quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Hotel Ferrugem, o rolê do fim do mundo


O céu não estava mais alaranjado como outrora, estava escuro e salpicado de estrelas. A linha do ônibus não se chamava mais ‘São Cristovão’ e sim ‘Terminal Livramento’. O caminho percorrido não me levava mais ao antigo Núcleo de Artes Vapor Barato, mas ao Estacionamento D’Car. Eu não tinha apenas 10 reais no bolso, agora possuía a incrível quantia de 20 reais e um cartão de crédito. Nem andava mais sozinha, o medo paralisante da outra vez se transformou em precaução. São algumas das mudanças particulares observadas entre a primeira e a segunda edição do Hotel Ferrugem, evento realizado, auto custeado, divulgado, suado pelo coletivo Geração TrisTherezina, que insiste em resistir e produzir Arte no Piauí.

Por volta das 18h as bandas Garoto Androide, Cianeto HC, Valciãn Calixto e Cidade Estéril, nesta ordem de apresentação, já montavam o som e os instrumentos. É interessante estar por dentro de um rolê underground da cidade e saber coisas como o preço do aluguel de uma caixa de som, dos pedais, do corpo da bateria, do baixo por vezes emprestado de músico a músico. Observar os grafites nas paredes, o estabelecimento em obras, o fluxo contínuo de pessoas chegando ao show e a renovação do público em rostos desconhecidos.



Garoto Androide

Com as portas abertas, palco montado e o público no aguardo, o evento “Uma Noite De Prazer – Entrada Free” (como foi divulgado no Facebook) se iniciou. A primeira banda era Garoto Androide, liderada pelo Joniel Santos, guitarrista. O nome faz menção à última faixa do disco “Sociedade Retrô”, da sua antiga banda Flores Radioativas (inclusive o título do festival é em homenagem a canção homônima do disco citado). Seria uma continuação do projeto musical emo prodigioso de Teresina? Pela estética da musicalidade tudo indica que sim.

Foi pelas mãos ágeis de uma mulher, Ilana Viviane, contrabaixista, uma das ainda escassas musicistas femininas na cena piauiense, que a mim foi demonstrado o porquê de o futuro ‘é’ feminino e as produções nacionais são das “minas”. E assim a banda abriu os caminhos para o início do evento. O Rock emo está vivo e o Garoto Andróide já não tem mais medo do futuro.



Cianeto HC

Dando continuação, o ‘hardswingue’ da Cianeto HC dominaria o tapete vermelho (palco improvisado), e para além dele as cabeças, vindas do centro, de bairros teresinenses e até mesmo de Timon bateriam na roda punk. A conciliação de ritmos diversos como swingueira, baião, metal aliados ao hardcore o tornaram notórios na cena do gênero no Piauí. Sendo no Theresina Hall, local onde ocorreu o Teresina é Pop, evento recente com estrutura maior em que o grupo abriu o primeiro dia de shows, ou no Estacionamento D’Car, a Cianeto consegue se consolidar e conquistar público. No Hotel Ferrugem não seria diferente. Foi a apresentação com maior lotação.



Nibiru e Valciãn Calixto

Nesse mês de setembro surgiu mais um dos rumores de “fim do mundo” e por coincidência seria dia 23, sábado, dia do evento. Acho que essa pode ser uma boa hora de fazer a piada – indireta - de que só mesmo com o fim do mundo para vermos o Valciãn Calixto não ser a última apresentação da noite.

Bom, não cabe repetir aqui a admiração que já demonstrei em outros textos, mas fiquei emocionada em ouvir pela primeira vez a famosa versão feita por ele pra canção “Rap do Silva”. Lembro que o Yago Feitosa, amigo que foi comigo ao show, disse que amava essa música pela sensação que lhe causava. Segundo ele, a música o deixava triste porque achava o Silva, sujeito da canção, um cara legal, mas que teve um final infeliz. E dessa forma, com uma lanterna de celular posicionada pelo MV Jason, baterista da Cidade Estéril (CE), iluminando uma folha com a letra da música levantada pelas mãos do Pablo Vinícius, guitarrista da CE, que o Valciãn Calixto pôde ler e cantar ‘a história que todo mundo devia se ligar’.



Ainda durante o show, acompanhei a volta do famigerado “Homem Polvo”, o Marciano Calixto, baterista da banda. Fazia um tempo que eu não o via tocar em sua forma mais elevada desde Demerval Lobão, cidade localizada à 33km de Teresina. Pelo nome já se supõe a sua desenvoltura com as baquetas, que faz com quem nos questionemos sobre com quantas mãos um humano pode tocar daquela forma. É Axé Punk, é a #swingueirapsicodélica (tag recém dada ao som de Valciãn Calixto).



Cidade Estéril 

Para finalizar, Cidade Estéril, vencedora do Chapadão 2017, Festival de Música Chapada do Corisco. A banda se exibe progressivamente de forma profissional e madura. Com músicas como “Me diz você” e “Ilhas Temporárias” fez com que todos cantassem junto, demonstrando envolvimento recíproco com o público. Com canções que poderiam facilmente ser temas de novela globais, como disse o vocalista João Pedro Alves, e outras com letras mais intimistas e pessoais como “Teoria de Edmundo”. Com direito a dueto de “Mais um prato” com Lucas Barbosa, ex-guitarrista da Cianeto HC, os meninos da Santa Maria fizeram uma das apresentações mais frenéticas do evento. Com destaque para o improviso do Pablo Vinícius, vulgo Santana do Sertão, em momentos exíguos da apresentação.


A 2º Edição do Hotel Ferrugem aconteceu no dia em que disseram que o mundo poderia acabar, com apenas uma semana de divulgação e faltando metade do dinheiro pra pagar o som, ou seja, o evento foi quase um fim do mundo real pra Geração Tristherezina. Mas tudo mais uma vez foi bem e de alguma forma o evento em si soou muito mais profissional do que na sua edição inaugural. Este deve ser o fluxo. Não sei se a vida é mesmo um filme, ou se os filmes são a vida, mas a Geração TrisTherezina tem escrito bons roteiros. E se eu fosse você, veria todos os filmes deles que vão vir por aí.



 Todas as fotos por Natália Gomes

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