quinta-feira, 5 de maio de 2016

A surpreendente viagem ao submundo em Undertale


O ano de 2015 foi marcante para a indústria dos games, tivemos o lançamento de algumas obras que com certeza estarão em lugar de destaque na galeria dos melhores jogos eletrônicos do começo do século XXI. Um ótimo exemplo do que estou falando é o poderoso RPG não linear The Witcher 3: Wild Hunt, que na maioria das cerimônias de premiações importantes ganhou como jogo do ano; outro jogo que não posso deixar de mencionar, até fiz algumas análises aqui no Diretório, é Metal Gear Solid V: The Phantom Pain, com um gameplay tão variado e bem construído que, sem qualquer dúvida, é o melhor stealth game já produzido; tivemos também o custoso $$$ Fallout 4, um jogo que foi aguardado por longos cinco anos, porém este ficou muito aquém da minha expectativa e da do grande público, embora tenha rendido 750 milhões de dólares só no lançamento.

E se eu dissesse para vocês que em meio a esses jogos de três franquias já conhecidas e produzidos por três estúdios consagrados, um jogo indie 2D, planejado por um rapaz de 24 anos e financiado no Kickstarter, disputaria a atenção e carinho do público como melhor jogo de 2015? O jogo em questão é Undertale e o criador, Toby "Radiation" Fox, um compositor e programador.

É claro que Undertale, um jogo de baixo custo e poder visual pífio, não teve como competir dentro das arenas industriais com jogos de gráficos poderosos e produção milionária, que como parte vital desta indústria, chegam a empregar milhares de pessoas num estúdio por anos, caso da CD PROJEKT RED (TW3) e Kojima Productions (MGSV). Porém com uma feição caseira cativante, gameplay inovadora, trilha sonora bem hipnotizante e um enredo ao mesmo tempo inteligente e divertido, certamente Undertale foi o jogo mais bem-sucedido de 2015.

A Importância Do Financiamento Coletivo

Toby Fox é fã de games que usam do humor como elemento fundante, principalmente os que zoando dos tópicos recorrentes nos gêneros mais populares, acabam forçando a indústria a se reformular. O maior exemplo que temos desse tipo de jogo é a franquia japonesa Mother, um RPG baseado em Dragon Quest, que se passa no período contemporâneo. Em Mother, em vez de guerras pseudo-medievais temos personagens vagando pela zona urbana, experimentando poderes telecinéticos, enfrentando alienígenas e às vezes esbarrando com criaturas fantásticas deslocadas de uma maneira que acaba denunciando as fórmulas patéticas de alguns jogos. Isso tudo sempre acompanhado com pitadas de humor negro e auto-depreciação da mídia videogame.


Toby Fox
A princípio a ideia de Toby era fazer uma versão modificada de Mother 3, só que usando conceitos próprios no enredo. Com o tempo suas ambições foram ficando maiores e ele acabou dando vida aos primeiros esboços de Undertale. O que o afastou de um mero hack de Mother 3 foi a necessidade que ele sentia de criar um jogo no qual cada monstro tivesse personalidade própria, em vez de ser uma criatura padronizada que só está ali para ser morto banalmente, como ocorre em quase todo RPG, onde os inimigos são meros robôs que tentam matar o jogador a todo custo. Isso é, inclusive, um dos motivos pelo qual os JRPGs, gênero que já foi tão popular no passado, perderam bastante espaço no mercado nas últimas duas décadas, o gameplay é previsível demais e por isso chato.

Sem saber como arrecadar fundos e testar se sua ideia de jogo pacifista e engraçado teria alguma validade entre os players, Toby criou uma versão demo e logo depois uma campanha no Kickstarter. O objetivo do Kickstarter era arrecadar $ 5,000, mas para sua surpresa 2.398 pessoas apoiaram o projeto, cujos fundos chegaram à quantia de $51,124.


Se não fosse o apoio do próprio público, caso dependesse de aval de grandes produtoras, é muito improvável que Undertale tivesse se concretizado. Foi também esse público o responsável por espalhar o jogo mundo a fora, falando tão bem de suas características que mesmo sendo lançado em meio a franquias famosas ele continuou sendo comentado e louvado.

Matar Ou Não Matar Os Inimigos

Undertale é um RPG 2D de gráficos simples em que acompanhamos um universo fictício onde humanos e monstros um dia já conviveram amigavelmente. No período no qual o jogo se passa, os humanos venceram a guerra contra os monstros que acabaram aprisionados no submundo através de uma barreira mágica. Já se decorreram tantos anos depois da guerra, que os monstros são lembrados como meras lendas do folclore humano. O enredo começa de fato quando Frisk, uma garota humana, acaba caindo no mundo subterrâneo, onde encontra uma flor maligna, chamada Flowey, que está prestes a matá-la. Toriel, a protetora das ruínas, impede Flowey de matar Frisk e então a ensina como sobreviver no mundo subterrâneo.

A princípio o jogo não parece ter nada demais, tanto é que durante as minhas primeiras horas fiquei “hum, jogo bem produzido, mas não tô entendendo porque tanto fuzuê”. A única coisa que me intrigou de cara foi o modo como no começo Flowey zoa do jogador e o manipula durante o tutorial de combate. Porém logo a frente ocorre um episódio muito marcante entre o jogador e a guardiã Toriel, essa é a primeira de muitas facadas no peito que Undertale vai lhe dar.


É necessário dizer que o sistema de combate é muito estranho, apesar de ser por turno como em rpgs tradicionais. Durante as lutas você ganha o controle de um coraçãozinho no meio de um espaço limitado da tela, geralmente um quadrado, mas às vezes isso muda, depende do inimigo. Cada inimigo tem uma gama de ataques próprios, que consiste em uma wave normal que você precisa esquivar com o coração e um ataque especial que é mais imprevisível. Eu particularmente sou muito ruim nesse tipo de coisa, em que você precisa ficar passando por espaços fechados e sincronizar movimentos pra não ser atingido. Em alguns chefes eu penei pra passar, como a querida Undyne, se você tiver que enfrentá-la... tenho pena, é muito sofrimento.

Após algum tempo você percebe que tem várias opções de como encerrar o combate, podendo matar o inimigo, enrolá-lo, abraçá-lo, beijá-lo, dar em cima dele, fazer ele entrar em crise existencial... e muito mais. O que você pode fazer vai depender do inimigo e das opções de diálogo que ele abrir para o seu personagem. É isso que faz Undertale tão especial, os monstros são... como pessoas. Eles têm personalidade, família, se preocupam com os outros monstros e até com o jogador.

A Undyne, da qual falei antes, por exemplo, é uma espécie de capitã da guarda real. Tudo que ela faz é para proteger a vida dos outros monstros. Ela é vista como uma heroína no submundo, ainda que para o jogador ela seja uma ameaça constante. É exatamente neste limiar moral, nesse ponto confuso entre ser bom e ruim, entre agir para si ou pelos outros, é que Undertale se torna um jogo genial. Você pode terminá-lo de diversas maneiras, matando ou deixando viva uma gama imensa de personagens que são divertidíssimos e cativam enquanto estamos jogando.


Em vários momentos há uma manipulação do jogador, principalmente do meio do enredo para frente ocorrem diversas situações que brincam de propósito com a paciência da pessoa que está enviando os comandos pro jogo. É genial, simplesmente fantástico.

A viagem ao submundo de Undertale é surpreendente porque ao fim da jornada vamos ver que os monstros, no fundo no fundo, somos nós. Não vou falar mais porque não quero dar spoiler, prefiro que vocês mesmos possam experimentar essa pequena gema do mundo de desenvolvimento indie, que mostra que um bom game não precisa custar mais de 80 milhões de dólares. Acho que é impossível não se emocionar com Frisk e os monstros que ela vai conhecer em sua jornada. Undertale é um jogo que, embora tenha gráficos simples, é engraçado, revoltante e cheio de reviravoltas dramáticas de uma só vez. Se não fosse pelo meu amor por The Witcher 3, o pequeno Undertale teria sido sem pestanejar a minha escolha de melhor jogo de 2015!
A surpreendente viagem ao submundo em Undertale
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