terça-feira, 3 de outubro de 2017

A potencialidade de American Horror Story: Cult ainda não surpreendeu


Assim como a temporada anterior, Roanoke, o sétimo ano da série criada por Ryan Murphy e Brad Falchuk veio com o intuito de inovar a proposta central do show, ou seja, o suspense e o terror. Enquanto Roanoke apostou na metalinguagem e concisão em cada episódio, Cult se propôs a explorar o medo.

No entanto, este sentimento não é desencadeado pelo aparecimento de criaturas sobrenaturais, e sim pelo medo urbano, a ansiedade em realizar atividades cotidianas, o fim da zona de conforto e privilégios sociais. Não conseguem entender? AHS toca em uma grande ferida da contemporaneidade, o avanço de correntes e ideologias radicais que pregam o conservadorismo e anseiam por destituir as conquistas das minorias. A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, por exemplo. Trazendo para a realidade brasileira, o aumento de seguidores em torno da figura do deputado federal Jair Bolsonaro simbolizam esse medo.

Pois bem, Ryan Murphy revelou o tema central da nova temporada ainda em 2016. Durante entrevista no programa What Happens Live with Andy Cohen, o diretor contou que AHS iria explorar as eleições estadunidenses presidenciais daquele ano. Já o subtítulo Cult só foi anunciado na San Diego Comic-Con em julho deste ano.

Parte do elenco da 7ª temporada de American Horror Story

Os dois pilares do sétimo ano de American Horror Story são os personagens de Evan Peters e Sarah Paulson. Os veteranos de temporadas anteriores que se fazem presentes, são Cheyenne Jackson, Adina Porter, Frances Conroy, Mare Winningham, Chaz Bono, James Morosini e John Carroll Lynch. AHS: Cult também conta com novas aquisições ao casting, como Billie Lourd, Alison Pill, Colton Haynes, Billy Eichner, Leslie Grossman e Lena Dunham.

Emma Roberts ecarna mais uma bitch, dessa vez a jornalista Serena Belinda

No último episódio exibido na terça-feira, 26 de setembro, tivemos a aparição de Emma Roberts interpretando a jornalista Serena Belinda. A dúvida que fica é se Roberts deu vida novamente a Chanel Oberlin (Scream Queens) ou Madison Montgomery (American Horror Story: Coven)? A diferença fica para a cor de cabelo, mas as três são a mesma pessoa, a bitch da história. A repetição de fórmulas e a narrativa que anda em círculo desgastam as produções de Murphy. Glee é prova disso!

Contextualização: enredo e episódios

Como já anteriormente exposto, a temporada tem como pano de fundo as últimas eleições presidenciais com foco na corrida entre Trump x Hillary. A narrativa melodramática inicia na noite em que Trump é eleito o 45º presidente dos Estados Unidos. A eleição resulta em um gatilho para Ally Mayfair-Richards (Sarah Paulson), despertando uma série de fobias, como coulrofobia (aversão a palhaços), hemofobia (aversão a sangue) e monofobia (medo de ficar sozinho), além de comprometer os níveis de ansiedade. A personagem de Paulson é casada com Ivy Mayfair-Richards (Alisson Pill), o casal ainda tem um filho, o pequeno Oz (Cooper Dodson).

Ally Mayfair-Richard (Sarah Paulson) e Ivy Mayfair-Richards (Alisson Pill)

Ally passa a ter constantes alucinações e pesadelos geralmente relacionados a palhaços, o que torna pouco crível essas situações. Nesse ponto, sinto um pouco de diálogo com Shelby Miller, a personagem de Paulson em AHS: Roanoke, que era assombrada pelos fantasmas na casa em Roanoke, Carolina do Norte (Torço para que a semelhança fique só aqui, e Ally mostre ser uma mulher forte no decorrer da trama!). Os surtos da personagem, com destaque para a cena no supermercado, levam o casal a buscar ajuda com o psiquiatra Rudy Vincent (Cheyenne Jackson). Vale salientar que os frequentes ataques incomodam Ivy e o relacionamento começa a se deteriorar.

Kai Anderson (Evan Peters) passa cheetos no rosto para ficar semelhante a Donald Trump

Ainda explorando o episódio de estreia, Election Night (Noite de Eleição), também nos é apresentado o segundo personagem chave desta temporada. Antagonizando Ally, Kai Anderson (Evan Peters) é aliados aos ideais de Trump, porém ele vai muito além disso. O personagem pretende explorar o medo e as fraquezas de diferentes pessoas com o intuito de conduzi-las para perto dele e, então, utilizar essa ferramenta de manipulação em benefício próprio. Está aí o motivo da escolha do subtítulo Cult. Um culto não vinculado à ideia religiosa ou sobrenatural, mas com a proposta de unir pessoas em torno de um objeto comum, neste caso o medo é fator de agregação.

Winter Anderson (Billie Lourd) cuidando do pequeno OZ (Cooper Dodson) 

Kai vive também com sua irmã, Winter Anderson (Billie Lourd). A personagem é intrigante, e na minha opinião ainda não consegui entender a linha que percorre sua personalidade. Winter fez campanha para Hillary, contudo compartilha aspectos com o seu irmão: o gosto por ver a dor e o sofrimento em alguém. A personagem vai trabalhar como babá de Oz na casa da família Mayfair-Richards. Bem, aqui confesso que quando vejo a Winter não consigo dissociar com a figura da Chanel #3, personagem de Billie em Scream Queens. Mas, sigo otimista com possíveis mudanças!

Nos episódios seguintes Don’t be afraid of the dark (Não tenha medo do escuro) e Neighbors from hell (Vizinhos do inferno) os acontecimentos pouco avançam na narrativa e caminham para o óbvio. Kai, com certeza, deve ter envolvimento com os palhaços que mataram os Changs (Lembrando a discussão que Kai teve com um membro dessa família que inclusive compunha o conselho da cidade). Outro assassinato foi a morte de um casal atendido pelo personagem de Cheyenne Jackson. Será que o nosso doutor também está envolvido? Basta lembrar de uma ligação entre Ivy e Vicent. O mesmo movia na mesa botões com “rostos felizes”, mesma evidência sinalizada nas cenas dos assassinatos.

O casal Wilton passa a viver na antiga casa dos Changs

Com a morte dos Changs, um curioso casal passa a ocupar a residência. Eles são Harrison Wilton e Meadow Wilton e se tornam no pesadelo da família Mayfair-Richards. Os dois não têm nenhum nível de bom senso, falam tudo o que pensam a toda hora. Harrison, além de trabalhar em uma academia é apicultor (percebe a relação do trabalho das abelhas com o tema da série, culto), enquanto Meadow não sai de casa após ter câncer de pele. Outro ponto importante, é que os dois estão juntos depois de um acordo no ensino médio, uma vez que Harisson é gay. Para mim, os Wiltons são determinantes na trama e comprovam o meu amor pelas produções da união Ryan Murphy e Brad Falchuk. A facilidade em utilizar o absurdo com os adereços da ironia e o satírico com o objetivo de estimular uma discussão.

A sarcástica Meadow Winton (Leslie Grossman)

Neste caso, pode ser uma discussão social. Meadow é uma mulher completamente alienada que baseia a sua opinião pelo uso de redes sociais. Pode-se fazer uma analogia com tipos sociais que se consideram pessoas de opiniões formadas e que são “apolíticas”, uma vez que nenhum político presta e se pautam pelo consumo midiático (Basta lembrar no quarto episódio, em que Meadow escreve na cédula de votação o nome de Oprah Winfrey). Harisson segue a mesma perspectiva, mas rompe com o estereotipado lugar comum da representação do homossexual na mídia.

Adina Porter vive a jornalista Beverly Hope

Ao chegar no quarto episódio, 11/09 (Título em referência ao 11 de setembro de 2001 e que para os criadores do seriado o dia 09 de novembro de 2016 também traria grandes mudanças), a narrativa se desenrola um pouco mais (Eu acredito que está caminhando para o óbvio). A notoriedade fica para a repórter Beverly Hope (Adina Porter) e a sua interação com Kai Anderson. Kai percebe a frustação e fragilidade na figura da jornalista apenas assistindo uma de suas matérias. Novamente aqui vejo a crítica aos meios de comunicação, além disso Beverly foi vítima de chacota na internet. Para agravar a situação, o aparecimento de Serena (Ainda a dúvida se era a Chanel ou Madison) relega a outra jornalista em segundo lugar.

Depois de averiguar Beverly, Kai consegue se aproximar da repórter. Incrível a oratória e o poder de convencimento do personagem! Ele faz as pessoas externarem o medo, e com isso firma laços de lealdade, unindo diferentes indivíduos para o seu culto.

Kai Anderson acessa aos medos de Meadow Winton

A obviedade aparece em que Meadow e Harrison estão por trás dos assassinatos com as fantasias de palhaços, uma vez que, eles são frágeis e compõem o círculo de atendimentos de Kai. Outro personagem que ainda não mencionei e, possivelmente, envolvido nos acontecimentos se trata do detetive Jack Samuels (Colton Haynes) investigador da morte dos Changs. Jack é amigo dos Wiltons e, provavelmente, amante de Harrison.
Kai Anderson acessa aos medos de Harrison Winton

Expectativa Futura

De acordo com a minha análise, o enredo caminha nesta direção, mas continuo torcendo por uma reviravolta. Com a conclusão dos 10 episódios, pretendo retornar aqui e vê se houve mudanças. Mas confesso que quero terminar essa temporada chocado!

A proposta de utilizar uma atmosfera de engajamento político é muito interessante. Fica evidente, sobretudo, a discussão do âmbito midiático. A construção do lado bom ou ruim, herói ou vilão nas matérias jornalísticas, assim como a alienação, por meio do entretenimento. Volto novamente para o casal Wilton, os dois são vice-presidentes de um Fã Clube de Nicole Kidman. Em meio as turbulências sociais que vivemos, assim como o casal há centenas de pessoas que apenas trafegam e batem palmas para tudo sem questionar.

A composição do personagem de Peters é fascinante. Espero que continue sendo bem explorado. É preciso ressaltar que grandes líderes utilizaram da oratória e, sobretudo, o medo para unir forças e convencer pessoas. O nazismo na Alemanha é prova disso, um país que acabara de sair derrotado da primeira guerra mundial. A crise econômica assolava e o povo seguia com baixa autoestima com o fim do conflito.

Nesse sentido, o diálogo com a realidade é contínuo. Os palhaços da série, por exemplo, fazem referência ao aparecimento de palhaços assustadores no segundo semestre de 2016. Moradores de Greenville, Carolina do Sul, relataram o surgimento bizarro de palhaços em rodovias ou convidando crianças para casas abandonadas e florestas. Além disso, Kai monitora possíveis membros, assim como a equipe de Trump averiguava seu eleitorado, este último utilizando dispositivos tecnológicos que mapeiam redes sociais. Em pesquisa divulgada pelo jornal Estadão, o público do presidente é formado geralmente por pequenas cidades rurais, localidades que sofrem o processo de desindustrialização e persuadidas com o discurso de “Vamos tornar a América grande de novo”.

Enfim, American Horror Story: Cult tem todas as ferramentas, mas não me surpreendeu. Por enquanto!

O quinto episódio, Holes (Buracos), será exibido na FX americana nesta terça-feira, 03 de outubro, com exibição na FX Brasil dia 05 de outubro à meia noite.

  
*Imagens: Divulgação
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