terça-feira, 12 de abril de 2016

Philip K. Dick: O Homem Que Lembrava O Futuro

Tendo escrito mais de 120 contos e algumas dezenas de romances, Philip Kindred Dick é, sem a menor dúvida, um dos escritores de ficção científica mais influente do século passado. Suas obras ecoam na literatura, música, jogos eletrônicos e cinema, além de constantemente ser mencionado na filosofia e estudos relacionados ao ocultismo contemporâneo.


Foi no intuito de entender essa pessoa tão mistificada e basilar no gênero da FC que busquei ler a biografia A Vida De Philip K. Dick: O Homem Que Lembrava O Futuro, escrita por Anthony Peake. Peake é um cara que é conectado a correntes racionalistas místicas, ou seja, tenta dar um sentido lógico para as manifestações sobrenaturais, no entanto sem tentar fazer com que o mistério das mesmas (seu sentido de transcendência da realidade) seja sobrepujado pela frigidez matemática dos dados puros. É o que cientistas renomados chamam de defensor da pseudociência. O que não é de todo uma ofensa, já que a “pseudociência” foi responsável pela vanguarda em muitas questões que hoje a física (teoria dos campos magnéticos e teoria quântica) e biologia (memetica) estudam seriamente.

Desde o inicio da biografia Peake deixa claro que irá fazer dois trabalhos em um só: primeiramente narrar as questões factuais relacionadas à vida de PKD e depois analisar, dentro dos limites em que se pode confiar e questionar depoimentos do autor e pessoas próximas dele, a veracidade e procedência dos fenômenos que o tornaram uma pessoa tão peculiar.

O primeiro episódio marcante na vida de PKD foi o fato de ter tido uma irmã gêmea, que se chamaria Jane caso tivesse sobrevivido ao parto prematuro de seis meses. Embora ela não tenha feito parte de sua vida material, se tornou uma constante em sua psique, o que se reflete em vários personagens de suas obras que tem um DUPLO, seja esse duplo um irmão gêmeo, clone ou criatura que copia perfeitamente a pessoa. Em seguida vem o fato de PKD ter uma relação conturbada com pais separados, Peake afirma através de depoimentos que até o momento em que vivia com os dois pais o garoto era ativo e alegre, o que muda drasticamente quando se vê apenas com a mãe. Talvez em longo prazo o maior reflexo da separação dos pais era a insegurança com que PKD vivia interiormente em relação a estar sozinho, o que fazia com que buscasse sempre companhias femininas e ao mesmo tempo não conseguisse manter um único relacionamento por vez. Uma coisa que me surpreendeu bastante, e de maneira negativa, foi perceber que PKD só se aproximava de mulheres com intenções sexuais, cedo ou tarde ele dava em cima de toda mulher que apareciam em sua vida. Mesmo amigas de longa data, já casadas, ele tentava forçar situações em que pudesse se aproveitar. Apesar de não ser a intenção de Peake, ele acaba mostrando como PKD ia além do cara “mulherengo”, ele chegou algumas vezes a bater em suas parceiras por o contrariarem e em mulheres que se negaram a ter qualquer relacionamento sexual-amoroso com ele. Não há loucura, descontrole ou situação que justifique este tipo de atitude.

Entre meia dúzia de casamentos fracassados, tentativas de suicídio, a luta para conseguir sobreviver de sua escrita, violência doméstica, situações de abuso de drogas e acontecimentos esquisitos, o fato mais relevante na vida de PKD é aquele que ficou conhecido como 2-3-74, o dia em que o escritor afirma ter se comunicado com uma inteligência alienígena superior que o colocou em contato com as estruturas de informações basilares que circundam isto que consideramos como a única realidade possível. Ao menos 60% da biografia de Peake gira ao redor dos fatos e situações decorrentes dessa experiência, pois é o momento culminante da loucura ou paranormalidade de PKD. É esse também o enredo metanarrativo da não finalizada trilogia VALIS.

Em Março de 1974 PKD diz ter sido atingido por uma luz rosa no formato do Ichthys (aquele símbolo de peixe que era usado pelos cristões primitivos). A exatidão do objeto que emanou tal luz varia do testemunho e época. Uma das esposas de PKD diz que o raio de luz veio de um adesivo com o formato do peixe que anos antes havia sido colocado numa das janelas da casa, o rosa seria decorrente da decomposição das cores dentro de um ângulo específico, da mesma maneira que ocorre com o arco-íris. Já PKD afirma que a luz primordialmente foi emanada de um pingente que uma garota que foi entregar seus remédios a domicílio usava, a luz do sol teria batido no pingente e depois em seu rosto, o levando a contemplação dos pilares da realidade.

De qualquer forma o que fez PKD ficar realmente impressionado foi a luz ter lhe dito que seu filho tinha um problema na coluna que o mataria caso não fosse resolvido urgentemente. Ao levar a criança ao hospital e apontar exatamente onde deveria ser encontrado o problema, PKD entrou em parafuso mental quando os médicos disseram que ele realmente tinha uma doença que o mataria em alguns anos se não tivesse sido detectado. Era a confirmação pessoal de que sua experiência era mais do que mera alucinação ou esquizofrenia.

O livro VALIS (que já resenhei aqui) foi originalmente escrito para que PKD narrasse suas experiências de maneira séria, não dentro do gênero da ficção científica, porque ele considerava que se tratava de algo real e não meramente uma narrativa, no entanto quando percebeu que não seria publicado juntou com outro projeto, dando vida a um dos melhores romances do século XX.

Outro fator relevante decorrente de 2-3-74 é que PKD passou a década seguinte de sua vida escrevendo um livro de quase mil páginas chamado EXEGESIS, no qual relata todo o conhecimento obtido através de sua experiência com Zebra/Valis/Deus ou seja lá qual nome ele dava à criatura alienígena que o havia contatado no momento. Uma das esposas dizia que nessa época PKD falava latim mesmo sem saber bem (o que Peake desmente ao mostrar que ele teve aula de latim numa escola QUAKER), falava às vezes grego e adivinhava certos acontecimentos. Aliás, PKD depois foi perceber que o que ele escrevia como ficção científica muitas vezes havia sido narrado pelo seu EU do futuro, de maneira que ele só decodificava mentalmente e trabalha na história. Suas histórias eram mensagens do futuro!

Embora seja claramente ocultista, sem nunca esconder esse fato, o autor mostra as contradições da fala de PKD o tempo inteiro, ao mesmo tempo em que destaca as vezes em que se manteve coerente. Como um bom escritor ele fica nessa brincadeira de nos convencer de que PKD estava sendo verdadeiro ao falar de suas experiências místicas em que via o futuro, presente e passado como um único ponto; enquanto no capítulo seguinte vai questionar toda a verdade sedimentada, revelando problemas psicológicos e possíveis atos de automitologização levadas a fundo pelo autor.

Se você é fã de PKD precisa ler esse livro! Mostra detalhes importantes de todas as suas obras, métodos de escrita, quais foram os momentos de concepção do autor e como era sua conturbada vida pessoal, sem deixar de lado os vislumbres de loucura que permearam sua psique irrefreável.
Philip K. Dick: O Homem Que Lembrava O Futuro
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