quinta-feira, 7 de julho de 2016

A Era de Ouro do Pornô”: sexo e história



Por Jana Lauxen*

A Era de Ouro do Pornô é o segundo livro do escritor gaúcho Zeka Sixx, e seu primeiro romance. No entanto, não se deixe enganar pelo título, caro leitor: existem mais coisas entre uma linha e outra desta obra do que nossa vã filosofia pode imaginar.

O primeiro erro é concluir que, por conta do nome do livro, e da moça seminua na capa, se trate de um romance meramente pornográfico. Algo como sexo sem história, e só. Porque navegamos pelas 157 páginas da obra A Era de Ouro do Pornô através de um enredo irresistível e imprevisível, que por vezes é manso e calmo, e na linha seguinte se torna, abruptamente, insurgente e agressivo.

O livro conta a história de Max Califórnia, pretenso escritor que sofre com um bloqueio criativo que já dura três anos. Morando em Porto Alegre – cidade que o devora e o vomita, constantemente – Max divide seu tempo entre bicos como tradutor, sexo, bebidas, e devaneios acerca de sua própria vida e de suas ambições artísticas.

Interessante observar, no entanto, que a cidade de Porto Alegre emerge na história de A Era de Ouro do Pornô dividindo-se entre o papel de protagonista e antagonista, a ponto de tornar Max Califórnia um personagem secundário, que a cidade manipula e envolve. A capital gaúcha desempenha uma função importante em toda a narrativa de Zeka Sixx, interferindo e se manifestando em cada entrelinha da obra.

Mérito também para a captura de tempo/espaço que o autor alcançou em seu primeiro romance. A Era de Ouro do Pornô apreende um período bem curto e definido, e se passa basicamente em um ano bastante emblemático de nossa história recente: 2012. Um ano em que nós, brasileiros, ainda vivíamos o sonho americano versão tupiniquim, e acreditávamos em um Brasil para o futuro. Uma época que antecedeu aos protestos de junho de 2013, a guerra entre “coxinhas” e “petralhas”, a explosão do feminismo moderno, e todas as brigas e debates gerados por estes eventos. Um último instante de ingenuidade, alienação e otimismo. O fim de uma era, afinal.
Por isso, as peripécias de Max refletem, de certo modo, a transição e a transformação caótica que o nosso país enfrenta, e que nós, enquanto brasileiros, enfrentamos também.
E é aí que acontece o milagre da boa literatura: a identificação entre leitor e obra. Aquele momento em que você se reconhece no livro, no enredo, no personagem, e passa então a ter uma visão mais ampla e completamente inesperada da história. Isso aconteceu comigo enquanto lia A Era de Ouro do Pornô.

Por isso, repito: não cometa o erro de acreditar que o segundo livro de Zeka Sixx é apenas sexo, sem história. Não reduza a obra toda à palavra “pornô”. Até por que, a própria pornografia ali representada é diferente da pornografia que, habitualmente, conhecemos, já que resgata uma época em que filmes eróticos passavam no cinema, e casais iam juntos assistir e comer pipoca – algo entre os anos 70 e início dos anos 80.

A Era de Ouro do Pornô fala de mudanças, de aspirações extravagantes, de ilusões quebradas e ruas sujas. Zeka Sixx, aliás, possui uma habilidade preciosa em chafurdar nosso lixo, separá-lo, reciclá-lo, e transformá-lo em literatura.

Tanto que conseguiu captar com precisão o retrato de uma era, e de uma geração que ainda não descobriu seu lugar no meio de tanta transformação.

* Jana Lauxen tem 31 anos, é editora, produtora cultural e escritora, autora dos livros Uma Carta por Benjamin (2009), O Túmulo do Ladrão (2013) e O Duplo da Terra (2016). É responsável pelo Projeto Nascedouro da Editora Os Dez Melhores, e já organizou e editou quatro livros através desta iniciativa, publicando textos e desenhos de mais de 120 estudantes gaúchos.

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