quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Life Is Strange: Quando John Hughes Encontra David Lynch


Em 2015 tivemos grandes jogos de franquias memoráveis como The Witcher 3, Fallout 4 e Metal Gear Solid V, que sem dúvidas dominaram o mercado e o hype das redes sociais. Porém um jogo um tanto quanto diferente acabou silenciosamente sendo uma grande surpresa para muitas pessoas, a ponto de o considerarem como GoTY. Estou falando de Life Is Strange.

Life Is Strange é um jogo lançado em episódios pela Dontnod Entertainment e distribuído pela Square Enix. Você gosta de filmes do John Hughes como Clube Dos Cinco, Curtindo A Vida Adoidado e Pretty in Pink? Ou de série como Anos Incríveis? Pois bem, é exatamente esse o tipo de carisma que você vai encontrar nos personagens de LiS, só que misturado com ficção científica e um mistério/horror a la Twin Peaks/David Lynch.

Life Is Strange se vendeu ao público como um novo nível de Storytelling Game, em que suas escolhas durante a jogatina vão afetar toda a trama e o destino dos personagens. Como um viciado em Storytelling e jogos como The Witcher, fiquei curiosíssimo sobre como seria o impacto de escolhas num universo escolar que permite voltar no tempo.

Enredo De Volta No Tempo

No jogo somos uma jovem chamada de Maxine Caulfield ainda em seus 18 anos. Ela acaba de ser aceita numa das melhores escolas de artes, a Blackwell Academy, localizada em Arcadia Bay, cidade em que cresceu, mas que estava anos distante, pois se mudou para Seattle. Ou seja, Max está voltando para a cidade em que passou a maior parte da vida e ao retornar nota que embora tudo ainda pareça estático, alguma coisa muito bizarra está acontecendo.

As bizarrices começam a ficar latentes após um incidente com arma de fogo entre duas pessoas no banheiro. Por acaso Max estava lá no momento e viu o acontecimento se desenrolar diante dos seus olhos, angustiada de alguma maneira ela descobre que consegue voltar no tempo e mudar o destino das pessoas. Rapidamente ela domina esse poder, que é a premissa através do qual quase todo o gameplay vai se basear.


Andando pela escola Max descobre que além das tretas que viu no banheiro, envolvendo drogas e armas de fogo, há também o desaparecimento de uma das alunas mais queridas da Academia, Rachel Amber, que nunca foi solucionado. Ficando assim uma sensação obscura que contrasta com a jovialidade e aparente pureza dos corredores da escola e alunos que estão andando por ali.

A partir da descoberta do poder de voltar no tempo Max vai começar a agir como uma “heroína” ajudando as pessoas anonimamente. Mas como é óbvio (algo parecido ocorre no filme Efeito Borboleta, que acho que todo ser humano vivo já viu), no fim das contas Max está bagunçando a linha do tempo e isso vai causar consequências bizarras. No começo do jogo isso fica claro no pesadelo de Max dormindo na sala de aula, com um furacão se dirigindo para Arcadia Bay.

Mais na frente Max vai reencontrar Chloe Price, sua antiga melhor amiga abandonada e ressentida de sua ida para Seattle anos atrás. A menina quietinha virou uma punk meio l0k0n4 e metida com drogas e tretas ainda mais complicadas do que isso. A maior parte do jogo vai ser Max tentando ajudar Chloe a se safar de alguma situação perigosa ou buscando encontrar Rachel Amber, a pessoa que a substituiu na vida de Chloe quando da mudança para Seattle.

A Vida Coitidiana Nos Jogos

Creio que o que atraiu tantas pessoas a jogar LiS foi a sua ambientação, que tenta lembrar a vida real, colocar os personagens nos dramas da vida cotidiana e nos dilemas pessoais e frustrações que todos nós passamos em algum momento. Mais do que forjar lugares fantásticos e diferentes, LiS tenta nos mostrar que os jogos podem usar de cenário a nossa vida, a vida de pessoas normais. A aposta aqui é na identificação/familiaridade!O efeito de imersão nos momentos de ápice do jogo fica maior ainda com a trilha sonora quase perfeita, contando com Sparklehorse, Amanda Palmer, Syd Matters, entre outros da música indie internacional.

A personagem principal, Max, é convincente a ponto de lembrar a nós mesmos em nossa juventude (tá, a gente ainda é jovem, você entenderam o que eu quis dizer). Ela fala de Planeta dos Macacos, Cannibal Corpse, De Volta Para O Futuro, Twin Peaks, Senhor dos Anéis, P. K. Dick, George Orwell, O Silêncio dos Inocentes... Enfim, isso não é 10% das referências que é possível encontrar nos diálogos dela com os outros personagens, sendo a maioria deles com o nerd Warren Graham ou pensando sozinha, fazendo piada/trocadilhos com as situações/pessoas. Max é uma personagem que você fica pensando que se existisse provavelmente seria sua amiga, ou ao menos você ia querer que fosse.


Digamos que ela é uma jovem hipster com problemas de autoconfiança e que está tentando superar isso para se tornar uma grande fotógrafa. Como todos nós ela quer ser aceita sendo ela mesma, o que não é fácil como ela vai perceber ao começar a sofrer bullying de Victoria Chase, a rica e bonitona da escola que tem uma turminha de amigas que vão encher o saco dela no Episódio 1. Ao longo do jogo vamos descobrir um pouco da história da própria Victoria Chase e o porquê dela ser tão cuzona assim.

Mesmo com problemas de autoconfiança Max está o tempo todo de bom humor, se não fala ao menos faz piadinhas mentais com as situações constrangedoras que às vezes se encontra ou vê os outros passarem. No entanto nem todos sabem lidar com isto dessa forma, é o caso de Kate Marsh, uma digamos... santinha-evangélica que acaba sendo colocada numa situação de extrema desonra e que a faz pensar em suicídio. É nesse ponto onde LiS se torna um jogo extremamente cativante, os personagens sofrem problemas sérios da vida real e não só coisas bizarras/obscuras que vão destruir o mundo. Há toda uma descrição das problemáticas que os jovens passam a enfrentar assim que vão entrando na vida adulta, principalmente a tríade: independência, sexo e drogas. Aprender a administrar essas questões e ainda lidar com as expectativas da realidade é uma tarefa bastante árdua.


Em LiS temos discussão séria sobre bullying, uso de drogas para cometer abusos sexuais, morte, bissexualidade, tráfico de drogas, convívio com os pais e sobre os rituais de aceitação na sociedade (principalmente na juventude). A maioria dos personagens, mesmo Max, parece estar a todo o momento querendo se afirmar perante algum grupo ou pessoa, tentando ser aceito. Existe um tal de Vortex Club que mais parece uma seita juvenil bizarra, com orgias, uso de drogas e que no fim acaba se mostrando como bastante relevante para a trama do jogo, principalmente o Episódio 2.

O interessante sobre o Vortex Club é que todo mundo da Academia sabe que eles fazem merda o tempo todo, mas querem fazer parte porque é cool e popular. As pessoas desse clube costumam serem os causadores de bullying nos estudantes que eles consideram “losers”. O Vortex Club só não é extinto porque o riquinho Nathan Prescott, cuja família basicamente é dona indireta da cidade e Academia, é o “chefão” lá dentro.


Outra questão bastante importante que vamos encontrar no jogo é a da aparência: as coisas raramente são o que parecem. Pessoas que você acha que são pau no cu vão lhe dar a mão quando você tiver por baixo, gente que você acha que pode sempre contar com a ajuda, vão lhe chutar quando você cair e assim por diante. Assim como na vida LiS guarda umas surpresas macabras em sua trama sentimental.

A partir daqui tem spoiler!

Um Jogo Sobre O Valor Da Amizade

Embora o jogo possua em seu centro uma trama misteriosa sobre o sumiço de Rachel Amber; sobre o que é o furacão que aparece várias vezes invadindo Arcadia Bay nos momentos em que Max está se sentindo mal; e em volta disso se desenrolem tramas secundários com dramas que representem a mudança para a vida adulta; a minha opinião é de que o jogo, assim como os filmes e séries que citei no começo do texto, antes de tudo tratam sobre o valor da amizade.

Max tem um relacionamento muito divertido e próximo com Warren, que lhe passa animes, músicas e filmes bizarros. E Warren, que pode ficar no que alguns chamam erroneamente de friendzone ou não, dependendo das suas escolhas, faz de tudo para proteger Max, inclusive entrar em brigas e confiar nela mesmo sem que não faça ideia do que está ocorrendo. Há muito carinho e atenção em como os dois se relacionam, e tensão sexual evidente no nervosismo quando estão sozinhos, algo muito típico de sua idade.

Kate é uma garota meiga, religiosa e inocente, o que não significa que não pode se divertir, ir pra festas, namorar, essas coisas. O azar dela foi se meter na festa errada enquanto buscava aceitação dos outros e acabar sendo drogada/abusada. Vídeos de toda a situação vão parar na internet, o que a faz querer se matar. O que a salva? Max. Não por seu poder de voltar no tempo, mas pelo carinho que ela tem pela garota, pela sua capacidade fazê-la lembrar de que ela tem quem a ame e que o suicídio vai ser um erro. Dependendo das suas escolhas ela não sobrevive e isso choca completamente o ambiente da Academia, que adquire tons sombrios e amargos.


Chloe é a personagem mais importante do jogo depois de Max. A relação com sua amiga é complicada (até porque a garota é problemática demais), graças ao fato de ter se sentido abandonada quando da mudança da mesma para Seattle. Ainda assim Chloe ama muito Max, a ponto de brigar, atirar e se sacrificar por ela. E Max então? Nem se diz... Durante as suas voltas no tempo Max bagunça várias vezes a linha do tempo para tentar salvar Chloe, para evitar que seu destino seja ruim. Há a possibilidade de um romance entre as duas, vai depender das suas escolhas durante o jogo. De qualquer forma, mesmo no final, quando não há mais o que fazer, ela não sabe escolher abandonar Chloe, ainda que isso signifique salvar a vida de milhares de pessoas.

Life Is Strange é menos um jogo sobre viagem no tempo, ficção científica e horror; e mais um jogo sobre autoconhecimento e amadurecimento. Amizade de verdade, como Max, Chloe, Kate e Warren vão descobrindo durante o jogo, exige comprometimento, sacrifício, às vezes afastamento... E não é algo fácil de encontrar por aí. É como naquela velha música do Raimundos: “quem me faz falta é quem não vai na bola/ quem me segura se eu cair”. É esse o maior valor que eu vejo em todo o enredo de Life Is Strange: amizade de verdade é um amor que vence até a morte.

Life Is Strange é a surpresa do mundo dos jogos em 2015, disso eu não tenho a menor dúvida. Até o episódio final fiquei em dúvida se seria o meu GoTY, desbancando o venerado (por mim) The Witcher 3, mas acabou ficando em segundo lugar porque achei que o final não cumpriu a proposta inicial do jogo. Ainda assim, vale muito a pena jogar, é quase um point and click com viagem no tempo e história de múltiplas escolhas, no entanto tudo ocorre de maneira tão cativante que se torna inesquecível.

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