quinta-feira, 23 de junho de 2016

Está na hora de um SALIPOBRE? Visão crítica do SALIPI.

O Salão do Livro do Piauí é uma iniciativa essencial para a produção cultural do estado, não há a menor dúvida sobre a sua posição de destaque entre os acontecimentos mais importantes da sub-região meio-norte do Brasil. Por este motivo é inadmissível que deixe de existir, seja por falta de verba ou qualquer outro motivo. O SALIPI movimenta os artistas locais e permite a troca de informações com artistas de nível nacional.



Por outro lado, até que ponto o mesmo ainda atende às demandas dos produtores e consumidores culturais do estado?

Nascido em 2003, desde então o evento teve mais 13 edições. Nos últimos anos, durante o primeiro trimestre sempre tem um boato de que o evento não vai ocorrer por falta de dinheiro. Então temos consciência das dificuldades de organizar algo de tal porte e principalmente das dificuldades para arrecadação de fundos. No entanto, como um site voltado para a cultura, temos a obrigação de fazer apontamentos e direcionamentos. Se vivermos de uma perspectiva cultural totalmente positiva, que não aponta defeitos e problemas, como algo pode desenvolver o seu melhor? A racionalidade negativa (conceito frankfurtiano) é parte necessária do processo evolutivo de qualquer área humana.

Esse post é fruto de observações pessoais que tenho feito desde 2009 e conversas com amigos e artistas durante a 14ª edição do SALIPI. Tanto para consumidores quanto para artistas locais iniciantes, o evento parece pecar por falta de profissionalismo em determinadas ocasiões e certo elitismo nos espaços.

O local do evento e os elitismos

O elitismo do SALIPI se inicia pela escolha do local onde ocorre. Atualmente o evento acontece na Universidade Federal do Piauí, localizada na “zona nobre” da cidade, ou seja, onde mora a classe média alta e rica de Teresina. O pessoal que tem carro e nem sequer precisa de muito esforço para se locomover de uma zona da cidade para outra, ganha em sua porta um evento cultural que intenta ser aberto a todas as classes sociais.

Lembro muito bem do rebuliço social que foi a mudança do SALIPI da Praça Pedro II, centro, para a UFPI, zona leste. Não há a menor dúvida de que foi um retrocesso em termos de facilidade de acesso. Quem mora na zona sul, por exemplo, uma das regiões mais pobres da cidade, passa mais de uma hora dentro do ônibus (excetuando-se ainda o tempo na parada, é bom deixar claro) só para ir até o local. Se vocês acham que isso é normal... sinto muito, mas é motivo o suficiente para esquecer que o evento existe e ir fazer outra coisa.

Entendo que a UFPI é um espaço que por si só tem um grande fluxo de pessoas mais diretamente ligadas à cultura livresca, no entanto afastar um salão de livro da massa de sua população que está trabalhando pelo centro e pode, depois do expediente ou durante alguma pausa, passar lá, é uma escolha bastante esquisita. Ainda mais quando de quase todas as regiões da cidade se tem um fluxo maior de opções de transporte coletivo e a distância de deslocamento para o centro é imensamente menor.

O elitismo, infelizmente é uma verdade inegável. O ponto mais simbólico dessa trágica situação ocorreu na 14ª edição, quando estudantes foram expulsos do SALIPI por, segundo a fala da organizadora Edilva Barbosa registrada pelo site O Olho, terem feito um bazar com stands, além de não autorizados, “feios”.

O argumento de saneamento do espaço me lembra muito a concepção de séculos passados em que artistas se consideravam gênios acima da massa ignóbil e burra. Eles eram detentores da verdade, das luzes e a população a ignorância a ser combatida. Por deuses, isso é muito além de meramente retrógrado.

Os stands das livrarias

         Os preços a que os livros são vendidos também são um fator de afastamento da população mais carente. Na internet está mais barato do que numa feira de livro, muitas vezes até com o frete já somado, isso não é no mínimo constrangedor? Embora saibamos que a organização não pode controlar o preço das barracas, não deixa de ser um ponto extremamente fraco do evento os preços muitas vezes irreais.

         Há outro defeito que ficou mais latente nesta edição do que nunca. Os stands eram diferentes, mas os mesmíssimos livros eram vendidos em quase todos. É como se mandassem para a venda apenas a lista dos best-sellers e ignorassem a grande variedade de publicações que as próprias livrarias e editoras têm disponíveis. Quando não são best-sellers, são meros livros acadêmicos! A variedade é baixíssima e os preços abusivos tornam a experiência de andar pelo SALIPI bastante frustrante.

Minha experiência como escritor no SALIPI

         Agora vou falar de uma experiência bastante particular. Eu fui chamado para apresentar o meu livro de ficção científica/horror O que acontece quando não estamos olhando no Bate-Papo do SALIPI. O horário definido na programação era 19h30min.

Chegando ao evento vou diretamente até a organização, e vejo lá que a minha apresentação está marcada para as 20h. Tudo bem, não há nada em esperar um pouco a mais. Porém dá 21h20min, faltando dez minutos para exatas duas horas do horário em que chamei meus convidados, que estavam maciçamente presentes e nada de se iniciar meu espaço no bate-papo.

O mediador da mesa manda me chamar, já que estou do lado de fora da sala onde ocorre o bate-papo, pois ela está muito cheia. Ao entrar na sala o mediador faz uma piadinha, ele diz que “aquele barbudo do Estado Islâmico, o Agostinho Torres, vai daqui a pouco apresentar seu livro”. Sorrio amarelo, desconfiado da total falta de profissionalismo do mediador. Durante a palestra que parece não acabar, já que um dos convidados está falando por mais de uma hora e meia, continuo ouvindo uma série de piadinhas entre o tosquíssimo e o tristemente ridículo. É como se fosse um evento no quintal da casa do mediador e não uma feira de livro, na qual todo profissional é tratado com respeito. É aquela velha “colegagem” que, infelizmente, no Piauí ocupa o lugar de destaque em todas as áreas da cena cultural e fomenta a incapacidade de industrialização e comercialização efetiva dos nossos artistas, que se acostumam a participar de grupinhos e ocupar espaços na amizade, mais do que no trabalho.

Ao olhar para o que estava acontecendo, o palestrante (inclusive colocaram dois ao mesmo tempo, a outra coitada que estava “dividindo” o espaço com ele não deu um pio, já que toda a conversa era redirecionada apenas para o outro) diz que tinha carta branca do mediador para falar o quanto quisesse. Pois pronto, entendi porque eu estava esperando duas horas e porque todos os outros artistas que participavam do espaço só podiam falar meia hora. Me levantei, disse ao mediador que ia ao banheiro e nunca mais voltei. Provavelmente nunca mais voltarei, não enquanto o SALIPI tiver a mesma configuração excludente. Mais do que isso, penso em organizar um SALIPOBRE paralelo ao SALIPI do ano que vem, pegando a ideia da FLIPOBRE e adaptando ao Piauí.

O SALIPI não respeita os novos artistas. De que adianta ceder espaço para agir desse jeito? Tratando com menosprezo os desconhecidos, que estão galgando seus primeiros passos e os que não fazem parte de um círculo de amizades. Falta uma profissionalização dos espaços, falta o tratamento igualitário e pasmem, o seguimento da própria programação que eles mesmos criam e não cumprem.

Conclusão sobre o SALIPI

         Embora seja um evento essencial da agenda cultural teresinense, não podemos fingir que é a maior maravilha do mundo. Nunca um evento será perfeito em todos os aspectos, mas o SALIPI há muito tempo tem estagnado num padrão do qual se não buscar alternativas, vai acabar cometendo suicídio.

         Falta uma profissionalização dos espaços, a busca por preços melhores e mais diversidades de obras nos stands e a criação de espaços alternativos para abarcar também produções locais de fora do círculo dos organizadores.


         Pensando em todas estas questões é que vejo a necessidade de um evento paralelo, em que novos artistas e até atrações nacionais possam interagir de maneira menos elitista e com maior disponibilidade de acesso para todos (provavelmente por transmissão e total armazenamento das conversas na internet). Por isso eu chamo a todos aqueles que quiserem construir com o Diretório o SALIPOBRE, ano que vem, que entre em contato com Agostinho Torres ou Valciãn Calixto.
Está na hora de um SALIPOBRE? Visão crítica do SALIPI.
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4 comentários:

  1. bastante interessante sua visão sobre o evento. e excelente a ideia de organizar um evento.
    faço uma correção: "O mediador da mesa manda me chamarem" para "chamar"
    abç

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  2. Rapaz, o que é isso? Eu estava nesse bate-papo literário e o Romero, na verdade, brincou com você, como vinha fazendo com os demais participantes! O Romero gosta de provocar risadas, a fim de tornar o ambiente descontraído e leve! Não transforme seu desapontamento pessoal, diante de uma brincadeira, que você não entendeu, em uma "metralhadora giratória", atirando pra todos os lados e pontuando, apenas, o que lhe interessa para desqualificar o SALIPI. Só para enriquecer o debate fique sabendo que o SALIPI saiu da Praça Pedro II em função da falta de segurança, higiene e por conta de uma série de outras limitações! E quanto à acessibilidade não tem o que discutir! E para ilustrar vai uma constatação numérica: na edição do ano passado o Salão teve 160 mil visitantes e este ano 200 mil. E quanto ao preço dos livros, que você acha exorbitante, eu, com todo o respeito, discordo! Poxa o que tinha de livros a dez reais! Comprei três bons livros por vinte reais! Encerro admitindo que todo debate, se for para melhorar algo que já é um sucesso, será bem-vindo, desde que contemple todos os aspectos, mas de forma integral, imparcial e inteligente!

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  3. Apoiado o SaliPobre . Os livros ficam baratos normalmente só no último dia .

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