terça-feira, 19 de dezembro de 2017

AHS Cult: a exploração do real e os problemas de continuidade na trama



Conforme prometido no começo de outubro, retomo a minha análise de American Horror Story Cult para discutir o desfecho da trama desde o episódio 05, Holes, até o final, Great Again. Os quatro primeiros episódios deram voltas com o mesmo ciclo de acontecimentos no enredo (Os palhaços aparecem, Ally se assusta e Ivy acalma a esposa), tornando cansativo assistir. Eu falei, também, que desejava ser surpreendido pela temporada, porque neste ano a proposta era ousada. O suspense e o terror vinham da realidade, fatos que estão pulsando na atualidade.

Os episódios da sequência apostaram na contextualização histórica de líderes que manipularam pessoas em torno de um ideal. Figuras como Charles Manson, Andy Warhol, Valerie Solanas e Jim Jones são apresentados com o intuito de destrinchar a personalidade de Kai Anderson, além de criar um vínculo que ultrapasse aspectos temporais e espaciais unidos os diferentes cultos.

Apresentação dos episódios e desfecho da temporada

Logo no episódio 05, Holes (Buracos), finalmente confirmamos a tese que por trás das máscaras de palhaços estão Meadow, Harrisson, Detetive Samuels, Winter, Beverly e o seu cinegrafista RJ (o coitado é morto no episódio como eliminação do elo fraco do grupo) e por incrível que apareça a atenciosa esposa de Ally, Ivy Mayfair-Richards. É neste episódio que é revelado o segredo da família de Kai: a mãe assassinou o pai e, em seguida, cometeu suicídio. O mais bizarro é que os corpos foram mantidos e conservados na casa, ideia do nosso psiquiatra Vincent Anderson que não queria prejudicar a recém carreira de médico e continuar recebendo os benefícios financeiros dos pais.

Tem-se então um trauma na vida de Kai que contribuiu com a sua personalidade desequilibrada e caráter controlador. Ao longo da trama há uma piora mental, demonstrando sinais demência. Além disso, outra circunstância que teve impacto na vida do personagem de Evan Peters, foi a visita a uma casa macabra. Em contato com um site hospedado na deep web, Winter e Kai recebem um convite para conhecer uma casa mantida por um líder religioso que mantem pessoas torturadas (Seria aqui também um culto? Sim, na casa tem dependentes químicos e outros considerados párias da sociedade).

 Continuando os comentários do enredo, o episódio 06, Mid-Western Assassin (O Assassino do Centro-Oeste), expõe os acontecimentos que alavancaram a carreira política de Kai. Meadow é instruída a promover um tiroteio e tentar matar Kai durante um comício político. No entanto, após os disparos, Meadow tira a própria vida. Ally que estava no mesmo ambiente ainda tenta conter a situação, mas permanece com a arma na mão, sendo encarcerada por um suposto envolvimento.

Novamente reitero aqui como a Meadow Wilton é uma das minhas personagens preferidas. Carregada de superficialidade, ela teve suas fraquezas facilmente acessadas por Kai. Basta aqui pensar em como ela idealizava ter um parceiro, fato que não se concretizou com Harrisson. Kai então passara a ser o alicerce que Meadow anseava, o líder para lhe guiar no marasmo de problemas emocionais.

É possível perceber uma ligação entre Meadow e Susan Atkins, seguidora fervorosa de Charles Manson, que atuou na série de assassinatos na Califórnia, como por exemplo o caso de Cielo Drive que culminou com a morte da jovem atriz Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polaski.

O episódio 07, Valerie Solanas Died for Your Sins: Scumbag (Valerie Solanas Morreu Pelos Seus Pecados: Imbecil), apresenta um outro rico recorte histórico com a tentativa de assassinato de Andy Warhol por Valerie Solanas. Anteriormente, coloquei o nome do artista como liderança, uma vez que, Warhol é um nome de referência na cultura pop e por isso, continua a influenciar gerações com os seus trabalhos. Neste episódio, é representado o atentado cometido por Valerie Solanas. Depois do ocorrido, o manifesto da feminista ganha visibilidade e, portanto, adeptos que passam a frequentar o apartamento de Solanas em Nova York.

Destaque neste episódio para o aparecimento de Bebe Babbitt, encarnada pela maravilhosa Frances Conroy (A participação da atriz deveria ter sido melhor aproveitada). A personagem foi amante de Valerie no passado e apareceu aqui após um “repentino” encontro com Beverly. A jornalista, assim como as outras mulheres do culto de Kai estão insatisfeitas com a relegação do seu líder. Nesse sentido, Bebe reúne todas elas em torno do sentimento comum, a raiva. O encontro termina com o assassinato de Harrisson no restaurante de Ivy.

O fator surpreende do episódio fica para o final, Bebe Babbitt está ao lado de Kai, os acontecimentos foram premeditados pelo líder.

Chegando no episódio 08, há a volta da Ally, após o período de reclusão que envolveu a suspeita de colaborar com a Meadow na chacina do comício. O horror deste episódio fica com o seguinte acontecimento: Kai propõe a Winter que ela fique grávida do "Messias" por Samuels. Vale ressaltar aqui, que ele está cada vez mais pirado, já se enxergando como um enviado divino.

Uma contextualização válida de frisar aqui é em relação ao Detetive Samuels. Assim como Meadow, Kai se aproximou sentimentalmente do personagem, para que depois ele apático fizesse todos os seus desejos, ou seja, uma marionete dependente e com baixa autoestima. Kai é a válvula de escape para a homossexualidade contida de Samuels.

Ally durante o seu jantar "romântico" com Ivy

Para mim, uma das grandes reviravoltas acontece no episódio 09, Drink the Kool-Aid (Beba o Suco). Ally Mayfair-Richards inicia sua vingança a “sangue frio”. Contrariando a doce e frágil personagem do começo desta temporada, ela ganha força e sede de justiça. Ally envenena Ivy, após preparar um suposto jantar de reconciliação para a esposa. Detalhe que não foi antes dito, Ivy entrou anteriormente para o culto, porque não suportava mais Ally. Além de ter um caso com Winter, ela queria deixar a esposa louca para ficar com a guarda da criança.

Como parte da estratégia de Ally, a personagem forja documentos da paternidade de Oz, apresentando a Kai provas de que seu esperma inseminou-a quando ela engravidou. O plano era uma forma dela continuar conquistando a confiança do líder e proteger a criança.

Neste episódio, um dos destaques ficou por conta do relato sobre Jim Jones e a sua igreja Templo do Povo nos Estados Unidos. O líder ficou conhecido por incitar o suicídio de mais de 900 pessoas em Jonestown, nome informal para o projeto agrícola do Templo do Povo, no noroeste da Guiana.

Conectando-se com o episódio 09, a narrativa do episódio 10, Charles (Manson) in Charge (Charles (Manson) é o Acusado) inicia tratando dos acontecimentos em Cielo Drive com a morte de Sharon Tale pelos membros da seita “A Família Manson”. Depois do relato, Kai começa a suspeitar que um espião se infiltrou no culto e desliza em um estado de paranóia maníaca. Este estado aflige-o com visões de Charles Manson. Enquanto isso, Bebe Babbitt está indignada com o fracasso de Kai em executar seu plano: desencadear a raiva feminina com uma plataforma política inflamatória. Ally atira em Bebe na cabeça depois desta puxar uma arma para Kai. Mais tarde, Kai estrangula Winter até a morte depois que Ally a acusa como uma espiã. Ao final Ally descobre o verdadeiro espião, um dos seguidores, Speedwagon.

Encerrando a temporada, o episódio 11, Great Again (Gradioso Novamente): Uma equipe SWAT invade o porão de Kai na noite em que o culto pretende massacrar cem mulheres grávidas. Meses depois, Ally divulga a Beverly que o FBI a recrutou como informante. Beverly torna-se um conselheiro-chave da campanha de Ally para o Senado de Michigan. Kai escapa de uma prisão de segurança máxima e infiltra em um debate político televisionado entre Ally e seu oponente. Kai aponta uma arma para a cabeça de Ally. Ele puxa o gatilho apenas para descobrir que a arma não está carregada. Beverly dispara em seu crânio. Ally obtém a grande maioria do voto feminino e ganha um assento no Senado. A temporada conclui como Ally colocando Oz na cama, e pondo uma capa esmeralda da SCUM e segue para participar de uma reunião com um grupo de "mulheres fortes que desejam mudar o sistema”.

Concepção final da temporada

A oscilação e baixa audiência desta temporada desde o primeiro episódio revela que a proposta não foi bem assimilada pelo grande público. Pelo menos ao meu ver, trazer acontecimentos políticos e a realidade latente para o telespectador não foi bem aceita, considerando o típico lugar de fala da série.

Costumados com o sobrenatural, esta temporada mostrou que os monstros não usam mágica ou soltam fogos, mas estão ao nosso lado ou somos nós mesmos.     

Expor recortes históricos sobre as seitas de Charles Manson e Jim Jones foram pontos altíssimos da série. Partindo de uma mesma perspectiva, os líderes se aproveitavam das fraquezas humanas para formar um exército de pessoas “não-pensantes” e dispostas a fazer tudo pelo mentor maior. Por isso, a minha preocupação com seguidores do deputado Jair Bolsonaro, em constate ascensão no nosso país.

Outro ponto alto da série, foi o caso de Andy Warhol e Valerie Solanas. O culto promovido por Solanas, por exemplo, expõe o outro lado da moeda. O manifesto da feminista propõe a criação de uma sociedade dirigida pelas mulheres, livre do controle masculino, na qual homens seriam aniquilados e extintos para que as mulheres possam viver em harmonia e igualdade. Não preciso ressaltar, que a intolerância predomina aqui!

Em contrapartida, AHS Cult pecou em termos de continuidade. Os traumas sofridos por Kai e o seu histórico anterior não condizem com o seu comportamento. Em certos momentos, ele aparente ser um menino mimado, querendo que todos se voltem aos seus desejos. Faltou compor um personagem mais maduro e, talvez, até com uma relação mais firme com os líderes dos cultos expostos.

Além disso o desfecho no último episódio deixou a desejar. Após a prisão de Kai, com pouco tempo ele conseguiu recrutar pessoas e até ter um caso com uma agente penitenciária. Toda essa movimentação, contribuiu com a fuga, e posteriormente o disparo de Beverly em Kai. Foi tudo tão rápido e fácil! Me colocando como telespectador, eu queria ver ele sofrendo. E qual o segredo para ele conquistas as pessoas como uma instantaneidade? Esse plot twist ficou irreal, mesmo se tratando de ficção é preciso construir um acontecimento crível!

Ressalto novamente que a volta da Ally foi triunfal, assim como a vingança que prefiro chamar de justiça. Ally sofreu a temporada inteira e era o elo fraco, atormentada pelos palhaços de Kai e detestada silenciosamente pela esposa cínica, Ivy. O seu retorno foi digno de novela latina. Bela Aldama (Marimar), Emperatriz Jurado (Emperatriz) e, recentemente, Clara (O Outro Lado do Paraíso) aplaudem a atitude de Ally! Chega de sofrimento!
Evan Peters à esquerda caracterizado de Andy Warhol. A direita se tem o verdadeiro Andy Warhol
Por fim também ressalto que simplesmente amei em ver os atores retratando os membros das seitas representadas pela série. Evan Peters possui uma grande versatilidade ao aparecer como Andy Warhol, Jim Jones e Charles Manson. Ficou incrível!

American Horror Story Cult me surpreendeu com o seu potencial, mas fica a dica em melhorar e amarrar o texto para as próximas temporadas. Aliás, qual será o tema do próximo ano?

*Imagens: Divulgação

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