terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Torquato Neto – Nem Todas as Horas Antes do Fim

Figura quase onipresente no imaginário cultural piauiense Torquato Neto, que hoje é nome de rua, de campus universitário, de coletivo, de premiação literária e musical, entre tantas outras coisas, é, no fim das contas, um personagem pouco conhecido por aqueles que convivem cotidianamente com o seu nome. Bem intencionadas ou propositalmente aproveitadoras, as homenagens que o poeta recebe são em geral vazias de qualquer gesto de aproximação com o corpus fragmentado de suas obras e por isso perdem as nuances da sua singular importância para a cultura brasileira.


Embora seu nome esteja constantemente sendo mencionado pelos órgãos públicos de cultura e receba filiações esdrúxulas de figuras que galgam os primeiros passos nos caminhos das letras, Torquato acabou se tornando um personagem engessado no imaginário piauiense. Pior, a versão piauiense sobre quem é Torquato Neto o transformou num coadjuvante de sua própria vida. Pergunte para qualquer piauiense com formação superior quem foi Torquato Neto, grosso modo as respostas vão ser duas: 1 – Não sei quem é (essas pessoas não são poucas); e 2 – Era um amigo do Caetano e do Gil que os ajudava a fazer música na época da ditadura e que se matou.

Torquato é visto no Piauí como esse personagem que se aproximou dos dois grandes sóis da Música Popular Brasileira e cujas asas de cera após algum tempo derreteram, tais quais a do mitológico Ícaro, resultando numa queda trágica. Ou, para recuperar parte do maravilhoso título do livro de André Bueno sobre o poeta: um personagem que se consumiu como um Pássaro de Fogo no Terceiro Mundo.

Vulto complexo, que estava conscientemente fugindo de demarcações totalizantes, Torquato Neto é vários personagens habitando o corpo de um mesmo ator. Não é muito diferente de mim ou você, que durante a vida mudamos e iremos continuar mudando assim que necessário. Por isso ele teve vários momentos, e para mim as melhores lições que Torquato pode nos oferecer hoje, seja para os aspirantes das grandes (e os das minúsculas também) artes ou para a nossa vida cotidiana, estão na sua pouco explorada fase pós-tropicália.

O documentário Torquato Neto – Todas as Horas do Fim, dos cariocas Eduardo Ades e Marcus Fernando, é uma importante produção que torna acessível para o grande público algumas informações que há décadas estão disponíveis apenas no meio acadêmico. É inegável o esforço e amor colocados na montagem final do filme, na escolha das músicas que compõem a trilha sonora e na seleção dos trechos de cartas pessoais, poemas, letras de músicas e fragmentos escritos por Torquato. Em alguns momentos cheguei a me arrepiar com declamações realizadas pelo ator Jesuíta Barbosa.

Porém a parte que me decepcionou no filme é que ele não vai muito além da perspectiva provinciana, já descrita aqui, sobre o poeta e nem traz nada de novo, seja para a construção do seu mito poético ou da sua persona cotidiana. A maior parte da obra se dedica a explicitar sua trajetória até o seu estabelecimento como tropicalista. Durante a sua trajetória marginal o pinta como louco, extremista vanguardista e suicida, sendo que esta fase final de sua vida é o seu período mais combativo e didático (apesar do hermetismo vanguardista sua coluna Geléia Geral é quase um manual de resistência cultural).


Não que essas coisas não estejam conectadas, entretanto durante o filme elas se sucedem rapidamente sem uma contextualização adequada. Um exemplo que posso citar é a quase ausência de Hélio Oiticica, uma das pessoas fundamentais para entendermos a transição de Torquato de “tropicalista” para “marginal”. HO aparece apenas através de vídeos de seus parangolés em momentos totalmente desconexos ou durante um ou dois minutos quando se fala do seu convite para que Torquato Neto fosse a Londres participar do projeto Exploding Galaxy.

Essa quase ausência de HO (Capinam então nem se fala) é sintomática do que tenho tentado dizer durante todo este texto. Enquanto HO quase não aparece Caetano, Gil e Tom Zé tem uma gama de depoimentos, músicas e imagens entrecortando o documentário. Não se trata aqui de dizer que o Torquato verdadeiro foi o “pós-tropicália” e sim de entendermos que há, quer queira quer não, no documentário uma preferência por sua relação com os grandes nomes da música popular brasileira e por isso por sua fase tropicalista. Alguns podem argumentar razoavelmente que essas ausências são decorrentes do fato de tais personagens não estarem mais vivos, porém existem cartas, vídeos, áudios, entre tantos outros registros dos mesmos, que se não citam diretamente Torquato, dialogam com suas ideias.

A meu ver Torquato Neto – Todas as Horas do Fim é uma obra importantíssima para tornar acessível ao público brasileiro quem foi Torquato. Mais do que apenas isso: Eduardo Ades e Marcus Fernando conseguem apresentar fragmentos de obras do poeta que para a maioria das pessoas eram inacessíveis. No entanto o documentário peca na ausência de aprofundamento dos momentos da sua vida que antecedem e sucedem sua fase tropicalista. Espero que Torquato Neto – Todas as Horas do Fim ganhe cada vez mais prêmios Brasil afora, porém também espero que algum dia se tenha coragem de fazer um documentário no qual as várias partes de Torquato Neto sejam expostas igualmente.

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