segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Exposição na Tomato promove visibilidade artística feminina na capital

Na última sexta (17), a exposição GIRLY esteve na Tomato Restaurante e Gastronomia. O projeto conta com oito mulheres artistas de Teresina: Akemi Morais, Alana Santos, Fabrinne Rocha, Laura Vasconcelos, Maria Clara Pereira, Najma Akhtar, Sabrina Coutinho e Valmira Sabino que mostram seus sentimentos e visões do mundo através de produções artísticas. As obras vão desde gravuras em papel, pinturas em telas ou peças com técnicas mistas e artesanais.



A ideia de fazer a exposição é de outro projeto realizado “Faces da Invisibilidade: Uma Questão de Gênero”, onde 27 mulheres artistas de Teresina retrataram casos de feminicídio. O projeto possui um tumblr com todas as artes que ilustraram essas 27 narrativas.

Durante a noite, as obras das oito meninas dividiram o espaço com um show que estava acontecendo no local. Alguns nomes da música piauiense, como Bia Magalhães, Monise Borges, Cayo Costa, dentre outros, faziam um especial Sandy e Junior cantando todas as canções que embalaram a infância e a adolescência de quem esteve presente nos anos 2000.

Conversamos com Alana Santos e Fabrinne Rocha, duas das mulheres que participam da exposição, sobre alguns tópicos relacionados ao evento, visibilidade feminina e arte.



Diretório Literário: O que as obras que estavam na exposição retratam?

Fabrinne Rocha: A maioria das obras se espelham nas pessoas e nos sentimentos que elas transmitem e eu tento fazer uma visão diferente do que elas pensam. Por exemplo, sentimentos que as pessoas consideram ruins, como a solidão e as confusões, eu os coloco como necessários para viver.

Alana Santos: Cada obra tem muito de mim, coisas da minha infância e do passado, assim como uma previsão do futuro também. Cada uma tem um significado diferente e uma história por trás, mas todas têm o mesmo tema, que é a angústia, a dor e o sofrimento tanto do corpo quanto da alma. As minhas obras se espelham como a Fabrinne também comentou: em lidar com a solidão, sentimentos e com tudo aquilo que a gente tenta evitar no dia a dia.

DL: Quais foram as expectativas para a exposição?

Fabrinne: Além da visibilidade artística feminina no Piauí, também tem a questão do individual: como você planejou todas aquelas obras para expôr e o que as pessoas vãoachar. Foi a minha primeira exposição e também a primeira da maioria das mulheres que estão envolvidas no projeto.

Alana: Também foi a minha primeira exposição, então a gente quer saber o que as pessoas acharam. A gente estava nervosa, mas também orgulhosa de apresentar essas obras. Organizar uma exposição e montar o local são coisas especiais pra gente.

Desenhos de Akemi Morais

DL: Qual a importância de iniciativas assim para o empoderamento de meninas e mulheres?

Fabrinne: Essa projeto já tinha sido iniciado em um projeto anterior como já foi citado. Posteriormente, a Alana quis dar uma continuidade e fazer com que essas mulheres mostrassem seu trabalho através de um tema livre. Isso fez a gente se conhecer e atingir outro público.

Alana: Tendo contato com as meninas da exposição, em conversas, soube que muitas delas nunca exporam seus desenhos, a não ser no espaço virtual. E que algumas delas não se consideram boas, ou capazes de fazer arte. Eu também me sentia assim, e me sinto as vezes. Há um descrédito entre as meninas e suas próprias artes que certamente é cultural daqui e no geral. Precisamos encorajá-las, senão teremos arte engavetada por aí, poemas não publicados, performances não vistas, pinturas não expostas e isso é algo terrível. Não pode acontecer. Após a exposição Girly, uma das meninas me disse “Você me dá uma força do caramba, obrigada por isso”. Não consigo descrever a alegria que senti.

Desenhos de Sabrina Coutinho

DL: E como foi o primeiro contato com arte na vida de vocês?

Fabrinne: Meu contato com a arte é desde criança, só que demorei um pouco pra me formalizar. Fiz um curso de realismo, só que eu não gostava porque não me expressava muito através daquela técnica. Me desprendi de tudo e passei a usar algo mais expressionista, mais jogado nas coisas que faço.

Alana: O meu contato também foi quando era criança. Sempre gostei de ler e desenhar. Os meus desenhos de criança eram mais de paisagens e mulheres. Sempre gostei de desenhar mulheres. A forma feminina dá mais liberdade, a meu ver. Passei um longo tempo sem desenhar porque passei a me dedicar mais a escrita, fazer poesias e fotografar, que foi outra vertente da arte onde também me encontrei durante a adolescência.

Exposição de Valmira Sabino


DL: Como passou a ser a relação com a arte depois de estabelecido o primeiro contato?

Alana: Para mim, nos desenhos é mais fácil expressar algo negativo. É uma forma que eu tenho de colocar para fora os sentimentos que estou digerindo na semana, no mês. É uma forma de cura. Eu gosto do processo do desenhar, não só do produto final. Eu vejo esse meu contato sempre presente com arte e literatura como uma forma de ter uma companhia porque sou filha única e é algo especial pra mim, é onde eu realmente me sinto feliz.

DL: A cena cultural de Teresina passa por uma fase de desenvolvimento e ainda é pequena quando comparada a outros estados. Com a sua vivência de artista, o que você tem a dizer sobre isso?

Alana: Minha vivência como artista cresceu bastante nesse ano de 2017, pois foi um ano em que participei ativamente em projetos e exposições de arte. Participei do projeto artístico “Faces da (in)visibilidade: uma questão de gênero” e fiz a exposição “Face dispersa” no Salve Rainha dos Tempos, com autorretratos de 2012 a 2016. Nos dois projetos tive muito apoio e incentivo das mulheres artistas e de amigos. No Projeto "Faces....", lembro-me de uma conversa com a Renata Reis, que ao me fazer a proposta, meu primeiro ímpeto foi recusar, por medo, por descrédito em mim mesma. “Será que eu consigo fazer essa arte?”, “sou capaz?”. Ela conversou comigo e me encorajou, disse para eu não ter medo. Acredito que com o passar dos anos o cenário da arte ganhará mais espaço aqui, como vêm ganhando através de muitas pessoas que acreditam no que se produz aqui. E o primeiro passo é acreditar e abrir portas. Mas é um processo inegavelmente lento, por muitos motivos, desde a não compreensão de alguns do nosso trabalho, a falta de incentivo de alguns, a cultura de menosprezar o que é daqui e cultuar o de fora, o dia a dia esmagador dessa cidade. Alguns eventos como o “Salve Rainha” e o “Roda de Poesia Tensão, Tesão & Criação” que se compõem por temporadas, são muito importantes para que artistas se estimulem a produzir e a expor, a levar sua arte para o povo daqui, para que o povo veja que há arte boa aqui. Minha arte se restringia muito a internet e aos poucos estou tomando coragem de expor mundo afora. Ser artista nessa cidade exige ser corajoso também. E no meu caso, como mulher, uma dupla coragem.

Fabrinne: É o segundo projeto que participo, a experiência é pouca. Eu particularmente não divulgo os trabalhos que faço, meu "eu" como artista é bem desconhecido pelas pessoas. Mas observo colegas que lutam na cena artística há um tempo e ainda assim são apagados para o público e vivem de projetos independentes no qual investem muito e o retorno às vezes é fraco, a ajuda só vem das pessoas que os conhecem e acompanham sua trajetória e esforço. O não reconhecimento e falta de retorno "mata" um pouco o artista e faz ele viver de outra coisas. O mal das pessoas da cidade é querer olhar apenas pra fora enquanto tem tanto artistas de dentro se sacrificando e que merecem um pouco de reconhecimento.

Artes de Najma Akhtar


D.L: Em Teresina esses espaços culturais são ocupados predominantemente por homens. Qual a sensação de ser uma artista mulher na cidade e quais as principais dificuldades a serem enfrentadas?

Alana: A sensação de ser uma artista mulher na cidade é poder saber que não há somente eu aqui. Tem muitas artistas mulheres em Teresina, muitas garotas jovens do curso de artes, moda, designe, muitas mulheres já formadas em artes que estimulam e apoiam a arte daqui. Muitas mulheres que fazem outros cursos, mas que pintam, desenham, escrevem, e se sentem desencorajadas a expor. Eu acredito que quando uma mulher artista vê outra expondo suas artes, ela fica feliz e encorajada. Então, como num ciclo, temos que promover esse espaço para que mais mulheres se encorajem. Saiam do virtual para o real. Com a exposição Girly, eu quis justamente chamar essas meninas que, assim como eu, nunca fizeram uma exposição de pinturas antes. E não podemos sempre esperar que os outros façam pela a gente o que temos vontade. Por isso, nós, mulheres artistas de Teresina, temos que nos organizar, nos incentivar, nos apoiar, e principalmente não ter medo.

Arte de Alana Santos


Fabrinne: É triste vermos que o machismo está presente nessa busca de espaços, mas a resistência feminina é linda. Alguns suportes artísticos dominados por mulheres ainda causam o espanto ao público. Na exposição, recebemos elogios em uma das obras e o espectador disse "esse cara se garante!". E isso pode ser um dos problemas a ser enfrentado. A artista estava lá presente e mesmo que o espectador em questão não tivesse má intenção, ainda mostra o inconsciente enraizado do público: só homem desenha exposição.

Arte de Fabrinne Rocha


DL: Depois da exposição GIRLY na Tomato, quais os planos para o futuro?

Alana: Continuar produzindo e planejando novas intervenções artísticas e exposições, separadamente e coletivamente. O importante é continuar avançando, mesmo com todas as intempéries da vida.

Fabrinne: Não sei (risos).

DL: Conversando com algumas pessoas que estavam na exposição, elas não só ficaram bastante interessadas nas obras, como também demonstraram interesse em expor e saber como funciona. O que você pode dizer então pra quem tá interessado em expor na Tomato? Como é que funciona?

Alana: Eu entrei em contato com a Tamara, que promove os eventos culturais da Tomato, fiz a proposta da exposição já com os objetivos, participantes, obras, de maneira bem organizada. Ela foi bem solícita e nos ajudou bastante com a ideia de expor arte de mulheres daqui.

Depois de conversa com as artistas e o público, notamos que muitas que estava presentes no local não sabiam da exposição GIRLY, mas ao pararem para observar as obras das oito meninas, acabaram apreciando também, o que nos prova mais uma vez o quanto conhecer, apoiar e divulgar o trabalho de artistas mulheres é mais que necessário para que tais situações finalmente sejam revertidas. #SupportYourLocalFemaleArtist




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Texto: Sara Larissa
Fotos: Valmira Sabino e Alana Santos

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