segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Travessa Barbara Cury - Por um Rock de Boa - Resenha do evento Talibã Rock em Teresina

Texto por Heitor Matos


Antes de tocar no evento de fato, gostaria de falar um pouco sobre os debates feitos a cerca da condição das bandas e espaços para tocar na cidade de Teresina. Semanas atrás acompanhei mantendo  distância segura, uma discussão que se constituiu nas redes sociais sobre "panelinhas versus bandasrenegadas" e não consigo chegar a consenso nenhum. Estava no limbo, sem tempo para tocar e compor coisas novas. No fim das contas, não pude ficar calado. Acho que o debate sobre essa questão é de fato necessário, mas não da maneira como ocorreu. Vi ambos os lados apresentarem argumentos relevantes em relação a seus pontos de vista. Não vou puxar saco pro lado de ninguém porque acho que em ambos os casos houve erros graves.



 Desse conflito sem vencedores, sobrou troca de farpas, ofensas gratuitas e um clima de animosidade que confere a cidade de Teresina dias ainda mais nebulosos no que diz respeito a cena musical, tão pouco valorizada e de oportunidades parcas e mal remuneradas. Tenho amigos nos dois lados da moeda, gente realmente séria e apaixonada pelo que faz nas duas frentes, que não liga e nem participa de panelinha ou toca visando estrelismo e poseragem. Aliás, achei o termo "panelinha" muito forte. Sei muito bem que tem bandas que estão aí sobrevivendo na cena a 10, 20 anos entre trancos e barrancos e não precisam provar nada a ninguém. Conquistaram um espaço que lhes é de direito com muito trabalho e dedicação, constituindo um publico fiel, sem precisar pisar na cabeça de ninguém ou pedir favores. Eu as respeito e agradeço a muitas dessas bandas porque cresci com elas, me ajudaram a constituir quem sou musicalmente. Deram-me bons exemplos de vida e me fizeram acreditar em meus sonhos de ter uma banda, por mais bobos que eles pareçam. Um espaço para elas deve ser aberto sempre.


A questão central é permitir que coisas novas possam dar continuidade e ligar a cena. De fato, acredito que devem tocar as bandas melhor capacitadas, mas quem pode julgar se uma banda é boa ou ruim, se em muitos casos não há condições justas para que o público possa julgar o que quer ouvir? Não precisa ser um "Boca da Noite" ou um "Teresina é pop". Porque não se pensam festivais para apresentar novos talentos nas outras regiões da capital? Será que seria tão tiro no pé assim? E vamos combinar: Não importa quão boa sua banda seja, o público daqui não costuma saber dar valor a coisas da terra, genuínas, autorais, com nossa marca de alma nelas. Seja da banda mais estruturada a banda de garagem mais podre, a dificuldade é a mesma. Por mais profissional que alguns aleguem ser, todo mundo sabe que a coisa ainda é muito amadora por aqui. Não é a toa que vários artistas daqui - e não necessariamente do campo da música - tentam a sorte em outros lugares do Brasil. Essa História é antiga. E não é polarizando a questão entre "bons eventos e eventos capengas" que a coisa se resolve. Se o rock é o que é hoje, porque alguns malucos lá nos anos 80 fizeram a coisa acontecer em lugares temporários, por meio de equipamentos podres e fazendo valer mais a energia e a vontade de tocar do que a qualidade técnica. Foi desses chamados "eventos capengas" que surgiram muitos grandes músicos, hoje rostos carimbados no underground teresinense. Negligenciar e criticar quem tenta sair do marasmo e fazer por si só as coisas acontecerem é no mínimo ser insensível à História de como se deu a música -principalmente rock - na cidade. Tomar atitude é preciso sempre. No fim das contas sei de uma coisa, briga de ego não leva a lado nenhum. Precisamos nos unir e fazer brotar em cada esquina da cidade espaços que tragam arte, cultura e "deboísmo" a todos.



Bem, sobre esses modos como os espaços da cidade ganham novos sentidos de acordo com nossas potências desejantes e revoluções moleculares, fiquei realmente feliz de poder ter participado do Talibã Rock, que já foi inusitado pelo espaço subjetivado para que o evento ocorresse: O "anti-show" foi pensado no Galpão do Jorge, vulgo "Travessa do Rock", lá no mercado da vermelha. Um corredor que durante a semana efervesce com as feiras e os personagens que nela transitam, se transformou em palco e voz para pessoas comuns se expressarem pelo lúdico e simples, sem o aspecto distanciado e intocável entre banda e público.


Reencontrei velhos amigos e reacendi a velha chama para música que tinha ficado inerte dadas as atribuições cotidianas que venho sofrendo desde 2014. Crescer de fato é difícil, mas em situações espetaculares - onde jovens que não se encerram nunca profanam o aspecto biológico da idade cuspindo ironia, fúria, política, amor e engajamento em riffs em músicas autorais e criativas - as baterias e as esperanças para encarar uma semana de trabalho árduo se renovam. Essa energia que me faz sentir um jovem interminável certamente ficará marcada em mim o resto de minha vida. No cartaz divulgado nas redes sociais, 3 bandas aparecem em destaque, Corpus conti e o Neurônio Espelho, Doce de sal e Dzaia. Ledo engano achar que o "anti show" ficou apenas nesses 3 nomes.


Fiquei triste em não poder ver o Corpus conti. Os caras tem uma agenda de compromissos e devido ao atraso em levar a bateria, não puderam tocar. Uma miscelânea de convidados especiais trouxe várias bandas de volta aos palcos. Os meninos da Cidade Estéril, com seu som alternativo e vocal doce e afinado de um João Pedro confortável em sua performance, trouxeram músicas radiofônicas muito bem construídas. O delírio furioso das guitarras malucas do Flores Radioativas, também teve espaço representado pela figura de Joniel Santos. Curto demais as composições dessa banda, ao ponto de sentir uma inveja por não conseguir fazer nada parecido. Só acho que eles deveriam ter tocado “Hotel Ferrugem”, a obra prima musical a cerca do tédio teresinense. Inclusive quero tentar fazer um cover hardcore dela no futuro.




Depois de um longuíssimo inverno, devido a vários problemas pessoais e acadêmicos, consegui cantar algumas cantigas da minha menina do olho de opala, Cianeto. Seguramente, essa é a banda mais esgoto underground de Teresina - pelas poucas apresentações e nulo talento vocal deste que vos fala - com orgulho e energia de sobra para viver a parrésia, a coragem da verdade. Assustamos a todos os presentes com músicas velozes gritadas a plenos pulmões. Punk rock/Hardcore graças a deus! Tantos estilos não teriam sido reunidos sem o convite da persistente Doce de sal, que desde 2008 sobrevive e mostra a força da periferia e do ativismo, por meio de um caleidoscópio de estilos, que vão do punk ao brega sem medo de experimentar e sem vestir fardas de estilos. A única banda axé punk da cidade abalou estruturas com o vocal lamuriento e tímido de Valciãn Calixto, que não tem vergonha de ser quem é e falar o que pensa, ganhando meu respeito e admiração por toda vida por ser assim.


Dzaia, banda experimental que intitula seu trabalho como "Música Para Beber Vinho São Braz" –homônimo de seu EP caseiro divulgado timidamente na net- foi a última a se apresentar na noite. A banda impressiona com um rock empirista poderoso e pela preocupação em fazer as coisas realmente bem feitas seja pelos riffs suculentos, pelas improvisações bem articuladas, pela voz postada de Zim – O Invasor, e pela coragem em jogar uma guitarra linda na bateria, sem medo de quebrá-la e se arrepender depois. Puro rock'n roll na sua raiz mais primal e viva.



Em suma, esse evento é a demonstração de que quem quer, faz as coisas acontecerem, mesmo sem grandes financiamentos ou pa(i)trocínios. Parabéns aos envolvidos e muito obrigado pela oportunidade de exorcizar meus demônios internos. Que mais "shows capengas" como esse pipoquem como praga na chapada do corisco, para o ódio de alguns e alegria de muitos. Que continuem a tocar reggae, hardcore, ska, brega, pop sem separatismo idiota ou estrelismo. Aos camaradas das antigas, obrigado por me tirar do hades e me fazer lembrar que existem coisas muito mais importantes que carreira e trabalho.



                                                                          ***

Heitor Matos da Silva (26) é mestrando em História pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), compositor, vocalista da banda de hardcore Cianeto e produtor do fanzine Jardim Atômico.

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