidade através de outra base e se necessário fosse, até criar uma nova linguagem, foi isso que se passou em Woodstock e não apenas um monte de gente querendo ouvir Hendrix e transar l0uc4m3nt3.

Aqui no Brasil-Piauí temos um poeta que assim como Burroughs estava em sintonia com as amarguras de sua época, ele dizia assim: “Escrever não vale quase nada para as transas difíceis desse tempo, amizade. Palavras são poliedros de faces infinitas e a coisa é transparente – a luz de cada face distorce a transa original, dá todos os sentidos de uma vez, não é suficientemente clara, nunca. Nem eficaz, é óbvio. Depende apenas de transar com a imagem, chega de metáforas, queremos a imagem nua e crua que se vê na rua, a imagem – imagem sem mais reticências, verdadeira.” Eu acho engraçado que como Torquato Neto mesmo diz, “a luz de cada face distorce a transa original”, o exemplo é como a galera aqui fala feliz que “as palavras são poliedros de faces infinitas”, quando na verdade era essa uma angustia dilacerante para o próprio poeta. Como ele mesmo costumava dizer: “se não tem forma nova não tem nada de novo. E nada anda nada”. Ele não disse isso como quem recita um verso para uma namoradinha, ele estava em desespero, tentando encontrar alguma saída do labirinto das palavras, que acabou terminando em suicídio.



Mas vamos voltar o enredo burroughsiano de MGSV. Ocelote, o cara que coordena a base enquanto você está nas missões e fica lhe passando informações constantemente, supõe que Skull Face, o maluco que criou a Casa do Diabo e está em posse do vírus-palavra, deseja fazer uma limpeza étnica, limpando todo o mundo das outras línguas, deixando apenas o inglês disponível, a língua ao qual ele considera a dos merecedores. Porém mais a frente Skull Face revela que na verdade o seu desejo é uma vingança contra os Estados Unidos que em uma de suas guerras roubou a sua vida:

"Nasci em uma pequena vila. Eu era ainda uma criança quando fomos invadidos por soldados. Soldados estrangeiros. Arrancado dos meus protetores mais velhos eu tive que falar a língua deles. A cada novo posto meus mestres mudavam, junto com as palavras que eles me faziam usar. Palavras são... peculiares. A cada mudança eu mudava também. Meus pensamentos, personalidade, como eu enxergava o certo e o errado. A guerra me mudou e não apenas meu rosto. Palavras podem matar. Eu fui invadido por palavras, cavando e se reproduzindo dentro de mim. [...] Eu vou exterminar o Inglês. Com isto vou livrar o mundo da infestação. Todos os homens serão livres novamente para reivindicar seu passado, presente e futuro. Isso não é uma limpeza étnica. É libertação do mundo de Zero[...].”

Major Zero, ao qual Skull Face quer se vingar, é um dos personagens mais intrigantes da série Metal Gear Solid. Antigo chefe de Naked Snake ele criou um mecanismo que distorce o cérebro da pessoa e a domina, segundo o próprio Skull Face é um chip que alimenta o cérebro com palavras e comandos que são impossíveis de refutar, tornando a pessoa em uma espécie de zumbi/escravo. Burroughs acreditava que isso podia acontecer, ele costumava gravar sons de tudo imaginável, repetia e reorganizava em busca do gatilho sonoro que pudesse acionar comandos dormentes do cérebro. Para ele era assim que funcionava o marketing, organizando um arranjo de cores, formas e sons que de alguma maneira atravessasse a consciência cotidiana das pessoas e criasse um desejo no subconsciente, fazendo que a pessoa assim que visse o produto a comprasse achando que estava fazendo de vontade própria. A religião funcionava de forma similar, só que através da repetição exaustiva de sons ou movimentos, criando não um desejo subconsciente mas ativando zonas geralmente não ativas do cérebro, as responsáveis pelo êxtase místico, recorrente mais quando do uso de drogas psicodélicas.



Se para o velho beat existem palavras que podem prender civilizações por séculos, no caso de Metal Gear Solid V essa temática se mistura com a colonização linguística e a destruição cultural que o inglês mandatório em territórios de guerra causou em muitas partes do mundo. W. S. Burroughs, que sempre teve um contato muito próximo com a cultura pop, ficaria feliz de ver uma das maiores franquias de jogos eletrônicos ter como vilão um cara que quer destruir o mundo através do vírus-palavra que ele tanto delatou em sua escrita. Os seres humanos até hoje consideram que são diferentes dos outros animais por sua capacidade de se comunicar através das línguas, que ironia seria se o pretenso fator de nossa distinção de superioridade fosse o motivo de nossa ruína.

Eu que não era tão fã de Hideo Kojima depois desse jogo tenho que admitir, o cara pode ser um cuzão, isso tá claro no fato do nome dele aparecer a cada 30 minutos no MGSV e dura mais tempo do que o dos outros membros da equipe de produção, mas ele sabe a doideira que faz e faz ela muito bem. Metal Gear Solid V: The Phantom Pain é um jogo com altos e baixos, no entanto sem dúvidas está entre os melhores do ano e é um marco no universo dos jogos eletrônicos.

6 comentários:

  1. Acho tenso que um artigo com tanta informação boa se ocupe em ser enrolativo, chamar o povo de cuzão, de groselha e etc, em vez de ser plenamente objetivo. No mais é bacana que tu tenha notado essas questões, embora elas estão claras, não são surpresa pra qualquer versado em filosofia. Achei curioso sua questão com MGS2 ser o Raiden, quando a ideia do Raiden é ser uma sátira com o próprio jogador, um cara que quer ser o Snake, que idolatra a lenda, que é conduzido sem questionar fatos (isso faz parte da ideia do enredo enganosamente bobo do jogo - o "over the top") Metal Gear no geral é bobo pra anular suspensão de descrença, tal como em quebras de quarta parede do jogo, se assumir como jogo mas propor questionamentos, fazer você refletir a obra. Inclusive acho tematicamente o 2 o mais forte, com a questão dos memes e da cultura e da ilusão de escolha. Dito isso, a escolha de um Snake mudo também não é puramente pra discutir linguagem (embora também o seja), já temos a Quiet pra isso, uma personagem muda que precisa realizar ações em vez de falar. Se atentar-se à nova estrutura do jogo, verá que ele valoriza acima de tudo a experiência do jogador, é sobre como você lida com eventos não planejados, como recebe informação, e como se alimenta de fantasmas (há temas demais em MGSV pra se ater só a linguagem, embora seja uma bela escolha prum artigo). O Snake mudo é a antítese do Snake que fala pelos cotovelos nos outros jogos. É um "Snake + Ações" que conversa claramente com a experiência de jogo, em suma é o jogador. Ele é mudo porque o jogador precisa preencher as lacunas (vide monólogo do skullface), porque o jogador herdou a lenda, e se você (jogador) aceitou esse fantasma como o Snake (que seria uma inconsistência na história)é porque você se acostumou a ser conduzido pelo enredo, viver de fantasmas, do que te dizem, em vez de questionar. Sobre o Kojima ter seu nome estampado em todo lugar, embora questão menos simples de resumir, acho é importante que a indústria dos jogos tenha cara, e pouca gente percebe isso. Que tenha condições de ser original no fato de ser o jeito de fazer do Kojima um valor em si, diz o que se pode esperar do autor e lhe dá liberdade criativa e identidade, é como acontece no cinema com diretores famosos, como o Tarantino. Decisões do diretor acima de decisões empresariais. Fora que MGS1, o primeiro a levar o nome do diretor, pós sucesso do policenauts, é considerado por muitos o jogo que amadureceu os videogames e trouxe uma linguagem cinematográfica, a escolha de por o nome do diretor lá é tão simples quanto ler "Stanley Kubric's algo", Kojima queria ser um diretor de filmes. Não vejo ninguém ter problemas com diretores de cinema estampando seu nome nas capas. É a questão de ver valor no autor, o autor vende filme, vende jogo, etc. Não vejo a galera da kojipro reclamar que o estrelismo do kojima ofusca o trabalho deles, na verdade Yoji Shinkawa, Kenichiro Imaizumi e Shuyo Murata e provavelmente tem uma opinião bem contrária. Vejo a Kojipro é idolatrar sua equipe e reconhecer o trabalho dela, algo que poucos diretores de cinema fizeram. No mais, desculpe o post longo, eis uma última consideração caso tenha interesse, sobre o ponto menos comentado de MGSV e um pouco da série no geral: http://www.gamesradar.com/mgs5-unfinished-s-entirely-point/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado pelo comentário e por passar mais informações. Quanto aos termos que uso no texto, é porque não se trata nem de longe de uma produção acadêmica, escrevi como se tivesse explicando algo para amigos, é assim que escrevo para a internet e não vejo onde isso é "enrolativo" ou "menos objetivo", pelo contrário, é mais simples chamar o Kojima de cuzão deixando claro para quem o conhece como personalidade porquê tenho essa opinião do que eu escrever mais um ou dois parágrafos sobre o assunto em si irrelevante pro texto.

      Excluir
    2. Entendi. É meu primeiro contato com o site e me passaram o texto de fato como algo mais acadêmico que tinha opiniões fortes sobre a filosofia do jogo e etc, daí, como é uma série que valorizo bastante, com tanta informação bacana que você apontou não pude deixar de me incomodar com os outros pontos, que claro, se explicam se você está sendo informal. Grato pela resposta.

      Excluir
  2. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  3. Achei seu texto maravilhoso, não só pela profundidade teórica, mas também pela facilidade na exposição das ideias.

    ResponderExcluir
  4. Não pude deixar de ler todo o texto e refletir cada trecho, foi um ponto de vista novo e incrível, a filosofia por trás do jogo de palavras... Incrível

    ResponderExcluir

Top