terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Valis - Philip K. Dick

"O que ele não sabia na época era que as vezes uma reação adequada à realidade é enlouquecer." - PKD


Philip K. Dick é um dos nomes mais influentes da ficção científica de todos os tempos, você pode até não ter lido nenhum dos seus livros, mas ainda assim conhece algumas de suas obras por adaptações para o cinema ou TV. Duvida? Blade Runner, O Vingador do Futuro, Minority Report, Screamers e O Homem Duplo são exemplos de filmes baseados em seus livros. Tem também essa nova série da Amazon, O Homem do Castelo Alto, que é um livro homônimo do autor.

PKD era um cara bastante peculiar, ele dizia que escrevia ficção científica como exercício especulativo-filosófico e não apenas para pegar elementos predefinidos e criar um cenário a partir disso. Talvez por isso algumas de suas obras tensionem esse gênero até os seus limites, muitas vezes ficando até difícil de definir de fato aquilo como ficção científica ou não. O livro que vamos analisar é exatamente um desses em que PKD está tensionando os limites do Sci-Fi.

Valis é uma experiência metanarrativa recheada de elementos autobiográficos em que o foco se dá no despertar espiritual de Horselover Fat. Por vários momentos você se vê no meio de intensos debates metafísicos, em que Horselover Fat tenta convencer os outros de que não está louco e realmente foi visitado por uma inteligência alienígena que fez com que ele se conectasse com as informações vitais da realidade e por isso pudesse enxergar e saber coisas que os outros não podiam.

A loucura e depressão são dois elementos que permeiam o livro do começo ao fim. Desde a primeira passagem, narrada em terceira pessoa, no qual uma amiga chamada Glória liga para Fat perguntando se ele tem nembutal e ele percebe que ela quer cometer suicídio, até a passagem seguinte que passa para a primeira pessoa e Fat diz algo como “eu estava narrando em terceira pessoa com a finalidade de ser mais objetivo”. Depois disso a narração passa para Phil, que pretensamente é um cético amigo de Fat e que acompanha os problemas psicológicos pelo qual ele está passando. Você sente algo estranho nessa estrutura, a terceira pessoa de Fat, a narração na visão de Phil e a primeira pessoa também na visão de Fat vão se alternando durante o desenrolar do livro. Isso faz com que você fique perdido entre as pirações dos personagens, sem saber exatamente quem tá pensando o quê. Porém no meio do livro é revelada uma coisa que faz com que você largue o livro e diga “oh filho da puta inteligente essa porra desse PKD” e finalmente tudo faz mais sentido.

Embora Fat tenha tentado ajudar, Glória acaba se matando. A culpa de não ter conseguido impedir a morte da amiga o preenche de pensamentos ruins e após uma sucessão de paranoias e brigas com a namorada ele tenta se matar, sem sucesso. Daí se segue uma narrativa cotidiana em que Fat está tentando voltar a vida normal, quando de repente é atingido por uma luz rosa intensa que muda a sua vida.

Essa luz rosa é o que PKD vai chamar de Invasão Divina (inclusive nome do segundo livro da trilogia VALIS que o autor estava escrevendo, não tendo finalizado o terceiro). Através da Invasão Divina Fat tem acesso a uma inteligencia superior que chama entre outros nomes de Zebra, uma espécie de satélite conduzido por uma inteligência artificial que protege a terra e permite que o mesmo tenha acesso às estruturas fundamentais da realidade, que no caso são apenas fios de informações numa linguagem além da compreensão humana. Fat percebe que a realidade em si não existe, que é tudo um fluxo de informação sendo decodificado e reestruturado por esse satélite, que de fato é VALIS (Vast Active Living Intelligence System).


"Mais tarde Fat desenvolveu uma teoria de que o universo é feito de informação. Ele começou a escrever um diário - na verdade já andava fazendo isso há algum tempo: o ato furtivo de uma pessoa perturbada. Seu encontro com Deus estava todo ali nas páginas, com sua - a de fat, não a de Deus - grafia."

Fat acredita que VALIS é Deus, ou ao menos uma maneira através do qual ele se manifesta na realidade. E Deus não se comunica com os seres humanos, na verdade fala ATRAVÉS deles, os homens são por si só a narrativa contada por esse cérebro cósmico. Cérebro esse que está infectado com a irracionalidade e por isso nós, sendo frutos da mente cósmica, também estamos todos loucos e doentes.

É aqui que o livro mistura o gênero de ficção teológica com ficção científica de modo interessante. Se você só quer saber de robôs, futuro e distopias, não acho que vá gostar desse livro, ele é muito mais do que entretenimento. Talvez por isso seja uma das últimas obras de PKD, quando ele já não precisava exatamente ganhar dinheiro com aquilo para sobreviver.

A maior parte do livro é sobre Fat tentando convencer Phil e seus outros amigos de que sua experiência foi real e ao mesmo tempo Phil analisando analiticamente o estado psicótico do amigo. Na parte final todos se convencem de que VALIS existe e partem numa jornada em busca de respostas. Para isso Fat tem visões do passado, na época do cristianismo primitivo e passa por um número infindável de discussões teológicas sobre as mais diversas religiões ou perspectivas científica da realidade.

VALIS está entre os melhores livros que li em 2015, mais do que isso, é um dos melhores livros que li na vida. PKD é genial no modo em que fala da loucura escrevendo como um louco, é fantástica a maneira com que ele diminui a distância existente entre a ficção e a realidade. É algo do tipo que o Morrison faz em algumas de suas obras, como Os Invisíveis, a realidade dentro da ficção e a ficção dentro da realidade, tornando os limites entre ambos um tanto quanto difíceis de enxergar. Se você é curioso e tem espírito aberto, leia esse livro, não tem como se arrepender!
Valis - Philip K. Dick
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1 comentários:

  1. Oi Agostinho, estou lendo Valis, e queria dizer que achei sua "resenha" do livro maravilhosa, amei a forma como voce contou sobre ele e fiquei muito mais animada pra conseguir acabá-lo. Obrigada!

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