terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Espiga - Felipe Portugal


Espiga é o quadrinho independente de 64 páginas lançado por Felipe Portugal em 2015. Pelas redes sociais acompanhei toda a dificuldade que o autor passou para publicá-lo, desde tretas com editoras à falta de dinheiro para impressão da tiragem. Ainda assim, para a nossa sorte como leitores, a obra viu a luz do dia.

No começo você estranha um pouco o traço, parece que o autor regrediu algo em seu desenho, mas assim que você vai lendo e passando as páginas essa sensação se desfaz. Felipe Portugal apenas parece ter se tornado consciente do que é relevante no próprio traço e ter dispensado um monte de detalhes que, nas suas criações anteriores, não serviam de muita coisa. Mais do que isso, temos páginas que são orquestralmente construídas, com planos visivelmente bem estudados. Em alguns momentos há deslizes de enquadramento e sequências que não ficam muito bem, mas em geral o autor apresenta um salto qualitativo enorme no domínio da arte sequencial. E embora possua uma paleta de cores bem reduzida, todas as cenas são bem retratadas e vívidas.

Confesso que a princípio o nome e a capa da HQ não me chamaram muita atenção, então a li com baixa expectativa e fui surpreendido com uma história bacana e relevante. Embora não seja dito em nenhum momento, temos o próprio Felipe, que precisa terminar uma HQ - que provavelmente é a própria HQ Espiga – e é visitado, no meio de um dia banal, por uma pessoa (tá mais pra espirito, sei lá) que ninguém mais vê. E essa pessoa, que em certos momentos não tem rosto, acaba tomando o lugar do personagem e fazendo coisas em seu lugar quando ele sai de casa. Isso gera um monte de confusão que vai levando a HQ a um desfecho.



Essa pessoa/espirito que aparece pra bagunçar a vida do personagem principal parece ser uma manifestação visual daquele lado humano auto sabotador. Todos nós já fizemos e faremos auto sabotagem em nossas vidas. Aquela procrastinação, aquele momento de bad que em vez de tentarmos sair abraçamos e principalmente a sensação de que não somos capazes, mesmo depois de muito nos prepararmos. Felipe é assim, como todos nós e talvez por isso Espiga seja uma HQ que tocará qualquer um que lê-la.

Um dos problemas anteriores que Felipe Portugal tinha em suas obras era a narrativa que ia perdendo fôlego e terminava sem uma sensação de desfecho. Dessa vez tudo funciona bem, os acontecimentos são graduais e a obra realmente tem uma finalização. Só faltou numerar as páginas dessa vez hein Felipe.

Os elementos surreais da obra foram os que mais gostei, quando Felipe é lançado em digressões psicológicas aparecem metáforas animalescas de seus sentimentos, o medo em forma de lobo, a insegurança em forma da água em que ele mergulha e está quase afogando e assim por diante.

Em Espiga Felipe Portugal mostra mais uma vez o quanto sabe contar boas histórias sobre a vida, sobre sentimentos que são universais e ainda assim acredito que sejam sua própria experiência. Ele sai da potencialidade para fazer de fato algo realmente muito agradável de ler.

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