quinta-feira, 14 de julho de 2016

Os Cantos Obscuros de H. P. Lovecraft

Esse texto é uma análise do livro A Vida de H. P. Lovecraft, de S.T. Joshi.


Enquanto da minha perspectiva pessoal considero Edgar Allan Poe o maior gênio da literatura fantástica e do horror – foi lendo uma versão antiga, bastante empoeirada e capa dura de Histórias Extraordinárias que me apaixonei por literatura-, sem qualquer demérito Lovecraft vem logo em seguida.

A internet que me fez conhecer Lovecraft bem cedo, pois ela é constantemente inundada de referências a suas obras. Mesmo que você nem saiba quem é Lovecraft, com toda certeza em algum momento da vida ficou de frente com uma imagem de Cthulhu. A mítica criatura tentacular que aparece na abertura deste post. Seja através da campanha “Cthulhu para presidente” ou algum meme sobre ter medo/saber que algo vai dar ruim.

Ao ler a biografia escrita por Joshi você vai perceber o quanto é estranho o fato de que Lovecraft tenha se tornado tão popular nos dias de hoje, já que em vida ele não chegou a publicar sequer um livro. Isso mesmo! Um dos maiores nomes da literatura fantástica teve uma vida bastante complicada, pois possuía valores aristocráticos, mas vivia numa situação financeira que na maior parte do tempo beirou a penúria tanto financeira quanto da falta de reconhecimento enquanto escritor.

Começando Pelo Começo

Ao ler as vinte primeiras páginas de A Vida de H. P. Lovecraft eu vi que era um livro acadêmico mais do que uma biografia narrativa. O autor repassa informações detalhadas, porém muito secas sobre onde Lovecraft nasceu, quais os troncos das árvores genealógicas dos seus pais e assim por diante. No começo achei isso ruim, mas depois vi que ao menos permitia que o autor não tivesse uma visão totalmente apaixonada por seu objeto de pesquisa, porque Lovecraft era uma pessoa BASTANTE polêmica em sua intimidade.

Na infância Lovecraft viveu com luxo. À custa do dinheiro proveniente de uma família abastada ele podia comprar kits de química, telescópio, produzir jornais caseiros de pequena tiragem, morar numa casa espaçosa, entre outros privilégios. Por isso sempre se viu, acima de tudo, como um aristocrata de valores elevados.
Desde cedo ele apresentou intenso interesse pela ciência, com o tempo esse interesse se deslocou para um ramo específico: a astronomia. É importante falar sobre o interesse de Lovecraft pela ciência porque era através da racionalidade do século XIX que as engrenagens de sua mente giravam.

Lovecraft cresceu como um aristocrata que lia os clássicos gregos direto do latim e se considerava como detentor de uma cultura clássica coerente e superior. Mais do que isso: em grande parte da sua juventude ele tomou para si a tarefa de combater a “modernidade”, ao qual ele considerava como possuindo valores decadentes de frugalidade e instabilidade. É com elementos dessa racionalidade preconceituosa e excludente que em alguns momentos ele vai explicar o seu racismo como uma verdade inquestionável: o crânio dos negros têm medidas que ‘demonstram’ que eles são inferiores, bastava ler o que diziam os livros de frenologia!

A astronomia foi realmente o que fez a cabeça de Lovecraft. Porém quando adulto ele percebeu que embora tivesse grande imaginação, fosse um bom comentador de obras e um excelente redator de textos em linguagem popular sobre o assunto, era uma negação em cálculo e por isso incapaz de ser um astrônomo acadêmico. Por mais que tentasse, ele não conseguia fazer os cálculos corretamente, e isso foi um choque de realidade ao qual ele nunca esqueceu.

As Mulheres Em Sua Vida

         Um elemento bastante importante da vida de Lovecraft é que mesmo quando adulto ele vivia cercado por sua mãe e tias. Na infância ele estava sempre doente, então as mulheres da família criaram um cerco que o protegia de se esforçar demais. Assim, Lovecraft não gostava de sair, pois sentia fraquezas e desmaiava. Essas doenças foram fontes constantes de infelicidade, pois ele sentia que era incapaz de vencer no mundo sendo uma pessoa tão debilitada.

         Porém estranhamente quando a sua mãe morreu ele passou alguns dias com amigos intelectuais fora da sua cidade natal, e para sua surpresa ele ficava o dia todo e às vezes a madrugada inteira caminhando por ruínas – onde futuramente ele ambientaria suas obras. Aparentemente a superproteção que sua mãe lhe dava era o que psicologicamente o convencia de que era doente. Então apesar dos pesares a morte de sua progenitora foi sua libertação das correias de suas limitações físicas.

         Sonia Greene foi a primeira e única esposa de Lovecraft. A história dos dois é muito... esquisita. Primeiramente porque Lovecraft nunca se interessou muito por sexo, o estudo precoce de biologia teve o efeito inverso em sua cabeça. Ao ver como o corpo humano funcionava e como ocorria a reprodução, ele sentiu mais repulsa por todos aqueles mecanismos dentro de cada um de nós do que curiosidade. Quando casou com Sonia Greene, quase todas as propostas vieram da parte dela, ele apenas seguiu a onda. Porém chegou um período muito esquisito em que Lovecraft não via sua esposa, que trabalhava em outra cidade para conseguir dinheiro o suficiente para se manterem, e ele não dava a mínima! Continuava fazendo seus trabalhos sem se esforçar para ver a própria esposa.

         Toshi conta que Sonia Greene chegou a mandar uma carta pedindo separação e Lovecraft se sentiu ultrajado, ele não queria se separar apenas porque não convinha para um homem aristocrata ser divorciado. Então ele sugeriu que mantivessem um casamento com contato através de trocas de cartas! Ele citou o exemplo de uma pessoa que fazia isso, ao qual Sonia Greene disse que no caso em questão o marido era doente, enquanto Lovecraft era saudável.

         Como vocês podem ver a relação com as pessoas não era exatamente o forte de Lovecraft. Parecia lhe faltar certo entendimento do que as pessoas pensam e sentem enquanto seres sociais.

As Durezas Da Vida

Durante o começo da vida adulta a mãe de Lovecraft começou a passar por turbulências financeiras e a maioria das regalias que ele tinha foi cortada. Esse momento foi marcante em sua vida porque ele nunca mais teria aquele tipo de luxo, pelo contrário, sobrevivia sempre no fio da navalha.

Os amigos de Lovecraft contam que ele vivia numa situação tão ruim que às vezes sua alimentação para o dia todo era uma fatia de pão e uma lata de feijão. Ele dizia que isso era o suficiente para si, pois queria viver só do que era essencial, mas muitas vezes seu corpo ficava esquelético e sua pele pálida, mostrando que algo não ia bem como imaginava.

A vida inteira Lovecraft tentou vender seus livros, porém sempre que alguma editora aceitava publicar, algo dava errado. Então foi em revistas que sua obra se espalhou. Em geral ele ganhava bem pouco pelas colaborações, mas para a situação em que vivia era muito melhor do que nada. Para complementar a renda ele reescrevia livros de outras pessoas sob encomenda e revisava textos de escritores iniciantes.

As revistas em que ele publicava eram em geral parte de um circuito nacional de imprensa amadora, ao qual Lovecraft se envolveu intensamente a ponto de presidir o órgão regulador por diversas gestões. Era em alguma função dentro deste órgão da imprensa amadora que Lovecraft conseguiu escapar da fome completa. Foi também neste circuito que ele conseguiu amigos influentes, que enquanto vivo e postumamente lutariam para que sua obra fosse reconhecida por sua grandiosidade de terror cósmico.

A pobreza é difícil para qualquer um, porém para alguém cujos valores eram aristocráticos, como Lovecraft, a situação era paradoxal a ponto de ele ter pensado em acabar com a própria vida. Porém eu acho que foi a pobreza que pouco a pouco o fez se abrir aos valores da modernidade, parar de escrever sátiras baseadas em literatura greco-latina e começar a escrever histórias de horror e sobrenatural. Além de também flexibilizar seu racismo asqueroso, pois teve que conviver com negros e judeus.

Portanto foi graças a situação de penúria em sua vida que Lovecraft repensou todas as suas ideias e pôde se entregar a um gênero que anteriormente tinha considerado como uma literatura menor, por não tentar imitar os modelos clássicos.

As Obras

         Em A Vida de H. P. Lovecraft o autor Joshi não é nem um pouco amistoso com Lovecraft. Ele comenta o quão são horríveis os primeiros contos que o autor escrevia na juventude, até mesmo o quanto eram horríveis a maioria das suas sátiras e poesias simulando o estilo greco-latino.

         Mais do que isso, Joshi mapeia de onde Lovecraft “retirou” a ideia de seus principais contos. Ele deixa entendido que no meio do circuito de imprensa amadora havia muita literatura fantástica e as pessoas costumavam pegar uma ideia presente num conto, misturar com outros elementos de outros contos e criar sua própria história. A maioria das coisas de Lovecraft surgiu assim, inclusive o próprio Cthulhu. Na verdade isso não tira nenhum pouco o mérito de Lovecraft, mas é interessante saber que suas ideias não são completamente originais como imaginamos. Mas quais ideias podem ser consideradas genuinamente originais? Eu não conheço nenhuma.

Conclusão Sobre A Biografia

         A biografia escrita por Joshi é extremamente rica em detalhes sobre a vida de H. P. Lovecraft. Fala sobre todos os percalços de sua vida, sobre seus relacionamentos amorosos, os conflitos com a mãe, o modo como conseguiu sobreviver financeiramente, seus pensamentos racistas, o apoio tímido ao nazifascismo, entre tantas outras coisas que eu nunca antes soube sobre Lovecraft.

         Se você é fã do mestre do horror cósmico, não pode deixar de ler A Vida de H. P. Lovecraft. Não é um livro fácil, mas mostra detalhadamente quem foi a pessoa por trás da criação de tantos monstros que assombram a imaginação contemporânea. E ele mesmo em alguns momentos era tão horrível quanto as criaturas a que dava vida na literatura.
Os Cantos Obscuros de H. P. Lovecraft
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2 comentários:

  1. Tenho muita curiosidade em ler algo do Lovecraft, e agora fiquei com muita vontade de ler essa biografia. Estou me encantando por elas, principalmente de escritores. Olhamos atrás das cortinas, pegamos melhor o contexto às vezes novos significados, além de algumas dicas, nem que seja do que não fazer.

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    1. Também curto muito biografias. Ajudam a entendermos como são difíceis os percalços da produção literária quando elas se embaralham com a vida humana. Li recentemente uma do Stephen King que colabora pra essa ideia geral de que ser escritor é uma tarefa muito árdua e que exige muita persistência e coragem.

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