quinta-feira, 28 de abril de 2016

“Escritor que não sai de casa fica de pau mole mais cedo”, dispara Diego Moraes

Conheço as suas obras, sei que você não é frio nem quente. 
Melhor seria que você fosse frio ou quente!
Assim, porque você é morno, nem frio nem quente, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca. 
Apocalipse 3:15,16



Basta ler algum poema de Diego Moraes para sentir que o cara tem pegada, que o cara tem sacada, que “aqui tem sentimento”, diria Wesley Safadão se entrasse em contato com algum conto do autor amazonense.

Lirismo como exaltação de confissões, mágoas e nostalgia são a argamassa que o leitor encontrará passando a mão pelas paredes rebocadas, mas nem tanto, construídas a cada verso de Diego. Paredes que, ou separam e afastam ou trancafiam de vez todos numa mesma redoma de aplausos e elogios ao autor por sua produção ora imagética, ora cinematográfica, ora dramática, ora humorada, confessional por vezes.

Envolvido em polêmicas nas redes sociais com escritores e leitores que não compreendem sua autoficção, Diego viu nos últimos três anos, apesar dos desentendimentos, seu público multiplicar pela internet. Ganhou a simpatia e respeito de autores já consagrados, tendo sido indicado por alguns nomes de calibre grosso do meio literário como um escritor “que promete”, publicou livros por selos independentes como Editora Penalux, organizou a primeira Feira Literária Virtual unindo autores de norte a sul do Brasil através da Flipobre (Feira Literária dos Pobres com discussões literárias na web através de hangout) e foi convidado por ninguém menos que Carlos Andreazza, diretor executivo da Editora Record, para lançar dois livros.

Por tudo isso e um pouco mais a citação bíblica no início dessa entrevista, pois não há quem passe a vista pelos escritos de Diego que não esfregue os dedos contra as petecas dos olhos, coçando e se perguntando se aquilo que acaba de ler é o que realmente está escrito, se aquilo que acaba de ler realmente aconteceu, quanto aquilo que acaba de ler possui de verdade, possui de poesia, de lirismo, de embriaguez, de sacanagem, de revolta e conclui, ao fim de todas essas perguntas o quanto aquilo que acaba de ler é autêntico, honesto e artístico.

Esse é Diego Moraes, com público cativo até mesmo em Portugal, onde lançou o livro Um Bar Fecha Dentro da Gente pela editora Douda Correria. Com esse lançamento em solo europeu, o amazonense viu seu nome figurar em diversos jornais portugueses e ter sua obra considerada uma das dez melhores lançadas em Portugal no finado ano de 2015.



01 – Pra começar legal, se você pudesse escolher ser um poema, qual você seria, por qual razão?

Seria o poema “Meteoro” do Roberto Piva.

METEORO
Roberto Piva

Eu direi as palavras mais terríveis esta noite
enquanto os ponteiros se dissolvem
contra o meu poder
contra o meu amor
no sobressalto da minha mente
meus olhos dançam
no alto da Lapa os mosquitos me sufocam
que me importa saber se as mulheres são
férteis se Deus caiu no mar se
Kierkegaard pede socorro numa montanha
da Dinamarca?

os telefones gritam
isoladas criaturas caem no nada
os órgãos de carne falam morte
morte doce carnaval de rua do
fim do mundo
eu não quero elegias mas sim os lírios
de ferro dos recintos
há uma epopéia nas roupas penduradas contra
o céu cinza
e os luminosos me fitam do espaço alucinado
quantos lindos garotos eu não vi sob esta luz?

eu urrava meio louco meio estarrado meio fendido
narcóticos santos ó gato azul da minha mente
Oh Antonin Artaud
Oh Garcia Lorca
com seus olhos de aborto reduzidos
a retratos

almas
almas
como icebergs
como velas
como manequins mecânicos
e o clímax fraudulento dos sanduíches almoços
sorvetes controles ansiedades
eu preciso cortar os cabelos da minha alma
eu preciso tomar colheradas de
Morte Absoluta
eu não enxergo mais nada
meu crânio diz que estou embriagado
suplícios genuflexões neuroses
psicanalistas espetando meu pobre
esqueleto em férias

eu apertava uma árvore contra meu peito
como se fosse um anjo
meus amores começam crescer
passam cadillacs sem sangue os helicópteros
mugem
minha alma minha canção bolsos abertos
da minha mente
eu sou uma alucinação na ponta de teus olhos



02Tempo atrás, em um post no Facebook você perguntou aos seus leitores se você é melhor na Prosa ou na Poesia, quais indicadores imagina que seus leitores usaram para lhe responder? E qual o resultado da apuração?

Prosa. Os leitores se divertem mais com a minha prosa que considero brutal, direta, pornográfica e cinematográfica. Minha poesia é outra onda. Tem uma carga muito dramática e lírica.

03 - Particularmente acredito que você faz prosa poética e que sua poesia descamba para a prosa, você numa auto análise, como percebe os traços em sua própria escrita?

Não vejo só prosa poética. “A Fotografia do Meu Antigo Amor Dançando Tango” é um flerte com cinema, teatro e o caralho a quatro.

04Cê tem um discurso que vai muito na onda de que não há regras na Literatura, que ninguém pode dizer “a” ou “b” sobre a Literatura de ninguém, contudo, insistindo, tem alguma coisa que deve ser evitada ou alguma coisa que é fundamental para um autor?

Acho que é preciso cara de pau e um pouquinho de vivência. Você pode ter uma vasta biblioteca em casa, mas se ainda não levou porrada da vida fica devendo e acaba virando idiota. Lógico que rola exceções, mas é quase sempre assim. Escritor que não sai de casa fica de pau mole mais cedo.

05- O que a sarjeta de São Paulo tem que a de Manaus não possui, ou sarjeta é sarjeta e não tem essa?

A sarjeta é fiel. Abraço verdadeiro só o da sarjeta. A de Manaus tem mais compaixão. A de São Paulo é mais fria.

06 –
Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo…

Resgatei esses versos do Mário de Andrade, pois o poeta de Sorocaba, Marcelo Adifa, costuma dizer que você é uma espécie de personagem de si, quem acompanha seus posts nas redes sociais pode ter essa impressão também, então qual a diferença do Diego Moraes no Facebook para o Diego Moraes na Literatura para o Diego Moraes escutando Bill Calahan?

Eu sou eu mesmo. Escutar Bill Callahan acalma meus demônios.

07 Seu mais recente livro, por sinal lançado pela Editora Penalux de São Paulo, tem por título “Meu Coração é um Bar Vazio Tocando Belchior’, o passado é uma roupa que não nos serve mais?

O passado serve apenas para virar literatura.

08Adoniran Barbosa mata Iracema em um samba como resposta a um fora que levara de alguém por quem se enrabichara, cê tem algum caso aí de ter matado alguém na Literatura, algum desafeto, algum amor antigo? Abre a porta desse bar vazio tocando Belchior pa nóis aí.

Escrever é uma forma de se vingar do mundo. Já matei muita gente na minha literatura. Muitas mulheres que passaram na minha vida. Amores não correspondidos viram livros belíssimos. Já desafetos não.



09 – Além do Meu Coração é um Bar..., você está preparando um romance para ser publicado. Sai esse ano? Esse ano também saiu um livro seu pelo projeto Leve Um Livro, até falamos dele aqui no site em entrevista com a escritora Ana Elisa Ribeira, cê produz, parece, como o Chaplin em Tempos Modernos, de onde vem tanto fôlego? E como surgiu o convite para o Leve Um Livro, como você selecionou os poemas, são inéditos, teve algum retorno financeiro?

Escrevo diariamente. Não tenho e nunca tive bloqueio criativo, mas fiquei indeciso na composição do romance. Vários enredos pintaram na cabeça, mas agora abracei uma história e seguirei em frente. Escrevi três poemas inéditos para o projeto “leve um livro”. Parece que rolará 500 contos, mas se não sair, tudo certo. O Brum é meu amigo e dinheiro não é tão importante.
  
10 – E agora uma pergunta meio torta, você é tido (ou pelo menos, às vezes dá para pensar nisso) como o queridinho de alguns autores que começaram há mais tempo que você, tanto que muitos lhe indicam em sites, revistas e matérias como aposta, revelação dos últimos anos, como você recebe essa empatia com sua obra?

Fico feliz que escritores graúdos me apontem como um dos melhores autores da atualidade. Trabalhei muito pra isso. Reconhecimento é bom. É o gozo da foda do trabalho.

11 – Leminski ou Piva?

Roberto Piva é o poeta brasileiro mais foda de todos os tempos.

12 Quando Toquinho, ex-parceiro de Vinícius de Moraes, afirma em um grande veículo de comunicação: “Não há mais poetas no país”, o erro está na imprensa que ainda divulga com timidez novos autores, está em um suposto acomodamento em Toquinho por não garimpar poesia fora de sua redoma, ou não há erro, ele tem mesmo direito à própria opinião?

Toquinho tem importância na música brasileira. Só acho que não tem leitura e parou no tempo. Poesia não é só Vinicius de Moraes. Não é só ele que pensa assim. Infelizmente. O Brasil tá cheio de poetas velhos que não produzem mais nada e tapam os olhos para novos autores.

13 – Depois de mais de cinco livros por editoras pequenas, do reconhecimento de autores já “consagrados”, de um público fidelizado de leitores, que mais você espera da Literatura? Quais suas próximas pegadas de urso nesse solo movediço?

Entregar meus dois livros pra Record e fazer teatro e cinema. Fazer um filho, abrir um bar e morrer fumando derby sentado na varanda olhando as estrelas.


***
A cidade dorme agora 
Minha saudade não 
Teus olhos iluminam o cais inteiro.

A cidade dorme agora 
As linhas tortas do meu poema como pedido de divórcio que mandaste pela internet para o pai dos teus bebês…
Não, esse nunca dorme
Teus filhos que não entenderão nada quando num sábado chegar todo molhado e bêbado e você dirá para o mais novo: “Pedrinho, pega uma toalha pro tio”

A cidade dorme agora
Nem ele e nem eu
Ninguém entende ou entenderá o amor
Jogado na avenida com a perna quebrada e seus dedos no celular pedindo por socorro enquanto o bloco de carnaval descia a ladeira numa Manaus tão perdida quanto minhas tentativas de abandonar às drogas e o crime

A cidade dorme agora 
Encontrei a negra mais linda do mundo que mexe comigo do jeito mais bobo feito adolescente que deixa as pernas tremerem diante do primeiro beijo no rosto dado pela princesinha do ginásio

A cidade dorme agora 
Enquanto escuto The Smiths e vejo nossas fotos abrindo sorrisos de felicidade como piratas que encontram um tesouro no fundo do rio

A cidade dorme agora 
Não meu desejo de envelhecer contigo.
Diego Moraes
“Escritor que não sai de casa fica de pau mole mais cedo”, dispara Diego Moraes
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