terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

O Sangue dos Elfos - A Saga do Bruxo Geralt de Rívia Parte 3


Embora no Brasil seja o terceiro livro d’A Saga do Bruxo Geralt de Rívia, O Sangue dos Elfos é o primeiro que de fato se trata de um romance, que conta ainda com meia dúzia de sequências para chegar a sua conclusão. Nele a perspectiva é narrada na maior parte do tempo na visão de Ciri, a real protagonista dos romances, intercalando com Geralt, o bruxo que se propôs a ser o guardião da garota e faz de tudo para mantê-la viva e protegida.

Em um primeiro momento o livro usa de maneira muito interessante Jaskier, o bardo da saga, cantando num cabaré sobre uma lenda relacionando o Lobo Branco (Geralt) e a princesa Cirilla. Segue-se então um debate por páginas sobre a verdade por trás da poesia do bardo, se se trataria de verdade factual ou apenas verdades poéticas. No meio dessa discussão um homem em particular parece não engolir as desculpas discursivas de Jaskier e quer que ele lhe diga a verdade sobre Geralt e Ciri. Tudo isso se passa num cabaré e Jaskier acaba tendo que meter no pé para fugir da ameaça.

O motivo de toda essa confusão é bastante complexo, mas vamos resumir dizendo que Ciri é uma personagem importante nos planos do Conselho Dos Reinos Do Norte para derrotar Nilfgaard. Por longos anos os reis achavam que ela havia morrido, seus espiões de alguma forma descobriram que o bruxo lendário conhecido como Geralt de Rívia havia a tomado por sua protegida. Assim mandaram espiões, soldados e assassinos por todo o mundo em busca de Ciri e Jaskier era uma possível fonte de informações, já que todos sabem que ele era amigo do bruxo.

Uma das coisas que mais me impressionou em O Sangue dos Elfos foi a habilidade com que Sapkowski maneja sua escrita quando se trata de ação. É tudo direto e ainda assim detalhado e sútil de ler. Em Kaer Morhen – antiga fortaleza onde todos os bruxos da escola do lobo retornam de tempos em tempos - ele narra o treinamento pelo qual Ciri é submetida por Geralt, Visimir e outros bruxos. Ao lado do treinamento temos também o cotidiano na fortaleza, onde com a ajuda de Triss Merigold Ciri aprende sobre menstruação, maquiagem, beleza, enfim, artes femininas, coisas nas quais os bruxos jamais poderiam ajuda-la. Triss fica na fortaleza após sentir o poder que Ciri guarda dentro de si, porém ela se diz inapta para de fato treiná-la e indica que, apesar de tudo, deveriam buscar ajuda com Yennifer.

Se nos dois livros anteriores - que são de contos - ficamos deliciados com as olhadelas que damos no universo de The Witcher, em O Sangue dos Elfos pela primeira vez temos uma visão globalizante e organizada da política dos reinos e de que tipo de gente os habitam. A temática geral do livro, como fica bem claro pelo seu título forte e dúbio (sangue derramado ou “superior” nos remetendo a orgulho?) é o racismo entre as raças.

Anões, Ananicos, humanos, elfos, dríades e muitas outras raças convivem em algumas cidades dos reinos do norte, porém essa relação nunca foi fácil e os grupos sempre foram visivelmente separados entre si. Além disso Nilfgaard, uma potencia militar e tecnológica localizada no sul, está há séculos em conflitos intermitentes com os reinos do norte, gerando mais confusão ainda. Esses conflitos dentro da sociedade podem ser percebidos de maneira mais direta em passagens como essa:

“Os elfos juntavam-se aos elfos. Os anões artífices agrupavam-se com seus primos irmãos, que, armados até os dentes, haviam sido contratados para escoltar a caravana dos mercadores, e, no máximo, toleravam a proximidade de gnomos mineiros e ananicos agricultores. Todos os inumanos mantinham-se uniformemente distantes dos humanos. Os humanos respondiam aos inumanos com a mesma moeda, e nem entre eles se via qualquer tipo de integração. Os fidalgos olhavam com desprezo para os mercadores e caixeiros-viajantes, enquanto a soldadesca e os mercenários mantinham distância dos fedorentos pastores. Os incontáveis feiticeiros e seus adeptos isolavam-se por completo, obsequiando aqueles que estavam ao redor com a mesma arrogância. O pano de fundo desse universo era formado pelo compacto, negro, soturno e silencioso agrupamento de camponeses. Estes, parecendo uma floresta de ancinhos, forcados e manguais que sobressaíam acima de suas cabeças, ignoravam tudo e todos”.

Vi muitas críticas de pessoas ao livro, dizendo que ele é incompleto. Besteira! O nome do livro é O Sangue dos Elfos e ele narra muito bem o motivo pelo qual os elfos são tão importantes assim. Os humanos dizimaram civilizações antigas quando chegaram no norte, diminuíram as florestas mágicas das dríades e expulsaram os elfos mais ainda para o norte. Ao longo dos séculos os humanos se tornaram maioria e passam a tratar todas as outras raças como menos importantes, secundárias, e os orgulhosos elfos não querem deixar que as coisas permaneçam assim. Os elfos não se deixam domesticar, na verdade eles tem uma atitude xenófoba em relação aos humanos também, acham eles inferiores. Então eles criam vários grupos de guerrilhas chamados de Scoia'tael (Esquilos), composto apenas por não-humanos.

Ao narrar a graciosidade dos elfos, o modo como batalham, se movimentam na floresta, cavalgam em silêncio e como preparam armadilhas para humanos, mais uma vez brilha a escrita de Sapkowski. Sério, é muito foda o modo como ele narra os personagens, mesmo sem descrições físicas você é capaz de identificar quando é um humano, anão ou elfo fazendo algo.

Os diálogos também são ricos e nos deixam mais curiosos ainda sobre tudo que aconteceu no passado dos reinos do norte. Não acho que é uma boa ideia começar a ler A Saga por esse livro, muitas informações ficarão no ar, mas ele por si só é um livro muito bom.

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