terça-feira, 1 de março de 2016

V. - Thomas Pynchon

O senso comum diz que todo escritor quer ser lido, enaltecido e compreendido. Não Thomas Pynchon. Ele se recusa a fazer parte do espetáculo: não dá entrevistas, não tira fotos, não fala sobre seus livros com os amigos, não queria que suas obras fossem transformadas em e-book... E ainda assim é um dos mais renomados escritores vivos. Ele parece não ter qualquer ilusão de que só a arte supera a vida ou pode eternizá-la, duas frases bobas que vemos frequentemente saindo da boca de artistas que admiramos ou de ingênuos aspirantes à carreira. Para ele, assim como W. S. Burroughs (que na verdade é uma de suas inspirações), só a desistência das próprias crenças e aspirações pode salvar. No fim nada irá resistir ao tempo, tudo vai virar pó, até as melhores obras de arte. A sua vibe é a da entropia, onde toda a energia de um sistema isolado vai se perdendo aos poucos em meio ao caos, resultando no fim em uma nulidade. A realidade parece ser uma sequência de filmagens organizadas de maneira aleatória e descartável, ainda assim tudo é perigoso, dê um passo errado e você pode cair na armadilha de um inimigo oculto e nunca mais se levantar.



Thomas Pynchon realmente tem algo de diferente, sua reclusão não tem a ver com estratégia de marketing reverso: ele é apenas alguém paranoico que tem a noção de que a existência é uma série de paisagens difusas e incertas em meio ao vazio. V., seu romance de estreia, já carregava em si esses princípios que marcariam suas obras seguintes. Há a presença de discussões que vão desde a física newtoniana, quântica, parapsicologia e misticismo até cirurgia plástica, cultura beat e a vida de prostitutas de cais.

É difícil falar sobre o quê o enredo de V. trata. Há muitas coisas acontecendo ao mesmo tempo, como digressões a um passado distante, ou personagens que ao se encontrarem mudam a perspectiva narrativa do autor, que segue uma história paralela que nada tem a ver com o enredo principal proposto. Nisso temos um vai e vem de uma grande variedade de personagens que estão ao mesmo tempo se relacionando entre si e se distanciando. Uma espécie de dança literária quântica em que as partículas (no caso os personagens) desaparecem quando você acha que deveriam estar presentes e reaparecem quando não eram esperados. Imprevisível, essa é a palavra que melhor cabe para representar Pynchon. Durante a leitura eu me sentia sentado numa praça tentando entender o que pensava cada pessoa que passava na minha frente. O resultado é uma confusão danada de histórias de vida e busca de sentido da existência.

Se fosse para descrever o livro da maneira mais simples possível, seria mais ou menos assim: a história de Benny Profane, um veterano de guerra que acabou de sair da marinha e que está em busca do significado da existência; e Herbert Stencil, que tem obsessão em entender o segredo que seu pai lhe deixou através de pistas imprecisas, descobrir o que é V.

V., que dá nome ao livro, é o grande fio condutor do enredo, é para onde todas as pontas que vão ficando soltas convergem. No começo parece se tratar de um país, que é impossível de descrever, pois possui montanhas com formas geométricas e céu com cores que não são conhecidas; depois um navio; um rato; e por fim uma mulher. Em nenhum momento deixa claro do que realmente se trata V., pode ser qualquer uma dessas coisas listadas ou nenhuma delas. As pessoas que terminaram o livro associam V. a uma mulher misteriosa que ao longo do livro vai ganhando relevância, porém na minha percepção ela é só um dos elementos que compõem o mistério e não a resolução do mesmo.

Para o leitor desavisado e acostumado com narrativas lineares vai ser difícil prosseguir na leitura. Por vários momentos você tem a sensação de que o livro que está lendo só pode ser outro que não aquele que começou, de tão distante que os personagens ou o tempo às vezes vai. Só que assim como o autor russo Victor Pelevin em A metralhadora de argila Thomas Pynchon cria um efeito de costura onírica. Não é como pegar o romance de um péssimo escritor em que tudo parece jogado e sem sentido por falta de competência. Não, aqui se trata de uma colcha de retalhos bem costurada numa malha onírica em que o sentido imediato é o que menos importa. Mais uma vez o autor lembra W. S. Burroughs, que em livros como Almoço Nu os capítulos podem ser lidos em qualquer ordem que não vai nem atrapalhar e nem ajudar na compressão do que está se passando. V. não chega a tanto, mas a confusão mental de não saber bem o que está acontecendo é parecida.

Às vezes os capítulos contam por dezenas de páginas histórias individuais muito interessantes da vida dos personagens. Como quando Benny vai trabalhar de caçador de crocodilos nos esgotos de Manhattan. A maneira como Pynchon narra o cotidiano, hábitos e lendas dos caçadores de crocodilos cria uma coerência tão boa de ler que parece um romance a parte dentro de outro romance. Apenas quando nos é dito sobre a história do Padre Linus Fairing, que ao pregar para os ratos (pois todos os seres vivos merecem conhecer deus), se sentia seduzido pela rata Veronica é que percebemos que fazia parte do enredo maior, no caso o mistério de V.

Benny é o personagem que mais gostei, ele passa por situações muito estranhas, por exemplo, quando ele arruma emprego numa empresa que testa a resistência dos carros a acidentes, tem um robô de testes de automóveis que ele gosta de conversar. O cara tá simplesmente perdido na vida, sem saber o que fazer e tomando bordoada depois de bordoada, isso quando não desiste das coisas que está fazendo simplesmente por não ver mais sentido. Stencil é mais confuso e difícil de acompanhar, na maior parte do tempo você não consegue nem mesmo localizar onde ele está ou se ele é ele mesmo. Ele representa a paranoia final, através do qual o livro consegue manter uma unidade. Sua obsessão com V. não difere muito da busca pelo sentido da vida que Benny também tenta encontrar.

O maior feito de Thomas Pynchon, sem a menor dúvida, é sua capacidade de criar uma mitologia contemporânea própria. Kerouac é uma pessoa que fez isso, mas sua mitologia estava restringida à representação de pessoas reais da modernidade, no caso seus amigos; Pynchon vai mais longe, bem mais longe, sua mitologia é onírica, ficcional e cheia de lacunas, como as mitologias da antiguidade, só que em vez de dar significados e lições sobre a vida, a mitologia pynchoniana é pós-moderna e entrópica. Ela nos mostra o quão grandiosa (e tola) é a busca pelo sentido da vida, da própria existência, num mundo cada vez menos disposto a nos dar respostas. No fim, ao terminar de ler V. o leitor ficará com a sensação de que leu um livro que não levou a lugar nenhum, assim como Stencil e Benny também não chegaram a lugar nenhum. No fim das contas é sobre isso que é V. essa busca de uma vida por algo que provavelmente nunca encontraremos.

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