terça-feira, 10 de maio de 2016

The Last NightMary - A Lenda do Cabeça de Cuia e o regional universal

Produzir um jogo não é uma tarefa fácil. Falo por experiência própria mesmo, de quem já passou anos estudando JAVA, C#, escrevendo roteiros para o enredo e até mesmo tentando desenhar pixel art. Embora tenha me dedicado bastante, não consegui concluir mais do que dois ou três atos de um RPG (sei que não é uma boa ideia começar por um RPG, mas eu era um noob fazendo o que queria, não me culpem pela inocência).


Graças às comodidades oferecidas pelas engines (plataformas para computador com bibliotecas de exemplos e uso intuitivo que torna a atividade de programar mais dinâmica) como Unity 3D a programação, parte da criação que era considerada mais distante para a maioria, se tornou um pouco menos terrificante e mais acessível. No entanto um jogo é um produto cultural multimídia, nele contém arte visual, composição sonora, roteiro e interação, entre tantas outras questões bem mais particulares, isso torna a tarefa de conceber e criar um bom jogo (não um jogo de celular que se repete infinitamente, mas um jogo consistente, com enredo) muito difícil de concluir sozinho. Embora planeje um dia voltar para essa aresta cultural, no momento resolvi me dedicar a carreira de escritor e desisti dos jogos.

Foi pensando nessas dificuldades todas e juntando entusiastas de tecnologia e jogos eletrônicos que uma galera de Teresina – Piauí se juntou para criar um game studio, a Submersivo Games. Antes de desistir da produção de jogos, no fim do ano passado, estive em contato com eles, chegando a participar de algumas reuniões do estúdio. Pude ver de perto a dedicação, visão empreendedora e vontade de crescer desse pessoal.

O ano de 2015 foi importante para a Submersivo Games porque lançaram o seu primeiro jogo comercial: The Last NightMary - A Lenda do Cabeça de Cuia, que é o objeto desta análise.



A Lenda Do “Cabeça De Cuia” E O Simbolismo Da Água

Embora possa parecer muito estranha para as pessoas de outros estados brasileiros, quem nasceu no Piauí, principalmente na capital Teresina, muito dificilmente não vai ter ouvido falar da lenda do Cabeça de Cuia. O Cabeça de Cuia é um dos símbolos da identidade “oficial” do Estado, tendo até mesmo uma estátua em sua homenagem em ponto turístico. Eu diria até mais: ele é parte da psique coletiva teresinense, fazendo parte do nosso arsenal de apelidos, troças e até mesmo histórias de terror a se contar para as criancinhas.

Segundo a narrativa do Cabeça de Cuia uma família muito pobre, basicamente composta da mãe e de seu filho Crispim, um pescador, morava à beira do rio Parnaíba. Não conseguindo pescar nada Crispim estava amargurado, então certo dia sua mãe fez uma sopa de ossos de boi, o único material a disposição para improvisar um almoço. Ao ver aquilo Crispim ficou revoltado e acabou matando sua mãe a pancadas com os ossos. Só que antes de morrer a mãe de Crispim lhe lançou uma maldição, ele vagaria pelo rio Parnaíba com uma monstruosa cabeça em forma de cuia até conseguir devorar sete Marias virgens.


Desde a antiguidade a água dos rios tem um caráter simbólico dúbio nas lendas e mitologias. Por um lado é onde habitam os monstros mais terríveis, que o diga Gilgamesh e Beowulf, que tiveram que mergulhar através das águas para encontrar algum artefato mágico e, nesse ínterim enfrentaram dragões, cobras arcanas, entre outras criaturas. Por outro, é símbolo de purificação, a água é capaz de limpar os erros, fazer com que aquele banhado, caso sobreviva à sua provação, seja capaz de renascer totalmente renovado, por isso o batismo cristão; embora esse símbolo também seja muito presente em muitos mitos da antiguidade, como, por exemplo, os rios Estige e Aqueronte na mitologia grega, que dividem os vivos e os mortos e onde começa a triagem das almas no Hades. Por isso faz muito sentido que Crispim habite as águas do rio Parnaíba ou consuma a vida de criaturas puras (virgens), ele representa bem a constante contradição humana da busca de purificação das nossas más escolhas, porém ao mesmo tempo a necessidade de cometermos novos erros para poder chegar lá.

A Última Maria

Décio Oliveira, diretor artístico de The Last NightMary, apresentou o jogo primeiramente como um trabalho de conclusão de curso na universidade. Como o resultado foi muito bom, ele e a equipe da Subversivo passaram um tempo polindo o jogo, corrigindo bugs e melhorando algumas de suas características. O resultado é TLN, um jogo da tradição de mistério com gameplay point and click, gênero no qual todos os comandos são realizados com os movimentos e clicks do mouse.

Assim que começa a jogatina já damos de cara com uma dublagem muito bem montada por Luma Alves, realmente fiquei bastante surpreso com a qualidade da voz. Quem mora em outras regiões pode achar que a dubladora está exagerando no sotaque, mas não está, é exatamente assim que se fala em algumas regiões do nordeste. Luma relata a perspectiva de uma personagem feminina chamada Maria, que se diz perseguida por uma criatura bizarra ao qual identifica como sendo o Cabeça de Cuia. Daí em diante nos vemos no meio de um matagal, após alguns clicks para nos movermos pelo mapa, percebemos que é um labirinto de mato. Eu pelo menos demorei muitooooo pra aprender a me localizar direito no mapa.



Basicamente o jogo consiste em resolver alguns puzzles que vão dando respostas aos mistérios da trama. O roteiro é bastante simples, usa a maldição do Cabeça de Cuia para criar uma motivação para andarmos pelo mapa e entendermos o que está acontecendo. O principal complemento, para quem quer saber de fato da história, está no diário de Maria, acessível in game, onde é reportado como tudo começou e os fatos mais recentes da aventura.

O objetivo do jogo, como não poderia ser diferente, é escapar do Cabeça de Cuia e acabar com sua maldição. A ambientação é muito bem construída com toda a arte desenhada a mão e uma trilha sonora impecável, desde os efeitos da personagem andando até a música de tensão. Os momentos mais assustadores no jogo são quando o Cabeça de Cuia começa a fazer uns barulhos e ameaça aparecer na tela para atacar o personagem, bate um pouco de desespero e você sai clicando em tudo.

Há vários finais diferentes, dependendo do que você descobrir e resolver ou não. Depois da primeira vez que você termina o jogo, meio que tem um easter egg alienígena, esse eu não me aprofundei muito, mas ao menos é uma possibilidade para aumentar as horas do jogo. Aliás, a curta duração é o único ponto que acho negativo no jogo. Ele é tão bom que você fica esperando mais leveis e querendo mais puzzles.

Considero The Last NightMary um jogo que usa temáticas locais, mas que no entanto atingiu o objetivo de ser universalmente desfrutável. Eu particularmente não gosto muito dessa conversa de “ajude a cultura local” por “ajude a cultura local”. Acho mais interessante você dar chance para as coisas produzidas onde você mora e se curtir, defender e divulgar tanto quanto você faz com as coisas que consome de outros lugares. O artista local tem que buscar também uma excelência a nível industrial, ao menos quando ele quer viver daquilo que faz sem depender meramente de mendigar editais.

Eu acredito no potencial da galera da Submersivo Games, se fosse vocês ficaria de olho, vi que recentemente estão trabalhando com pixel arte e preparam algumas novidades. Muito em breve vão sair mais e mais jogos brasileiros de qualidade e essa é uma galera que, daqui do nordeste, vai crescer muito e fazer história no desenvolvimento da indústria dos games.

Para conferir o gameplay assista esse vídeo do ElectronicDesireGE:




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Você pode (e deve) comprar The Last NightMary - A Lenda do Cabeça de Cuia nos seguintes links:


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