terça-feira, 19 de abril de 2016

“Medianos persistentes costumam ir mais longe do que gênios acomodados”, dispara André Timm

O 2 Mil Toques era um Tumblr com fanpage no Facebook que na última semana virou um site de layout limpo, leve, bonito e fácil de ler, que recebe e publica relatos de autores de todo o Brasil sobre seus processos criativos de escrita, contemplando poetas, contistas, romancistas, outros. Criado por André Timm, Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura, o projeto literário está próximo de alcançar 100 processos de escrita publicados.




01 - Inicialmente peço que você fale o que é o 2 Mil Toques, como surgiu a ideia do projeto.
Sempre fui fascinado por compreender processos criativos porque o tema está ligado a uma crença minha que vai contra a ideia contemporânea da inspiração, ao menos a ideia senso comum, que diz respeito àqueles lampejos criativos, quando o artista é tomado por uma inspiração repentina e concebe obras geniais. Biografias, estudos, pesquisas comprovam que isso é apenas uma ideia romantizada. Preste atenção a todos os grandes mestres do nosso tempo (e de antes) e entre todos eles há em comum uma característica de obstinação, de desenvolver potencialidades e, mais do que isso, manter rotinas de trabalho. Há, claro, certas tendências ou potencialidades inatas, mas geralmente, quem prospera artisticamente é quem senta todo dia para trabalhar. Medianos persistentes costumam ir mais longe do que gênios acomodados. É um fato. Dito isso, o 2 mil toques surgiu de meu fascínio por processos e rotinas. Ou ainda, da minha necessidade de compreendê-los, pois entender e me apropriar de métodos de outros escritores é uma maneira de lutar contra minha própria procrastinação. 

02 - Quero saber também como é o retorno dos autores, há muita procura, quanto de e-mail, inbox você recebe por dia, sei lá, semana? Alguém já se chateou por você não ter publicado, sabe, esses casos chatos que acontecem em qualquer jurisdição?
No início do projeto me esforcei para que ele tivesse um bom fôlego inicial, indo eu mesmo atrás de quem quisesse participar, o que funcionou. Hoje, depois de quase 2 anos, já são quase 100 participações, mais de 800 seguidores no Tumblr, quase 4 mil curtidas no Facebook e matérias ou notas em importantes jornais do Brasil. Um crescimento totalmente orgânico, sem mídia paga para impulsionar. Depois disso, o projeto começou a andar por conta própria. Toda semana recebo mensagens de autores (ou agentes literários) pedindo para participar, mas até que são poucas. E como não estou num momento de me esforçar para angariar participações, o projeto segue num ritmo bem calmo, o que é bom. 

03 – Para quem tiver a fim de participar, colaborar com o 2 Mil Toques, tem algum requisito? Você publica todo mundo de boa? Tudo é poesia, tudo é prosa, tudo é Literatura (favor, responder essa no sentido mais amplo e abrangente possível hahaha)?
Não tem mistério. Basta entrar em contato comigo que envio algumas recomendações de participação. Quanto às pessoas se chatearem, aconteceu poucas vezes. Eu só veto uma participação, pedindo que o autor a reescreva, se eu considerar que o texto está muito distante do propósito do projeto. Mas é bem raro isso acontecer. Semana passada, coincidentemente, um agente literário me enviou uma participação e recusei porque o texto falava sobre o que é literatura, mas não trazia uma única linha sobre os processos e rotinas da autora. Portanto, não estou preocupado se o sujeito escreve bem, se o texto que ele mandou é genial; não quero contos, nem poesia, nem crônicas, só quero entender o processo dele. É disso que o 2 mil toques trata. Naturalmente, há participações que são memoráveis e quando isso acontece é muito melhor. Entretanto, se o texto for simples, mas atender ao propósito do projeto, eu publico.  

04 - Quais outros projetos você indica pra gente conhecer e por quê? Falamos recentemente do projeto Leve Um Livro aqui no site, é organizado pela escritora Ana Elisa de Minas Gerais com mais alguns amigos dela.
Bem, tem o projeto 7 Coisas que aprendi, uma iniciativa conjunta entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, em que o T.K. Pereira e o Alexandre Lobão convidam escritores para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje. Fiz parte do projeto e minha participação pode ser lida aqui.

Outro grande projeto é o Ficção em Tópicos, referência para qualquer ficcionista o portal oferece centenas de artigos preciosos além de cursos de escrita criativa que acontecem online. Já fiz o curso e posso assegurar que é incrível. Aprendi e aprendo muito com o Diego Schutt, mentor do projeto. Tem entrevista minha por lá também. Dá pra ler aqui.  

05 - Há quanto tempo o 2 Mil Toques existe, já publicou o processo de quantos autores nesse tempo e qual o processo que chegou para você que mais lhe marcou?
Há quase dois anos e já são 90 autores. Tem participações antológicas, mas sempre que me fazem essa pergunta, a que primeiro me vem à cabeça é a participação do Diego Moraes. Leiam aqui e entendam por quê. 

06 - E por que não dizer também qual você achou mais absurdo? hahaha
Já houve submissões um tanto toscas, no sentindo dos textos serem bem ruins. Mas, absurdo, creio que não.

07 - Tem algum(a) escritor(a) falecido que você possa ressaltar o processo de criação literária?
Bem, gosto muito do processo do Don DeLillo, mas ele é vivo ainda. Acho. Em entrevista à Paris Review, em 1993, ele diz o seguinte:

“Eu trabalho pela manhã numa máquina de escrever manual. Fico cerca de quatro horas e então vou correr. Isso me ajuda a sacudir um mundo e entrar em outro. Árvores, pássaros, garoa – é um belo tipo de interlúdio. Então eu trabalho novamente, no fim da tarde, por duas ou três horas. Voltado para o tempo do livro, que é transparente – você não sabe que está passando. Nada de lanche ou café. Nada de cigarros – eu parei de fumar há muito tempo. O espaço é limpo, a casa é quieta. Um escritor toma medidas honestas para assegurar sua solidão e então encontra inúmeros caminhos para lapidá-la. Olhar pela janela, lendo trechos aleatórios do dicionário. Para quebrar o feitiço eu olho para uma fotografia de Borges, uma grande figura enviada a mim pelo escritor irlandês Colm Tóín. O rosto de Borges contra um fundo negro – Borges feroz, cego, suas narinas se abrindo, sua pele esticada, tensa, sua boca surpreendentemente vívida; sua boca parece pintada; ele é como um xamã pintado para visões, e todo o rosto tem um tipo de encanto metálico. Eu li Borges, naturalmente, apesar de nem de perto ter lido tudo, e não sei nada sobre a maneira que ele trabalhava – mas a fotografia nos mostra um escritor que não perdia tempo na janela ou em lugar algum. Então eu tentei fazer dele meu guia para longe da letargia e da deriva, para o outro mundo de mágica, arte e divinação.” 

Essa tradução é do site Litera Tortura.



08 - Levando em consideração as supostas facilidades para se publicar: editoras independentes, ebooks, redes sociais, internet, qual a atual realidade de um escritor brasileiro desconhecido, ou conhecido num nicho muito específico?
Eu diria que: 1) Concursos literários são uma boa maneira de buscar se colocar em evidência e se inserir no panorama literário; 2) Criar projetos literários relevantes. Considero o 2 mil toques um exemplo desse tipo de abordagem. Através dele acabei conhecendo e me fiz conhecido por boa parte do cenário literário brasileiro. Nos dias de hoje o sujeito precisa pensar em estratégias próprias pra se inserir na cena. Se ficar dependendo de retorno de original enviado para as editoras, morre sentado esperando. 

09 - Você vive de Literatura? Além de publicar obras autorais, o que mais um autor pode trabalhar nessa seara para se manter com os dividendos da Literatura?
Não vivo de literatura. Trabalho com comunicação, na maior parte do tempo com construção de marcas. Não é o trabalho dos sonhos, mas por hora me permite viver razoavelmente bem enquanto não acontece uma transição definitiva para a literatura ou para o "viver" estritamente da atividade da escrita que, respondendo à segunda parte da escrita, pode dizer respeito a fazer trabalhos de edição, tradução, tevê (roteiros), escrever artigos para portais, jornais, revistas e assim por diante. 

10 - Cê leu o pedido de desculpas do Lobão ao trio Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil? Qual exatamente a crise que o Brasil vive hoje ou são muitas e uma resposta é pouco para comentar?
Não li o pedido de desculpas, mas imagino do que se trata. O Brasil vive hoje uma situação política que é extrema, com suas especificidades, mas as motivações por trás dela dizem respeito a um tipo de postura que não é demérito do Brasil, mas sim um reflexo do que acontece em várias partes do mundo. Hoje parecemos mais polarizados do que nunca. E nessa polarização, que implica operarmos em extremos, não existe subjetividade, não existe espaço para a visão do outro ou para meios termos. É um ou zero, direita ou esquerda, branco ou negro, homem ou mulher. Perdemos a capacidade de ver ou nos posicionar em outras graduações do espectro e essa força binária que nos empurra para as pontas é a mesma por trás do ódio político, dos atentados terroristas ou dos crimes de racismo, homofobia e assim por diante. Falo sobre isso em dois artigos distintos: Um sujeito mediano e  Sobre intolerância, bits e qubits. Mas o grande texto que deveria ser lido para entender essa situação é o "A boçalidade do mal", da brilhante Eliane Brum.

11 - Para finalizar bacana, peço que você indique aí uns dois autores ou livros que foram lançados esse ano ou estão previstos pra sair só pra gente aqui ficar de bituca. 
Como estou mergulhado no processo de escrita do livro que pretendo acabar esse ano, não ando lendo muita literatura contemporânea. Mas gostaria de indicar dois livros que considero essenciais para quem se interessa pelos processos de criação em si e por tudo que vem na esteira deles. Uma dessas obras se chama A Guerra da Arte, do Steven Pressfield. O outro é a biografia do Stephen King, aqui no Brasil, Coração Assombrado, da Lisa Rogak. Ler esses livros dá ânimo para prosseguir, independente das adversidades que uma carreira literária implica.  
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André Timm é de Porto Alegre e hoje vive em Chapecó, SC. Insônia, seu livro de estreia, recebeu Menção Honrosa no Prêmio SESC de Literatura e foi selecionado para integrar a revista Machado de Assis, uma publicação da Biblioteca Nacional que tem como objetivo divulgar autores brasileiros para o mercado editorial internacional. Timm é também criador do site 2 mil toques, cujo objetivo é mostrar as rotinas e processos envolvidos no dia a dia de escritores brasileiros. Em 2015, figurou entre os 20 finalistas (de quase 7 mil inscritos) do concurso Brasil em Prosa, da Amazon, com seu conto Sonífera Ilha. Formado em Letras pela Unochapecó e com Especialização em Literaturas do Cone Sul, pela Universidade Federal da Fronteira Sul, atua também como planejador e redator em propaganda. Atualmente, trabalha em meu primeiro romance, com previsão de publicação para 2017.

www.andretimm.com.br
https://medium.com/@andretimm
http://2miltoques.tumblr.com
https://www.facebook.com/2miltoques

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