segunda-feira, 23 de novembro de 2015

"Dizem que o crowdfunding é 'modinha', espero que estejam errados", comenta o quadrinista Caio Oliveira

Conheci o Caio Oliveira através de "As Aventuras de Alan Moore, o Mago Supremo", uma obra satírica sobre os principais nomes da industria dos quadrinhos. Era uma HQ com páginas publicadas com certa frequência no facebook, inicialmente centrada na rixa entre uma representação de Grant Morisson e Alan Moore. Amigos meus do RJ, SP e outros estados mais do sul compartilhavam sempre e qual não foi a minha surpresa ao saber que ele era piauiense? Foi então que resolvi fazer essa entrevista, para conhecer mais desse simpático rapaz, o que ele passou para chegar até a posição de hoje em que faz bons quadrinhos e o que anda fazendo atualmente.



Agostinho Torres - Um dos aspectos das entrevistas no Diretório Literário é apresentar o artista - odeio essa palavra, mas é a que temos pra usar - e a partir daí irmos conversando sobre várias questões. Então me fala um pouco de quando começou a desenhar e a partir de que momento pensou "talvez dê pra trabalhar com isso profissionalmente".

Caio Oliveira - Comecei a desenhar desde sempre. A verdade é que basicamente todo mundo nasce sabendo desenhar. Todo mundo rabisca na escola, nós (eu e meus irmãos) só demos continuidade a isso em casa com o incentivo de nossos pais. Meu pai sempre foi muito ligado à cultura, tendo criado um grupo de teatro em Piripiri e minha mãe cantava. Meu pai nos dava uma pilha de gibis todo mês, e sentava conosco pra desenhar quando tinha tempo, o que pra gente era mágico, os desenhos dele eram perfeitos pro nosso critério infantil. Até os 16 anos, no entanto, eu via isso como um hobby qualquer, aí ganhei um concurso de uma revista especializada em gibis e cultura geek chamada Comics Generation. Foi quando percebi que isso poderia funcionar, e que eu não tinha outros planos pro futuro, então era melhor começar a levar meu desenho realmente a sério. Passei os 10 anos seguintes desenhando MUITO, sempre, todo dia! Fiz vários fanzines pra melhorar minha narrativa e diagramação. Quando senti que estava com um nível adequado fui pra São Paulo fazer um curso especializado em quadrinhos, pra refinar o trabalho, mas principalmente pra entrar em contato com profissionais do ramo. Conheci alguns nomes importantes, fiz contatos e consegui trabalho aqui e acolá. Coisa pequena, mas tô pavimentando meu caminho devagarinho e sempre.

A. T. - No início quais foram as referências que te fizeram ficar fascinado com quadrinhos? Em “As Aventuras de Alan Moore, o Mago Supremo” você demonstra muito conhecimento dos autores da indústria, mas queria saber quais realmente te fizeram a cabeça no começo, seja com roteiro ou arte.

C. O. - Eu sempre me interessei pelos bastidores dos quadrinhos e mundo nerd. Se tivesse uma revista de fofoca sobre o tema, eu assinava! S2 Acho que o primeiro autor que realmente me fez virar FÃ, foi o Peter David com o Aranha 2099 em 92. Eu já lia quadrinhos desde meados dos anos 80, comprei a primeira impressão de TDK do Miller em bancas, lia X-Men, Liga do Guiffen, etc., mas era mais um leitor esporádico que um colecionador de fato, e nessa época meu vício de verdade era o Mega Drive. Com o Aranha 2099, o PAD me resgatou de volta pros gibis com força total! Aí fiz questão de acompanhar o trabalho dele em outros títulos. Procurei o que já tinha saído dele no Hulk e no Homem-Aranha, e o que veio a seguir com X-Factor, Aquaman, Supermoça, e mais Hulk. Ainda é um dos meus autores favoritos. Na arte, o Rick Leonardi que fazia parceria com ele em Aranha 2099 explodiu minha cabeça com o traço elegante e econômico dele. Foi uma grande influência na minha forma de desenhar o corpo em movimento. Outro que me fez parar pra observar cada linha foi o Barry Windsor Smith com seu Arma-X. Aquilo é lindo demais!

A. T. - Fora desse ciclo industrial norte-americano alguém é referencial importante pra ti também?

C. O. - Sim. Miguelanxo Prado, Uderzo e Goscinny do Asterix, Berardi e Milazzo de Ken Parker, Manfredi com Magico Vento, Lobo Solitário de Kojima e Koike, todos eles tiveram grande influência no meu trabalho de alguma forma.  A verdade é que hoje em dia tenho lido cada vez menos material mainstream americano, tenho dado mais atenção à material autoral (Image), europeu e mangás.

A. T. - Quer dizer então que vocês são de Piripiri? Só ouço falar de gente doida vindo daquelas bandas, talvez o sangue de Piripiri seja a salvação do marasmo teresinense hahaha. Voltando ao “As Aventuras de Alan Moore, o Mago Supremo”, foi isso que te fez sentir um "boom" no sentido de "olha, tem gente que curte bastante o que eu faço e até compartilha"?

C. O. - Piripiri tem muito doido mesmo... deve ser algo na água do Caldeirão (isso rende uma HQ!). Sobre o "boom", sempre teve uma galera, pequena, mas fiel, que curtia e compartilhava as coisas que eu fazia. Mas com o Mago Supremo eu fui um pouquinho mais longe. Virou camiseta recordista de vendas num site, conheci um monte de gente do meio, galera que curte e trabalha com os quadrinhos, e, pasme, ilustrei uma biografia do Alan Moore!! o.O Sonho com o dia em que o próprio Rouxinol de Northamptom lerá o gibi.  :3


A. T. - Vi no Contraversão que você disse que a ideia de “As Aventuras de Alan Moore, o Mago Supremo” surgiu porque você curtia a "rixa mágica" dos dois, essa pergunta pode ser estranha mas... E você, tem um lado místico que acredita nessas tretas dele ou só olha curiosamente de fora mesmo? Eu conheço uma porrada de gente que começou nisso de Moore-Morrison e depois foi participar de ordens, essa parada toda, ou virou praticante de magia do caos. Então sempre que alguém me fala que curte muito isso eu fico com vontade de saber isso, é bastante quadrinho de gente doida.

C. O. - Eu sou extremamente cético em relação a tudo (às vezes até em relação à ciência!). O mais incrível é que quando leio a forma como o Moore descreve a magia, eu acredito! Porque ele entende a magia como arte: "Magia é a arte – a arte original –, a ciência de se manipular símbolos, palavras ou imagens para se alcançar estados alterados de consciência”.

Você lê um livro ou um gibi, ou vê um filme, escuta uma música, e, de repente você mudou de alguma forma. Isso é magia pro Alan Moore, e eu acredito nela.

A. T. - Leu Os Invisíveis? O que achou? Faz tantos anos que li e aquele troço até hoje ecoa na minha cabeça em alguns momentos.

C. O. - Eu li apenas os 18 primeiros números que saíram por uma editora aqui no Brasil. Do pouco que li, achei sensacional! Tô comprando as edições da Panini, mas ainda não tive tempo de ler, tão lá na minha, cada dia maior, pilha de leitura.

A. T. - Tem muita gente boa hoje em dia sendo vista e conseguindo financiamento para suas obras através da internet, como você avalia isso enquanto profissional? Quero dizer, como você disse, ainda tá pavimentando aos poucos seu caminho, mas já tem ao menos um nicho para publicar e uma quantidade considerável de apoiadores, sem internet isso seria consideravelmente mais difícil. Mas a internet é o caminho? Como avalia essa questão?

C. O. - Já vi uma galera dizendo que a "modinha" do crowdfunding tá passando. Espero que estejam errados, pois considero a ferramenta importantíssima. Há quem considere como caridade online, mas muitos profissionais não só daqui, mas de fora, estão usando cada vez mais. Jason Pearson, um dos meus quadrinhistas favoritos, lançou uma campanha no kickstarter recentemente pra dar continuidade à Body Bags, seu quadrinho autoral. O sucesso (merecido) veio bem rápido e ele já garantiu a publicação. Estamos falando aqui de um artista fenomenal (que trabalhou pras grandes editoras americanas) que pouco tempo atrás estava demonstrando perigosos sintomas de depressão por conta do ostracismo.  E tá aí, tendo seu trabalho financiado graças a uma ferramenta que, espero, venha pra ficar. E se tá difícil pra um artista do calibre do Jason Pearson, imagine pra mim!


A. T. - Sobre o mercado de quadrinhos brasileiros, você acompanha o que se faz aqui? Tem muito autor, porém parece faltar um meio através do qual isso possa escoar, ai que entra novamente a internet. Como você avalia essas questões?

C. O. - O "mercado brasileiro de HQ" é um "cada um por si" no sentido de que vive de material autoral, não há uma linha editorial. Isso rende coisas fantásticas, porque o autor tem liberdade pra criar o que quiser, mas fica desorganizado, dependente de feirinhas e eventos pra encontrar o público consumidor. Vejo pessoas comemorando o número cada vez maior de quadrinhos autorais de qualidade sendo lançados todos os anos (alguns editores até), mas não vejo isso como uma vitória do "mercado brasileiro de quadrinhos", e sim uma vitória única e exclusiva do autor, este lindo!

A. T. - Como irmão do Bernardo, acredito que você tem algum conhecimento do que anda sendo feito em termos de arte visual no Piauí. Conhece os quadrinistas daqui e o que eles tem feito? Se sim o que acha do potencial do pessoal? Particularmente eu acho que o Piauí hoje passa por uma efervescência, só que o pessoal aqui não pensa sua arte como mercado, tem uma visão romântica da arte pela arte-em-si e acaba não se profissionalizando. Digamos que em geral nossos artistas fazem arte como hobby de final de semana e não como trabalho e esse é um dos grandes motivos pelo qual pouca coisa daqui consegue sair pro mundo. O que eu curti ao procurar saber sobre o que tu faz foi ver que você realmente é um ilustrador, que tá tentando se inserir no mercado. Qual tua opinião sobre isso tudo?

C. O. - Conheço o trabalho de uma galera daqui: o Cardoso, que faz quadrinhos, ilustrações, estampas pra camisetas, grafite, etc., o Joniel que tem um traço sensacional, do qual sou fã assumido, o Narciso que tem um traço europeu elegante, o Davi, que é um ilustrador digno de trampar na Disney, etc. E tem muito mais gente boa que eu não conheço, já que, apesar de ser irmão do Bernardo, nunca fui envolvido com o Núcleo de Quadrinhos do Piauí, então conheço pouca gente. Eu acho que essa geração nova tá até mais atuante que a minha. Sou de uma turma que tinha excelentes desenhistas mas vivia numa época em que a única saída era fazer disso apenas um hobby mesmo, acho que os únicos que foram teimosos demais pra insistir fomos eu e o Leno Carvalho (que já publicou pela DC e Dynamite). Hoje o cenário tá melhor, fora a internet como ferramenta de divulgação e negócio, temos grandes eventos acontecendo todo ano, e essa galera daqui de Teresina tá indo pra esses eventos e mostrando a cara. A gente tem até uma galera produzindo games aqui em Teresina (um amigo de Piripiri, o Décio)! Algo que se me dissessem 10 anos atrás eu duvidaria. Se é difícil fazer quadrinhos aqui no Piauí, imagina games, cara!

A. T. - Em outra entrevista que fiz uns meses atrás o Felipe Portugal disse que as feiras de quadrinhos às vezes são parecidas com shows de bandas autorais em que quase todo mundo que vai é de uma banda autoral. E que exatamente o "como alcançar um público maior", como "distribuir quadrinhos físicos e digitais (pagos)" é que é o problema do mercado brasileiro. O que você acha dessas afirmações?

C. O. - Acho que a analogia das bandas autorais é ótima. Eu tô indo agora pro FIQ pra trocar ideia com uma galera que faz o mesmo que eu, quero conhecer essa gente, adquirir o material deles, aprender com eles. E, claro, mostrar nossas "demos" pra "grandes gravadoras" (editoras). Sobre os problemas do mercado brasileiro... sei lá... acho até estranho chamar assim, porque, pra mim, "mercado brasileiro de HQs" se resume a MSP e um punhado de autores independentes lançando fanzines de luxo apoiado por crowdfunding (que posteriormente pode vir a ser distribuído por alguma editora), salvo raríssimas exceções. Lembra que eu disse ser um cético, né? Pois é.

A. T. - Acho que o crowdfunding é apenas um modelo mais contemporâneo do artista vender sua arte, e vai conviver ao lado de modelos antigos e modelos ainda mais novos que vão surgindo. A maioria das pessoas que falam que é modinha é editor mão-de-vaca que tá vendo que não pode mais massacrar o autor, já que ele agora tem alternativas de lucros maiores do que meros 10% das vendas que além de mal pago ainda é obscurecido pelo controle do número de venda das editoras. Sou escritor e conheço essa ladainha ao qual você se referiu, mas só vejo medo mesmo, medo dessa galera que tem editora e se aproveitava dos autores. Falando nisso, recentemente o seu projeto "Panza" no Catarse deu certo, né? Quais foram as quantias? De onde veio a ideia do projeto?

C. O. - Panza foi meu primeiro projeto num crowdfunding, eu tava bem inseguro quanto a isso. Pedi uma quantia de 4 mil reais, abaixo do que necessitaria pra imprimir o gibi (tava disposto a investir 2 mil do próprio bolso pra bancar, se fosse o caso). Mas felizmente a resposta foi muito boa e bati a meta em apenas 3 dias. No fim do prazo, arrecadei mais de 14 mil (descontado o valor que fica com o site), e garanti a publicação também de dois outros "gibis brinde", Marvel Hipster e Mago Supremo. A ideia do projeto surgiu depois que fiz uma ilustração ano passado do Sancho Pança numa pose heroica sobre um moinho de vento, como se tivesse vingado seu mestre Dom Quixote. Gostei tanto da ilustração que um monte de ideias começaram a brotar na minha cabeça. Quis contar uma história do Sancho vivendo uma última aventura que se passa depois da obra Dom Quixote. Gostei do resultado e resolvi apostar na publicação.


A. T. - O que mais você tem planejado depois que terminar essa fase de FIQ/PANZA/Entrega dos conteúdos do Catarse?

C. O. - Ih, já tem um monte de coisa engatilhada! Tô começando uma mini série em 4 partes com um amigo gringo, um gibi de super-herói (mais notícias em breve), quero lançar no Brasil via crowdfunding o Super-Ego, uma HQ de minha autoria que já foi publicado nos USA pela editora Magnetic Press, e já recebi propostas de outro amigo gringo e de um amigo aqui de Teresina pra começar projetos de quadrinhos. Sem contar que tenho um moooooonte de coisas na gaveta aqui, gostaria de lançar uma HQ de terror (já escrevi a sinopse de várias histórias curtas), gostaria de lançar uma HQ com histórias tipo capa e espada, tem um projeto de quadrinho de super-herói infantil que escrevi um tempo atrás que gostaria de desenhar também, gostaria de finalmente terminar de escrever e desenhar a continuação de Super-Ego, etc. Isso sem falar do Cantinho do Caio, que tô sempre atualizando com coisa nova. Queria fazer tudo isso ao mesmo tempo! :3


p.s. Esqueci de citar nas respostas anteriores o excelente trabalho que a editora Draco tá realizando com quadrinhos nacionais. Apesar de ser cético quanto a um mercado nacional de quadrinhos, se há uma rara exceção no meio, são eles, que estão selecionando um catálogo com um material bem atraente. Espero que a iniciativa dê bons resultados.


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