terça-feira, 6 de setembro de 2016

O Que É Que a Eletrique Zamba Tem?


De Peter Tosh a Jorge Ben, o primeiro disco cheio da piauiense Eletrique Zamba é repleto de informação sonora, colagens, mashups e melodias desafiadoras. Para quem está acostumado a ver o ex-vocalista da banda Narguilé Hidromecânico, Fábio Crazy, agressivo e incisivo no palco, gritando minimalismos em clássicos como “Maquetes Loucas”, o Eletrique Zamba mostra uma nova faceta do compositor, agora detalhista, malandro e até romântico.



Na noite da última segunda (05), a banda liberou em streaming oito faixas do disco Volume I da Eletrique Zamba, formada por Lívio Rocha na guitarra e violões, Thiago Doh, dj e backing vocal e Fábio Christian, vocal e guitarra. Nem sei se podia divulgar por aqui, mas como os caras liberaram, a gente meteu o ouvidão e tá aqui mandando as primeira impressão sobre o trampo, por sinal muito bem trampado com produção da própria banda, Arthur Raulino (ATM Stúdio) e Roraima (RR Estúdio).



Tava era faltando material novo e bem arrematado como esse lançado por aqui. No Piauí, mesmo na capital, as bandas lançam muito pouco, o que é uma pena. Nossa previsão e torcida é para que isso mude quanto antes. Agora vamo nós num faixa-a-faixa maroto.

Das oito canções divulgadas, a primeira é “Dor Amiga”, samba-free-jazz com guitarras safadchenhas e escorregadias, interpretação rouca e diria até ‘excitada’ do Fábio nos vocais, além de um refrão de poesia inusitada: “vou te tirar de mim/como quem tosse no final de uma inalação/vou te tirar de mim/ como quem sobe no telhado e tira a goteira/ só assim a tua chuva não poderá entrar/ só se você tiver o poder de se infiltrar”. Com uns versos desses a gata até chega pro cara e o desafia: Duvido! Dor Amiga conta com participação da cantora Elayne Leo Neo, conhecida nos palcos e na noite teresinense.

Em seguida o som segue pra cima, animante com “Preta Vambora” (desculpa se cê lembrou de Bebete Vãobora, tudo não passa de mera coincidência rsrs). Pelo que eu saquei da base mandada pelo Doh, dá até para fazer um medley ao vivão no refrão com a música “O Homem do Amanhã”, da Mano Crispim, finada banda piauiense.

Em seguida vem “Cínica”, com muitos arranjos, experimentações e efeitos sobrepostos a uma base de pandeiro, guitarra e tambores. É a música mais tribal das oito e tribal parece ser mesmo o espírito do grupo, a constatar pelas fotos de divulgação dos caras. A partir dos quatro minutos a banda parece que tá tocando num ritual de saudação. Saravó, Xangô!



A quarta faixa “Malandragem É Fome”, um funk rapeado cantado por Fábio ou um rap funkeado tocado por Lívio com samba do meio pro fim. Essa tem a letra que mais me chama a atenção porque é uma afirmação do eu, do Nordeste, da miscigenação, dos Brasis. O compositor dá uma descascada nos comportamentos gerais/separatista de muita galera nonsense por aí e ainda menciona um autor modernista debochado como no trecho a seguir: “E de fato desprezando a eugenia citada nas cartas de Monteiro Lobato, meu sangue tem no mínimo três fios da etnia do cangaço”.

No finalzinho da música, Fábio toma emprestado os versos e melodia do compositor Wilson Batista ao cantar: “Eu sou assim/quem quiser gostar de mim”, da música "Meu Mundo É Hoje", também propagada na versão de Paulinho da Viola como no vídeo abaixo. Com esses versos, tudo que foi dito e afirmado em Malandragem É Fome tem validação, autenticação e coração.




“De Volta Ao Pó” traz uma sacada interessante. Primeiro que a música é um samba dor-de-cotovelo, samba-canção no melhor estilo repaginado e atualizado para a linguagem atual de quem cresceu ouvindo grandes cantores como Vicente Celestino, Orlando Silva, Noite Ilustrada, Elizeth Cardoso e agora põe a própria pegada na roda. “Sabe essa história de que o homem veio do pó, pois mais cedo do que eu esperava ao pó eu retornei”, começa confessando.

Fábio arrisca uns graves legais também na interpretação. “Eu afinei minha guitarra pra poder tocar um punk rock pra você/ mas você não me ouviu e o que foi pior/ você me desprezou/ e o meu coração perdeu o punch então/ e o que foi pior, eu retornei pro pó.

É diferente de tudo que já se ouviu na Narguilé Hidromecânico e das oito, essa está entre as três melhores. Possivelmente o cd completo trará ainda mais canções. A oitava faixa é 4i20 Toda Hora, na qual temos uma volta às origens com uma nova abordagem sobre uso de maconha nas composições do Fábio. Poderia dizer que essa música é prima ou irmã de “Maluco Regulão (Amor em Pó)", lançada há muitos anos pela antiga banda do cantor.



4i20 Toda Hora traz trechos entrecortados de um depoimento do Gilberto Gil de 1976, quando o músico foi preso em Florianópolis (capital de Santa Catarina), há quarenta anos por portar um cigarro de maconha para consumo próprio. Se tava faltando ousadia e culhão às bandas piauienses, a Eletrique Zamba amenizou a falta com essa canção, que tem tudo pra gerar um bom debate por aqui.

Além das oito faixas, vi que os caras liberaram uma versão mais regueira de Cínica. Ouçam todas, curtam a fanpage da banda no Facebook e aguardem o lançamento oficial. Isso aqui é só prévia do que vem por aí. Todo o trabalho gráfico de capa foi realizado por Alexandre Lima, o Xixa.
O Que É Que a Eletrique Zamba Tem?
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